Amor em alto mar
Heinz G. Konsalik
Traduo de REINALDO GUARANY

1

O cego foi o primeiro a saltar do autocarro. A princpio
viu-se somente sua bengala branca, a porta automtica 
abriu-se devagar e ruidosamente, em seguida o basto apalpou 
atravs da abertura, depois apareceu uma cabea oblonga, com 
cabelos castanhos curtos e culos de lentes grossas e de cor 
escura, que virou-se  esquerda e  direita, como que 
espreitando, para ento desaparecer mais uma vez no interior 
do autocarro, antes que o sujeito sasse de vez do veculo.
Os outros passageiros esperaram pacientes no autocarro todo 
equipado com condicionadores de ar e que cheirava a limpeza, 
at que o cego saltasse conduzido por uma moa, tacteando com 
cuidado o desconhecido  sua frente. As pessoas 
acostumaram-se e conversaram o bastante sobre ele no longo 
voo de Frankfurt a So Francisco, com escala em Miami. Mesmo 
voando na primeira classe, na certa para no importunar 
ningum, ele foi, nesse meio tempo, um deles. E iria conviver 
com eles durante semanas em um navio de duzentos metros de 
comprimento e vinte e oito de largura, com onze conveses e 
cerca de seiscentos passageiros. Um hotel de luxo flutuante 
atravessando o Pacfico de um lado para o outro.
- O que a gente se pergunta mesmo - um passageiro sussurrou 
para sua mulher durante o voo -  o que um homem assim 
aproveita dessa viagem. Gasta uma fortuna... e no v coisa 
alguma.
 - A acompanhante, claro que uma enfermeira, explicar tudo 
para ele.
 A mulher bocejou. J faziam seis horas que estavam no ar, 
haviam bebido champanhe, comido presunto de Praga com 
couve-de-bruxelas, degustado como sobremesa um delicioso 
creme e, a seguir, um caf moca com conhaque ou licor e, 
nesse momento, estavam na fase da modorra aps a comida.
 - Alm disso - opinou a mulher - isso no nos diz respeito.
 -  bem verdade que ele poder ouvir e cheirar tudo... mas 
gastar muitos milhares com isso?
- Ernest, feche os olhos e durma um pouco.
- Sim, e ele tem o sol, o calor, o ar fresco do mar... Mesmo 
assim no seria o meu caso. Que tipo de profisso pode ter um 
sujeito assim?
- V at l e pergunte a ele! - A mulher reclinara bem para 
trs o recosto do assento e preparava-se para tirar um 
cochilo. - Em todo o caso ele tem bastante dinheiro.
Aps a decolagem em Frankfurt, outros passageiros tambm 
falaram sobre o cego na parte da frente do Jumbo, at 
acostumarem-se com sua presena entre eles. Agora, em So 
Francisco, as pessoas apresentavam-se amveis esperando que 
ele saltasse do autocarro. Mas depois acabou-se a amabilidade 
no amplo e alto saguo do per 7. Os novos passageiros do NM 
Atlantis apressaram-se como se fossem tomar de assalto uma 
montanha, passando pelo cego com as bagagens de mo, estojos 
fotogrficos e sacolas, a fim de, passando pela escada, 
ocupar o navio branco, orgulhosamente embandeirado.

Um pequeno batalho de comissrios esperava por eles no per do 
convs. O comissrio-chefe - ali chamado de director de hotel - 
viu rostos conhecidos e cumprimentou uns e outros; trs oficiais 
de uniforme branco formavam um impressionante Comit de recepo; 
o comissrio-chefe apertou mos, at que a onda humana tambm 
passasse por ele.
Os passageiros dividiram-se velozmente em todas as direcSes, nas 
partes de cima e debaixo do navio. Aqueles que j conheciam o NM 
Atlantis, os repetidores, os fiis passageiros de vrias viagens, 
apressaram-se em direco aos seus lugares. Em contrapartida, os 
novos mostraram suas passagens, sendo cada um acompanhado por um 
comissrio at a cabine que iria ser seu lar durante trs, quatro 
ou cinco semanas.
O segundo autocarro parou diante do saguo do per 7. Nesse dia 
subiriam a bordo at So Francisco trezentos e quarenta novos 
passageiros, cheios de expectativa para conhecer a vastido 
infinita dos mares do sul.
O NM Atlantis tomaria uma rota at aqui no seguida por nenhum 
navio de cruzeiro, com ilhas cujos nomes seriam ouvidos pela 
primeira vez, a no ser que a pessoa fosse um gegrafo. Trezentas 
pessoas da Europa; sem contar os americanos que viajavam 
sozinhos. A relao de passageiros impressa na grfica de bordo 
continha muitos nomes conhecidos e o comandante Teyendorf 
suspirara algumas vezes durante a leitura.
 - Meu Deus, ela est de novo a bordo? - gritara ele apontando 
para um nome. - No se podia impedir isso, Sr. Riemke?
 Gehard Riemke, o "director de hotel", encolheu os ombros.
- Ela paga, portanto no podemos impedir, comandante. Que motivo 
daramos para recusar-lhe a viagem?
 - Muito simples, est tudo ocupado! Tudo reservado!
- Ela sabe muito bem que no  este o caso. Sempre reservou a 
sute 004, a Goethe, com um ano de antecedncia! Ento, no 
podemos fazer nada. 
- Podia-se argumentar: a senhora pSe em perigo a moral do navio.
- Senhor comandante! - Riemke torceu a boca com um ar sarcstico. 
- Se partssemos desse ponto de vista, ento deveramos 
desembarcar vinte por cento dos passageiros durante a viagem... 
no mnimo! Alm do que, agora essa dama est com setenta e seis 
anos!
- Vamos aguardar! - Teyendorf colocou a lista de passageiros em 
cima da escrivaninha e foi para a extremidade da ponte a 
estibordo. Dali ele podia abranger com a vista todo o lado do 
navio e vislumbrar o passadio. Outros passageiros apressavam-se 
sob as gigantescas janelas do saguo do per 7, investindo em 
direco ao barco.
O cego do autocarro caminhou devagar, tacteando com a bengala 
branca o caminho  sua frente, embora a moa estivesse de brao 
dado com ele; parou diante de uma loja de flores e levantou o 
nariz farejando.
 - Est bem assim? - perguntou o cego em voz baixa.
Uma pergunta completamente incompreensvel.

 - Muito bem, Sr. Dabrowski - respondeu a moa tambm em voz 
baixa.
 - Ento, adiante! 
Chegaram  escada e subiram os degraus tacteando. Na entrada do 
navio, vrias mos esticaram-se solcitas em direco a eles.
- Obrigado - disse Dabrowski. - Obrigado. Cabina 136 para mim e 
313 para a enfermeira Beate. No creiam que eu seja uma pessoa 
completamente desamparada. Em trs dias estarei conhecendo o 
barco tanto quanto os senhores. Aqui, ns estamos numa espcie de 
saguo. Posso ouvi-lo pelo som, pelo eco. Por favor, levem-nos s 
nossas cabines...
To logo Dabrowski ficou sozinho em sua cabine, ele tirou o 
casaco, atirou-o em cima da cama e pegou a mala de couro. O 
comissrio encontrava-se com a enfermeira Beate a caminho do 
convs Atlantis, onde situava-se a 313. 
- O Sr. Dabrowski  totalmente cego? - perguntou.
- Totalmente.
- Ento a senhora precisa explicar para ele tudo que v?
- Alis  por isso que posso viajar junto. - As faces de Beate 
brilharam um pouco febris. - Minha primeira grande viagem 
martima. J estive duas vezes em Helgoland, mas a aproveitei 
pouco. Deus, como fiquei enjoada! Vi tudo como que atravs de uma 
nvoa.
- Eu tambm.
- O senhor? Um marinheiro? Fica enjoado?
 - Em Helgoland, sempre! Conheo muita gente que viaja por todos 
os mares... mas quando partem de Cuxhaven para Helgoland, ficam 
de rosto verde. A senhorita ver que tudo  diferente aqui no 
Pacfico. Nesta estao do ano o oceano Pacfico  realmente 
tranquilo. Com algumas excepSes,  claro. Elas sempre existem.
 - E somos justamente ns que viveremos essas excepSes, no  
mesmo?
 - Olha, pode ser que haja algum balano na viagem de Acapulco 
at o Panam, mas nos daremos bem! A propsito, eu me chamo 
Nobert.
 - O senhor  o comissrio da minha cabine?
 - No. Em geral fico no bar Atlantis. Todos ns ajudamos somente 
no embarque. No sei quem  o encarregado de seu corredor.
Pararam diante do nmero 313, a porta estava aberta, no interior 
da cabine as luzes ardiam. O ar-condicionado zumbia de modo quase 
imperceptvel. Soava uma msica baixa no rdio montado na 
mesinha-de-cabeceira.
- A bagagem estar a bordo em cerca de uma hora - disse o 
comissrio Nobert. - Em seguida, ns as entregamos nas cabines - 
Desejo-lhe que se divirta a bordo... se  que cuidar de um cego 
pode ser chamado de diverso. 
- Para mim . - Ela sentou-se na cadeira atrs da mesa e esticou 
os braos. - O Sr. Dabrowski  um paciente agradvel. Ele faz 
muitas coisas sozinho. Terei muito tempo livre.
 - Fico contente em ouvi-lo. - Ele fez uma pequena vnia e sorriu 
radiante. Uma moa nada m, pensou ele, um especialista. Um 
comissrio que j participava de viagens de luxo havia cinco 
anos, tinha l sua experincia. No tremendamente linda, mas e 
da? A maioria das mulheres bonitas  presunosa, mas a mdia  
grata por qualquer coisa.

Quando se pode optar entre uma mulher de classe, atrs da qual os 
homens correm como ces de caa, e uma moa de beleza mediana que 
muitas vezes no  notada... ento escolhe-se a mediana. Mais 
tarde voc sentir a alegria dela nas marcas das costas.
- At mais tarde - disse Beate respondendo com um sorriso 
contido.
- O bar Atlantis! Atrs do solrio.
- Encontrarei.
Nobert fechou a porta e voltou apressado ao convs Pacfico, a 
fim de levar outros passageiros s suas cabines. Um caso de sorte 
essa pequena, pensou ele cheio de alegria antecipada enquanto 
levava a mala de uma velha senhora para a cabina do convs 
superior. Haver poucas jovens a bordo. Essa vai ser outra vez 
uma viagem na qual a mdia de idade dos passageiros situa-se 
entre os sessenta e setenta anos... afinal de contas, quem pode 
bancar tal luxo? Haver algumas filhas muito bem vigiadas, mas 
elas no so para ns, os comissrios. Outros j esto prontos 
para elas. Os jovens oficiais, os engenheiros de bordo. Os gatos 
de servio. Um comissrio de bar est em m situao,  noite ele 
fica entre suas garrafas.
Beate esperara at que Nobert fechasse a porta, depois pegou o 
telefone e discou o nmero da cabina 136. Dabrowski atendeu.
- Tudo em ordem? - perguntou ela.
- Tudo. Nesse momento estou bebendo um bom usque. Meu comissrio 
de cabina chama-se Volker.  evidente que sou seu primeiro cego. 
Ele me perguntou se vai precisar vestir-me pelas manhs. - 
Dabrowski deu uma risada seca. - Eu respondi que no, para isso 
estou acompanhado de uma simptica moa! Ele deve encarar-me como 
um milionrio totalmente pirado. Ser ptimo que isso se espalhe 
a bordo. Como foi a coisa para seu lado, Beate?
- J fisguei o comissrio do bar Atlantis.
- Genial! A propsito, ns nos sentamos  mesa C 8, bem defronte 
 mesa do comandante. Um lugar muito bom. Podem-se ver muitas 
coisas dali.
Parece gozado que um cego diga uma coisa dessas, mas Dabrowski 
divertia-se com isso. No fundo, ele era uma pessoa de humor.
Quando o comissrio Volker levou a garrafa de usque e o copo com 
gelo, Dabrowski disse bem despreocupado:
- Excelente. Um Chiavas de quinze anos! - e, ao supor que Volker 
encarava-o espantado, acrescentou: - Sinto o cheiro, meu caro. Se 
voc fosse cego, tambm vivenciaria o mundo atravs do nariz e 
dos ouvidos, sobretudo dos ouvidos! A audio  o decisivo. 
Assim, por exemplo, voc est usando sapatos novos, Volker. Posso 
ouvir, as solas novas ainda rangem ao andar. Ainda no so 
suficientemente flexveis.
Volker saiu da cabina desconcertado. Depois, na despensa do 
convs, disse para seus colegas:
 - Mas que sujeito eu tenho na 136! Cego, mas ouve as pulgas 
tossirem. Reconhece o usque pelo cheiro.
 - Idiotice. Isso no existe. - O comissrio do corredor de 
estibordo, chamado de "Franz, a hlice" por causa do bigode longo 
e saliente, fez um sinal de negao como se fosse para uma piada 
de mau gosto.
- Da prxima vez apresente um usque alemo para ele, a voc vai 
ver que s foi um acaso..

 - O que voc est fazendo, Beate? - perguntou Dabrowski ao 
telefone. Ele estava sentado junto  enorme janela dividida em 
dois e, posto que a cabina situava-se a bombordo, podia-se ver o 
per 8 e o resto do porto... desde que se pudesse enxergar. 
Dabrowski chegara a retirar os culos escuros e olhava pela 
janela como se seus olhos estivessem plenamente em ordem.
 - Estou esperando a bagagem - respondeu Beate.
 - Isso ainda pode levar algum tempo. Vamos passear no 
tombadilho?
 - Se voc quiser.
 - aptimo. Vou indo em sua direco no foyer. At daqui a pouco, 
Beate. - Ele desligou, pegou um gravador e falou lenta e 
sublinhadamente:
- A bordo. Nenhum acontecimento especial. Horrio: 16:22 h.
Continuou sendo segredo seu como ele foi capaz de dizer uma hora 
to precisa assim. Cinco minutos depois, desceu o corredor de 
cabinas tacteando com a bengala branca em direco  tolda, 
passando pelo salo de cabeleireiro e pela loja envidraada de um 
joalheiro internacional. Aqui ele parou um instante, bateu no 
vidro como que compondo na cabea um mapa de orientao e depois 
seguiu adiante com passos midos e cautelosos. Os passageiros que 
vinham em sua direco abriam caminho pressionando-se contra a 
outra parede do corredor.
 - Bom dia - disse Dabrowski algumas vezes com a maior das 
amabilidades. - Bom dia. Muito obrigado!
 Os passageiros seguiam-no com a vista, em parte espantados, em 
parte compadecidos. Sim senhor, que audio tm os cegos! E que 
faro! Como o de um animal selvagem. Eles parecem farejar o mundo 
exterior. Mas mesmo assim, fazer uma viagem dessas... no fundo  
uma idiotice. Mesmo que se lhe explique e descreva tudo, como 
poder ele compreender a aparncia da ilha de Pscoa ou de Bora 
Bora, as ilhas mais lindas do mundo.
Ou o delta do rio Guayas que se adentra para ir a Guaiaquil, 
cercado de manquejais flutuantes. Pode-se explicar tudo, mas 
jamais se substituir a experincia da viso.
 Os passageiros respondiam ao cumprimento. Um homem com sede de 
viver. Todo cautela. Mais tarde devamos tomar umas e outras por 
ainda sermos to razoavelmente saudveis...
 Beate foi em sua direco no foyer, deu-lhe o brao e juntos 
subiram a escada para o tombadilho. Quando ela abriu a porta de 
vidro, recebeu o ar quente qual nuvem densa. O gigantesco barco 
tinha um agradvel ar-condicionado. Mais tarde isso se 
modificaria nos mares do Sul - os repetidores da viagem sabiam - 
quando nem mesmo o melhor ar-condicionado conseguia refrescar o 
navio e os chineses da lavanderia l embaixo tinham dificuldade 
para impedir que as coisas de l se enredassem por falta de gua 
fria. Ento, os gigantescos agregados de esfriamento no 
conseguiam. Alm disso, no se podia responsabilizar mais o 
consumo de energia.
Mas isso ainda estava bem longe. Ali era apenas So Francisco, o 
incio da viagem... o quarto autocarro trouxe do aeroporto outros 
passageiros que subiam a bordo de assalto.
 Dabrowski recostou-se na balaustrada e deixou que Beate contasse 
o que via. Nesse momento, entrou marchando no terrao do prdio 
uma orquestra, todos de uniforme vermelho e branco e capacetes 
adornados com penas. As cmaras de televiso foram postas em 
posio, para filmar a partida do NM Atlantis.
O comandante Horst Teyendorf saiu da ponte de comando na 
companhia do primeiro-oficial e, da extremidade da proa, olhou 
para a escada.

As roldanas das amarras foram averiguadas na parte anterior e 
posterior da tolda, o oficial de segurana informou por rdio  
ponte estar tudo pronto para a partida. No terrao do terreno do 
per, a orquestra comeou a tocar uma marcha militar da marinha 
americana.
 - Pelo amor de Deus, l est ela! - gritou Teyendorf de repente. 
- Hollywood em seus melhores dias!
 Ela j era vista atravs dos grossos vidros do saguo do per: 
uma figura de estatura mediana, no to exuberante, mas cheia de 
curvas, com um vestido de seda de flores enormes - papoulas que 
se assemelhavam a manchas de catchup - sapatos de verniz branco e 
de salto alto, nos quais ela andava danando como se estivesse se 
movendo ao som de uma msica caprichosa. Alis, no se viu a 
cabea na mesma hora. Estava oculta por um gigantesco chapu 
branco revestido de renda, guarnecido com rosas vermelhas e 
lilases brancos de plstico. Enquanto caminhava com passinhos 
midos, balanava na mo direita uma sombrinha de renda branca; 
com a esquerda, acenava para todos os lados, como se a estivessem 
aplaudindo.
Nesse momento, quando ela levantou a cabea para olhar a lateral 
branca do navio, pode-se ver tambm seu rosto: como uma mscara, 
sem nenhuma ruguinha, coberto com muito ruge, lbios vermelhos 
fogo, um nariz estreito como que sem osso, olhos que pareciam de 
gato depois de incontveis liftings e sobrancelhas castanhas. 
Acima, saindo por baixo do chapu, um emaranhado de cachos negros 
que, de um modo engraado, enroscavam-se em cima das orelhas. Era 
seguida por um enorme empregado negro de libr branca empurrando 
um carrinho achatado cheio de bagagem.
Os funcionrios da aduana atrs da mesa diante da escada e os 
trs polcias de guarda arreganharam-lhe um sorriso. A mulher 
disse qualquer coisa para eles e uma risada alta retumbou pelo 
saguo.
-  assim que deve ser uma punio divina! - disse Teyendorf 
cheio de amargura na voz. - Isso supera tudo dela a que me 
acostumei at agora.
 - Gostaria de ter a aparncia dela quando for velho! - Willi 
Kempen, o primeiro-condutor, levou o binculo aos olhos e enfocou 
a velha senhora. Nesse momento, teve ampliados o rosto e a aba do 
chapu. Era a primeira vez que via Anne White. At ento, sempre 
estivera de frias quando ela encontrava-se a bordo. E tanto mais 
as pessoas contavam-lhe sobre ela, sobre aquela lendria viva 
conhecida em todos os navios de cruzeiro, fossem de bandeira 
americana, inglesa, norueguesa, russa, italiana, grega ou alem. 
Agora era a vez da alem de novo. - Enorme! - disse Willi Kempen.
Teyendorf olhou de soslaio para seu primeiro condutor.
- Eu no sabia que voc era perverso, Kempen - suspirou ele. - 
Mas em seu lugar, eu no faria nem por dez mil dlares...
 - Senhor comandante!
 - Voc fica logo horrorizado quando fao uma piada.
 - Porque em geral esse no  seu estilo, senhor comandante.
 - Certssimo. Mas quando vejo Anne White, fico fora de
mim! Esto todos a bordo?
- Vou averiguar.

De Riemke, o director de hotel, chegou a informao que ainda 
faltavam trs americanos, um italiano e um francs, que viajavam 
em particular, e um dos astros da viagem, o cantor de cmara 
Franco Rieti. Rieti chegara dois dias antes e ainda dera uma 
apresentao na pedra de So Francisco. Como Canio em Bajazzo. Os 
jornais escreveram que a plateia aplaudiu durante exactos 
dezassete segundos. Depois disso, Rieti comeou a tossir e andar 
de um lado para o outro com um cachecol de l enrolado
no pescoo. As cordas vocais so especialmente a coisa mais 
sensvel nos homens.
 - Partiremos na hora, Kempen - disse Teyendorf voltando para a 
casa do leme. - Todos tiveram tempo de sobra para chegar a bordo 
na hora.
 Ele tornou a olhar para o relgio, balanou a cabea em silncio 
e saiu da ponte. Kempen seguiu-o com a vista. O guarda, um 
segundo-oficial, desligou o aparelho de rdio pelo qual acabara 
de falar com o oficial de segurana da tolda dianteira; estava 
tudo pronto para a partida.
 - O velho tornou a roer unha hoje, no? - disse ele. - H pouco 
me deu uma bronca porque o quebre estava enviesado. Qual  o 
problema?
 - Anne White chegou a bordo.
- Para a tripulao  uma grande alegria! Eles vo estar de 
bolsos cheios no desembarque. E o velho vai ficar de cabea 
cheia. Na ltima vez houve duas brigas de faca no alojamento da 
tripulao, quase um assassinato. Claro que os passageiros no 
notaram coisa alguma e ningum conseguiu provar uma ligao com a 
Sra. White... mas todos aqui sabem qual foi o motivo: quinhentos 
dlares!
- Essa Anne White deve ser maluca.
- Como queira. - O segundo-oficial arreganhou um sorriso largo e 
tornou a aproximar-se da gigantesca janela panormica da ponte. - 
Em todo o caso, ela tem um contedo hormonal digno de causar 
inveja a qualquer mulher de trinta anos.
 Nesse momento, o director de hotel Riemke recebia a milionria 
americana no saguo do convs Pacfico. A mulher enroscou-se no 
pescoo dele, beijou-o e gritou com voz ressonante:
 - Ah, como me alegro por estar aqui de novo! No!, mas tantos 
comissrios novos e elegantes! E Rudi est de novo a bordo. 
Abrace-me, Rudi!
 Seu alemo quase no tinha sotaque, sua falta de recato era 
arrebatadora. Rudi Pfannenstiel, o comissrio-chefe, estava 
apartado, retrado, mas avanou obediente, abraou Anne White e 
deixou-se beijar. Seus comissrios sorriram encantados. Era raro 
ver-se Pfannenstiel, o ditador, perder a calma.
 Em segundo plano, ao lado de um dos oficiais, estava postado um 
homem baixo e quase delicado, de terno azul claro, observando a 
entrada da Sra. White com perplexidade evidente. Seu rosto 
asctico, emoldurado por cabelos castanhos com mechas grisalhas, 
pareceu agora de uma certa forma desconcertado.
 - Pronto para filmar - ele comentou a cena do beijo. - Quem  
essa a?
 - O senhor no conhece a Sra. White, padre? - o oficial olhou 
com desprezo o religioso catlico de bordo, que embarcara somente 
havia uma hora. O padre jesuta Heinrich Brause, destacado pela 
ordem para os cuidados espirituais do barco, um pastor de todos 
os mares, desapontou-o.

 - Isso  ela? - o padre Brause coou a aba do nariz. - J ouvi 
falar bastante dela. Mas nunca tive a alegria de viajar ao seu 
lado num barco.
- Alegria, padre? - o oficial ostentou um sorriso enviesado.
- Sim. Porei a Sra. White debaixo de minha asa.
- Isso demoraria pelo menos meio ano.
- Voc no conhece a obstinao da Igreja. - O padre Brause 
respondeu com um sorriso. Era conhecido pelos provrbios 
marcantes e sarcsticos. - Alm disso sou jesuta. At hoje quase 
ningum conseguiu livrar-se de um jesuta...
 Na sute Goethe, a de nmero 004, esperavam pela Sra. White um 
gigantesco buque de flores e uma cuba de gelo com champanhe. Seu 
comissrio de cabina, Josef Kraxler, um bvaro em quem o mar 
estava to metido na medula que, durante as frias na cidade 
natal, deitava-se no pasto, encarava as encostas das montanhas e 
ficava sonhando com o Hava e o Taiti, cumprimentou-a com um:
 - Ora, ora, c est de novo... - e suportou com galhardia o 
beijo de saudao da mulher.
 - Voc ficou mais gordo ainda! - disse Anne White contemplando-o 
com um olhar de desaprovao. - Sabe, no gosto de homens gordos. 
Roger White tambm era uma bola de gordura.
- Bem, sabe como , eu preciso proteger-me de alguma maneira - 
disse Kraxler  vontade. - Como ouvi dizer que a senhora vinha, 
comi como um leo.
 - Seu vigarista! - Anne White tirou da cabea o gigantesco 
chapu de renda, sacudiu a peruca de cachos, desabou sobre uma 
poltrona funda e esticou bem as pernas. Sute 004, um de seus 
muitos "lares".
- Abre a garrafa, Josef, estou ressecada. 

Os ltimos passageiros subiram a bordo, os americanos que 
faltavam, um italiano, proprietrio de uma vincola, chamado 
Artur Tatarani, o negociante de imveis Franois de Angeli e, por 
ltimo, o cantor de msica de cmara Franco Rieti, agasalhado, 
apesar do dia quente, como se estivesse partindo para uma viagem 
 Gronelndia.
 O director de hotel Riemke suspirou satisfeito e comunicou  
ponte:
 - Todos a bordo. Ningum a menos nem a mais. Podemos partir!
 Na verdade, isso era um grande erro. Na cabina interior 213 
encontravam-se dois passageiros, apesar de tratar-se de uma 
cabina individual: os gmeos univitelinos Herbert e Hans 
Fehringer. Eram um desses raros pares de gmeos que no se podem 
distinguir de maneira alguma. Mesmo entre os gmeos 
espantosamente semelhantes existem, em geral, minsculas 
diferenas com as quais eles podem ser separados - uma ndoa no 
ombro, uma modificao no corte de cabelo, alguma cicatriz em 
algum lugar, um sorriso diferente, uma dessemelhana no andar; 
isso sem falar nas diferenas masculinas, desde que se tenha o 
privilgio de v-los desnudos lado a lado... No caso de Herbert e 
Hans Fehringer no se podia constatar tal coisa. Os prprios 
mdicos se desesperavam, a coisa j havia sido testada uma vez 
com alegria maldosa; os irmos tinham a mesma presso sangunea e 
inclusive o mesmo pulso. Era-se obrigado a simplesmente 
acreditar, quando eles afirmavam, fosse falso ou correcto: "Eu 
sou Hans!" Mais tarde, at mesmo o pai fora levado a cometer 
engano e, tudo, jamais. 

 Os gmeos Fehringer no haviam sido abenoados, pelo contrrio. 
Eles negociavam em um carro com culos acidentados, 
consertavam-nos e depois ofereciam-nos como garantia.
 Isso dava para viver, mas no dava para financiar uma viagem de 
longa distncia dos dois.
 O truque nesses passeios pela vastido do mundo era sempre o 
mesmo: um pagava a passagem, o outro simplesmente acompanhava. 
Haviam desenvolvido um mtodo assombrosamente simples, que tambm 
funcionou da melhor maneira possvel no NM Atlantis: voaram at 
So Francisco num avio da ABC, ali esperaram pelo desembarque 
dos passageiros do navio que vinha de Frankfurt e, de txi, 
seguiram o segundo autocarro. 
Em seguida, Herbert Fehringer misturou-se  multido de 
passageiros, apresentou no saguo do convs Pacfico o bilhete 
correspondente para o trecho So Francisco-Sidney e foi 
acompanhado por um comissrio at a cabine 213.
Ali chegando, preencheu o documento de bordo amarelo que se 
encontrava em cima da mesa, tornou a sair do navio com ele e 
entregou o bilhete ao irmo Hans que estava esperando junto a um 
quiosque no hall do per. Este, por sua vez, entrou no NM 
Atlantis agitando a passagem. Coisa que no deu nas vistas no 
meio  massa humana que deambulava de um lado para o outro, uma 
vez que Hans disse:
 - J fui checado, s dei mais um pulinho em terra.
 E, quando mais tarde Herbert tornou a entrar no navio com seu 
documento de bordo, bastou uma olhada no carto amarelo.
 As dificuldades comearam somente aps a partida, durante a 
viagem, quando se tratava de levar uma vida dupla como vida 
nica. Mas mesmo nessa questo os gmeos Fehringer haviam 
desenvolvido uma habilidade francamente artstica.
 A cabina 213, em geral vendida como individual, apresentava a 
vantagem de, em caso de necessidade, poder acolher tambm duas 
pessoas. Uma chamada cama Pullman, cama adicional, dobrvel na 
parede e que depois ficava suspensa sobre a normal, permitia a 
recepo de um segundo passageiro. Claro que nesse momento ela 
no estava ocupada, permitindo que o segundo gmeo Fehringer se 
deitasse  noite de modo confortvel. O colcho estava afivelado 
 cama, a cama normal possua um travesseiro extra, uma coberta 
adicional fazia parte do equipamento padro e, alm disso, 
viajava-se por regiSes to quentes que, de qualquer modo, ningum 
se cobria  noite.
To logo os dois Fehringers encontraram-se em sua cabina, 
fecharam a porta e experimentaram a cama Pullman. Esta, com 
alguns puxSes, deixou-se soltar da parede sem maiores 
dificuldades. No houve mais discusso alguma para se saber quem 
dormiria em cima e quem embaixo. Por meio de uma alternncia 
equilibrada: trs dias Hans em cima, trs dias Herbert.
- Excelente! - disse Hans Fehringer sentando-se na cama e 
esfregando as mos. - Que mesa temos? - ele pegou o mapa das 
mesas que estavam  disposio e acenou satisfeito. - Segundo 
horrio de refeio, mesa B 6. O caminho dali at as cabinas  
curto. No podia ser melhor.

 Bateram na porta. O comissrio de cabina. Hans Fehringer 
desapareceu no acto dentro do armrio.
- A bagagem ainda vai demorar um pouco - disse o comissrio. - Eu 
sou Louis. Bem-vindo a bordo. Deseja alguma coisa, Sr. Fehringer?

- Ah, sim. Uma garrafa de vodca.
- O senhor s vai poder comprar depois da partida. Determinao 
da aduana.
- E, por favor, todos os dias uma garrafa trmica com suco de 
laranja gelado, uma cuba de gelo e um cesto com frutas frescas.
Entregou a Louis uma nota de cinquenta marcos, que a fez 
desaparecer como se fosse um pedao de papel para o lixo.
 Havia passageiros que logo se apresentavam a seu comissrio de 
cabina com trezentos marcos.
 Deve-se saber disso: a coisa mais importante em um navio  um 
comissrio de cabina benevolente. Aqueles que perdem as graas 
destes, no fim da viagem no passam de uma pilha de nervos. Nesse 
ponto, a surdez do comissrio  o menor dos sofrimentos.
- O que  ento que posso receber agora? - perguntou Herbert 
Fehringer. - Estou com a lngua colada no cu da boca.
 - Eu poderia trazer-lhe cerveja. Uma pilsenurquell.
 - Voc  um anjo! Quatro garrafas! Geladssimas!
Os gmeos Fehringer comearam a aclimatar-se. Estavam 
tremendamente confortveis no NM Atlantis. Aquela era a maior 
cabina na qual haviam viajado pelo mundo at ento. Um navio de 
luxo, de verdade!
 No hospital do NM Atlantis, no convs A, j se encontrava um dos 
novos passageiros esperando pelo mdico, arrastando a cadeira de 
um lado para o outro, impaciente. A enfermeira Erna telefonava 
para todos os lados esforando-se para encontrar o Dr. Mario 
Paterna, o mdico do navio, que deambulava por algum lugar. No 
final, ele havia sido visto no bar Olympia, depois do tombadilho 
onde acabara de conversar com o cego.
 Agora, no momento da mudana de passageiros, o hospital era o 
lugar mais tranquilo a bordo.
 -  to urgente assim? - a enfermeira Erna virou-se do telefone 
na direco do intranquilo passageiro.
 - Por acaso eu estaria aqui se no fosse? - de facto, sua voz 
soou um pouco desesperada.
 - Talvez eu possa ajudar-lhe, no? O senhor est com dores?
 - No.
 - Com nuseas?
 - Isso sim.
 A enfermeira Erna lanou um olhar quase assustado para o 
passageiro.
 O navio ainda encontrava-se no per e j havia um sujeito 
achando que estava doente? No podia ser. 
- PalpitaSes?
- Tambm.
- O senhor j teve antes esses problemas?
- No. Somente depois... - o passageiro fez um sinal negativo. - 
Gostaria de falar com o mdico. Agora! De que serve um hospital 
se no h nenhum mdico  disposio?!
 Finalmente, a enfermeira Erna encontrou o Dr. Paterna no convs 
de esportes, descreveu pelo telefone os padecimentos do paciente 
e depois informou de modo tranquilizador:
 - O Dr. Paterna j est vindo.
 - Ele  italiano? - perguntou o passageiro com tom azedo.
 - No.  de Dortmund. Talvez seu av seja da Itlia.

 - Uma vez eu estive hospitalizado na Itlia, l embaixo, na 
Calbria. Uma semana inteira. Voc j esteve hospitalizada alguma 
vez na Calbria, enfermeira? No? Esse tipo de coisa a gente no 
esquece jamais! Agora eu sei porque a maioria das peras 
dramticas foram compostas por italianos.
 O Dr. Mario Paterna era um homem alto e magro, que no podia 
desmentir sua origem do sul dos Alpes. As coisas mais atraentes 
nele eram os cabelos bem pretos de cachos encaracolados e os 
dentes de uma brancura deslumbrante, sobre os quais ele afirmava 
jamais t-los escovado com os cremes dentais propagandeados a 
plenos pulmSes, mas sim apenas com um simples giz.
 - E mastigar! - dizia ele sempre. - Mastigar com fora! Os 
dentes precisam estar sempre mastigando. Pensem-nos hunzas, nos 
montanheses do Himalaia. Eles no sabem o que  crie, mas tambm 
mastigam razes dia e noite.
 Num certo sentido ele era uma excepo em termos de mdico de 
navio: no se lhe podia imputar nenhum caso a bordo. Mesmo quando 
em todas as viagens as senhoras possudas pelo demnio do sexo se 
hospitalizavam... ele as tratava com meios mdicos e no 
deitando-se em suas camas. Algumas senhoras com desmedido 
desapontamento chegavam ao ponto de espalhar o boato de que ele 
devia ser bicha... um homem to bonito como esse e sem nenhum 
interesse pelas mulheres, claro que isso  anormal! Contudo, 
contra essa afirmao havia o facto de ele ser divorciado e pai 
de uma menina de nove anos.
 - O que est acontecendo? - perguntou o Dr. Paterna aps ter 
levado o passageiro doente para a sala de exame. O hospital 
possua instalaSes modelares. Podiam-se inclusive realizar 
operaSes; tinha-se  disposio o mais moderno aparelho de 
anestesia. A enfermaria dispunha de vinte leitos. - Voc est com 
palpitaSes?
 - Meu nome  Oliver Brandes. Sou oculista de Gelsenkirchen. - O 
passageiro ficou sentado na cadeira como que esgotado. - Estou 
com medo.
 - Como se o corao estivesse sendo apertado por um gancho?
 - Sim.
 - E falta de ar?
 - Por enquanto no. - Oliver Brandes encarou o Dr. Paterna, 
desconcertado. - Ser que isso ainda vai acontecer? Pelo amor de 
Deus... estou com medo de que o navio naufrague.
- O que voc est sentindo? - foi a resposta incrdula de 
Paterna.
- Medo de morrer afogado. Nalgum lugar l fora no oceano 
Pacfico. Ou de ser estraalhado pelos tubarSes. Se o navio 
naufragar...
 - Ele no vai afundar. Pelas medidas humanas ele  
insubmergvel.
 - Pelas medidas humanas! - os olhos de Brandes comearam a 
tremer. - Disseram a mesma coisa do Titanic. E o que aconteceu? 
Mais de mil seres humanos afundaram junto com ele.
 - No temos tantas pessoas assim a bordo - disse o Dr. Paterna 
em tom sarcstico. - Portanto, isso tambm no  possvel.
 - Seu escrnio  inoportuno, doutor. - Nesse momento, todo o 
rosto de Brandes tremia. - Antes da viagem, eu sonhei seis vezes 
que o navio estava naufragando!
- Mas mesmo assim o senhor veio a bordo?
- Eu no queria ridicularizar-me perante o coral.
- O que  que o coral tem a ver com isso?

- Estamos todos a bordo. Vinte e dois homens! At Valparaso. Uma 
idia completamente maluca e ainda por cima cara como o diabo. 
Mas nosso presidente disse: "O que fazemos com nosso dinheiro? 
No d para gast-lo em banquetes, pois setenta por cento de ns 
tm diabetes. To-pouco podemos gast-lo em porres, pois o fgado 
j no aguenta mais. Gast-lo com as "putas"... Desculpe-me, 
doutor, mas foi isso que ele disse... "nos deixaria frustrados, 
pois quem  que ainda consegue dar uma? Mas ver o mundo, isso 
ainda podemos! Portanto, vamos fazer uma tentativa". - A voz de 
Brandes ficou chorosa. - O que  que eu podia fazer? Dar no p? 
Cair no ridculo? Essa  a primeira vez que entro num navio, eu 
nunca quis entrar num, sempre tive medo de morrer afogado. Meu 
pai me enfiou isto na cabea: fique sempre onde voc possa voltar 
a p para casa. E agora eu devo nadar no maior oceano do mundo. 
Voc precisa me ajudar, doutor.
Paterna assentiu. As pessoas nunca aprendem, pensou ele. Eis a 
um homem bem-sucedido, abastado, um oculista de Gelsenkirchen, e 
treme de medo em sua primeira viagem de navio. Mas ele vai 
faz-la com medo de ser encarado como covarde por seus 
companheiros de coral. Vai ter de superar esse obstculo.
 - Vou acompanh-lo numa apresentao particular pelo navio. - 
Disse o Dr. Paterna procurando um tranquilizante no armrio de 
medicamentos. - Vou mostrar-lhe quantos compartimentos estanques 
temos. Por maior que seja o rombo no nos encheremos de gua.
- E se ns s quebrarmos?
- Isso  mais impossvel ainda.
- Se racharmos ao meio?
- Bem improvvel.
- Explodirmos?
- Olha, qualquer um pode afogar-se at na banheira! - o Dr. 
Paterna pegou um copo com gua e entregou dois comprimidos a 
Brandes.
- Tome, por favor.
- Contra o qu?
- Os comprimidos deixam a pessoa indiferente. Se o navio afundar 
mais tarde, voc vai tirar o terno para no molh-lo. 
Brandes engoliu os comprimidos, depois lanou um olhar de vida 
para o Dr. Paterna e disse:
- Voc me acha um idiota total, no?
- De maneira nenhuma. Amanh ns vamos andar pelo navio.
- Amanh! At l se passar uma noite terrvel.
 - V at nosso bar nocturno no Clube do Pescador e tome o maior 
porre. Isso ajuda.
 Oliver Brandes assentiu e, com as pernas bem inseguras, saiu do 
hospital. A enfermeira Erna pegou o copo e lavou-o.
- Esse a ns vamos ver daqui a pouco - disse ela enquanto 
lavava.
-  o que eu tambm receio. - O Dr. Paterna deu uma risada baixa.
- O que voc acredita que vai acontecer quando soar o alarme de 
exerccio amanh s dez da manh? Preciso estar perto dele.

Existe uma lei irrevogvel em todos os navios. Quando um barco 
zarpa ou ancora, o prprio comandante deve estar na ponte 
observando a manobra, isso quando ele mesmo no  obrigado a 
realiz-la. 

 Horst Teyendorf era o tipo de comandante que assumia o controle 
pessoal na partida e na ancoragem, dirigindo o gigantesco corpo 
do navio. A coisa parecia to simples: com uma pequena alavanca 
ele regulava os movimentos de mais de 33 mil toneladas.
 No terrao do prdio do per, a orquestra americana tocou como 
despedida a marcha militar alem "Velhos camaradas". A banda de 
bordo respondeu no tombadilho com Leve-me na viagem, 
comandante... e Adeus, adeus, no fique fora muito tempo... A 
bordo evitava-se de modo consciente fazer despedidas com marchas 
militares. Aquele era um navio civil, mesmo que os passageiros 
homens, noventa por cento deles na idade de ex-combatentes do 
fronte, desfrutassem da "Velhos camaradas" com os olhos 
brilhando, acompanhando o ritmo com batidas bizarras na 
balaustrada ou andando no tombadilho com o peito para fora e um 
insinuado passo de marcha. Alguns chegaram a ficar com olhos 
vermelhos de tanta emoo. "Good by, meus queridos amigos..."
 O NM Atlantis afastou-se lentamente do porto de So Francisco. 
Dois barcos-faris tocaram as sirenes, o Atlantis respondeu com 
trs trovSes de sua sirene de neblina aguda e impetuosa. Centenas 
de braos acenaram, nesse momento a orquestra americana tocava 
melodias de musicais, a banda de bordo desceu do convs.
 - Bandinha preguiosa essa - disse com desprezo um senhor de 
cabelos grisalhos e terno de seda. - Aposto como so todos 
sindicalizados.
 Ewald Dabrowski, o cego, encontrava-se tambm na balaustrada do 
tombadilho. Ao seu lado, Oliver Brandes abraava-se ao corrimo 
de madeira respirando profunda e apressadamente. Agora no havia 
como voltar atrs. O oceano amplo iria abra-lo. No se podia 
mais voltar a p para Gelsenkirchen. Os comprimidos do Dr. 
Paterna que deviam deixar a pessoa indiferente no estavam 
fazendo nenhum efeito, embora ele mal pudesse supor que no fundo 
se tratassem apenas de inofensivos tabletes de cal.
 Brandes encarou o vizinho e soltou um suspiro fundo.
 - O senhor  cego? - perguntou ele.
 - Sim - foi a resposta lacnica de Dabrowski.
 - Sorte a sua. O senhor no v o mar.
 - Mas at que podamos trocar. Eu gostaria muito de ver o mar.
 - O senhor no tem medo?
 - De qu?
 - De afundarmos.
 - Bem, mais cedo ou mais tarde todos temos de encarar isso. E 
da?
 - Minha Nossa Senhora, o senhor tem nervos de ao! Sabe como  
terrvel morrer afogado?
 - No. No meu caso seria a primeira vez. O senhor j teve alguma 
experincia com isso?
 Brandes percebeu que dali no sairia nenhuma conversa sensata. 
Soltou-se da amurada e seguiu adiante. Talvez, pensou ele com 
seus botSes, os cegos precisem viver com um certo fatalismo a fim 
de suportar o prprio sofrimento. No fundo, este sujeito  
admirvel. Coisa que ele j havia pensado no avio.

 Teyendorf saiu da ponte quando o Atlantis deixou o porto para 
trs por baixo da Golden Gate. Era sempre uma experincia nova 
passar por baixo daquela construo e ver a silhueta de So 
Francisco submergir lentamente. O entusiasmo dos passageiros no 
tinha limites.
Eles fotografavam a ilha-priso de Alcatraz de todos os ngulos; 
desde muito tempo que no havia nenhum prisioneiro naqueles 
prdios sombrios... Contudo, o mito permaneceu como ltimo adeus 
da Golden Gate, que era to esplndida.
 E agora tinham  sua frente o Pacfico, o maior oceano do mundo. 
Comeava uma aventura organizada em seus mnimos detalhes.
 Teyendorf encontrou o director de hotel Riemke e o 
comissrio-chefe Pfannenstiel em seu camarote de comandante 
situado bem debaixo da ponte. Jogou o quepe sobre a escrivaninha, 
sentou-se no sof de couro verde e cruzou as mos. Willi Kempen, 
o primeiro-condutor, assumira a pilotagem do navio.
 - O que ? - perguntou Teyendorf.
 Pfannenstiel colocou uma folha de papel em cima da mesa.
 - A proposta para a mesa do comandante, senhor. O senhor no 
externou nenhum desejo.
 - Estou pouco ligando para quem vai sentar-se a ela. - Teyendorf 
deu uma rpida olhada na relao. Trs casais e um solteiro. - No 
fundo, isso  uma tortura...
 - Temos trs importantes repetidores a bordo. Alm disso, First, 
o director-geral da Central Hidrulica Unida; o Dr. Simka, 
presidente do conselho fiscal da Indstria Qumica Hohenberger; o 
professor-cirurgio Dr. Lampertz, todos acompanhados das 
mulheres, depois os deputados federais...
 - Pare! - Teyendorf levou as mos s orelhas com um talento de 
actor. - Essa vai ser de novo a viagem...
 - Em Sidney um cavalheiro da presidncia da companhia de 
navegao vir a bordo - Comunicou Riemke. - Ainda no sabemos 
quem. 
 - Ainda por cima isso! Isso aqui  a seleco de seiscentos 
passageiros? No temos a bordo nenhum mestre-arteso, nenhum 
verdureiro, nenhum velho aposentado simptico e amigvel...?
 - No podemos tratar com rudeza toda a sociedade influente, 
senhor comandante. Sei o que o senhor pensa, mas os cavalheiros 
esperam pela mesa do comandante. - Riemke encolheu os ombros. - 
Uns correm atrs disso, outros fogem. Eu tambm fugiria.
 - Fora, Riemke!
 - Tambm posso colocar a Sra. White em sua mesa, senhor 
comandante - disse Pfannenstiel em tom suave.
 - Olha aqui, se eu no vir seus calcanhares fumegantes neste 
segundo, vai acontecer uma desgraa! - Teyendorf bateu com o 
punho na mesa.
- Cavalheiros, estou pouco ligando para quem vai ouvir minhas 
besteiras de sempre. Por sorte, at Valparaso s temos doze dias 
de mar, nos quais devo sentar-me  mesa. Deixarei que me faam 
uma surpresa.

 Enquanto Riemke e Pfannenstiel ainda negociavam com o comandante 
Teyendorf por causa da lista de honra, as reclamaSes j 
abarrotavam os dois representantes do comissrio-chefe. Alguns 
regateavam mesas junto s janelas. Outros, os viajantes 
experientes, queriam livrar-se de suas mesas junto s janelas, 
por saberem que, mais tarde, nos mares do Sul, mas tambm j na 
costa sul-americana, o sol queimaria tanto atravs dos vidros 
que, apesar das cortinas cerradas e do ar-condicionado ligado a 
todo o vapor, toda a refeio se tornaria um banho turco. Alm 
disso, de que serve a mais bela das paisagens quando a janela 
est permanentemente fechada? Inclusive, quando a prpria pessoa 
tem disposio, as mesas vizinhas reclamaro em voz alta: feche a 
cortina!
 Um casal de Oelde empreendeu uma luta herica.
 - Senhor comissrio-chefe! - disse o marido, com o rosto todo 
vermelho de excitao. - Acabei de saber que o casal Senkpiel vai 
sentar-se  mesa connosco. No pode ser,  o que digo! Esses dois 
j se sentaram  nossa frente no Jumbo. O homem fuma cachimbo! Um 
depois do outro. Est levando uma bolsa inteira de cachimbos. E 
que tabaco ele fuma! Minha mulher passou mal, ficou sufocada, 
quase teve um ataque do corao. E agora essa gente vai passar 
quatro semanas  nossa mesa... no, no, isso precisa ser mudado 
agora mesmo!
 Com um gesto discreto, ele passou uma nota de cem marcos  mo 
do representante do comissrio-chefe e recebeu a mesa B 16, para 
duas pessoas, bem distante do casal Senkpiel e de seus cachimbos 
periscpios.
 - Tudo acontece do jeito que voc v, minha querida - disse o 
marido de Oelde cheio de orgulho vitorioso para sua mulher. - Uma 
noitinha dessas...
 Alis, ele no precisava gastar tanto, a mesa B 16 estava mesmo 
desocupada.
 Houve barulho em todas as cabinas at o jantar. A bagagem foi 
distribuda e agora as pessoas desfaziam as malas, penduravam os 
vestidos e ternos nos armrios, espalhavam as roupas brancas 
pelas gavetas. Em pelo menos cem cabinas, as senhoras 
escandalizavam-se horrorizadas e soltavam gritos ao tirar os 
vestidos amarrotados das malas, depois procuravam no catlogo 
telefnico o nmero do costureiro de bordo... mas este estava 
permanentemente ocupado, no encontrando-se em seu pequeno e 
bolorento atelier. Houve um assalto imediato aos quartinhos com 
ferro de passar para o auto-servio, existentes em todos os 
conveses. Ocorreram as primeiras batalhas femininas. Aquelas que 
entravam na fila nos quartos de passar roupa com mais de um 
vestido eram xingadas pela falta de considerao. Um linguista 
constataria encantado a inteligente capacidade de criao de 
palavras das damas da sociedade. 
 O tempo voou. O primeiro horrio de refeiSes - atrasado nesse 
dia por causa da partida - Comeou s 19 horas. Poucos maridos 
no tiveram de suportar o mau humor de sua cara-metade. Os homens 
mesmo no tinham problema algum; cala, camisa, gravata e um 
palet leve, isso sempre caa bem. Eles compensavam o alvoroo 
das mulheres com uma cerveja.  a melhor coisa que se pode fazer 
numa situao dessas.
 Na cabina 213, os gmeos Fehringer vestiram-se com todo cuidado. 
No se diferenciavam em nada um do outro, inclusive os lenos de 
enfeite saam do bolso do palet com uma exactido milimtrica. 
No espelho do armrio que ia at o cho, os dois estavam 
completamente iguais. Ainda tinham tempo at o segundo horrio de 
refeio, s 20 e 30 horas.
 - Quem vai primeiro? - perguntou Herbert.
 - Disputamos na provinha.

 Tiraram os fsforos e Herbert ganhou. No fundo, isso era 
suprfluo, mas sempre os divertia. No entanto, aquele que comesse 
em segundo lugar tinha sempre o papel mais difcil, posto que o 
comissrio de mesa supunha que ele devia estar satisfeito. Era 
sempre uma pequena sensao quando, aps a troca no banheiro, o 
segundo gmeo chegava  mesa e dizia:
 - Por favor, traga de novo o cardpio! - seguindo-se ento toda 
uma infatigvel srie de pratos.
 O comissrio de bebidas tambm ficava admirado com a sede e 
capacidade de resistncia daquele fregus, o qual - enquanto um 
s homem pelo que parecia - liquidava oito cervejas no jantar e 
depois, de nimo alegre e sobretudo erecto, saa do refeitrio. 
 O nico perigo consistia no facto de algum ver os gmeos por 
acaso, coisa que no havia acontecido em todas as viagens at 
ento feitas. Tudo transcorria segundo um plano com exactido de 
segundos, desde o desjejum at o namoro no bar nocturno. Claro 
que os dois tambm dividiam os passeios em terra, uma vez 
Herbert, noutra Hans, de acordo com o interesse de cada um pela 
oferta. Eles sabiam que s seriam obrigados a jogar bolinha no 
caso de Bora Bora; ambos queriam conhecer a ilha mais bela do 
mundo.
 No fundo, o segundo horrio de refeio  sempre o mais 
exclusivo. Primeiro porque a pessoa no precisa apressar-se, 
posto que a mesa no ser mais usada e tambm no precisar ser 
posta de novo. Depois porque o comandante tambm come no segundo 
horrio de refeio. Em terceiro lugar, as pessoas encontram 
muitos conhecidos que j sabem de todas essas vantagens desde 
outras viagens. De uma certa maneira, os repetidores esto em seu 
meio. E acima de tudo  um imenso sacrifcio comer s 18 horas, 
quando a pilsen ainda est saindo espumante da serpentina da 
cervejaria.
 Mas tambm existem certas desvantagens, quando, por exemplo, 
consta peixe frito no cardpio. Nesse caso, o primeiro horrio de 
refeio  servido com o peixe frito no ponto, estalando. No 
segundo horrio de refeio, aps ficar crepitando por hora e 
meia, ele no passa de uma coisa pastosa, lodosa. Nem o melhor 
mestre-cuca consegue manter estalando seiscentas porSes de peixe 
frito durante mais de duas horas. Acontece o mesmo no caso do 
macarro e tambm do aspargo. Claro que se poderia fazer o que 
compete a um hotel de luxo, cozinhar tudo segundo os pedidos; 
contudo, nenhum dos trezentos comensais por horrio de refeio 
iria esperar. Pedir agora e ser servido em dez minutos o mais 
tardar. De qualquer modo, esses cozinheiros dos navios de 
cruzeiro so mesmo mgicos. S em se ler o cardpio que muda 
todos os dias j  um gozo culinrio; mesmo existindo passageiros 
que proclamam sem a menor cerimnia: por mais de quinhentos 
marcos por dia eu posso exigir. 
 O NM Atlantis rolava suave sobre as ondas em direco ao Mxico, 
deixando para trs a costa da Califrnia. Terminara o primeiro 
jantar. No salo de festas, que ali se chamava Salo dos Sete 
Mares, a banda de bordo tocava para a dana digestiva. Os trs 
bares do navio j haviam sido sitiados. Alguns fanticos do ar 
fresco encontravam-se no convs olhando a noite estrelada e a 
espuma produzida pela quilha do navio ao mergulhar nas ondas. O 
marulhar montono era incrivelmente tranquilizador.

 Na cabina 213, Hans Fehringer estava deitado na cama Pullman 
observando o irmo vestir o blazer azul-marinho de botSes 
dourados. O jantar transcorrera sem maiores dificuldades. O 
comissrio de mesa no se admirara do comensal que devorava 
montanhas. Somente as pessoas da mesa vizinha mostraram-se um 
pouco perplexas e olharam em sua direco.
 - Vou dar um pulinho no Clube do Pescador - disse Herbert 
Fehringer. - Durma bem, Hans.
 Fechou a porta da cabina. Havia terminado o servio dos 
comissrios de cabina, ningum os incomodaria mais. Havia sido um 
bom dia, assim como oxal seriam os muitos dias que tinham pela 
frente.

Aps o jantar, Ewald Dabrowski deu folga a sua assistente pelo 
resto da noite. Ele mostrara  assistncia curiosa como um cego 
come: a enfermeira Beate cortava tudo em seu prato em pequenos 
pedaos e, em seguida, ele comia com garfo e faca como qualquer 
pessoa. A nica diferena talvez fosse que, de vez em quando, ele 
tacteava o prato com o garfo, tal como fazia ao andar com a 
bengala branca. Portanto, ele no precisava ser Alimentado, 
respiraram aliviadas as pessoas a sua volta nas outras mesas. Por 
maior que fosse o amor ao prximo, maior que fosse a tolerncia e 
por todo
humanitarismo cristo... todos queriam desfrutar da comida com 
apetite e esttica, afinal de contas haviam pago caro por isso. 
No entanto, um homem desamparado que precisasse ser Alimentado, 
no seria l uma viso que tivesse um efeito estimulante sobre o 
apetite.
 - Pode ir - disse Dabrowski depois que Beate acompanhou-o at o 
ferver da tolda. Era o primeiro andar do Atlantis com biblioteca, 
estdio de msica, butique, joalheiro, salo de cabeleireiro e 
sofs e poltronas de couro fundos. Dali se ia tambm ao enorme e 
luxuoso salo de festas do navio, o Salo dos Sete Mares, onde no 
dia seguinte teria lugar o coquetel de saudao do comandante com 
posterior apresentao da direco do barco. A refeio que se 
seguiria com o comandante era o primeiro ponto culminante social 
a bordo. Os homens de smoking, em sua maioria brancos, as 
mulheres com vestidos de noite longos. Era a hora ansiada na qual 
se podia mostrar o que se tinha em termos de jias e gosto. Os 
maridos correspondentes brilhavam orgulhosos no reflexo das 
jias. Tinham-se to poucas oportunidades de se ostentar o 
sucesso.
 Dabrowski ficou parado um instante apoiado na bengala branca, 
deixando que os passageiros que se dirigiam s suas cabinas o 
ultrapassassem.
Alguns o cumprimentaram por terem a sensao de que deviam ser 
especialmente amveis para com um doente. Ele respondeu aos 
cumprimentos e, em seguida, apalpou a joalheria. A porta de vidro 
estava aberta; ele entrou tacteando com a bengala  sua frente e 
parou quando esta chocou-se com o balco. A bela vendedora com a 
designao oficial de Gerente da Firma Joalheira Heinrich Ried, 
Munique, Amsterdam, Monte Carlo, lanou ao cego um olhar mais ou 
menos desamparado. Se existe alguma coisa para a qual se precisa 
de olhos, essa coisa so as jias. Elas no podem ser sentidas.
 - Boa noite, senhorita Erika Treibel - .disse Dabrowski 
comportado. - Ficou espantada, no?
 - Honestamente, sim! O senhor me conhece?

 - Meu nome  Dabrowski. - Deu uma batida com a bengala branca na 
cadeira que havia ao lado do balco e sentou-se. As enormes 
lentes escuras dos culos fitaram Erika Treibel. Uma sensao 
desagradvel e angustiante constrangeu a jovem. Ela no sabia o 
que devia fazer e teria cumprimentado com o maior entusiasmo 
qualquer pessoa que entrasse na joalheria nesse momento. - Sou 
tido aqui a bordo como o industrial Dabrowski. Poderia fechar a 
porta?
 - Por qu? - Erika Treibel ficou tomada pelo medo. Sou tido... 
que significava isso? Ou ele  um industrial ou no . Ela andou 
devagar atrs do balco e postou-se ao lado do discreto boto do 
alarme. Um leve sorriso percorreu o rosto de Dabrowski.
 - Voc est usando um lindo vestido de jrsei de seda, Erika - 
disse ele. - E o brinco e pingente de pescoo de gua marinha lhe 
caem admirvelmente bem. S que no devia usar um anel de rubi.
 - Meu Deus! - Erika Treibel respirou fundo, o corao batia com 
toda a fora. - O senhor... o senhor... no  cego...?
 - Por favor, feche a porta. E pode ir tratando de engolir seu 
medo, ele  descabido. Ewald Dabrowski. Est certo. O resto no. 
- Levantou-se da cadeira, foi tacteando at a porta  maneira dos 
cegos, fechou-a e voltou ao balco. Erika Treibel pousara a ponta 
do dedo sobre o boto de alarme. - Devo transmitir-lhe o 
afectuoso cumprimento de seu
chefe, o Sr. Ried. Nesse momento ele se encontra em Sidney para 
comprar opalas e vir a bordo tambm em Sidney.
 - Est... Certo... - balbuciou Erika desconcertada. - Ento, 
quem  o senhor na verdade?
 - Voc conhece Paolo Carducci? - perguntou Dabrowski apertando a 
bengala branca entre as pernas. Se algum olhasse de fora atravs 
da vitrine, veria um cego apoiado em sua bengala.
 - Carducci? No...
 - Bem, o que no incio do nosso sculo era o elegante Manulescu, 
corresponde em nossa poca ao no menos elegante Carducci: o mais 
refinado, frio, inteligente e especializado ladro de jias. 
Outrora Manulescu roubava as mulheres dos conselheiros e as 
condessas, as concubinas francesas e as gr-duquesas russas, em 
Nice, Monte Carlo, San Remo, Paris, Genebra, Londres e St. 
Moritz... Carducci atua junto s mulheres de industriais e 
esposas de dentistas, as amantes de directores e mulheres de 
conselheiros fiscais. Mudou a camada social das freguesas. Mas 
sobretudo Carducci jamais escalaria, como Manulescu fez em Nice, 
a fachada do hotel Negresco, para chegar at s jias. Ele d 
preferncia a uma limpeza mais confortvel: as cabinas de um 
navio.
 - E... e o que  que o senhor tem com isso?
 - Fui contratado por uma companhia internacional de seguros para 
descobrir Carducci. Em geral chamam esse tipo de coisa de 
detective.
 - Oh, Deus! Um 007 a bordo...
 - Nem tanto, Erika. No subo pelas chamins caando ningum, no 
atiro em ningum e to-pouco tenho nas calas uma maravilha da 
tcnica que, ao apertar um boto, cuspa fogo de barragem por 
todos os buracos. Quando eu descobrir Carducci, vou pousar a mo 
em seu ombro e dizer da maneira mais simptica: Paolo, no faa 
nenhuma besteira!

Voc se encontra num navio e no pode fugir. Mesmo estando nas 
proximidades da costa, no mergulhe pela amurada! Estamos 
cercados por tubarSes, como voc sabe.
 - E... esse Carducci est aqui no navio?
 - Temos motivos para supor isso. Na verdade, ningum o conhece, 
que  um gnio com centenas de rostos. Sabemos como  a aparncia 
dele enquanto Carducci, existem lindos retratos na polcia de 
Npoles. Mas so antigos. Tm mais de dez anos. Nessa poca ele 
ainda era muito brutal e deselegante e arrombava as lojas. Agora 
 um cavalheiro. Mais tarde, recolhemos alguns de seus nomes das 
listas de passageiros;
 Rafael Solderna, Jim McHarris, baro von Saalfelden, Dr. Jens 
Petermann... O sujeito fala perfeitamente o ingls, o francs, o 
alemo, o espanhol e, claro, o italiano.
Se ainda existissem gro-duques russos em abundncia, com toda 
certeza, ele tambm falaria russo. um gnio mesmo!
 - E por que ele haveria de estar aqui a bordo? - a voz de Erika 
Treibel tremia descontroladamente. No era uma pessoa medrosa, 
mas nesse momento estava com a pele toda arrepiada.
 - Como todos os larpios, Carducci tambm comete um erro: ele 
conserva um ritmo determinado. - Dabrowski jogou a cabea um 
pouco para trs. Os cegos gostam de fazer isso quando fazem fora 
para escutar.
- Decorei tudo como se fosse uma balada. De meados de maro at 
incio de abril, no Arconia de Southampton a Tnger. Despojos, 
730 mil marcos. Fim de abril a meados de maio, com o NM Lucretia 
de Cdis, passando pelas Baleares e circundando a Siclia, at 
Gnova. Despojos, 600 mil marcos. De Gnova, quatro semanas no 
Mediterrneo com o NM Hlios. Uma boa viagem; ele ficou com 1,2 
milho. Em julho ele precisou descansar, mas agosto foi temporada 
de novo. Com o NM Heljefjord at as ilhas gregas e a Terra Santa. 
As mulheres sacrificaram 570 mil marcos. De fim de agosto at 
meados de setembro a coisa foi mal. Uma viagem com o NM 
Krasnonrsk Pireu, Istambul, Odessa, Sotschi e de volta a 
Alexandria, rendeu apenas 390 mil marcos. Afinal, as pessoas 
tinham muito medo dos russos e se contiveram nas coisas de valor. 
Mas depois! - Dabrowski acariciou a bengala branca. - De 
Alexandria pelo canal de Suez, passando pelo mar Vermelho e ao 
longo da frica at Mombaa com o NM Silverness. A a renda foi 
de 1,4 milho! Notou alguma coisa, Erika? Existe um sistema 
nisso. Carducci no sai viajando de um lado para o outro pelo 
mundo. Ele prefere as viagens em sequncia! Faz baldeao de 
barco a barco. Ns vamos peg-lo nesse erro. Ele esteve no Caribe 
por ltimo e, com o NM Princesa Aicha, veio a So Francisco 
atravs do canal do Panam. Ainda assim ele embolsou 870 mil 
marcos na viagem.  inconcebvel a quantidade de jias que as 
pessoas levam consigo nessas viagens.
 - E agora... agora ele est aqui...
 - O NM Atlantis  o nico navio de luxo que nessa poca est 
partindo de So Francisco para uma viagem mais longa. E Carducci 
estava em So Francisco. Se ele no romper a prpria lgica, e 
por que haveria de romper?, hoje ele subiu a bordo. Aqui ele 
encontra a mesa posta com o que h de mais rico no ano. O que 
brilhar amanh no refeitrio nas orelhas, pescoos, braos e 
dedos, o deixar to arrebatado a ponto de fazer uma orao de 
graas. Erika, em quanto voc avalia seu estoque?

 - No sei. - Ela encarou Dabrowski, espantada. - Mas com toda a 
certeza so dois milhSes. - Erika tornou a respirar fundo. - O 
senhor acredita que ele tentar arrombar minha loja? Temos o 
melhor equipamento de alarme. Na poca da montagem, o Sr. Ried 
testou todas as possibilidades. O equipamento funcionou na hora. 
E h sempre movimento no corredor, durante a noite inteira. 
Aqueles que saem do Clube do Pescador precisam passar por aqui. 
Alm disso, as mulheres guardam as jias nas gavetas do cofre.
 - Quando no precisam delas! Mas veja, amanh  noite  o jantar 
do comandante, um grande desfile; cada mulher, uma rvore de 
Natal enfeitada. Depois do jantar, vo para os bares, para os 
salSes, danaro. Erika, quem  que ainda vai ao escritrio do 
comissrio para pedir sua gavetinha com segredo? As pessoas levam 
seus cacarecos para a cabina nas poucas horas que faltam para o 
amanhecer. E ento Carducci esfrega as mos.
 - E como  que o senhor vai querer impedir isso, Sr. Dabrowski?
 - No posso impedir coisa alguma. - Dabrowski baixou um pouco a 
cabea, endireitou os culos escuros e levantou-se. Havia um 
casal parado diante de uma das vitrines admirando um anel de 
esmeralda. - S posso ficar olhando e intervir. Como cego entro 
em qualquer lugar. Quem no enxerga  tido como inofensivo, no 
perigoso. As pessoas no precisam esconder-se de um cego. Claro 
que ele pode ouvir, mas de que lhe serve isso, se no pode 
averiguar quem est falando? O cego tem uma espcie de liberdade 
do louco...  o que pensam os que enxergam. Carducci pensar o 
mesmo. Como um cego poderia incomod-lo? Esta  a minha grande 
chance.
 - E o senhor vai suportar isso? Durante vrias semanas?
 -  o que espero, Erika.  o que espero. - Dabrowski foi 
apalpando at  porta. O casal entrou na loja, abriu caminho para 
o cego e seguiu-o com a vista.
 - Todas essas coisas lindas e ele no enxerga nada - sussurrou a 
mulher. - Senhorita, quanto custa o bracelete de brilhantes? 
Aquele na segunda janela, na parte debaixo  esquerda...
 Com passos indecisos, batendo com a bengala branca de vez em 
quando na parede do corredor, Dabrowski subiu a escadaria 
central, para ir tomar mais uma pilsen gelada e espumante no bar 
Atlantis. Tinha a esperana de travar algum conhecimento enquanto 
bebia.
Ludwig Moor jamais poderia dar-se ao luxo de fazer essa viagem, 
se no tivesse um tio a quem, com oitenta e nove anos, ocorresse 
a idia maluca de viajar pelo oceano Pacfico. Contudo, a alegria 
antecipada parece que foi grande demais; onze dias antes do 
incio da viagem, o corao do tio falhou e Ludwig Moor herdou, 
entre outras coisas, tambm essa viagem.
 Moor no devolveu o bilhete, seno que aproveitou a oportunidade 
nica para realizar o sonho de milhSes de pessoas: estar ao menos 
uma vez nos mares do Sul! O Taiti com suas lindssimas moas... 
Claro que ele conhecia as pinturas de Gauguin. A ilha de Tonga 
com seu rei gordo que comeava a chorar quando tocavam canSes 
populares alems, Rabaul no arquiplago Bismarck, que outrora 
fora colnia alem... ele tinha selos de l em sua coleco.
 No se podia devolver esse tipo de coisa! To-pouco isso 
passaria pela cabea do tio Fritz. 

 Ludwig Moor era funcionrio pblico. Tribunal de comarca, 
departamento de cadastro. Uma funo chatssima. Registros de 
hipotecas e dvidas hipotecrias, bem como suas liquidaSes. O 
interessante disso era que poucas vezes o proprietrio da casa 
era o dono real, ao contrrio, quase sempre eram bancos ou 
companhias de seguro que se deixavam registrar emprestando o 
dinheiro. Coisa que sempre espantou Moor, havia vinte e dois 
anos. Com que ento um sujeito parava diante de um prdio e dizia 
orgulhoso: "Esta  a minha casa!" e o que de facto lhe pertencia 
talvez fosse a metade do telhado e, quando muito, a chamin.  
possvel que esse tipo de coisa tenha algo a ver com a poltica 
econmica, com o fluxo de caixa, com os meios disponveis ou com 
o sarcstico lema: "A melhor vida  a vida a crdito", mas Ludwig 
Moor nunca compreendeu isso.
 Mas agora ele tinha a oportunidade de contar aos seus colegas de 
repartio que havia bebido uma cerveja em Bora Bora num dos 
hotis mais caros do mundo e que uma beldade dos mares do Sul lhe 
pendurara no pescoo uma corrente de frangipana. Com isso ele 
passaria inclusive o magistrado que s havia chegado  
Gr-Canria.
 Aps o primeiro jantar, Moor concedeu-se um passeio no Clube do 
Pescador, situado na parte bem inferior do navio, no convs C. 
Bebeu bravamente apenas dois coquetis, achou a msica de 
discoteca alta demais, enfureceu-se com uma dama de meia-idade 
que danava rock com a saia puxada para cima qual uma adolescente 
e, pouco depois, ps-se a caminho de volta ao lar, a cabina 382.
 Estava prestes a entrar no elevador, quando um grito de rachar 
madeira quase jogou-o de encontro  parede. Com um pulo, Moor 
tomou de assalto a cabina do elevador, mas ao fechar-se a porta 
ele tornou a ouvir o grito... alto, penetrando at a medula dos 
ossos, num tom intermedirio ao de um trompete rachando ao meio.
 O elevador parou no convs A e um senhor de cabelos grisalhos 
entrou. Fitou o plido Moor e apertou o boto do convs do 
solrio.
 - Desculpe-me por dirigir-lhe a palavra - disse ele. - Mas o 
senhor no est passando bem?
 - Olha, houve um grito agora mesmo... um grito terrvel... - 
balbuciou Moor.
 - Onde?
 - L embaixo. No convs C. Nunca tinha ouvido um grito desses. 
Tive a sensao de que o cho tambm tremia.
 - Dr. Schwarme.
 - Como disse?
 - Dr. Schwarme  o meu nome. Advogado. Por que no damos um 
outro pulo at l embaixo? - O Dr. Schwarme causou uma impresso 
corajosa. Moor assentiu vrias vezes e murmurou o prprio nome.
 - Encantado... Por um grito humano?
 - No sei. Olha, quando um ser humano grita desse jeito  porque 
est vivendo alguma coisa muito terrvel. Soou como se no fosse 
humano. Eu poderia imaginar... quando algum est sendo 
torturado...
 O Dr. Schwarme empurrou o queixo para a frente, parou o 
elevador, apertou o boto do convs C e bateu com um punho no 
outro. 
 - Vamos ver logo o que foi. Talvez tenha sido uma roldana 
enferrujada, elas produzem um som de rasgar o corao.

 - Aqui embaixo? De noite? Em alto-mar?
 - Tem razo.
 O elevador parou, a porta se abriu, Schwarme e Moor saram na 
escadaria. Os dois olharam em volta. Tudo estava quieto e vazio. 
Apenas soava uma msica suave atravs da porta bem isolada do bar 
nocturno.
- De onde veio o grito? - perguntou o Dr. Schwarme.
- No sei. Estava em toda a parte, pairava no ar... duas vezes... 
- Duas vezes?
 - Meu corao quase parou.
 - Agora est tudo quieto. - O Dr. Schwarme passou a mo pelo 
rosto. Ao faz-lo, notou que estava suando. Suor frio. - Vamos 
aguardar mais alguns minutos... depois vamos at o bar e 
entornamos um conhaque duplo. Acho que o senhor precisa muito de 
um. 
 Moor assentiu capitulando, prendeu a respirao e desejou jamais 
tornar a ouvir o grito.

2

O Clube do Pescador  sempre a ltima estao no decorrer dos 
dias que na verdade no so entediantes no NM Atlantis. 
Quando todos os bares se fecham, ali encontram-se os incansveis, 
os vidos por experincias, os solitrios e aqueles que jamais se 
esgotam. Muitas vezes acontecia que um passageiro com uma 
capacidade de resistncia fenomenal sasse do Clube do Pescador 
directo para o buf do desjejum no convs, comesse e, desperto 
como um peixe, fosse nadar na piscina, no momento em que os 
viajantes "normais" saam das cabinas.
 O bar nocturno encontrava-se firme nas mos de Jerry. 
Originalmente ele se chamava Lothar, mas achara que o nome 
parecia honesto demais para seu emprego. Jerry soava temerrio, 
soava a aventura, a Chicago e sobre tudo podia ser sussurrado por 
alguma moa apaixonada. Num abrao ntimo, Jerry soava melhor do 
que um soprado Lothar. Alm disso, Jerry era um mestre das 
misturas. Os coquetis inventados por ele no podiam ser 
encontrados nem no Waldorf de Nova York nem no Hyatt de So 
Francisco. Quando um dia ele se aposentasse, iria escrever um 
livro sobre coquetis.
 Quando Moor e o Dr. Schwarme entraram, havia tal aperto na 
pequena pista de dana que j no se podia mais falar em 
combinaSes de passos.
 O discotecrio colocara um swing dos bons velhos tempos e os 
corpos rodavam, flutuando de um lado para o outro. Moor 
dirigiu-se para o balco onde viu dois banquinhos livres e 
aboletou-se no assento. O Dr. Schwarme seguiu-o.
 - Ficou com mais sede? - perguntou Jerry com um sorriso 
amigvel. Afinal, ele acabara de ver Moor ir embora poucos 
minutos antes. - Mais um Urquell?
 - Conhaque - disse Moor com voz sombria. - Mas, por favor! Nada 
de humedecer o copo!
 Ele havia lido isso numa piada de uma revista e achara 
engraado.
 - Francs? - perguntou Jerry.
 - Que mais poderia ser? - Moor encarou o Dr. Schwarme. - O 
senhor tambm?

 - No, para mim um usque.
 - Usque escocs?
 - Eu disse usque e isso sempre  um bourbon.
 Jerry serviu com o rosto ptreo. Sacos de dinheiro, pensou ele. 
Sempre se comportam como se estivessem no stimo cu, quando tm 
a oportunidade de ensinar um barman. Serviu um conhaque alemo 
para Moor e um usque tambm alemo ao Dr. Schwarme e esperou at 
os dois tomarem o primeiro gole.
 - Satisfeitos?
 - Excelente. - O Dr. Schwarme virou-se e deu uma olhada pelo 
bar.
 Todos ainda eram apenas desconhecidos, recm-chegados a bordo, 
mas dentro de poucos dias se constatariam quais eram os que ali 
vinham todas as noites na qualidade de frequentadores habituais. 
Como em toda a parte onde os homens vivem em comunidade, 
grupinhos se formariam ali embaixo e as pessoas com sede de viver 
se sentiriam bem. O Dr. Schwarme tambm fazia parte desse grupo. 
A bem da verdade, ele estava acompanhado da mulher na viagem, mas 
esta j se encontrava na cama na cabina havia muito tempo, com o 
rosto emplastrado de um creme nutritivo esverdeado. Se ele dizia: 
"Vou tomar mais uma cervejinha rpido" e s voltava mais tarde, a 
mulher estava dormindo to profundamente que no ouvia coisa 
alguma quando ele desabava na cama. Ele sabia disso, era um velho 
"navegador".
O ar marinho exercia sobre Erna o mesmo efeito que champanhe 
misturado com tranquilizantes; no incio animava, sobretudo no 
jantar e nas festas nocturnas a bordo, mas ento, depois do 
trmino da programao oficial, sentia-se como que paralisada. 
To logo entrava na cabina e tirava a roupa, dormia no acto. A 
posio horizontal era como uma alavanca que a pressionava para 
baixo: fim. Em contrapartida, Erna Schwarme era uma mulher 
bonita, no verdadeiro sentido da palavra: estatura um pouco acima 
da mediana, cabelos louros, quarenta e poucos anos, muito bem 
cuidada, com uma pele realmente delicada, quase sem rugas - o 
creme nutritivo esverdeado! - e um corpo que se poderia descrever 
como de formas perfeitas. Suas roupas denunciavam ateies caros e 
suas jias mostravam a todos que o marido, o Dr. Peter Schwarme, 
era um advogado bem-sucedido. Mas dinheiro grosso mesmo ele 
ganhava como consultor pessoal. Poucos podem imaginar o que seja 
isso e na verdade  difcil imaginar, quando se lhes explica que 
o Dr. Schwarme vendia empresrios, que ele qualificava homens - 
e, de acordo com a tendncia correspondente, tambm um nmero 
crescente de mulheres - Colocando-os e tirando-os da indstria e 
do comrcio, ocupando posiSes de direco. De gerente de diviso 
para cima, ele conseguia tudo que as carreiras de sucesso 
prometiam. Isso apresentava a vantagem de, mais tarde, os 
senhores estabelecidos nomearem o Dr. Schwarme para os conselhos 
fiscais ou entregarem os processos  sua banca. Um efeito 
duplo... Erna Schwarme mostrava isso com a elegncia e as jias. 
No fundo, seu permanente cansao no mar era a nica coisa 
perturbadora nela.

 - Na barriga de um navio tudo soa diferente - disse o Dr. 
Schwarme tomando um segundo gole de seu "bourbon ". - Afinal, 
aqui estamos abaixo da superfcie do mar. Quando pensamos nisso, 
facilmente ficamos com medo. Imagine s a presso que est sendo 
exercida agora contra as paredes! Suponho que esse seu grito 
terrvel tenha sido um cabo de ao que bateu na parede de ferro 
aqui embaixo, nalgum lugar. Como eu disse: aqui tudo soa 
diferente. 
 Moor assentiu, bebeu o conhaque, ainda tendo nos ouvidos aquele 
grito de rachar madeira.
 - O que h mais aqui embaixo alm do bar?
 - Os porSes, toda a instalao das mquinas, os tanques de gua, 
toda a parte tcnica... eles no podem gritar. Foi algum outro 
barulho.
 - No se pode chamar isso de barulho. - Moor pediu outro 
conhaque e dessa vez recebeu um francs de verdade. - D s uma 
olhada, doutor. O cego est sentado l atrs, no canto. Perto da 
pista de dana.
 - Ele ouve a msica, ouve os passos da dana, talvez tambm a 
respirao dos danarinos e suas conversas... os cegos tm uma 
audio incrivelmente desenvolvida. - O Dr. Schwarme deu uma 
risada alta. - Talvez ele tambm cheire o perfume das mulheres, 
coisa que deve bastar-lhe para a felicidade. Eu no trocaria o 
meu lugar com ele nem por milhSes. Assim que eu o vi no 
tombadilho quando da partida, pensei: devamos falar com ele, 
mostrar-lhe como pode ser alegre a vida a bordo, traz-lo para o 
nosso meio social, deixar que ele participe das nossas 
experincias de viagem. No fundo, ele parece ser um homem alegre. 
Eu observei. Quando os americanos tocaram Velhos camaradas, 
msica que nos toca fundo na alma, ele tambm aplaudiu na 
amurada. Posso perguntar qual a sua idade?
 - Cinquenta e dois anos.
 - No! - O Dr. Schwarme esfregou a mo espalmada em cima do 
balco. - Ento somos do mesmo ano. Que coisa! Garom, mais uma 
rodada!
 A essa hora da noite, ainda se encontravam no bar o dono da 
vincola Tatarani, de Angeli, que como sempre parecia sado de 
uma revista de moda, e dois senhores sentados bem lado a lado num 
sof, que se encaravam como amantes, acariciando-se as mos de 
vez em quando e bebendo champanhe. No canto oposto, trs alegres 
senhores cochichavam e gargalhavam com suas mulheres; pareciam 
estar esperando que os dois se abraassem e beijassem num 
impulso. Coisa que na verdade no fizeram, mas encostaram-se 
ombro a ombro espalhando uma sensao de imensa felicidade.
 O comissrio-chefe Pfannenstiel, aboletado em seu banquinho de 
fregus costumeiro no canto extremo do bar - pois uma noite sem 
Pfannenstiel no Clube do Pescador, s se ele estivesse seriamente 
enfermo -, to logo os dois cavalheiros subiram a bordo, mandou 
que averiguassem seus nomes na lista de passageiros. Sua ateno 
fora chamada pelo facto de os dois caminharem pela escada de 
braos dados, como um casal de namorados. O mais velho chamava-se 
Jens van Bonnerveen e era originrio de Leiden, na Holanda; o 
mais novo era um alemo, chamava-se Eduard Grashorn e, de vez em 
quando, parecia realmente envergonhado. Sobretudo quando Jens 
pousava a mo frouxa no traseiro de Eduardo, ento este 
estremecia e olhava para todos os lados com movimentos rpidos de 
doninha.

 Os casais investiam de um lado para o outro na pequena pista de 
dana redonda. As jias das mulheres cintilavam. Notavam-se 
tambm as abotoaduras de brilhante dos homens. Contudo, o jantar 
dessa noite fora completamente normal. O grande desfile s 
ocorreria no dia seguinte, no coquetel de recepo e no jantar do 
comandante.
 Ewald Dabrowski observava por trs dos culos escuros os 
danarinos e os fregueses no bar e nas mesas. Nenhum daqueles que 
terminavam a noite no Clube do Pescador tinha a aparncia de um 
ladro de jias. Contudo, meu caro Ewald, Dabrowski pensou com 
seus botSes, qual a aparncia de um ladro de jias? Poderia ser 
aquele senhor ali no bar, aquele que bebe o terceiro usque num 
curto espao de tempo - era o Dr. Schwarme -, ou o elegante 
meridional - Tatarani, o viticultor de Toscana - que era to 
amvel a ponto de danar quatro vezes com as damas solitrias, 
inclusive com uma idosa que girava com todo cuidado, mas cujo 
rosto transmitia uma impresso de enorme xtase. Os dois veados? 
Impossvel! Sabia-se que o ladro Carducci, ao personificar o 
baro von Saalfelden ou o Dr. Petermann, sempre capitulou diante 
dos encantos femininos, tendo dormido vrias vezes com suas 
vtimas at o momento de roub-las. Claro que ento as suspeitas 
jamais recaam sobre ele, o amante secreto e fogoso; pois mos 
que sabiam acariciar desse modo to estonteante jamais estariam 
em condiSes de arrombar caixas de jias e gavetas com segredo.
 Mesmo assim, Dabrowski tinha a sensao de que Carducci 
encontrava-se ali no bar. Essa estranha sensao, ardente como a 
que se tem ao tocar um circuito elctrico de baixa voltagem, j o 
havia ajudado ou advertido vrias vezes. Era algo inexplicvel em 
Dabrowski que s vezes o deixava assustado. Nesse momento, esse 
pressentimento aparecera de novo, relacionado com uma leve 
dificuldade respiratria.
 - Vamos? - perguntou o Dr. Schwarme no balco. Ele deu uma 
olhada no relgio. - Trs e meia da madrugada. Onde toma o 
desjejum, Sr. Moor?
 - No restaurante.
 - Jamais vou conseguir. No consegui nos outros navios e vai ser 
a mesma coisa aqui no Atlantis. Estaremos sentados s dez horas 
atrs do bar Atlantis. O que tenciona fazer?
 - Nada. Ficar sem fazer nada na espreguiadeira. Talvez ler... 
um Konsalik...
 - Pelo amor de Deus! - O Dr. Schwarme lanou a Moor um olhar 
francamente espantado. - O senhor l Konsalik?
 - O senhor o conhece? Quantos livros dele j leu?
 - Nenhum.
 - Ento, como  que o senhor quer discutir sobre isso? - Moor 
levantou-se do banquinho do bar. - Por volta das dez e meia 
estarei atravessando o convs do solrio.
 Os dois assinaram a conta dando nomes e nmeros das cabinas, 
incluindo a gorjeta - no final da viagem devia-se saldar a 
importncia total das contas no escritrio especial do comissrio 
- e saram do bar. Ento ficaram esperando pelo elevador no 
pequeno foyer situado entre o fosso e a escada; o ascensor 
parecia estar vindo do convs superior de tanto que demorava.
 - Permite-me perguntar o que o senhor faz profissionalmente? - 
indagou o Dr. Schwarme.
 - Administro casas. - Moor no via nenhuma mentira nisso.
 Como funcionrio do departamento de cadastro, ele conhecia todos 
os bens, dvidas, encargos, hipotecas judiciais e dvidas 
hipotecrias. - Uma grande quantidade.
 - Ah. O senhor  gerente administrativo de uma empresa de 
administrao de imveis?

 - , pode-se chamar assim.
 - Interessante. Neste momento estou engalfinhado com um. 
processo tremendo contra uma sociedade de proprietrios... A 
est o elevador!
 A porta deslizou abrindo-se, os dois entraram, a porta se 
fechou... e no momento de se fechar por completo, ressoou um 
grito que lhes penetrou at os ossos. Moor recostou-se na parede 
do elevador com o rosto amarelo, plido.
 - Olha... - gaguejou ele. - Foi isso... O senhor escutou...?
 - Isso... esse tipo de coisa... at um surdo escuta. - O Dr. 
Schwarme passou a mo no rosto. Que som! Que grito 
extraordinrio! E, no entanto, por mais que fosse irreconhecvel, 
havia algo de humano naquele barulho.
Era um ser vivo em extrema dificuldade que gritava ali... O Dr. 
Schwarme recordou-se de um processo criminal de um assassino que 
gravara o ltimo grito de sua vtima. Os dois tinham um som to 
idntico, mesmo no sendo to penetrantes. E mesmo no sendo to 
potentes a ponto de ressoar atravs de algumas paredes, de tal 
modo que se pudesse dizer que a pessoa que gritava estava bem ao 
lado.
 O Dr. Schwarme puxou o n da gravata um pouco para baixo, abriu 
o colarinho da camisa e apertou o boto do elevador que indicava 
tolda.
 - Vamos... vamos mandar averiguar agora mesmo o que est 
acontecendo no convs C - disse ele hesitante. - Vamos tirar o 
director de hotel da cama e, se for preciso, o prprio 
comandante. No viajo em navios onde ressoam gritos de morte.
 - O senhor quer dizer que foram... gritos de morte? - Ludwig 
Moor sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. - Mas isso no  
possvel. Existe um espao de meia hora entre o primeiro e o 
segundo grito.
Ningum demora tanto para morrer. 
 - O senhor tem alguma idia das coisas que ns, os juristas, 
vemos e ouvimos? Quando algum se acidenta,  estrangulado, 
esmagado ou... Uma vez tive um processo gigantesco. Uma batida de 
carros em massa numa auto-estrada com neblina. Noventa e quatro 
carros metidos uns por cima e por dentro dos outros. Um dos meus 
constituintes foi retirado dos destroos pelos bombeiros somente 
depois de seis horas. Depois de seis horas! E ele ainda estava 
vivo. Ambas as pernas cortadas. E nessas seis horas ele gritou 
durante quatro.
 - Pare, estou passando mal. - Moor levou a mo direita  boca. - 
Por que esse maldito elevador anda to devagar?
 Tudo estava vazio e quieto na tolda. Um homem idoso estava 
sentado atrs da recepo da comissria lendo um romance 
policial. 
Estava vestido com um jaleco branco, era o guarda-noturno.
 O Dr. Schwarme precipitou-se para fora do elevador como quem 
fosse tomar a recepo de assalto, s faltou o "hurra! hurra!". 
Moor se lhe juntou, plido como um cadver e um pouco hesitante.

 O homem de jaleco branco, ansioso, levantou a vista do romance 
policial. Aqueles que voltavam l de baixo a essa hora haviam 
dado uma parada no Clube do Pescador. Ele sabia disso por seus 
mais de quarenta anos de viagens em barcos de passageiros; era 
inconcebvel as coisas que os fregueses levavam do bar nocturno 
l para cima. Podia-se escrever um livro imprprio para menores 
sobre isso; a comear pela dama vestida s de calcinha trazendo o 
resto da roupa debaixo. do brao, at aquele senhor director que 
toda a vez que bebia champanhe tinha diarreia e saa correndo 
para a cabina com as calas cagadas. Os dois cavalheiros que 
nesse momento chegavam ali em cima, tambm estavam possudos de 
uma pressa igualmente suspeita. Ele os encarou com afecto.
 - O director de hotel! - disse o Dr. Schwarme ofegante. - 
Precisamos falar agora mesmo com o senhor director de hotel.
 - Agora? So quatro da manh.
 - Eu no lhe perguntei que horas so - uivou o Dr. Schwarme. - 
Trate de acordar o Sr. Riemke agora!
 - Isso  impossvel. - O homem da vigilncia nocturna continuou 
pacientemente sentado em sua cadeira. O teor alcolico dos dois 
cavalheiros era razo mais que suficiente para perdoar-lhes 
muitas coisas.
 - De que se trata?... De um grito, de um grito medonho - gritou 
Moor.
 - De rachar madeira - assentiu o Dr. Schwarme. - Entenda, homem! 
Um grito!
 - Sim senhor, um grito. - O guarda-nocturno assentiu. Pelo menos 
uma novidade. Nenhum drama conjugal, nenhum bbado, nenhuma 
senhora pelada, nenhum cnsul cagado... agora temos dois 
gozadores. - Onde?
 - No convs C.
 - Ah!
 - Que quer dizer com esse "ah!"? - berrou o Dr. Schwarme.
 - Quero dizer que os caras l do bar voltaram a tocar um cool. 
Eles tm um disco no qual um canto faz "j!" com uma voz 
guinchante. 
uma coisa maluca, mas as pessoas gostam! Est no hit parade. 
Olha, os dias de hoje so um pouco pirados. Os crticos acham 
Heino, o bom cantor, uma porcaria, mas quando algum peida no 
microfone, eles adoram; a nova bossa! Onde  que fomos parar...
 O Dr. Schwarme encarou pasmado o sujeito da guarda nocturna.
 - Voc ficou maluco? - disse ofegante depois de algum tempo. - 
Est a filosofando sobre msica, enquanto ns comunicamos ter 
ouvido um grito de morte...
 - No convs C.
 - Sim! - berrou Moor, nesse momento j com os nervos  flor da 
pele. Em se tratando de um funcionrio pblico do departamento de 
cadastro, isso significa alguma coisa. - Um grito de morte!  
isso a!
 - Duas vezes!
 O vigia nocturno assentiu atencioso.
 - Dois mortos no convs C. E por causa disso devo acordar o 
senhor director de hotel?
 Moor encarou horrorizado o sujeito atrs do balco.
 - Meu Deus do cu, que tipo de navio  esse?! - balbuciou ele, 
recostando-se na parede de espelho e respirando com golfadas 
profundas como se o ar ali fosse rarefeito demais. - Dois mortos 
no so nada! Sr. Dr. Schwarme...
 - Isso no vai ficar assim no! - o Dr. Schwarme levantou o 
indicador num gesto de ameaa dos tempos primitivos. - Pode 
contar com isso. As consequncias sero arrasadoras. Vou convocar 
todos os passageiros para o Salo dos Sete Mares e explicarei 
tudo a eles. Na Alemanha eu iria para a imprensa.

 - Chamarei a ronda - disse o homem da guarda nocturna de modo 
tranquilizador. - Eles vo verificar. Convs C. Gritos de morte. 
Dois. Os caras vo ficar contentes. Meus senhores, podem ir para 
a cama. Tudo vai entrar nos eixos. - Pegou o telefone, discou um 
nmero... era do laboratrio fotogrfico onde, naturalmente, no 
havia ningum trabalhando nesse momento. E, sob os olhares 
crticos do Dr. Schwarme e de Ludwig Moor, disse: - Jan, ser que 
d para voc levar sua tropa inteira para examinar todo o convs 
C? Algum gritou por l. Com um terror de morte. Estou com duas 
testemunhas aqui. Sim, pode deixar que anoto os nomes. - Ele 
fingiu estar ouvindo uma resposta e depois disse para o Dr. 
Schwarme: - O pessoal da ronda vai descer agora mesmo para 
inspeccionar. Seus nomes, por favor?
 - Dr. Schwarme, cabina 018.
 - Ludwig Moor, cabina 382.
 O homem atrs do balco assentiu.
 - Suponho que o senhor comandante vai dar-lhes uma explicao 
pessoalmente. Boa noite!
 Satisfeitos, o Dr. Schwarme e Moor retornaram ao elevador.
 - Basta a gente ter a energia suficiente - disse o Dr. Schwarme 
cheio de vaidade. - Energia e segurana! As pessoas ficam 
impressionadas. Jamais devemos ceder diante desses sujeitos 
subalternos! Bem, estou ansioso para saber o que o comandante nos 
dir amanh de manh. No vai poder simplesmente subestimar ou 
pr de lado um grito desses.
 O elevador sibilou e os dois satisfeitos cavalheiros deixaram-se 
levar aos seus conveses.

A tarefa de um comandante  comparvel  de um prefeito. Natural 
que um navio viaje atravs do Pacfico de So Francisco at 
Hong-Kong. Para isso ele tem os melhores instrumentos nuticos a 
bordo e uma meia dzia de oficiais, radar e cartas martimas 
exactas. Ningum fala sobre isso, o trabalho  dele. Mas a coisa 
no termina a. O que acontece pelo navio  muito mais dramtico 
do que, talvez, a entrada em ziguezague no porto de Nawiliwili. 
Fazer com que convivam seiscentos passageiros e trezentos homens 
da tripulao no decorrer de algumas semanas, num espao 
apertado, com todo tipo de insuficincia e imponderabilidade da 
natureza humana; durante muitos e muitos dias comandar de maneira 
invisvel e discreta uma pequena cidade flutuante; escutar e 
aplainar pequenas e grandes preocupaSes todos os dias; receber 
queixas justificadas e crticas obstinadas; controlar a 
disciplina da tripulao, isso sem falar das obrigaSes sociais 
nos coquetis das festas de aniversrio e at das recepSes 
particulares de personalidades conhecidas... so apenas uma 
pequena parte dos deveres a cargo do prefeito, aqui chamado de 
comandante. Mas os conhecedores especialistas da matria sabem 
que os piores aborrecimentos, que dilaceram e esfrangalham os 
nervos, vm da companhia de navegao.  bem verdade que esta 
est situada bem distante, na Alemanha, mas sua presena  
constante a bordo por rdio ou telefone. E a coisa fica bem 
incmoda quando algum da presidncia viaja como passageiro. 
Existem comandantes que encaram isso como uma refinada punio. 

 Nessa manh, Hors Teyendorf tambm encontrava-se com o estado de 
esprito para chamar sua companhia de navegao por rdio e 
dizer: "A partir de agora abdico de qualquer responsabilidade!"
 O causador do aborrecimento actual estava um pouco amarrotado na 
habitao do comandante, cercado pelo director de hotel Riemke, 
pelo director de cruzeiro Manni Flesch e pelo 
mestre-de-cerimnias Hanno Holletitz. O director de cruzeiro de 
um navio  o responsvel pelo entretenimento a bordo.
Ele organiza as festas de bordo e apresentaSes dos artistas, 
ocupa-se da televiso de bordo, d notcias vindas por rdio da 
Alemanha duas vezes por dia e patrocina competiSes de mergulho 
com senhores srios e temidos na vida particular por suas 
posiSes superiores, que ali saltam alegres na piscina para ir 
buscar colheres de metal. Existem torneios de tnis de mesa e 
campeonatos de xadrez, bem como cursos de pintura e arte. Mas um 
director de cruzeiro existe sobretudo para servir de pra-choque 
para todo o mau humor que porventura os passageiros entediados 
arrastem consigo.
Pois, depois de cinco dias, no mais tardar, uma grande quantidade 
deles fica com vertigem de bordo; ento, para eles nada mais est 
direito, mas nada mais mesmo. Um director de cruzeiro sem pele de 
couro no chega  idade madura.
 Em compensao, um homem como Hanno Holletitz, o 
Mestre-de-cerimnias, leva uma vida mais fcil. Ele  
conferencista, locutor, formador do moral, contador de piadas. 
Sempre que ocorre uma apresentao - exceptuando-se, claro, um 
concerto de violoncelo ou uma noitada de piano; esse tipo de 
coisa  apresentado pessoalmente pelo director de cruzeiro - 
ento um homem como Holletitz  o ponto culminante da noite.
Nas festas  fantasia, nas noitadas bvaras, nos torneios de 
dana, nas apresentaSes de folclore em que as moas do Taiti ou 
grupos de maoris sobem a bordo, nas sessSes de magia ou de 
"Msica... Msica dos Anos Quarenta", Holletitz anima o esprito 
contando piadas que muitas vezes equilibram-se  beira do decoro. 
Quem melhor as aproveita so as mulheres - seria pelo teor de 
iodo do ar marinho? -, pois em geral sua risada clara abafa o 
sorriso entre os dentes dos homens. No mar muitas coisas ficam 
diferentes...
 Portanto, nessa manh, o comandante Teyendorf, Riemke, Flesch e 
Holletitz cercavam um homem de cabelos negros do tipo tpico das 
terras do sul, que estava com um evidente ar de contrio e tinha 
as mos levantadas num gesto de defesa, como se estivesse com 
medo de ser jogado ao mar naquele exacto momento.
 - Eu estava adivinhando - disse o comandante. - Fui contra desde 
o incio; ainda sou contra e sempre serei. Mas essa companhia de 
navegao! Todos sabiam muito bem. Permisso excepcional.  s de 
So Francisco at Acapulco! S! Fui enrgico quando observei que 
isso  proibido pelo direito naval. S dessa vez, uma excepo. E 
agora a merda est em nossas mos!
 - Quem podia prever? - o envergado meridional levantou ainda 
mais as mos no crculo de seus acusadores. - Afinal de contas,  
a primeira vez que eles esto no mar. Quem podia saber? S se 
sabe que eles so muito sensveis.
 - Esses brutos... e ainda por cima sensveis! - o director de 
cruzeiro Flesch e Riemke sacudiram a cabea espantados.
 - Acontece com frequncia - replicou o meridional versado nas 
coisas de circo. - Uma vez eu vi um lutador de boxe gigantesco 
chorando muito por ter atropelado um co com seu carro.

 - Aqui se trata de coisa bem diferente de um lutador de boxe 
delicado! - a voz de Teyendorf ficou mais alta. - Como vai ser 
daqui por diante?
 -  Em acapulco acaba tudo.
 - Isso ainda leva trs dias! E enquanto isso? Claude Ambert, 
este era o nome do sujeito envergado, encolheu os ombros. Antes 
da viagem por mar, ele escrevera  companhia de navegao: "Eu 
poderia subir a bordo em So Francisco e desembarcar em acapulco 
onde tenho um contrato para apresentao. Fao uma apresentao a 
bordo por um cach especial..." No tinha nenhuma esperana de 
receber uma resposta. Mas esta veio bem rpido por telex: sua 
proposta fora aceite. Talvez a expresso "cach especial" tivesse 
tido um efeito mgico; no mundo dos negcios elas so as palavras 
mais usadas.
 Em todo caso, a permisso inesperada deixou-o louco de alegria, 
mas quando o NM Atlantis atracou no per de So Francisco e ele 
apresentou-se ao comandante, viu como uma pessoa relativamente 
delicada e sobretudo educada era capaz de vociferar usando 
palavras bem ordinrias. Aps uma hora, Ambert compreendera que 
sua presena a bordo correspondia a um crime, embora a companhia 
americana no somente suportasse, se no que estimulasse isso. As 
comunicaSes por rdio, voando de um lado para o outro, no eram 
nenhuma novidade. A companhia de navegao mantinha-se firme: 
Ambert sobe a bordo, faz uma apresentao e depois desembarca em 
acapulco. Quatro dias com ele, d para suportar! No se devia ter 
to pouco humor assim, por favor. Essa apresentao entraria para 
a histria do NM Atlantis como uma curiosidade incomparvel. Alm 
do que, essa era a vontade expressa do Dr. Humperday, membro da 
directoria, cujo amigo, o Dr. Kragges, j se encontrava a bordo. 
E o Dr. Kragges era um amante entusiasta...
 - No faz sentido ficar gritando aqui - disse Riemke que, na 
qualidade de comissrio-chefe bem como director de hotel, era 
tido como uma pessoa de raciocnio prtico. - Alguma coisa deve 
acontecer. Esto a as queixas dos passageiros, mas ns no vamos 
dizer-lhes a verdade at faltar um dia para Acapulco, at a 
entrada em cena. A propsito, depois disso no devem ocorrer mais 
esses gritos que as pessoas escutam a milhas de distncia. 
 - Afinal, so to sensveis... - disse o director de cruzeiro 
com um jeito sarcstico. - Na verdade, aps trs a gente devia 
buscar um psiquiatra, no?
 - Meus senhores, o que sabem sobre o psiquismo de um elefante?! 
- disse Ambert rgido. - A alma de um elefante  uma maravilha.
 Em So Francisco, quando os passageiros em fim de viagem j 
haviam sado de bordo e os novos ainda no tinham chegado, 
entraram no navio dois pacientes elefantes, com gigantescas 
orelhas ondulantes, batendo os ps um atrs do outro, o de trs 
segurando a cauda do da frente. Trotaram pela escotilha sem 
hesitar, como se uma viagem pelo mar fosse a coisa mais natural 
para eles, enquanto seu tratador Claude Ambert, de terno preto e 
turbante branco, irradiava de alegria. Ele no ouviu quando 
Teyendorf disse na ponte:
 - Isso vai dar cem por cento errado!

 - Mas isso  uma loucura completa, senhor comandante. - Willi 
Kempen, o condutor que se encontrava em contacto por rdio com o 
contramestre l embaixo no per, ouviu a comunicao vinda do 
poro. Os dois paquidermes cinzentos pareciam ser rapazes bem 
pacficos - perdo, pareciam ser moas adorveis, pois se tratava 
de elefantas -, olharam a sua volta no novo alojamento, ergueram 
as trombas e soltaram um satisfeito
guincho. Ambert deu-lhes como rao especial um po branco 
inteiro, pesando cada um dois quilos. Num compartimento contguo 
havia quatro enormes baldes de gua para fazer os pes descerem.
 - Mesmo tendo uma grande quantidade de palha... esses brutos 
mijam e cagam um bocado. At Acapulco isso aqui vai virar um 
chiqueiro, senhor comandante.
 - Diga isto aos cavalheiros da companhia de navegao; Kempen.
- Teyendorf fez um sinal negativo. - No falarei mais nada sobre 
isto. Meus lbios j esto cansados. E qual o resultado? "No 
seja to pedante", esta foi a resposta; "imagine como os 
passageiros vo ficar contentes quando os elefantes danarem 
rumba no convs superior".
 - Rumba? No convs superior? - o condutor ficou de olhos 
arregalados. - Mas como  que os bichos vo chegar ao convs 
superior?! Pela escada? De elevador? Puxados por guindaste? 
Senhor comandante, tudo isso  uma loucura!
 - Por mim a coisa est liquidada. - Teyendorf bateu com o punho 
cerrado sobre a amurada. -  Flesch quem ter de esquentar a 
cabea com isso.
 Mas, claro, isso foi apenas uma maneira de falar. Naturalmente 
que um comandante tem a ver com tudo o que acontece em seu navio. 
Sem a palavra do comandante nada anda, nenhuma deciso  tomada, 
nenhum problema solucionado. A bordo, com toda a democracia e 
liberalismo, na verdade reina um princpio patriarcal.
 E, assim, agora tambm era o comandante quem devia decidir o que 
iria acontecer. Dois passageiros haviam comunicado espantados ao 
guarda-nocturno nas primeiras horas da manh: dois gritos de 
morte tinham sido dados no convs C.
 - Gritos de morte! - disse Claude Ambert perplexo. - Minhas 
pequenas apenas trombetearam. Elas esto intranquilas, meus 
caros.
 - Olha, eu sei como soam os gritos dos elefantes... do circo, do 
jardim zoolgico e por um passeio em Sri Lanka. - Nervoso, 
Teyendorf acendeu um cigarro. - Para um passageiro inocente e 
despreocupado, a coisa deve ser arrasadora no verdadeiro sentido 
da palavra! Pode provocar um ataque do corao, meus senhores. 
Afinal, quem iria supor que h elefantes a bordo? Ento, a pessoa 
sai inofensivamente do bar e d de caras com um grito espantoso. 
O corao deve quase parar! Senhor Ambert...
 - Os elefantes tambm so seres vivos com nervos. Inclusive com 
nervos delicados...
 - E o que significa isso?
 - Sissy e Beata esto enjoadas por causa do mar.
 - Era s o que faltava! - gritou o condutor Willi Kempen. - Elas 
tambm vomitam?
 - Por enquanto no.
 - Mas podem vomitar?
 - Bem, elas so mamferos. Como eu e voc.

 - Obrigado. - Agitado, Teyendorf tragou o cigarro. - Portanto, 
que fazer? Devem parar esses gritos de trombeta!
 - No se pode dar um n na tromba de um elefante, senhor 
comandante! - Ambert gritou horrorizado. - Se elas no estivessem 
enjoadas, estariam quietas.
 - Chame o Dr. Paterna aqui em cima, Kempen. - Teyendorf ficou 
andando de um lado para o outro em sua imensa sala de estar com 
elegante mobilirio e paredes revestidas de madeira. Holletitz 
tentou uma piada, afinal essa era sua profisso:
 - A formiguinha parou na frente de um elefante e disse: "Ei, e 
se a gente se amasse agora, ento..."
 - Pare com isso, Holletitz! - Teyendorf interrompeu de modo 
cortante. - No podemos subestimar essa coisa com piadinhas. As 
elefantas esto enjoadas... alis, como  que pode, Sr. Ambert? 
Com esse mar tranquilo!
 - Elas so criaturas extremamente sensveis. Todo mundo sabe que 
os elefantes tm almas bastante delicadas. 
 - Quer dizer ento que isso pode significar que elas vo ficar 
cada vez mais barulhentas e daro suas trombeteadas em espaos de 
tempo cada vez menores, sujando todo o seu ambiente e, vamos 
supor que o caso seja grave, ficaro furiosas e demoliro o 
poro. As paredes e portas foram construdas prevendo-se casos 
normais; mas quando dois elefantes desse calibre se enraivecem, 
eles derrubam portas e paredes como se fossem de papelo. No 
podemos nem acorrent-las! - Teyendorf esmagou o cigarro.
- Mais tarde enviarei um telex para a companhia de navegao. Do 
tipo que eles nunca leram antes!
 Bateram na porta. O Dr. Paterna, mdico de bordo, entrou no 
camarote do comandante. Encarou admirado a reunio dos 
cavalheiros visivelmente agitados.
 - Aconteceu alguma coisa? - perguntou ele de imediato.
 - De quantos medicamentos precisa um elefante com enjoo do mar? 
- perguntou Teyendorf.
 O Dr. Paterna virou a cabea e encarou Willi Kempen. Ser que o 
velho est querendo gozar-me? Mas essas caretas estariam srias 
demais para isso.
 - Na veterinria, pelo menos  o que eu acredito, calcula-se a 
quantidade segundo o peso do paciente. - O Dr. Paterna estava um 
tanto consternado. - De que se trata?
 - De dois elefantes com enjoo do mar - disse Riemke.
 - No compreendo...
 - Temos l embaixo no convs C dois elefantes enjoados para 
tratar. - Teyendorf esfregou as mos. - Sim, o senhor arregala os 
olhos, doutor. No existe nada que a nossa companhia de navegao 
no torne possvel! Este aqui, o Sr. Claude Ambert,  o tratador. 
Ele acabou de me notificar que Sissy e Berta so criaturas to 
sensveis que at o mais leve marulho faz tremer seus corpos de 
toneladas de peso.
 -  verdade - disse o Dr. Paterna srio.
 -  verdade o qu? - balbuciou Riemke.
 - Os elefantes so criaturas delicadas. Mas o que  que eu posso 
fazer?
 - Voc deve dar um remdio contra o enjoo do mar para Sissy e 
Berta.
 -  impossvel, senhor comandante.
 - Por qu?

 - Para deixar dois elefantes em condiSes de navegar... bem, no 
tenho cinquenta quilos de medicamentos aqui. A farmcia do navio 
est montada para tratamento mdico de seres humanos. Eu desisto.
 - Voc ouviu, Sr. Ambert? - Teyendorf voltou a dar suas passadas 
de parede a parede. - Todos ns desistimos dos seus elefantes. O 
que se pode fazer? E o que pode acontecer se no fizermos nada?
 - Pelo amor de Deus! - espantado, Ambert cerrou os punhos.
- Alguma coisa precisa ser feita! Sissy e Berta podem ter um 
ataque do corao. Os elefantes tm o corao instvel.
 - Seria uma soluo - disse Riemke de modo seco. - Ainda no 
temos bife de elefante no cardpio.
 - Eu s ouo brincadeiras estpidas em toda a parte. - Teyendorf 
lanou um olhar incisivo para o Dr. Paterna. - Doutor, trate de 
pensar nalguma coisa!
 - Bem, se eu der cinquenta comprimidos de dramamine num balde de 
gua a cada paquiderme, deve fazer algum efeito. Mas no vai dar 
para aguentar muito tempo. So cem pastilhas por dia.
 - S at Acapulco - disse Flesch, o director de cruzeiro 
encarando o rosto espantado de Ambert.
 - Isso... isso tem algum efeito colateral?
 - Sim. Os comprimidos deixam a criatura cansada.
 - E o que farei com elefantes cansados? - berrou Ambert: - Devo 
fazer uma apresentao aqui. Sissy e Berta devem danar rumba.
 - Nesse caso, elas no vo danar rumba nenhuma! - Teyendorf 
respondeu com outro grito, facto incomum em seu jeito em geral
tranquilo. - Elas no se apresentam e dormem at Acapulco.
 - O corao delicado delas...
 - Pare com isso! - Teyendorf fez o punho sibilar no ar. - Os 
elefantes vo receber o balde cheio de dramamine,  uma ordem do 
comandante, entendido?
 - Nesse caso, peo permisso para dormir junto com meus animais.
- Ambert tremia de agitao. - Devem montar uma cama de 
emergncia ao lado deles.
 - Tudo o que quiser, Sr. Ambert... mas trate de manter seus 
bebs gigantes bem calmos! - Teyendorf olhou na direco de 
Riemke, o director de hotel. - Qual explicao voc vai dar aos 
dois cavalheiros a respeito dos gritos?
 - Trombetas... - objectou o acanhado Ambert.
 Mas o Sr. Riemke tinha uma outra soluo:
 - J andei pensando nisso. Explicarei que a trave de uma roldana 
afrouxou um pouco provocando um guincho do cabo de ao.
 - Mas isso  uma babaquice completa!
 - Para ns, claro. No entanto, esses dois cavalheiros vo 
acreditar. Sobretudo se deixarmos plausvel para eles que um 
navio vive com centenas de barulhos que um leigo jamais saberia 
explicar.
 - Vamos tentar. - Teyendorf fez um aceno curto com a cabea. - 
Obrigado, meus senhores.
 Na escadaria l fora, o Dr. Paterna pousou a mo no ombro de 
Ambert.
 - Vamos at o hospital agora e depois at suas amadas. 
Prescreverei a menor dose possvel.
 - O senhor vai envenen-las, doutor. Ser que no bastam vinte e 
cinco comprimidos por elefante?

 -, podemos testar. Portanto, vamos comear ento com vinte e 
cinco pastilhas.
 - Obrigado, doutor. - Ambert ficou com os olhos marejados de 
lgrimas. - Sissy e Berta so todo o capital que tenho, so minha 
vida. Levaram trs anos para aprender todos os nmeros e truques. 
As duas tornaram-se minhas filhas. Com elas posso conversar como 
converso com o senhor, doutor. E as duas me respondem. Compreendo 
cada som que fazem. Doutor, devemos trat-las com todo cuidado.
 - Com luvas de veludo. - O Dr. Paterna deu um sorriso 
tranquilizador. - Afinal, so senhoritas, no  mesmo? E a minha 
especialidade  o tratamento compreensivo das damas.

O casal von Haller tinha uma noite tranquila atrs de si.
 No era de se admirar: o Sr. von Haller embriagara-se antes no 
bar Atlantis com tudo a que tinha direito, j na primeira noite a 
bordo apalpara as ndegas de trs comissrias, coisa que elas 
encararam de maneira educada, mas transmitiram a notcia com toda 
a rapidez, e depois foi arrastado para a cabina 156, pendurado no 
brao de sua esposa, uma mulher de medidas impecveis e que sem 
dvida nenhuma havia sido uma beldade cheia de paixo contida nos 
anos da juventude.
 Ele era um alegre senhor idoso, na casa dos setenta, um 
conversador charmoso e espirituoso, cuja esclerose cerebral fazia 
com que contasse tudo trs vezes, sem - Coisa que deve ser 
elogiada - mudar coisa alguma. Tinha uma postura erecta - "sou um 
antigo membro da cavalaria, ficava sentado na sela como um dois 
de paus, a coluna bem esticada, o olhar para a frente, para o 
inimigo!" - e cabelos grisalhos ondulantes que lembravam o jeito 
de Einstein. E havia mais uma coisa que certamente ningum sabia 
a bordo,  excepo do comandante: ele usava um nome falso.
 O Sr. von Haller era da nobreza, uma alteza, era o prncipe 
Friedrich Enno von Marxen, e sua espigada mulher chamava-se 
Juliane Herbitina, princesa von Marxen, nascida em Oyen e cujo 
nome de solteira era von Oyen. E com esse nome e tambm para no 
despertar outras coisas, as altezas viajavam como von Haller, 
metendo-se pura e simplesmente na aristocracia mais baixa.
 Portanto, a noite havia sido tranquila, o prncipe estava 
sentado na beirada da cama escutando a mulher cantarolar no 
banheiro ao lado. Depois ela bufou debaixo do chuveiro qual um 
hipoptamo emergente e gritou:
 - Pode vir agora, Friedi!
 O prncipe suspirou e continuou sentado na beirada da cama. 
Havia quarenta e cinco anos que ela o chamava de Friedi, desde o 
primeiro beijo no jardim do castelo Herrschenhain, e ele no 
conseguira dar um fim a esta palavra imbecil que soava como se 
fosse um som de linguagem de beb. Do ponto de vista estritamente 
psicolgico, este fora um dos estmulos que o transformaram no 
que ele era agora.
 A princesa Juliane Herbitina - em geral, a alta aristocracia 
adorna-se com nomes estranhos - saiu do banho desnuda. Nela tudo 
era gigantesco: os seios, os quadris, as coxas, as ndegas, 
resumindo: uma montanha de carne que no se podia abranger com um 
olhar. E mesmo assim no parecia gorda nem rechonchuda, pois tudo 
nela era bem proporcionado, combinando-se numa harmonia completa; 
s que rasgava qualquer
fita mtrica.

 Ao contemplar essa viso, o prncipe suspirou mais fundo ainda e 
andou descalo pelo tapete do cho.
 - Que propSe para hoje, meu tesouro? - perguntou ele.
 - Vamos ficar com a combinao violeta, Friedi. - Ela passou por 
ele, o cho tremeu sob cada passo dado, e olhou pela janela o mar 
l fora.
Antigamente, a parte traseira dela induzia a que ele saltasse de 
modo espontneo e mostrasse a ela pela milsima vez como tudo 
acontecia l fora, na natureza, mas esses tempos haviam passado. 
Nem mesmo a mais intensa lembrana produzia alguma excitao e as 
fotos das revistas pornogrficas eram contempladas por ele como 
se fossem reproduSes de quadros de Rubens. Ainda havia apenas 
uma coisa que ainda o estimulava um pouco em seus setenta e trs 
anos, dando um leve indcio de como devia ser antes nos dias 
nublados. E era sobre isso que estavam falando agora.
 - A violeta, minha querida? - perguntou o atencioso prncipe. - 
Como queira. Vamos comear.
 - Estou vendo peixes-voadores. Ah, como  bonito! - Ela coou a 
ndega direita, dura como mrmore, e depois deu um tapa com a mo 
espalmada. Pairava no ar o aroma de um perfume extico. Os 
conhecedores diriam: trata-se de gengibre branco. - Tome o banho 
primeiro, Friedi.
-  para j, querida.
 Ele entrou no banheiro arrastando os ps, postou-se debaixo do 
chuveiro, esfregou-se com gelia de banho massageando-se um 
pouco. Com isso, conseguiu meia ereco, alegrando-se como uma 
criana que ganha um brinquedo e, todo encharcado como estava, 
correu de volta ao quarto.
- D s uma olhada nisso! - gritou com voz trmula. - Um Marxen 
jamais fica velho!
-  o ar marinho que faz isso, Friedi. - A princesa lanou apenas 
um olhar rpido naquele acontecimento, tornou a coar a ndega 
direita e, com um sorriso sarcstico, ficou vendo o prncipe 
virar-se diante do espelho da parede, at que o motivo da 
enftica alegria comeasse a murchar de novo.
 - No seja infantil, Friedi - disse a mulher enquanto ele 
continuava a girar diante do espelho. - Vamos tomar o desjejum. 
Estou com fome. V enxugar-se.
 O prncipe assentiu, um pouco tristonho diante da rpida 
transitoriedade, voltou arrastando os ps para o banheiro e 
enxugou-se. Enquanto isso, a princesa retirou do armrio as meias 
femininas violetas, uma liga violeta com tiras guarnecidas com 
pregas tambm violetas e um suti transparente da mesma cor. 
Colocou tudo lado a lado na cama do prncipe e, em seguida, tirou 
do armrio um terno preto, uma camisa social, meias masculinas e 
tudo mais que um homem usa.
 Com gestos lentos, ela vestiu o traje masculino, completo com 
gravata e sapatos, e depois foi sentar-se no banquinho acolchoado 
junto  janela. Os peixes-voadores continuavam a cintilar diante 
da janela, com o sol reflectindo-se nas barbatanas transparentes. 
O Atlantis deslizava de modo quase imperceptvel pelo mar de um 
azul quase incrvel e de ondas suaves.

 O prncipe saiu do banheiro e comeou a vestir-se, colocando 
primeiro o suti. Seguiram-se as ligas e, por ltimo, ele rolou 
as meias pelas pernas. Ele ofegava enquanto se vestia, respirava 
pesado e, depois de vestir tudo, sentou-se na cama com postura 
empertigada, na pose lasciva e provocante de uma puta de luxo. 
Com as pernas cruzadas e tambm um pouco esticadas, o dorso um 
pouco jogado para a frente oferecendo a escassa pelugem grisalha. 
Mas seu rosto estava irradiante, sua cabea parecia francamente 
bela. Dava para se imaginar que na juventude ele devia ter 
possudo uma figura imponente, acentuada, aristocrtica.
 A princesa olhou para ele e bateu com o n do dedo no tampo da 
mesa.
 Um calafrio percorreu o corpo do prncipe. Suas coxas abriram-se 
ainda mais.
 - Entre! - gritou ele. Sua voz soou um tanto afectada. - A porta 
est aberta, querido.
 A princesa vestida com trajes masculinos levantou-se do 
banquinho e andou at a cama. Por sua postura, maneira de 
caminhar e expresso, podia-se ver que ela interpretava o papel 
entediada, petrificada pela rotina e hbito, assim como quem 
escova os dentes e gargareja pela manh.
 - Voc est de novo encantadora, meu docinho - disse ela. - De 
prender a respirao. Voc me deixa louco com esse seu corpinho. 
Eu podia virar um animal de rapina e parti-la ao meio! 
 - Faz isso... faz isso... - balbuciou o prncipe caindo para 
trs, sobre os travesseiros, com as pernas bem escarranchadas. - 
Ele pertence a voc... tudo lhe pertence, somente a voc... voc, 
homem alto e forte; voc, Hrcules; voc, deus grego; voc, 
centelha de fogo... Aniquile-me com seu amor! Liquide-me! 
Ohhhhh...
 Animado, o prncipe fechou os olhos, o canto da boca tremia. Com 
um ar de entediada, a princesa tirou a gravata, torceu-a 
transformando-a numa corda de seda e comeou a bater no prncipe 
com ela. Este estertorava de prazer curvando-se sob os golpes, 
empinando-se; e, quando a princesa inclinou-se sobre ele, enrolou 
a gravata em torno de seu pescoo e estrangulou-o com todo 
cuidado, o prncipe soltou gritinhos
ofegantes que pareciam ser:
 - Ah, que prazer! Que prazer!
 De repente, ele relaxou, pressionou as pernas uma na outra e 
enterrou os dedos no lenol. A princesa tornou a empertigar-se, 
tirou a camisa pela cabe a e foi abrir o armrio, para procurar 
um vestido de pregas, arejado e florido, para o desjejum. Em 
virtude de sua potente silhueta, ela possua a coragem para usar 
algo assim, mas os condes von e zu Oyen sempre foram sujeitos 
corajosos.
 O prncipe tornou a sentar-se ainda respirando pesada e 
ofegantemente. Seu rosto reflectia o prazer. 
 - Como estive, meu amor?
 - Muito bem. Mas a expresso centelha de fogo foi nova.
 - O ar marinho. Foi voc quem disse, meu amor. O ar marinho me 
deixa excitado. - Ele livrou-se do suti violeta; abriu bem os 
braos como quem pratica a ginstica matinal, contraiu-os e 
tornou a abri-los, enquanto observava a mulher que se vestia. - 
Voc tem uma bunda esplndida, minha linda.
 - Trata de se vestir logo, estou com fome. - A princesa ps o 
vestido de pregas e contemplou-se com ar crtico no imenso 
espelho de parede.

- A propsito, vi uma comissria que  do tipo exacto que lhe 
agrada. Alta, com jeito de rapaz e magra, cabelos cortados  
joozinho. Vestida com roupas de homem... seria o seu ideal! 
 - Fale com ela, meu tesouro. - O prncipe deu um salto da cama.
- Fale logo com ela! Oferea-lhe um bom preo. - Ele foi at o 
banheiro, tirou as ligas e meias, enxugou-se e ento voltou a ser 
o velho de pele descorada e enrugada, braos finos e sem msculos 
e penugem grisalha. - Mande-a vir assistir amanh de manh. Ah, 
voc tem de mostrar-me quem ... Cabelo  joozinho, um pajem 
delicado... que maravilha!
 Meia hora depois o Sr. e Sra. von Haller apareceram no 
restaurante, um casal elegante e distinto que o prprio 
representante do comissrio-chefe conduziu a uma mesa ainda 
livre, onde ele puxou a cadeira para a veneranda senhora.
 O prncipe esfregou as mos qual criana que recebe um presente, 
prendeu um monculo no olho esquerdo e disse com o prazer de quem 
sabe gozar a vida:
 - Quatro ovos mexidos com champinhon e duas fatias de presunto 
de Praga. Alm disso, ch, meio louro, e uma canequinha de rum. E 
torrada... sim, claro, torrada, bem douradinha, por favor. - 
Recostou-se na cadeira, lanou um olhar irradiante para a mulher 
e acrescentou: - Que lindo dia, meu amor. Uma viagem martima 
como essa no pode ser substituda por coisa nenhuma.

Por volta das nove e meia da manh, a voz do oficial de segurana 
ressoou pelos alto-falantes de todas as cabinas, de todos os 
corredores, salSes, bares e conveses:
 - Pedimos sua ateno para um importante comunicado. As 
determinaSes internacionais de segurana prescrevem que se 
realize um exerccio de emergncia para o caso de necessidade, no 
incio de cada viagem martima. Pede-se a todos os passageiros 
que, ao soar o sinal de sirene prescrito, trs vezes trs rudos 
longos, vistam as roupas de salvamento que se encontram nos 
armrios, venham at o tombadilho e concentrem-se sob os 
respectivos botes salva-vidas. O nmero dos botes est escrito 
nas roupas de salvamento. Ali chegando, nossos oficiais lhes 
explicaro as medidas para os casos de emergncia e lhes daro 
alguns conselhos. Repito: as determinaSes internacionais de 
segurana...
 Por um terrvel acaso, justamente Oliver Brandes encontrava-se 
nesse minuto no banheiro de sua cabina.  bem verdade que ele 
ouviu a voz saindo do alto-falante da cabina atravs da porta 
fechada, mas no compreendeu as palavras. Ao correr com as calas 
ainda arriadas para o quarto, houve um estalido e a voz 
desapareceu.

 Oliver Brandes engoliu um dos comprimidos que o Dr. Paterna lhe 
dera, empurrou-o com suco de laranja e depois foi para o convs. 
Posto que todas as espreguiadeiras em volta da piscina 
estivessem ocupadas, ele subiu a escada que dava ao convs 
olmpico e ocupou uma cadeira da ltima fila, bem encostada na 
parede, para no ser obrigado a ficar olhando o mar. S o leve 
movimento das ondas, o suave mergulhar e ascender do navio que se 
manifestavam no horizonte, aparecendo e sumindo na amurada, 
bastavam plenamente para provocar-lhe uma sensao opressiva no 
estmago. Brandes deitou-se rapidamente na imensa toalha que o 
comissrio de convs lhe dera, puxou para cima da testa o chapu 
de linho branco e adormeceu. Ao seu lado, uma senhora 
esfregava-se com leo de bronzear que exalava um forte cheiro de 
coco. Na fila de espreguiadeiras  sua frente, um senhor gordo 
relatava seus padecimentos da prstata sem a menor cerimnia e 
trocava experincias com outros cavalheiros. 
 "Nesse trecho ao longo das costas californiana e mexicana, com 
esse mar liso e cu azul e ensolarado, nenhum navio pode 
naufragar, pensou Oliver Brandes satisfeito. Aqui no existe 
nenhum iceberg, como ocorreu outrora com o Titanic, e os 
perigosos furacSes s acontecem nos mares do Sul. Mas ns ainda 
chegaremos l", e, ao pensar nisso, seu corao apertou-se de 
novo. Oliver Brandes havia visto alguns filmes sobre furacSes e 
tormentas, nos quais casas inteiras eram atiradas para o ar, 
automveis transformavam-se em bolas, ondas da altura de prdios 
varriam a costa e a terra submergia na gua. Quando um navio 
entrava numa coisa assim, de nada adiantavam as oraSes. De 
qualquer modo, Brandes estava firmemente convencido disso. Neste 
contexto, ele props-se dar um pulo at o assistente espiritual 
evanglico de bordo, o pastor Gnter Wangenheim, para conversar e 
perguntar se, em caso de naufrgio do navio, ele poderia ir at 
l para rezar.
 A sirene soou s dez em ponto, trs longos sons, trs vezes, um 
atrs do outro. Oliver Brandes acordou sobressaltado na 
espreguiadeira e, com um horror vazio, viu seus vizinhos sarem 
correndo e muitos passageiros, j com os salva-vidas amarelos no 
pescoo, apressarem-se pelas escadas e conveses. 
 - Eu bem que adivinhei - Brandes balbuciou e continuou deitado 
rgido como um pedao de pau. - Eu bem que sabia! Mas j agora? 
Oh, meu Deus, por que tinha de acontecer?  a minha primeira 
viagem de navio... e ele mergulha nas profundezas do Pacfico.
 O comissrio de convs foi at ele e, na opinio de Brandes, 
dando uma impresso de serenidade.
 - O senhor deve pr o salva-vidas agora mesmo e ir at o local 
de seu bote.
 - Ser que isso faz sentido? - Oliver Brandes cruzou as mos. 
Ele j havia lido muito a esse respeito. - Primeiro mulheres e 
crianas... eu sou solteiro, vou por ltimo. No faz sentido.
 O comissrio no o entendeu direito e estendeu-lhe a mo para 
ajud-lo a levantar-se.
 - a prescrio, meu senhor. Por favor, v agora mesmo  sua 
cabina, ponha o salva-vidas e dirija-se ao local de seu bote.
 - Mas ele tem lugar suficiente.? - balbuciou Brandes. 
 - Nossos botes e pranchas de salvamento podem receber o dobro... 
mas isso o senhor ainda vai ouvir.
 Brandes levantou-se, desceu a escada que dava para o seu convs 
e cruzou com os passageiros usando os salva-vidas, que se 
dirigiam ao tombadilho. Dois oficiais tambm passaram por ele: 
usando limpos uniformes brancos e sem salva-vidas. Claro, pensou 
Brandes. A tripulao por ltimo. E o comandante fica l em cima 
na ponte, leva a mo ao quepe batendo continncia e afunda com 
seu navio. J havia visto isso duas vezes no cinema e ficara 
profundamente comovido. O comandante e seu navio... fiel at  
morte.
 Na cabina, ele enfiou o salva-vidas pela cabea, viu que este 
tinha o bote nmero 4 e subiu at o tombadilho. Ainda no estamos 
adernando, pensou ele confiante. Isso  bom, pois o pnico no se 
espalha to rpido. Talvez eu at sobreviva.

 Todos os companheiros de infortnio j se encontravam reunidos 
sob o bote 4. Brandes admirou-lhes a disciplina, o humor macabro. 
Eles riam e conversavam, alguns inclusive fumavam ou tiravam 
fotos uns dos outros. O fotgrafo de bordo tambm andava de um 
lado para o outro tirando fotografias de casais junto  amurada 
ou de grupos alegres. Brandes achou bem macabro o facto de se 
marcar daquela maneira um perigo de morte. Recostou-se na parede 
e fechou os olhos, desamparado.
 - Com que ento voc est a! - ele ouviu uma voz conhecida. - 
Eu o estava procurando.
 - Doutor, que bom que est aqui! - Brandes comeou a tremer. - 
Vai ficar perto de mim, no vai? Tambm est no bote 4? Graas a 
Deus! Quanto tempo isso ainda vai levar?
 - Talvez uns vinte minutos, no mais. - O Dr. Paterna endireitou 
o salva-vidas de Brandes e apertou o lao. - Depois estar livre.
 - Livre... - Oliver Brandes engoliu em seco com trejeitos 
espasmdicos. - Imagino que deve ser terrvel morrer afogado.
 - S os primeiros minutos  que so ruins. Assim que a gua 
entra nos pulmSes...
 - Estou passando mal. - Brandes revirou os olhos. - Acho que vou 
desmaiar... - O Dr. Paterna agarrou o brao de Brandes e 
arrastou-o at  porta da escadaria. O exerccio acabava para ele 
nesse momento, mas no seria necessrio lev-lo ao hospital. Esse 
tipo de histeria curava-se sozinha e, se Brandes tivesse um pouco 
de lcool na cabina, passaria rpido pela crise.
 Plido, Brandes deitou-se na cama, enquanto o Dr. Paterna 
buscava uma garrafa de vodca na cuba de gelo. Encheu meio copo e 
levou-o aos lbios de Brandes. Este arregalou os olhos como 
algum que est sufocando.
 - Beba!
 - Senhor doutor, vou vomitar...
 - No vai coisa nenhuma! Eu j havia pensado nisso, foi por esse 
motivo que o procurei por toda a parte.
 - S mais vinte minutos. O senhor no quer salvar-se, doutor? 
No precisa ficar aqui embaixo ao meu lado.
 - Senhor Brandes, trata-se de um exerccio. S isso! Claro que o 
senhor ouviu o comunicado...
 - No ouvi coisa nenhuma. A bem da verdade, claro que algum 
falou no rdio de bordo, mas nesse momento eu me encontrava no 
banheiro.
 - Trata-se apenas de um exerccio para o caso de necessidade. 
Para que tudo possa transcorrer rpido, sem dificuldades ou 
pnico.
 - Eu sei. - Brandes estava deitado de olhos fechados na cama, 
com respirao funda e apressada. O meio copo de vodca comeou a 
fazer efeito, sua cabea girava. Parecia que havia gua entrando 
por um rombo. Um rombo... o navio afundava... - S est querendo 
tranquilizar-me, doutor. Obrigado. Estou sereno no fim. Eu vi que 
ia acontecer.
 - Sou uma pessoa educada, Sr. Brandes - disse o Dr. Paterna de 
modo rspido -, e no existe nenhum paciente que possa queixar-se 
de mim. Mas eu gostaria de lhe dar um soco na fuga, s como 
terapia. Voc no passa de um frouxo histrico! Daqui a pouco 
vir o outro sinal: fim do exerccio.
 - O senhor sabe o que a orquestra tocou no Titanic no momento do 
naufrgio? O coral Mais Perto do Senhor, meu Deus... Afundaram 
tocando isso. O que vo tocar aqui?

 - Leve-me na viagem, comandante... - disse o Dr. Paterna com um 
jeito sarcstico.
 - Muito engenhoso.
 - Acho que voc ainda precisa tomar uma vodca qudrupla. Senhor 
Brandes, nunca antes vi um sujeito como voc a bordo. Como  que 
vou tirar-lhe esse medo patolgico?
 - Ficar tudo bem quando eu voltar a pr os ps em terra: O mar 
 terrvel.
 - Por que seus companheiros de coral no o seguraram pelo brao? 
Afinal, onde estavam eles no momento do alarme?
 - Se eles tiverem enchido a cara, nem vo notar que o navio est 
afundando. Ningum vai conseguir afast-los do copo.
 - Enchido a cara? J s dez da manh?
 - Mas que importncia tm as horas? - Brandes ficou mais calmo, 
a respirao j no estava mais estertorante, a vodca circulava 
por seu crebro. - O senhor ainda vai conhecer meus camaradas, 
doutor.
 - Nada disso! - o Dr. Paterna levantou-se da beirada da cama e 
olhou Brandes de cima. Muitos ps arrastavam-se no corredor, uma 
algazarra de vozes passava pela porta. O exerccio de alarme 
acabara. Agora os novatos tomaram conhecimento atravs dos 
oficiais sobre a segurana do navio que era quase insubmergvel. 
E se de facto ele naufragasse, haveria lugar para todos nos botes 
de salvamento. A segurana era a oferta mxima a bordo. - 
Acredita agora que tudo no passou de um exerccio? - perguntou o 
Dr. Paterna.
 - Sim. - Brandes encarou-o, splice. - Desculpe-me, doutor. Mas 
no posso fazer nada. Eu sou assim. Histrico, no?
- Bem, eu chamaria a coisa de sndrome doentia de medo. 
- Vocs, os mdicos, so sempre to amveis com suas expressSes 
especiais. - Brandes levantou-se, mas tornou a deitar-se no mesmo 
instante. O quarto comeou a girar, a vodca derrubara-o por 
completo. - Como  que posso ser ajudado?
 - Voc est noivo,  casado?
 - No. Tenho uma namorada, mas no  um relacionamento firme. 
Porqu, doutor?
 - Voc devia travar conhecimento com alguma pessoa simptica 
aqui a bordo. Dentro de trs dias haver um encontro de solteiros 
no bar Olmpia no qual as pessoas podero conhecer-se  vontade. 
Voc vai ver, uma linda mulher ao seu lado far milagres.
 - Se eu comparecer ao encontro de solteiros, o coral inteiro vai 
cair na minha pele. Eles vo aprontar e me deixar numa situao 
difcil.
- Voc tem sorte com as mulheres, Brandes...
- Depois ficarei desmoralizado pelo resto da viagem.
 - Mas  claro que voc est acima dessas criancices, seja 
soberano! Tem quatro esplndidas semanas pela frente, deve 
desfrutar delas, mais nada! E se seus colegas de coral se 
tornarem renitentes, basta citar-lhes Goltz von Berlichingen.
 - Vou tentar, doutor. - Brandes estendeu a mo ao Dr. Paterna 
mas continuou deitado. Na verdade, estou meio bbado, pensou ele. 
Meio copo de vodca s dez da manh... Afinal, no sou nenhum 
musique russo...
- Eu lhe agradeo.
 O Dr. Paterna deu-lhe um aceno amigvel e saiu da cabina. No 
corredor encontrou o segundo-engenheiro que estava descendo  
sala de mquinas.

 - Algum caso grave? - perguntou ele.
 - De jeito nenhum. Falta-lhe apenas uma experincia 
bem-sucedida.
 - D- a ele o nmero da cabina da Sra. White!
 Os dois deram uma gargalhada e saram em direcSes diferentes.
 Oliver Brandes dormiu. Teve um sonho clssico: uma belssima 
mulher nua saiu do mar espumante. Afrodite, a deusa nascida da 
espuma.
 Brandes mergulhou por completo nesse sonho, soltando grunhidos 
de prazer.

Os gmeos Fehringer preparavam-se para o almoo.
 No haviam tido nenhuma dificuldade com o caf da manh. Herbert 
comeu no restaurante, Hans mandou que lhe servissem o desjejum na 
cabina. Posto que o comissrio de convs que distribua o caf da 
manh para os passageiros de sua copa no tinha a menor idia do 
que acontecia ao mesmo tempo no restaurante, jamais daria nas 
vistas essa duplicidade matinal. Claro que tambm era possvel se 
pedir para que o almoo e jantar fossem servidos na cabina, mas 
em geral isso s era feito para os doentes. Era muito raro que 
uma pessoa sozinha ou mesmo duas quisessem ter uma refeio 
ntima. Nesses casos, a cabina transformava-se numa chambre 
spare e o comissrio num silencioso confidente e cmplice.
Quando algum encomendava  noite uma garrafa de champanhe com 
duas taas, canaps, um cesto cheio de frutas frescas e pastis 
torradinhos, qualquer comissrio sabia que s poderia entrar 
nessa cabina se fosse chamado.
 Os gmeos Fehringer haviam dividido a viagem de tal maneira que 
na primeira semana ocorresse a "troca a jacto" no restaurante, na 
segunda semana um ficasse doente e comesse na cabina e na 
terceira semana tudo se repetiria com a mesma habilidade. O mais 
tardar nessa terceira semana. O comissrio de mesa j no podia 
mais compreender como uma pessoa era capaz de almoar e jantar 
duas vezes, sem ficar gordo como um porco.
 - Vamos verificar as horas - disse Herbert Fehringer como quem 
prepara um ataque. Ele era o gmeo "mais velho", havia visto a 
luz do mundo exactamente quarenta e sete minutos antes. Hans, 
chamado orele de "caula", respeitava essa hegemonia. - So agora 
12 horas e 53 minutos.
 - Certo.
 - s 13 horas,30 minutos eu me levanto da mesa, chego ao 
banheiro s 13 horas e 32 minutos e s 13 horas e 40 minutos voc 
se senta  mesa.
 - Entendido.
 Os dois postaram-se mais uma vez diante do espelho para 
verificar a roupa e a aparncia. O mesmo penteado, isso sem falar 
do rosto inteiro, da mesma camisa, mesma gravata, mesmo palet de 
tric, calas, meias, sapatos... no havia diferena alguma. 

 Os dois acenaram-se satisfeitos no espelho abrindo um largo 
sorriso. Essa era a terceira viagem de navio desse tipo e nunca 
antes houvera qualquer complicao. Eles sempre tomaram os 
maiores navios de cruzeiro, pois nestes, claro, uma pessoa 
perdia-se entre os seiscentos passageiros ou mais, com dois 
horrios de refeio e mais de dez conveses... Mesmo quando 
aparecia duas vezes. J no primeiro dia os dois haviam percebido 
que o navio mais difcil seria o Atlantis, posto que quase a 
metade dos passageiros estava repetindo a viagem e se conhecia. E 
porque reinava uma agradvel atmosfera ntima no barco, apesar de 
seu tamanho. Era impossvel impedir que as pessoas se conhecessem 
o mais tardar aps uma semana, se no pelo nome, pelo menos de 
vista. Os passageiros trocavam cumprimentos amveis e at mesmo 
algumas palavras sem maiores compromissos nos bares... e era 
justamente a que residia o perigo para os gmeos Fehringer. Era 
possvel que algum descobrisse a dupla apresentao na troca no 
banheiro.
O jogo s estava ganho nesse dia quando um deles voltava ao 
restaurante e o outro encontrava-se na cabina.
 Herbert Fehringer deu outra longa tragada no cigarro. Formou-se 
uma brasa grande e, quando Herbert virou-se para a mesa, a brasa 
caiu de repente indo aterrissar na manga do palet de tric. Isso 
provocou um cheiro repugnante e queimou um pedao de tecido, por 
mais rpido que Herbert tenha sido ao bater a brasa. O palet 
estava estragado. Para que ocorresse a troca no restaurante, Hans 
tambm precisava chamuscar a manga de seu palet.
 - Mas que grande merda! - disse Herbert Fehringer. - No vou 
trocar de roupa outra vez! Voc vai l e eu banco o doente hoje. 
Em compensao trocamos  noite e voc fica na cabina. Ningum 
consegue melhorar de uma doena com tanta rapidez. Ento, amanh 
fazemos o giro normal.
 O destino deve ter actuado ali de alguma forma, pois esse almoo 
tornou-se decisivo para os gmeos Fehringer.
Hans Fehringer conheceu uma mulher, Sylvia de Jongh, no meio da 
multido de passageiros que esperava diante da porta ainda 
fechada do restaurante.
Foi como se ele tivesse sido atingido por um raio.

3

Aqueles que conheciam Sylvia de Jongh s podiam ficar fascinados.
 Era uma dessas raras mulheres que exercem um efeito narcotizante 
sobre os homens. A pessoa a via, ouvia sua voz, media seu corpo 
com os olhos, desfrutava do rebolar de seu andar e, assim, perdia 
o sentido da realidade. Era-se possudo por uma magia sedutora, 
enriquecida com os desejos mais loucos.

 Ao ver Sylvia parada ao lado do marido, com os longos cabelos 
negros presos  nuca com uma fita de veludo vermelho sangue, os 
seios aparecendo no decote fundo do vestido que apenas 
envolvia-lhe a silhueta com uma aurola de cor, Hans Fehringer 
respirou fundo e recostou-se na enorme vitrine da entrada do 
restaurante que, junto dos cardpios, continha tambm as fotos do 
mestre-cuca, do comissrio-chefe e dos anfitriSes. Hans viu que 
aquela magnfica mulher tambm o notara, pois um Fehringer no 
passava despercebido nem por sua altura e nem por seu magnetismo 
masculino e elegncia, mesmo sendo esta oriunda do catlogo de 
uma loja de ponta de estoque. Sempre depende de quem e como se 
veste alguma coisa; existem palets de tric feitos de cashmere 
que custam mais de quinhentos marcos e outros de tecidos 
mesclados por noventa marcos... uns caem no corpo como um saco, 
enquanto outros modelam o portador. Os olhares de Sylvia e Hans 
Fehringer cruzaram-se rapidamente; Hans ostentou um sorriso 
mgico nos lbios e Sylvia virou a cabea na mesma hora. O homem 
ao seu lado disse alguma coisa e olhou para o relgio... ainda 
faltava um minuto para que a porta do restaurante fosse aberta. 
Ele parecia estar criticando essa pedante manuteno do horrio, 
estava morto de fome; era um homem alto e pesado, visivelmente 
mais velho do que a mulher, com mos largas e dedos fortes.
 No fundo, ele no pode compreender quando Sylvia cedeu diante de 
seu inspido pedido de casamento cinco anos atrs aceitando ser 
sua mulher. Ainda hoje, ele se perguntava, de vez em quando, como 
tivera a sorte de possuir uma mulher to linda assim. Naquela 
poca, Sylvia fora  sua ferraria artstica a pedido dos pais, a 
fim de encomendar uma combinao de portas de trs abas de ferro 
batido. Ele fizera trs projectos, cada qual mais bonito do que o 
outro e, quando os pais se decidiram, ele e trs aprendizes 
puseram mos  obra com verdadeiro entusiasmo.
 A coisa comeara assim. O ferreiro artstico Knut de Jongh 
possua um bom nome conhecido alm-fronteiras; j nessa poca ele 
dava ocupao para vinte e quatro pessoas - hoje em dia, para 
sessenta e nove - e havia trs anos que Knut era vivo. Sua mulher 
morrera afogada durante as frias numa ilha dinamarquesa, de 
ataque do corao, pelo que os mdicos disseram mais tarde; uma 
situao trgica para a qual no havia nenhuma sada.
 O casamento com Sylvia, ele constatou com muita rapidez, era um 
stress s. No porque Knut no conseguisse mais dar o que uma 
mulher bela e jovem ansiava da vida, por causa da diferena de 
vinte anos entre as idades dos dois, mas porque sempre que 
aparecia com Sylvia em qualquer lugar, ele era obrigado a 
testemunhar a rapidez com que os outros homens se imbecilizavam. 
Na verdade, Knut no tinha a menor razo para sentir cimes, pois 
Sylvia parecia ser uma esposa fiel, mesmo gostando de flertar. A 
despeito disso, ele ficava profundamente incomodado com o facto 
de os outros homens devorarem sua mulher com os olhos.
 Para no deixar que surgissem tentaSes de qualquer tipo, Knut 
de Jongh tomava plulas para aumentar a potncia, engolia 
cpsulas de protena e, duas vezes por semana, era massageado 
para estimular a circulao sangunea... tudo isso s para poder 
carregar Sylvia nas mos largas at  cama ou o sof, a fim de 
demonstrar que a melhor idade de um homem era aos cinquenta e 
dois anos.

 Mas j no ia mais aos banhos de mar com Sylvia. Ali ele no 
tinha um minuto de tranquilidade quando Sylvia passeava na praia 
vestida com um minsculo biquini. Assim como os ursos seguem uma 
trilha de mel, os homens tambm trotavam atrs dela. Ele pensou 
algumas vezes se no devia usar a fora adquirida na bigorna e na 
mesa de ferreiro - nesse caso a praia ficaria atapetada de homens 
inconscientes -, mas depois tomou a deciso de afastar-se nas 
viagens de cruzeiro. Via-se muita coisa do mundo, podia-se 
vislumbrar o areal, a maior parte dos passageiros era mais velha 
do que ele e tinha Sylvia sempre sob controle. Quando Knut estava 
sentado ao lado dela, um tronco de homem vestido de smoking 
branco sob o qual podia-se divisar os msculos, lanando um olhar 
duro a cada sujeito que se aproximava da mesa, ningum ousava 
convidar a bela jovem para uma dana.
 Para Knut de Jongh, um navio era o lugar ideal para se passarem 
as frias.
 Treze horas. As portas de vidro abriram-se e os passageiros 
invadiram o restaurante como quem acabasse de passar por uma 
dieta de cura.
 Hans Fehringer tambm juntou-se  multido. Ele avanara um 
pouco e, no momento da abertura da porta, estava postado atrs da 
bela mulher.
No momento em que Hans Fehringer postara-se ao lado de Sylvia, 
Knut de Jongh acabava de dizer:
 - Ora, at que enfim! Treze horas em ponto. Obstinado como um 
tanque!
 A mulher arriscou um olhar sobre Hans pelo canto do olho. 
Jogando a cabea para trs e esticando-se. Ao faz-lo, os seios 
abaularam-se ainda mais sob o fino tecido do vestido. Ela no 
estava usando suti, os mamilos ressaltaram-se de modo evidente.

 Com imensa alegria, Fehringer viu que o casal tinha a mesa 
nmero 9, junto  janela, numa linha oblqua  sua mesa B 6. 
Coisa que lhe permitiu olhar a mulher o tempo todo, contemplar 
admirado cada movimento dela e lanar-lhe sorrisos. Isso no 
oferecia nenhum perigo, posto que o marido estava sentado de 
costas para ele. Inclusive, ao receber o vinho branco seco, Hans 
ergueu o copo e brindou-a. 
Ela no reagiu, seno que virou a cabea, olhou o mar pela 
janela, mas seus ps esgaravataram o tapete... um pequeno indcio 
de seu nervosismo. Mais tarde ento, ela brincou com o saleiro, 
leu o cardpio algumas vezes e, por cima da borda, lanou um 
olhar na direco de Fehringer.
Depois, rpido, como um estremecer de plpebras, sua cabea 
tornou a virar-se para o lado e Sylvia deu outra olhada no mar. 
Enquanto isso, Knut de Jongh comeu seis pratos do cardpio e 
deu-se por satisfeito. Um homem como ele precisava de uma boa 
base, como ele chamava, para vencer o dia. Depois da refeio, 
iriam andar no convs, deitariam sob a coberta do deque de 
desportos e tirariam uma saudvel sesta na espreguiadeira, 
embalados pelo quente vento mexicano. A propsito, trs vezes por 
semana - propor-se com toda firmeza - ele se retiraria  cabina 
aps a refeio, acompanhado por Sylvia, a fim de refutar o 
estpido mexerico a respeito da grande diferena de idade.
 Sylvia de Jongh comeu desconcentrada e muito pouco, apenas uma 
entrada e o prato principal, um peixe tropical frito, de carne 
branca e sem nenhum sabor de peixe. Em compensao, bebeu com 
razovel rapidez trs copos de Chablis, sempre virando a cabea  
esquerda em direco  janela, pois ao sentar-se recta na mesa 
diante do prato, seu olhar caa forosamente em Fehringer, 
sentado numa linha oblqua na frente dela. 
 Ela levantou-se logo aps o caf, que encerrava a refeio, e 
disse algo ao marido que acabara de acender um charuto estreito 
mas evidentemente caro. Via-se que ele estava querendo fumar com 
prazer e no tinha a menor vontade de ir embora nesse instante.

 Fehringer ouviu alguns trechos de palavras e acreditou ter 
compreendido "convs". A fascinante mulher desviou-se de seu 
olhar num gesto de evidente defesa e saiu do restaurante. Hans 
Fehringer seguiu-a alguns minutos depois e encontrou-a no 
elevador. Postou-se atrs dela, entrou na cabina depois dela e 
aguardou at que a porta se fechasse.
 - Que devo apertar? - perguntou ele enquanto ostentava um 
sorriso significativo.
 - Solrio, por favor.
 Sylvia ficou olhando um ponto fixo  sua frente e Hans Fehringer 
tornou a admirar-lhe a cabea e o incio dos seios. O perfume que 
ela exalava era acre e cheirava a limSes frescos.
 - O senhor  um descarado! - Sylvia disse de repente, sem nenhum 
rodeio. - Afinal, o que est imaginando? 
 A resposta  simples. 
 - Eu nunca vi uma mulher to linda como voc e Deus sabe o 
quanto j andei pelo mundo.
 - E por acaso isso  alguma razo para comportar-se desse jeito 
arrogante?
 - E de que outra maneira eu poderia expressar minha admirao?
 - No devia.
 - Voc est exigindo o impossvel.
 - E o que o senhor espera?
 - No daria para dizer dentro de um elevador e num prazo de dois 
minutos. - Hans Fehringer deu uma olhada no mostrador luminoso do 
aviso dos andares. - Solrio. Chegamos. Tem alguma coisa contra 
que eu tambm procure uma espreguiadeira no solrio?
 - Como passageiro o senhor pode deitar-se onde bem entender. S 
lhe peo que, por favor, no se sente ao meu lado. No lugar do 
meu marido.
 - Talvez eu tenha sorte e a cadeira do outro lado esteja vaga.
 - Eu achava que o senhor seria capaz de ter livres lado a lado, 
na segunda fila diante da piscina.
 - Segure-as - disse Fehringer. - Vou buscar as toalhas com o 
comissrio.
 Ela encarou-o com o rosto um pouco virado de lado, assentiu e 
sentou-se na espreguiadeira que lhe tocava, a do meio. Quando 
Fehringer voltou trazendo no brao as enormes toalhas vermelhas 
que serviam de base, Sylvia havia tirado a roupa e estava sentada 
na cadeira com um fantstico mai bem decotado. Era negro, s que 
no meio, debaixo dos seios, havia uma gigantesca papoula. Era 
mais refinado e atraente do que o menor dos biquinis.
 - Voc tem uma maneira de derrubar os homens que  quase 
criminosa - disse Hans Fehringer abrindo a toalha de banho sobre 
a espreguiadeira de Sylvia.
 - Bem, se isso lhe deixa intranquilo...
 - Fico intranquilo mesmo...
 -... ento  s trocar de lugar. Meu marido tem um cime 
doentio.
 - Com toda a razo. - Fehringer deslizou em sua espreguiadeira. 
Por um instante, ele pensou no irmo que o aguardava na cabina, 
pois de acordo com o planeamento a tarde pertencia a este. Mas 
aquela era uma situao excepcional  qual no se podia renunciar 
por causa de um acordo. - Se eu fosse ele s andaria com um 
cassetete recheado de chumbo. 

 - Ele no precisa disso. - Pela primeira vez surgiu um leve 
sorriso no rosto clssico e estreito de Sylvia. - Ele tem as 
mos. Isso basta.  ferreiro profissional.
 - Que interessante!
 - Hoje em dia temos uma fbrica de artigos de forja artstica 
com sessenta e nove empregados. A prpria televiso j fez um 
documentrio de meia hora sobre ns. Foi quando meu marido 
produziu as novas instalaSes do porto do castelo Bittelfeld, de 
acordo com documentos de 1643...
 - Prefiro o ano de 1984...
 - Por qu?
 - Porque este  o ano em que conheci a mulher mais linda do...
 - Pare com isso, por favor! Ou ser que voc acha isso muito 
original?
 - Olha, dizer a uma linda mulher o quanto ela  maravilhosa... 
ser sempre justificado em qualquer lugar!
 - Qual a sua profisso?
 - Negociante de carros.
 - Ah! - Sylvia tornou a sorrir. -  or causa disso que tem essa 
conversa mole. - Ela recostou-se, cruzou os braos na nuca e, ao 
faz-lo, esticou os seios mais ainda na direco de Fehringer. - 
Que marcas de carros?
 - Carroas de luxo. - Era uma mentira, mas que soava bem. - 
Temos o tipo de clientela que prefere uma Maserati como segundo 
carro. - Fehringer espreguiou-se na cadeira. - Ep. Seu marido 
est vindo pelo bar. Chegar aqui logo. Ns nos conhecemos?
 - No. No nos conhecemos. Por favor!
 Knut de Jongh avanou com mpeto, desabou sobre a 
espreguiadeira e tirou os sapatos com os prprios ps. Ainda 
estava cercado por uma aurola de fumaa de charuto. Deu uma 
olhada em Fehringer, mas este fechara os olhos como se estivesse 
dormindo.
 - Bem que voc poderia ter esperado mais alguns minutos - 
resmungou Jongh entre os dentes. - O sol no vai sair correndo.
 - No estou fazendo uma viagem de navio para ficar cercada por 
fumaa de charuto nenhum. - Sylvia sentou-se e comeou a 
besuntar-se de creme de bronzear. - Por que devo estar presente 
enquanto voc fuma? Eu gostaria de desfrutar de cada minuto do ar 
marinho.
 - Voc tem tempo para isso at Sidney. - Knut de Jongh ainda 
grunhiu algumas palavras incompreensveis para si mesmo, depois 
acenou para o comissrio de convs que passava apressado e gritou 
sem a menor cerimnia: - Uma aguardente e uma cerveja, 
comissrio! 
 Fehringer levantou a cabea de supeto como quem acorda 
assustado.
 - Que est havendo? - perguntou.
 - Desculpe-me. - Sylvia de Jongh parou de passar o creme de 
bronzear. - Meu marido pediu uma aguardente e uma cerveja.
 - E precisava acordar-me gritando?
 - No gritei coisa nenhuma. - Knut de Jongh lanou um olhar 
aborrecido para Sylvia e depois para Fehringer.
 - Mas eu fui acordado por ele.
 - Talvez o senhor tenha o sono leve. Por que no toma Valium?

 - Obrigado pelo conselho. E o senhor devia usar um abafador de 
som... - Knut de Jongh contraiu as maas do rosto, a clera ardeu 
em seu peito, mas ainda conseguiu controlar-se.
 - No estou com a menor vontade de comear uma discusso com o 
senhor - disse de modo rspido. - Estou neste navio para 
descansar e no para xingar as outras pessoas. - Knut fez um 
gesto amplo.
- O barco tem espreguiadeiras de sobra.
 Foi bem claro. Hans Fehringer olhou para Sylvia. Os olhos dela 
suplicaram-lhe para no dizer mais nada e ir embora. Mas tambm 
disseram: nos veremos de novo. Foi uma promessa muda, mas 
patente. 
 - O senhor tem toda a razo - disse Fehringer seco. - Tem 
lugares de sobra onde se pode sentar ao lado de pessoas 
agradveis.
 Levantou-se, puxou a toalha de banho e foi embora. Knut de Jongh 
seguiu-o com a vista, com um ar sombrio.
 - Sujeitinho malcriado! - vociferou ele. - Imagine se todos a 
bordo fossem assim!
 - Mas voc tambm no se comportou de maneira correcta. - Sylvia 
tornou a deitar-se toda besuntada de creme. - Voc gritou mesmo!
 - E por acaso eu devia correr atrs do comissrio para 
sussurrar-lhe o pedido? Meu Deus, como vocs so sensveis!
 - O negcio  que nem todo o mundo lida com ferro.
- Meu martelo transformou-me em milionrio e a voc tambm! 
- De Jongh deixou-se cair para trs. O revestimento da 
espreguiadeira soltou um rangido suspeito. - Bom. Dei um grito 
um pouco alto. E da? - ele estendeu a mo na direco dela s 
apalpadelas e conseguiu segurar-lhe a coxa. - Voc no acha que a 
gente devia ir correndo para a cabina, tesouro?
 - Hoje no, no primeiro dia... quero tomar sol:
 Ele suspirou, olhou para o cu sem nuvens e de um azul profundo 
e ficou esperando a aguardente e a cerveja. Enquanto isso, ficou 
tamborilando na coxa da mulher com a ponta dos dedos, isso tambm 
era um tipo de carinho  Jongh.
 Nesse momento, Hans Fehringer era recebido pelo irmo de um modo 
que no se poderia chamar de contente.
 - Onde  que voc estava, seu bundo? - perguntou ele. - Est 
atrasado mais de meia hora!
 - Desculpe-me - Hans Fehringer no teve a coragem de contar o 
conhecimento que travara com Sylvia de Jongh. Ele conhecia de 
antemo a reaco do outro. - O caf demorou tanto tempo...
 - Mais de meia hora? como voc sabe a tarde me pertence!
 - Eu o invejo! - Hans pensava em Sylvia. De repente, sentiu o 
peito arder. Que aconteceria se o irmo a encontrasse e passasse 
por ela sem prestar ateno? Posto que ela no podia suspeitar da 
existncia dos dois gmeos, ficaria completamente desconcertada. 
- Onde voc pensa em meter-se?
 - Vou ver: Onde houver lugar.
 - Onde se tem mais conforto  no convs do Lido. Protegido do 
vento, a piscina fica bem diante do nariz e, alm disso, um 
barzinho. O solrio  muito barulhento... devemos chamar a menor 
ateno possvel, Herbert.
 Herbert Fehringer, vestido apenas com um diminuto calo de 
banho, assentiu, vestiu o roupo de banho e pegou leo de 
bronzear, culos de sol e um leno.
 - No esquea de fechar  chave, Hans - disse ele.
 - Por acaso sou algum idiota?

 - s vezes .
 - Obrigado. A viagem est mesmo comeando muito bem! Quando  
que voc volta?
 - Por volta das seis. Hoje  dia do coquetel do comandante e, em 
seguida, haver o jantar de saudao. Traje de luxo. Smoking 
branco, quando vemos as jias de novo. 
 - E da?
 - Essa parece ser a nica diferena entre ns. - Herbert 
Fehringer tambm colocou o porta-moedas no bolso do roupo de 
banho. - Voc est pouco ligando para as jias, mas eu as amo. Eu 
posso parar diante de uma esmeralda como se estivesse vendo um 
quadro. - Ele abriu a porta, olhou no corredor. No havia nenhum 
comissrio  vista, podia sair sem ser observado. - Passe bem, 
irmozinho!
 Hans Fehringer fechou a porta atrs de Herbert, jogou-se em cima 
da cama e fechou os olhos. Que mulher!, pensou. E que homem 
nojento! Eis a a velha pergunta, que jamais pode ser respondida 
nem compreendida: por que as mulheres mais lindas tm sempre os 
maridos mais horrveis?
 Ele estremeceu. Bateram na porta da cabina. O comissrio.
 - Est tudo bem! - gritou Fehringer. - Eu gostaria de dormir um 
pouco.
 O primeiro dia a bordo. E ainda tinham muitos dias pela frente. 
At Sidney. O jogo de trocas durante semanas inteiras... essa era 
a viagem mais longa desse tipo que os dois haviam empreendido. 
Nos outros navios, os "exerccios" deles haviam durado no mximo 
trs semanas; quando tivessem superado essa viagem, saberiam que 
se podia viajar pelo mundo inteiro lanando mo desse truque.
 S no se podia fazer uma coisa: apaixonar-se. E era exactamente 
esse erro que Hans Fehringer estava cometendo agora. "A gente 
tambm vai passar por cima disso", pensou ele reagindo de maneira 
igual a todos os outros homens que, ao defrontarem-se com uma 
bela mulher, perdem uma parte essencial da razo.

4

O Dr. Schwarme encontrou Ludwig Moor no tombadilho.
 Moor agia como quem gozava de plenas condiSes de sade: 
marchava de um lado para o outro do convs com passos bem 
medidos. Com postura de um certo modo erecta - Cabea erguida e 
olhando para a frente, peito estofado, costas rectas, os braos 
pendurando de modo rtmico, o rosto cheio de uma profunda 
seriedade - ele desceu o tombadilho, fez uma acentuada e bizarra 
meia-volta na extremidade do convs e voltou marchando o mesmo 
trecho at a outra ponta. Ali, outra meia-volta e de novo 
caminhou pelo tombadilho at a prxima virada.
 O Dr. Schwarme ficou observando interessado aquela marcha que 
passou por ele duas vezes. Quando Moor passou por ele a terceira 
vez, o Dr. Schwarme dirigiu-lhe a palavra.
 - O que est fazendo?
 Moor seguiu marchando. No restou outra alternativa ao Dr. 
Schwarme, a no ser andar ao seu lado. Sentiu-se um idiota 
completo.
 - Estou andando um quilmetro - disse Moor, sem modificar a 
postura. 

 - Como disse?
 - Pelas manhs ou depois do almoo para facilitar a digesto. O 
senhor no l o planejamento do dia? Est escrito: "Corra um 
quilmetro com a nossa anfitri Brbara. Tombadilho, bombordo. 
Pelas manhs s..." Mas eu no vou participar disso como se 
estivesse num batalho. Prefiro andar esse quilmetro sozinho. 
No sou nenhum heri.
 - E agora vai querer fazer isso todos os dias?
 - Mas claro que sim, desde que no haja nenhum passeio em terra! 
Ah, esse ar marinho! Ele insufla os pulmSes,  o que lhe digo.
 - Algum comunicou-se com o senhor por causa do grito da noite 
passada? - o Dr. Schwarme marchava ao lado de Moor esperando que 
sua panturrilha comeasse a tremer. Nunca fora um bom corredor. 
Na realidade, gostava tanto de conforto que, inclusive para 
percorrer o menor dos trajectos at a charutaria situada a 
trezentos metros de sua casa, sentava-se no carro e ia dirigindo. 
Nesse momento, andar um quilmetro ali no navio seria um recorde 
total para ele. Afinal, aquele Moor no parava, ele devorava seu 
trajecto sem interrupo e com seriedade herica.
 - Sim. Um oficial jovem.
 - Comigo foi o prprio director de hotel.
 - Por diplomacia, quando se tem uma cabina 018. No caso da 032, 
eles mandam subalternos. O que foi que ele lhe contou?
 - Na certa o mesmo que ao senhor: alguma coisa deslizou nalgum 
lugar da sala de mquinas. Metal com metal... isso solta um 
grito.
 - E o senhor acreditou nisso, Dr. Schwarme?
 - E o que eu podia fazer? Trata-se de uma explicao bvia. Que 
outra coisa poderia ser? - o Dr. Schwarme andava um pouco 
contorcido ao lado de Moor. J havia deixado a terceira volta 
para trs. - Quantas vezes mais ter de andar, Sr. Moor?
 - Mais nove vezes.
 - Ento eu passo. - Schwarme parou e deixou Moor marchando 
sozinho. - Que tenciona fazer depois da maratona? - gritou para o 
outro.
 - s 15 horas a anfitri vai ensinar-me shovelboard1 no convs 
de esportes. Sabe jogar shovelboard?
 - Disso eu participo. Sou um bom jogador.
 - Sua mulher tambm?
 - Ela est no cabeleireiro. Coquetel de saudao dado pelo 
comandante e banquete de boas-vindas. Hoje  noite as mulheres 
tero seu grande desfile. - O Dr. Schwarme acenou para o 
maratonista. - At mais tarde no convs de desportos!
 Ele desceu a escada que levava ao solrio, sentou-se no interior 
do bar Atlantis, pediu uma pilsen de barril e ficou observando os 
outros passageiros. Algumas mulheres se haviam reunido na varanda 
envidraada de bombordo, para comear um curso de hobby de 
construo sob a superviso de uma anfitri. A estibordo, um 
clube de bridge comeou seus encontros. Faziam-se os primeiros 
contactos para a longa viagem. Nisso, o olhar de Schwarme caiu 
sobre o cego Dabrowski que estava sentado sozinho a uma mesinha 
redonda na sada para o solrio e sorvia um ponche Planter, os 
olhos voltados para a frente atravs dos culos de lentes 
escuras.

 O que estar pensando e sentindo esse sujeito agora, pensou o 
Dr. Schwarme. Est sentado ali, cercado de total escurido, 
apenas ouvindo barulhos e vozes, sem que ningum se preocupe com 
ele, sua enfermeira deve estar nadando ou tomando banho de sol... 
uma vida desconsolada, mesmo quando se tem muito dinheiro.
 Ele pegou o copo de pilsen, foi at a mesinha e pigarreou. 
Dabrowski levantou o rosto  espreita.
 - Posso sentar-me ao seu lado? - perguntou Schwarme de modo um 
pouco hesitante. - O assento ainda est livre.
 - Mas tenha a bondade! - Dabrowski sorriu. Viu que
Schwarme, apesar de estar dirigindo a palavra a um cego, estava 
muito embaraado e sentara-se com todo o cuidado, talvez com medo 
de provocar alguma comoo. - Est um dia lindo hoje.
 - Sim. Um cu azul e sem nuvens, sol, um mar mansinho... - 
Schwarme hesitou desconcertado. Que coisa mais imbecil! Seu 
idiota! Diz isso justamente a um cego!
 Dabrowski ostentou um sorriso suave.
 - Pode continuar falando tranquilo. O que o senhor v, eu sinto, 
posso imaginar.
 - Claro. - Schwarme enxugou a testa. Mas isso no acontece 
mesmo, pensou ele. Como  que uma pessoa sendo cega pode 
compreender conceitos figurativos apenas por ouvir falar? Chega 
uma pessoa e diz: "Veja s que bela palmeira alta!" como pode 
ele, um cego, imaginar em seu ntimo o jeito de uma palmeira como 
essa? Para ele, claro que uma palmeira s pode ser uma palavra. - 
O senhor me permite fazer uma pergunta bem idiota e descarada?
 - Por favor!
 - E como pode ter uma idia do que  o azul? Ou do que so 
nuvens? - Schwarme levantou as ndegas alguns centmetros do 
assento: 
- Meu nome  Dr. Schwarme. Advogado. 
- Dabrowski. Sua pergunta  justificada, s que no me diz 
respeito. At  idade de vinte e seis anos, eu podia enxergar to 
bem quanto o senhor.
 - Ah,  mesmo? Desculpe-me, Sr. Dabrowski.
 - Depois, de repente tive uma paralisia em ambos os nervos 
pticos. Consultei os melhores mdicos, de Turim a Tquio, de 
Viena ao Rio. Estive inclusive em Moscovo! Todos ficaram 
fascinados com minha doena, nunca haviam visto algo assim... mas 
ningum conseguiu ajudar-me. num ano fiquei completamente cego. E 
j faz treze anos. Para mim est claro que no existe mais 
nenhuma esperana. E os milagres tambm no acontecem. Mas se o 
senhor me disser agora: temos  nossa frente um mar liso de um 
azul bem escuro, ento, puxando pela memria, eu consigo ver.
 - Isso  fantstico. - O Dr. Schwarme esvaziou o copo e deu uma 
olhada no relgio. Dali a pouco comearia o jogo de shovelboard 
no convs de esportes. - Se o senhor no se importar, podemos 
encontrar-nos com mais frequncia para conversar.
 - Mas por favor, doutor. - Dabrowski acenou na direco do Dr. 
Schwarme. - Eu ficaria muito contente.
 Ele viu o Dr. Schwarme sair no convs e passou em revista todos 
os que estavam sentados ou de p no bar. Na tarde desse dia, s 
17 horas e 45 minutos comeava o coquetel de recepo do 
comandante Teyendorf para o primeiro horrio de refeio. Depois 
haveria o banquete de gala.

Aconteceria o mesmo com o segundo horrio a partir das 19 horas e 
45 minutos. Finalmente, comearia o grande baile de boas-vindas 
no Salo dos Sete Mares, no qual o conferencista Hanno Holletitz 
apresentaria os artistas da viagem de cruzeiro. Para Paolo 
Carducci - ou seja l que nome pudesse estar usando nesse momento 
a bordo - esta seria a primeira oportunidade para examinar as 
jias mais de perto e escolher as mulheres que merecessem seu 
interesse. Podia-se calcular com toda a facilidade que, hoje  
noite, cintilariam alguns milhSes nas orelhas, pescoos, braos e 
dedos.
 Que aparncia poderia ter Carducci, perguntou-se Dabrowski. S 
tinham  disposio uma foto antiqussima, um tpico instantneo 
de polcia que por seu turno mostrava um tpico siciliano de 
cabelos pretos, barba por fazer, sorriso arreganhado... uma foto 
miservel de um vigarista impenetrvel. Nos anos de ascenso de 
sua carreira como ladro de jias internacional, Carducci 
transformara-se por completo, trabalhara com perucas e 
maquilhagens, pintara os cabelos e chegara inclusive a ostentar 
uma careca numa viagem pela parte oriental do Mediterrneo. Ele 
no recuava diante de nada. Qual seria a aparncia dele hoje, 
ali, a bordo
do NM Atlantis?
 Seria o elegante jovem louro que tomava o segundo coquetel l no 
balco do bar? Nesse instante, Dabrowski estava olhando Herbert 
Fehringer.
Ou o sujeito com roupo de banho vermelho vinho com listras 
douradas, que tomava uma batida de leite de coco com rum branco?
Tratava-se de Tatarani, o proprietrio da vincola. Ou aquele 
playboy ali no canto do bar, que flertava com uma mulher de 
biquini colorido e que pedira uma garrafa de champanhe? Ele 
constava na relao dos passageiros como sendo Franois de 
Angeli, negociante de imveis. Ou seria um dos senhores 
completamente discretos que se metiam em tudo logo no primeiro 
dia, tomando uma cerveja ou entrando numa conversa que girasse em 
torno de poltica?
Entre as pessoas que conversavam, reinava a unanimidade quanto  
culpabilidade da parte dos sindicatos por tudo. Essa harmonia era 
uma boa base para a viagem comum que duraria semanas pelo oceano 
Pacfico.
 Dabrowski levantou-se, pegou a bengala branca e saiu para o 
convs s apalpadelas. As pessoas desviavam-se dele, abrindo o 
caminho e admirando seu sentido de tacto que inclusive levou-o 
at  escada que dava para o convs de esportes, sem a ajuda de 
ningum. Ali, ele encontrou Beate, sua enfermeira; ela estava 
deitada ao sol, na fileira atrs de Knut e Sylvia de Jongh, e 
levantou-se na hora ao ouvir o tique-taque tpico da bengala. 
Levou Dabrowski para a cadeira ao seu lado e ajudou-o a 
acomodar-se. A bombordo, o Dr. Schwarme, Ludwig Moor e outros 
dois senhores haviam comeado o primeiro jogo de shovelboard; a 
anfitri Bianca explicou-lhes o jogo mostrando-lhes algumas 
tacadas. Parecia muito fcil empurrar os discos de madeira sobre 
o convs liso, mas na realidade precisava-se de muita 
sensibilidade e inclusive de esforo muscular.
 - Voc observou ou ficou sabendo de alguma coisa? - sussurrou 
Dabrowski virando a cabea para Beate.
 - No. Todos ainda se conhecem muito pouco para isso.

 - Certo. Mas vai ser diferente depois do baile de boas-vindas. 
Os que j se conhecem, os repetidores da viagem, so inofensivos. 
Carducci no se encontra entre eles.
 - Est vendo essa mulher de beleza exuberante  nossa frente? Ao 
lado do sujeito troncudo?
 - A que est com o mai extravagante?
 - . Est-se iniciando um flerte. Com um homem mais jovem, alto 
e magro. Cabelos louros, elegante, um pouco rstico, mas que faz 
bem o tipo das mulheres.
 - Acho que ele est no bar Atlantis. Flerte, como assim?
 - O velho dela j andou espantando o sujeito com uns grunhidos. 
Parece ser um tirano.
 - Mas com volumosa conta bancria. Quer apostar como hoje  
noite a mulher vai estar brilhando mais do que rvore de Natal?
 Dabrowski virou-se ao sol, tirou a camisa e depois deitou-se de 
dorso desnudo na espreguiadeira. Seu corpo era trabalhado, 
musculoso e sem gordura. Por isso mesmo, a bengala branca ao seu 
lado incomodava mais ainda. 
 - Fique de olhos grudados nela, Beatinha. Ela  a vtima tpica 
de Carducci.
 - O flerte dela  inofensivo, chefe.
 - Quando se tem tantas jias assim, nada mais  inofensivo.
Agora Carducci tambm pode estar louro.
 - Mas deve ter uma aparncia bem mais velha.
 - Ele no! Acredito que ele seja capaz de subir a bordo como um 
recm-nascido. Para que horas voc marcou o cabeleireiro?
 - Para as quatro.
 - Fique de ouvidos abertos, minha pequena. Os cabeleireiros e os 
padres tm uma coisa em comum: so os confessores das mulheres 
solitrias. O que no se fica sabendo nos cabeleireiros, no se 
saber mais em lugar nenhum. - Dabrowski sorriu, colocou na 
cabea um leno de bolso como proteco contra o sol e 
entregou-se ao calor e ao suave marulhar.

 - Devo usar o vestido de seda branco para a gala de hoje? - 
nesse momento, Sylvia de Jongh perguntou ao marido, sem se mexer 
quando este tornou a tocar-lhe a coxa.
 - Claro. Voc fica irresistvel com ele.
 - E todas as jias de rubi?
 - Todas! A mulher de Knut de Jongh deve mostrar com toda a calma 
o quanto seu marido  um homem bem-sucedido. Para mim, a inveja 
das outras mulheres  blsamo.
 - S porque voc tambm pode desfrutar do brilho. 
 - Certo. Afinal de contas, fui eu quem pagou. E ganhando 
honestamente na ferraria. Ningum deixou herana nenhuma para 
mim. Ganhei tudo com minhas prprias mos.
 Sylvia suspirou. Ia comear de novo, ela j sabia. O hino ao 
homem esforado, que antes ficava trabalhando na bigorna, 
malhando em ferro quente, e que agora dirigia uma empresa 
internacional. Uma carreira no milagre econmico do ps-guerra. 
Um selmademan que sempre se alegrava de poder ter manteiga e 
presunto no po.

 De facto, ela  uma mulher de beleza incomum, pensou Knut de 
Jongh. Uma espcie de criatura de contos de fada. E me pertence! 
Essa sorte  realmente incompreensvel. Vou comprar-lhe uma pea 
bem valiosa na joalheria de bordo durante a viagem. Posso me dar 
a esse luxo com a gorda conta bancria na Sua... Ele 
inclinou-se na direco de Sylvia e beijou-a no ombro e no 
pescoo. O leve tremor da mulher foi encarado por ele como 
paixo. 
Jamais teria imaginado que podia ser por defesa e averso.

5

Claude Ambert instalara-se ao lado de seus elefantes.
 Haviam levado para baixo uma cama dobrvel, uma mesa, duas 
cadeiras e um balde de roupas, feito de tecido, com marcos de 
metal e fecho de correr... e com isso tornou-se o luxo. O 
segundo-comissrio resumiu a situao numa frase:
 - Isso aqui  um poro de depsito, no adequado a coisa 
nenhuma; s temos luz e uma conexo com o ar-condicionado. 
 - E se eu precisar ir ao banheiro? - perguntou Ambert. Era 
evidente que Sissy e Berta estavam contentes. As duas elefantas 
brincavam com a palha e, de vez em quando, faziam festa em seu 
dono com a ponta da tromba.
 - Mas  claro que voc no vai ficar aqui embaixo o dia inteiro, 
Sr. Ambert.
 - Mas durante a noite! - Ambert apontou para a porta. - Pode-se 
passar pelo hall da piscina ao lado e ir ao banheiro durante a 
noite?
 - No. Ele fica fechado. 
 - Nesse caso voc deve deixar aberto.
 - No d, por motivo de segurana. Quando o hall da piscina est 
aberto, o salva-vidas deve estar presente. Ordens.
 - Mas ningum nada  noite.
 - Voc tem cada idia. O bar  ao lado. Se os caras ficarem 
sabendo que a piscina est aberta, vai ser o diabo. Vo pular na 
gua com farda e tudo. Voc sabe muito bem como os bbados se 
comportam. E quanto mais ricos, mais incrveis. Isso provocaria a 
mais pura orgia aqutica. - O segundo-comissrio fez um gesto 
negativo. - No vai poder ser mesmo.
- Lanou um olhar para as duas elefantas. Pairava no ar um cheiro 
de merda. - Essas duas a mijam em cima da palha. 
 Mais tarde, na comissria, os funcionrios compreenderam que um 
ser humano tinha direitos diferentes dos elefantes. Um comissrio 
levou para Ambert um balde de zinco, substitudo mais tarde por 
um vaso de urina do hospital, conhecido no jarro tcnico como 
compadre.
 O Dr. Paterna foi l depois do almoo. Levava consigo sua maleta 
de mdico como se estivesse visitando um paciente na cabina. As 
elefantas estavam paradas junto  parede, com as trombas para 
baixo e as orelhas arriadas, observando o ambiente com olhinhos 
opacos. Claude Ambert estava sentado numa cadeira entre as duas, 
tendo aos ps dois pes imensos. O mar ficara um pouco mais 
agitado; l em cima, no convs, no se percebia nada, mas l 
embaixo o movimento de balano era mais forte.
 - E como vo nossas pacientes? - o Dr. Paterna perguntou alegre.
 - De um jeito miservel. Veja s, elas no comeram nada! Antes, 
quando viam um po, era a maior guerra. Mas agora... Sissy j 
vomitou algumas vezes. Ainda vamos ter mar mais encapelado?

 - Mas isso ainda no  nada. Estamos com ventos de dois 
quilmetros por segundo! Quando chegarmos s guas mexicanas, 
mais ou menos perto de Mazatlan, podem soprar ventos de at cinco 
quilmetros por segundo.
 - Ento elas vo morrer! - disse Ambert com voz contida. Ele 
olhou a maleta de mdico. - O que foi que o senhor trouxe, 
doutor?
 - Tantos comprimidos quanto pude dispensar. Espero receber mais 
em acapulco. Calculei vinte e cinco para cada elefanta. Deve 
bastar, afinal s devemos amortec-las um pouco.
 - E elas no vo se envenenar?
 - Bem, se os seres humanos conseguem suportar os comprimidos, 
claro que os elefantes tambm suportaro.
 - No diga isso, doutor. Os elefantes so criaturas delicadas.
 O Dr. Paterna lanou um olhar para os dois gigantes cinzentos. 
Podia-se sentir fisicamente a tristeza das duas. Acorrentadas 
pelo p direito traseiro, as elefantas estavam quase imveis na 
palha. S quando o navio fazia um leve movimento de balano,  
que saa das trombas um som parecido a um profundo suspiro.
 - Portanto, vamos comear. - O Dr. Paterna colocou a maleta em 
cima da mesa e abriu-a. - Vou dissolver os comprimidos em dois 
baldes com gua. Elas esto bebendo, pelo menos?
 - No com muita vontade. Quando no tocam no po,  porque a 
coisa  mesmo muito sria.
 Ambert e o Dr. Paterna tentaram. Dissolveram em cada balde vinte 
e cinco comprimidos contra o enjoo do mar e, em seguida, 
empurraram os baldes na direco das elefantas. Berta comeou a 
beber na mesma hora sugando a gua pela tromba; Sissy farejou, 
tomou um gole e depois desviou a tromba.
 - Ah! - disse Ambert. - Desculpe-me, Sissy. - Ele foi at uma 
enorme bolsa de papel, despejou quatro colheres de acar na gua 
e depois voltou. - Sissy  uma doura completa! - explicou para o 
perplexo Dr. Paterna. - Mesmo quando no se pode sentir o gosto 
de quatro colheres... pelo menos ela v que a gua est 
aucarada. Os elefantes so individualistas.
 Sissy ficou contente. Ela tambm sugou toda a gua do balde, 
agradeceu a Ambert com uma palmadinha de tromba e balanou as 
orelhas.
 - Quando  que os comprimidos vo fazer efeito? - perguntou 
Ambert. 
 - numa hora mais ou menos. E o efeito deve durar pelo menos doze 
horas. - O Dr. Paterna fechou a maleta de mdico. - Voc vem 
junto comigo para o ar puro? Seus pulmSes precisam disso. 
 Claude Ambert assentiu.
 - Volto j! - disse ele para as elefantas. - No tenham medo, 
meus amores. S faltam trs dias, ento estaremos em terra. Ento 
vocs tero solo firme debaixo dos ps. Tenham coragem, minhas 
pequenas!
 Os dois subiram ao tombadilho e, l chegando, sentaram-se num 
dos banquinhos brancos. Ludwig Moor estava fazendo uma de suas 
caminhadas de um quilmetro e, nesse momento, passou por eles. A 
porta que dava para a ala das sutes abriu-se e uma senhora de 
maquilhagem pesada e idade incerta, com a peruca de cachos 
luxuosos enfeitada com uma fita dourada, deu uma olhada no 
convs. O decote do vestido era to exagerado que bastaria 
inclinar-se para a frente que tudo sairia.

 - Ah, meu Deus! - sussurrou o Dr. Paterna. - Queira 
desculpar-me. Preciso voltar ao hospital. S l tenho um pouco de 
segurana.
 - Mas o que est acontecendo, doutor?
 - Est vendo aquela senhora junto  porta?
 - Sim.
 - Trate de no se aproximar dela. Chama-se Anne White. S o 
advogado dela  que sabe o montante de sua conta bancria. Voc 
estar perdido se cair nas garras dela. A mulher devora os homens 
como uma aranha-fmea.
 - Milionria? - perguntou Ambert interessado. Seu olhar 
desviou-se para a Sra. White, apalpou-a. Ele achou que a primeira 
impresso at que foi bem vantajosa. Uma mulher de meia-idade, 
madura e, por conseguinte, visivelmente amadurecida por toda a 
parte. - Viva?
 - H cinquenta e dois anos.
 - E como disse?
 - Bem, a Sra. White deve ter agora uns bons setenta e seis 
anos... - o Dr. Paterna levantou-se, apertou a maleta de mdico 
contra o corpo e no sentiu a menor vontade de continuar no 
convs. - Advirto-lhe mais uma vez, Sr. Ambert. Quando ela sobe a 
bordo, um suspiro percorre todo o navio. S ainda no fofocaram 
por a quem foi que dormiu com ela na primeira noite. At  
noite!
 O Dr. Paterna desapareceu rapidamente atrs da porta que dava 
para a escadaria. Claude Ambert sugou o lbio inferior entre os 
dentes, estalou os dedos e depois levantou-se do banco. Desceu 
pelo tombadilho vadiando de modo negligente, foi ultrapassado 
pela marcha de Moor e depois recostou-se na amurada como quem 
quer observar o mar tranquilo e os peixes-voadores. Sentiu o 
olhar da Sra. White na nuca. Milionria, pensou ele. Tem o maior 
teso nos homens. Mas um crdito precisamos dar a ela: tem a 
aparncia de uma mulher bem cuidada, no fim dos quarenta. Os 
cirurgiSes plsticos fizeram uma obra-prima. Foram realmente 
artistas que fizeram o trabalho. E quando se pensa que ela dorme 
em cima de notas de dlar...
 - E como o mar est azul - disse de repente uma voz gorjeante ao 
seu lado. Ambert estremeceu. E essa agora... a mulher falava como 
uma adolescente na hora de danar. Ele olhou para o lado. A Sra. 
White estava recostada na amurada ao seu lado, os seios - quantos 
esticamentos?, pensou Ambert - estavam quase desnudos. Sob a 
camada de maquilhagem, o rosto tinha um ar felino de cara de 
boneca. Puxa, como anda avanada a medicina de hoje!
 - Faz at a gente ficar romntico - disse Ambert em ingls.
 - Oh! - a voz de Anne White assumiu um tom de alegria. - Voc 
fala ingls? De onde voc ?
 - Da Frana, madame.
 - Que francs charmoso. Um belo amigo... estou certa?
 - Mais ou menos.
 - Qual a sua profisso?
 - Amestrador de elefante.
- No! Que emocionante. - O olhar dela pousou sem a menor 
cerimnia nas calas de Ambert. - Um elefante! Voc precisa-me 
explicar isso. 
- Posso convid-lo para uma taa de champanhe na minha cabina? 
Elefantes. uma novidade na minha vida. Vem!

 Com o corao aos saltos, Ambert seguiu a Sra. White at a 
cabina. Quando fechou a porta do corredor, Moor estava fazendo o 
ltimo trecho e dava uma bizarra meia-volta junto  porta. 
"MilhSes", pensou Ambert, "milhSes... ela vai ter seus elefantes. 
Andar pelo mundo com dois elefantes  uma vidinha bem miservel".

6

Dabrowski tratou de ser o primeiro a chegar no Salo dos Sete 
Mares para o coquetel de saudao do comandante Teyendorf. 
Apoiado na bengala branca, j estava esperando havia vinte 
minutos ao lado de Beate, junto  porta envidraada que dava para 
o salo de festas, mas mesmo assim no fora o primeiro. Havia um 
casal; o homem, de rosto avermelhado, smoking branco e camisa 
preta fofa e, para combinar, uma gravata-borboleta prateada, 
olhava imvel para a frente; a mulher ao seu lado, delicada, 
intimidada, mas com um vestido da moda e enfeitada com uma jia 
de esmeralda carssima, estava recostada  parede. O longo tempo 
em que ficara postada sobre os sapatos de salto alto, parecia 
estar provocando-lhe dores.
 Ento, chegou a hora e a porta abriu-se. O comandante Teyendorf 
estava a postos para o apertar de mos, trajando um uniforme 
branco. Laura, sua anfitri-chefe, usando um vestido de noite 
longo e ondulante, acenou.
J estava versada na tarefa de chamar todos os passageiros pelo 
nome e depois apresent-los ao comandante.
 Dabrowski bateu com a bengala. O casal  sua frente estremeceu 
um pouco, o homem encarou o cego, recuou e fez um gesto de "por 
favor, a preferncia  sua". Beate tocou Dabrowski e conduziu-o 
adiante.
 - Ewald Dabrowski e Beate Schlichter - disse ela para a anfitri 
Laura.
 - O Sr. Dabrowski e a Sra. Schlichter! - Laura transmitiu na 
direco de Teyendorf.
 Teyendorf pegou e apertou a mo que Dabrowski estendeu no ar  
sua frente sem direco nenhuma.
 - Fico contente com sua presena a bordo - disse ele. - E desejo 
especialmente ao senhor que tenha uma bela viagem. Estou  sua 
disposio a qualquer hora para os desejos que tiver. 
 - Obrigado - replicou Dabrowski. - Obrigado, Sr. Comandante.
- As lentes escuras dos culos encararam Teyendorf. - Tenho 
certeza que ser uma bela viagem de cruzeiro.
 Beate deu-lhe o brao e levou-o para a frente. Dabrowski 
sentou-se numa poltrona funda prxima  porta e recostou-se. 
Agora podia observar com a maior desenvoltura cada passageiro, 
avaliando-o e sobretudo observando as jias das mulheres com toda 
ateno. No final da marcha de entrada das pessoas, ele quase 
poderia dizer sobre quem recairia o interesse de Paolo Carducci. 
Havia jias que, ao olh-las, at mesmo o
corao de um perito como Dabrowski batia com mais fora.

 O comandante Teyendorf suportou com habilidade a marcha dos 
passageiros a quem cabia o primeiro horrio de refeio. Apertou 
mos, disse a todos algumas palavras e deixou que brilhassem as 
mulheres em cujos olhos cintilavam o orgulho e a excitao do 
momento por terem permisso de apertar a mo do comandante. 
Contudo, aps a saudao do ltimo passageiro desta sesso, ele 
ficou contente por ter cumprido outra vez este dever. Era um 
ritual enfadonho, mas fazia parte de toda a viagem de cruzeiro. O 
aperto de mo do comandante era algo equivalente  confirmao de 
que se fazia parte da comunidade do cruzeiro. Teyendorf sempre 
voltava a admirar-se do imenso valor que muitos passageiros davam 
ao facto de apertar-lhe a mo e ouvir as palavras lapidares: "Eu 
o cumprimento a bordo!" Ou: "Ah, est de novo a bordo, vai gostar 
da viagem mais uma vez:.." Nesses momentos, os olhos brilhavam. O 
comandante nos reconheceu! Fritz, ele ainda nos conhece! Que 
sujeito magnfico, esse comandante...
 Dabrowski virou-se para o palco do salo quando as portas de 
vidro foram fechadas.
 - E ento?: perguntou Beate em voz baixa. - O que achou, chefe?
 - Pelos meus sentimentos, Carducci no se encontra aqui. Deve 
fazer parte do segundo horrio de refeio. Mas por que ele 
deixaria escapar o espectculo dessas jias? Beate, estou com uma 
suspeita terrvel: e se tratar-se de duas pessoas que trabalham 
de mos dadas? Cada uma num horrio de refeio? Ningum ainda 
pensou nisso! - Dabrowski ficou visivelmente intranquilo. J na 
leitura dos protocolos que descreviam todos os roubos de jias 
praticados por Carducci, saltou-lhe  vista que este muitas vezes 
devia encontrar-se em duas cabinas ao mesmo tempo. A polcia e as 
companhias de seguro supuseram que essas indicaSes de horrio, 
que afinal de contas nunca foram precisas em casos semelhantes, 
haviam sido influenciadas pela agitao da pessoa roubada. Alm 
disso, coisa que era decisiva e sem sada, a maioria das pessoas 
em questo estava dormindo e s na manh seguinte dava pela falta 
das jias. Mas todas as portas das cabinas estavam fechadas. Por 
conseguinte, Carducci devia possuir uma chave mestra que se 
adequava a todas as fechaduras, como a que os comissrios de 
cabina utilizam. Mas para todos os navios? Impossvel! Esse 
sujeito  um gnio, dissera o chefe da polcia de roubos e furtos 
de Pireu; no caso dele, nenhum navio tem porta...
 - Em virtude dos requisitos ideais aqui, ele deveria 
encontrar-se no salo agora - disse Dabrowski em voz baixa. - Ele 
ou seu cmplice. Essa possibilidade de ele trabalhar em dupla 
joga por terra todo o meu plano.
. Nesse momento, a orquestra de bordo comeou a tocar no palco. 
Os Happy Boys. Eram oito msicos que na verdade tocavam alto 
demais, mas sempre esforando-se por manter o mesmo ritmo. Em 
contrapartida, tinham realmente uma boa aparncia com seus ternos 
de fantasia brancos com bordados prateados.
 Depois, enquanto o comandante Teyendorf saudava os passageiros 
com um rpido discurso e apresentava a equipe de comando do - 
navio do primeiro-oficial condutor, passando pelo chefe e 
director de hotel, at o mestre-cuca e os padres das duas 
confissSes - Dabrowski saiu do salo de brao com Beate e 
deixou-se levar  joalheria. Erika 

Treibel estava sozinha, sentada num banquinho atrs do pequeno 
balco, estudando um livro especializado em gemas e o jornal da 
associao. No dia seguinte, aps o noticirio dirio, ela 
apresentaria na televiso de bordo uma conferncia sobre as 
diferentes pedras preciosas e convidaria os passageiros a darem 
uma passada na joalheria. A compra de jias ali era no mnimo 
catorze por cento mais barata do que em terra, posto que no navio 
no se cobrava o imposto sobre circulao de mercadorias. Ainda 
se podia pechinchar e conseguir um abatimento extra de alguns 
pontos percentuais adicionais; a bem da verdade, isso j havia 
sido calculado de antemo, mas todos ficavam contentes em poder 
arrebanhar algumas centenas de marcos na compra de alguns 
milhares.
 Dabrowski sentou-se na cadeira de estofado vermelho e apoiou-se 
na bengala branca.
 - Agora eu suspeito que Carducci tenha um cmplice - disse ele.
 - Oh, Deus! - Erika Treibel ficou plida. - Com dois homens...
 - No tenha medo! Voc no ser assaltada de maneira nenhuma.
 Carducci trabalha em silncio, como um fantasma. A segunda 
pessoa podia ser inclusive uma mulher. Portanto, quando entrar 
aqui um casal, um homem ou uma mulher sozinha pedindo para ver as 
peas mais valiosas do cofre, tente descobrir o nmero da cabina 
deles. Trate de arrancar esse nmero com um truque.  muito 
simples. Diga-lhes que ainda tem algumas peas extraordinrias no 
depsito e que telefonar to logo as tenha retirado. Se a pessoa 
no quiser revelar o nmero da cabina, bem, a j estar 
configurado um ponto para suspeitarmos. - Dabrowski pigarreou. - 
Qual sua pea mais valiosa, que no  colocada na vitrine?
 - Um conjunto de esmeralda com brilhantes. Vale 450 mil marcos.
 - Pelo amor de Deus! As pessoas compram isso por aqui?
 - Desde que me encontro a bordo isso s aconteceu uma vez: Mas 
sempre devemos ter peas assim em estoque, digamos que com o 
objectivo de representao. Pode ocorrer ocasionalmente de uma 
pessoa interessada olhar uma jia como essa, encomend-la e pedir 
para que seja entregue em terra. Ento, podemos proceder a 
mudanas, mandar trabalhar segundo as medidas...
 - Gostaria de pedir emprestado esse conjunto de esmeraldas para 
a noite - disse Dabrowski com toda a calma.
 - Impossvel! - Erika encarou-o espantada.
 - Eu no sou Carducci. 
 - Eu sei. Mesmo assim... sem a permisso do chefe... afinal, 
como posso entrar em contacto com o Sr. Ried agora?
 - Recebi plenos poderes do Sr. Ried.
 - Isso  o que o senhor diz! Claro que no posso emprestar-lhe 
meu conjunto mais precioso.
 - Beate precisa us-lo hoje  noite para chamar a ateno de 
Carducci. No final do baile, eu levo a pea comigo e durmo em 
cima dela. Amanh de manh voc a ter novamente no cofre. Nada 
poder dar errado. Erika, eu preciso de uma isca que chame a 
ateno. Todos no salo pensaro: vejam s que velho safado.  
cego como uma pedra, mas o resto continua funcionando direitinho. 
Obriga a sua enfermeira a acompanh-lo por toda a parte, mas em 
compensao compra-lhe umas belas pedrinhas. 
 - S que o senhor no consegue pensar que isso pode ser bem 
desagradvel para mim, no  mesmo, chefe? - perguntou Beate em 
tom amargurado.
 - Beatinha, no faa jogo de palavras com a moral!
 - Mas eu sou moralista. Vou envergonhar-me dos ps  cabea com 
esse teatrinho.
 - Isso tambm passa. - Dabrowski deu uma risada baixa. - Metade 
da vida  uma questo de habituar-se com as coisas. Erika, abra o 
cofre e tire o conjunto de esmeralda.

 - No sei...
 - Filhinha, estamos em alto-mar. O que pode acontecer ento? 
Carducci tambm vai esperar; na maioria das vezes ele s ataca a 
um ou dois dias do fim da viagem. De preferncia aps o banquete 
de despedida. Nesse momento a pele maquilhada das mulheres volta 
a ostentar todos os milhSes em jias. Para ele, a ocasio de hoje 
 noite  uma espcie de ensaio geral.
 Dez minutos depois, Beate saiu da joalheria levando no bolso da 
saia 450 mil marcos em jias. 
 E s para adiantar: foi um duro desapontamento.
 No baile de boas-vindas aps o banquete de gala, ningum tirou a 
bela e radiante Beate para danar. Todos respeitaram o desamparo 
do cego, cuja acompanhante ningum queria seduzir, mesmo que 
fosse apenas por trs danas. O prprio Paolo Carducci 
conteve-se; ele apreciou de longe as jias no pescoo, brao, 
dedo e orelha de Beate, calculando seu valor com exactido de 
especialista. Estava sentado na mesa ao lado dos dois 
homossexuais, van Bonnerveen e Grashorn, trajava um smoking 
branco, gravata-borboleta vermelho vinho e bebia um borgonha 
branco seco. Tambm examinou as jias das outras mulheres e 
sentiu-se muitssimo bem.
Quando desembarcasse em Sidney, teria ganho o bastante para umas 
longas frias. No mnimo seis meses... em seguida, entrava na 
agenda uma viagem de cruzeiro de Hong-Kong para o Japo e o 
Havai.
 Mais trs anos, pensou ele, ento estarei com a idade de 
quarenta e cinco. Uma boa idade para me aposentar e viver dos 
hobbys. Uma casa nas Bahamas... ali ningum pergunta pela origem 
do dinheiro. Uma amante jovem e loura - sim, tem de ser loura, 
loura natural, no apenas na cabea -, dois dlmatas alemes 
manchados no jardim, um trecho de praia particular sob a sombra 
de palmeiras, um mordomo negro... e depois gozar a vida. Afinal, 
s se vive uma vez, mesmo o pivete siciliano que se tornou 
milionrio tomando alguma coisa de outros que, de qualquer 
maneira, tinham bastante. A bem da verdade, isso no era moral 
nem socialista nem crist, mas aplacava sua conscincia. Pois 
Carducci era um bom crente catlico, que frequentava as igrejas 
onde quer que se encontrasse, que rezava diante do altar-mor, 
acendendo todas as vezes uma vela de bom tamanho. S no se 
atrevia a ir  confisso, pois jamais mentiria para seu 
confessor. Portanto, preferia deixar isso de lado. Claro que 
nunca receberia a absolvio.
 Carducci estava sozinho. A teoria de Dabrowski de que ele 
trabalhava com um cmplice era um erro de avaliao. Quando a 
pista de dana foi liberada, aps o conferencista Hanno Holletitz 
ter contado algumas piadinhas escabrosas porm bem dosadas, 
Carducci tambm levantou-se e procurou uma parceira para a dana. 
A escolhida foi a Sra. Schwarme e, quando o elegante cavalheiro 
pediu-lhe a permisso, o Dr. Schwarme acenou de modo negligente. 
Ficou contente por poder tomar seu usque em paz. Havia muito 
tempo que j no danava mais com a mulher; ela sempre estava com 
a lngua de tanto entusiasmo rtmico, coisa que o irritava.
 - Merda! - disse Dabrowski aps meia hora, em voz baixa e 
inclinando-se na direco de Beate. - Ningum dana com voc.
 - Ningum quer aproximar-se de voc, um pobre doente. 
 - Que derrota! Carducci encontra-se no salo, eu sinto.

Minha pele est formigando. Ele j registou sua jia. Que bosta! 
Acho que podemos ir para as nossas cabinas...
 Beate desfez-se das jias na cabina 136, de Dabrowski. Este 
colocou-as em dois saquinhos de veludo negro, enfiou-os debaixo 
da parte da cabea do colcho e, aps Beate ter ido embora, 
trancou a porta  chave. Depois depositou sua cmara ao alcance 
da mo, em cima da mesinha-de-cabeceira.
 Essa cmara, com a aparncia de uma mquina fotogrfica reflexo 
bem normal, tinha seus truques. Quando se apertava o obturador, 
ela disparava um tiro e o projctil saa pela objectiva, cuja 
lente se abria. At ento, nenhuma vistoria de segurana dos 
aeroportos havia reconhecido essa construo especial.

No geral, a primeira noite danante foi um sucesso total. De 
manh bem cedo, o grupo da limpeza entregou no escritrio de 
achados e perdidos: duas calcinhas de mulher, um suti tamanho 
44, uma lente de culos, uma meia preta de homem e uma liga 
rasgada. Todos os objectos achados foram expostos para a entrega 
em cima de uma mesinha no escritrio do comissrio-chefe. Mas os 
proprietrios jamais se apresentaram.
 Na ponte, o comandante Teyendorf recebeu as ltimas notcias do 
navio. Trs aniversrios de passageiros - eles recebiam uma 
garrafa de vinho espumante, nada de champanhe -, o informe da 
sucursal da companhia de navegao de Acapulco e uma queixa em 
relao ao passageiro Franois de Angeli. Ele danara  noite no 
Clube do Pescador de rosto colado com a esposa de um dentista, 
coisa que se chamava de dana de esfrega-esfrega, e o marido 
exigira do comissrio-chefe presente, o Sr. Pfannenstiel, que 
interrompesse aquilo. Pfannenstiel observara que aquela no era 
tarefa dele. Houve ento uma contenda, na qual monsieur de Angeli 
fora ameaado com uma bofetada. E isso tudo j na primeira noite 
oficial.
 Alm disso, a mulher de um industrial perdera o anel de 
brilhante. De quatro quilates, branco azulado, sem impurezas. 
Devia ter cado de seu dedo durante a dana. O industrial pedira 
que a perda fosse tratada de modo confidencial. Afinal, o anel 
teria de ser encontrado durante a limpeza.
 - , a coisa est comeando muito bem - disse Teyendorf em tom 
de sarcasmo. - Estou curioso para saber o que vai acontecer nessa 
viagem, quando as primeiras pessoas tiverem a vertigem do mar. Na 
ltima turn, algum batera tanto na mulher a ponto de mand-la 
para o hospital e nove casais desembarcaram prontos para o 
divrcio. Em contrapartida, tivemos trs noivados e dois 
comissrios pegaram gonorreia. Dessa vez a viagem vai demorar 
mais do que de costume. Vamos nos preparar para o que der e vier, 
meus senhores. As surpresas no vo demorar!

7

Claude Ambert dormira totalmente extenuado ao lado de suas 
elefantas.

 Aguentara at as seis da tarde na cabina da Sra. White, melhor 
dito: Ela no o deixou ir embora. Ambert saiu s apalpadelas da 
cabina, com a sensao de estar caminhando sobre pernas de 
borracha e com o crnio cheio de ar. Em contrapartida, Anne foi 
de uma vitalidade francamente demolidora, beijando-o, 
acariciando-o e encorajando-o repetidas vezes. Quando quis 
tirar-lhe o cinto outra vez, aps Ambert ter conseguido 
vestir-se, defendeu-se e gritou desesperado:
 - Anne, minha querida! Deixe um restinho para os outros dias 
tambm!
 A querida compreendeu, sentou-se na cama toda coquete com sua 
beleza moldada pelos melhores cirurgiSes plsticos e ficou 
contemplando Claude Ambert com os olhos brilhando. Graas s 
plsticas, seus seios eram firmes e redondos, a pele da barriga, 
cadeiras e coxas bem rgidas e sem nenhuma ruga. At mesmo o 
tringulo de cabelos negros tinha uma aparncia de tamanho e 
densidade fora do comum.
 - Voc  maravilhoso! - disse Anne balanando as pernas. - 
Poucos homens tm a resistncia que voc tem. A causa disso  
porque voc lida com elefantes?
 - No sei. - Ambert ansiava por uma cama macia, paz e um bom 
sono. Poder esticar-se, sem ser beijado da cabea aos ps; poder 
deitar-se de costas, sem que um corpo quente e trmulo de teso 
se jogasse sobre ele; simplesmente dormir... que pensamento 
esplndido. Sua boca estava ressecada, Ambert sentia-se como se 
tivesse sido moldado em papelo hmido, como se no tivesse 
ossos. - Voc... tambm foi maravilhosa... - disse ele cansado. 
Bem, pelo menos ela tem tantos milhSes que perde de vista o 
panorama econmico. E se um pequeno domador tem a possibilidade 
de sugar isso, primeiro deve oferecer-se como vtima.
 - Eu sempre sou maravilhosa. - A voz de Anne White gorjeou como 
uma pombinha diante de um monte de milho. - Vem dormir hoje  
noite aqui comigo.
 - Olha, mal posso ter esperana disso. - Ele encarou-a com olhos 
embaciados, foi at  porta, levantou a mo e acenou: - At mais 
tarde darling! 
 Anne assentiu, esperou que Ambert sasse da cabina e depois 
tornou a deitar-se na cama.
 - Seu miservel caador de dinheiro - disse ela com desprezo. - 
O preo quem diz sou eu. E voc s vale a metade!
 Apesar disso, Anne foi procur-lo no baile de boas-vindas no 
Salo dos Sete Mares e, mais tarde, nos bares. Com postura 
orgulhosa, parecida  de uma prima-dona famosa, ela andou de modo 
espalhafatoso pelo navio, cercada por uma nuvem de perfume, e 
depois retornou desapontada  cabina. Jogou num canto tudo que 
trazia no corpo, borrifou-se de perfume e deitou-se pelada na 
cama. Quando finalmente bateram na porta, ela pensou: seu idiota! 
A porta est aberta, aperte a maaneta para baixo. Mas gritou:
 - Entre! - escancarando as pernas em forma de cumprimento. 
 Contudo, quem entrou foi um desconhecido. Um homem baixote, 
atarracado, de cabea redonda e uma barba negra que ia de orelha 
a orelha. Parou no meio da cabina um pouco inibido - podia-se ver 
que vestira o melhor terno.
 - Madame - disse ele com um ingls spero. Seu olhar ficou 
parado nas coxas arreganhadas de Anne, enquanto ela no pensava 
em mudar de postura. - Eu me chamo Jim e sou mecnico de bordo. 
Eu queria...

 - Voc precisa consertar alguma coisa aqui? - perguntou Anne 
virando-se nos quadris. Se o patife dos elefantes chegar agora, 
pensou, boto ele para correr. Minha Nossa Senhora, como as calas 
desses mecnicos ficam volumosas de repente. - Aproxime-se, meu 
jovem, venha aqui na cama. Voc tinha alguma coisa em mente ao 
vir aqui.
 - Consertar? - Jim continuava olhando as coxas arreganhadas de 
Anne com um jeito de quem est encantado. - Madame, tenho a 
impresso de que precisamos desentupir alguma coisa...
 - E ento?! Que est esperando? Voc tem cara de quem  bom 
trabalhador.
 Jim comeou a desatar o cinto. L embaixo, no alojamento da 
tripulao, dizia-se que um ano atrs aquela dama pagava 
quinhentos dlares. Faa-a chegar a setecentos dlares! 
Mostre-lhe do que  capaz. Setecentos dlares, seno voc torna a 
esconder o bichano! Jim, voc  o nosso campeo no melhor sentido 
da palavra. Se ela lhe der setecentos dlares, ns tambm vamos 
conseguir...
 Ele deixou as calas arriarem e, enquanto isso, observou Anne 
White com toda ateno. O olhar dela ficou um tanto ou quanto 
paralisado.
 - Madame... eu... eu gostaria de comprar um equipamento 
fotogrfico novo em acapulco - disse ele hesitante. Droga, como  
difcil da primeira vez. Nunca antes havia feito algo assim. - 
Mas o soldo de marinheiro...
 - Voc vale mil dlares! - ela bateu com ambas as mos no 
colcho e depois estendeu o brao direito na direco de Jim. - 
Droga, pare de falar tanto assim! Mil dlares, Jim. Ser 
possvel? Mil! Feche os olhos e esquea-se da idade dela. Mil 
dlares...
 Ele arrancou a roupa e jogou-se de um s impulso ao lado de Anne 
na cama de casal.
 Nessa hora, Claude Ambert estava com suas elefantas. Graas aos 
comprimidos do Dr. Paterna, os dois colossos cinzentos estavam 
deitados de lado em cima da palha, dormindo com a respirao 
ofegante. Ambert tambm sentia a mesma moleza; tirou o 
estetoscpio da maleta de primeiros socorros e auscultou o 
batimento dos coraSes de suas amadas. Os elefantes tm uma 
circulao sangunea instvel, muito delicada. Ambert sempre 
levava na maleta algumas ampolas de estimulantes de circulao, a 
fim de poder aplicar uma injeco na mesma hora, caso Sissy ou 
Berta perdessem o prumo.
 Isso no foi preciso nesse dia. A respirao delas estava boa, o 
batimento cardaco um pouco baixo, porm, regular... as duas 
curavam o enjoo do mar dormindo.
 Lanando mo das ltimas foras, Claude andou cambaleante at a 
cama e desabou sobre ela. Antes de mergulhar por completo no 
nada, ele ainda pensou: voc precisa aguentar at Acapulco! S 
mais dois dias e duas noites. At l voc deve ter conseguido uma 
pequena fortuna fazendo amor.
 Esse parecia ser um desejo irrealizvel, pois j nesse instante 
Claude Ambert estava to extenuado que nem ao menos conseguiu 
sonhar. 


Erika Treibel esperou com o corao galopando de medo que 
Dabrowski levasse de volta as jias. Durante todo o baile de 
boas-vindas, ela ficara sempre  vista de Beate, sem tirar os 
olhos das jias tiradas do esconderijo. Mas foi obrigada a deixar 
Dabrowski sozinho durante quinze minutos. Fora concluda a 
ligao telefnica que ela pedira com a Alemanha. Heinrich Ried, 
seu chefe, o joalheiro, estava muito preocupado, podia-se ouvir 
em sua voz vinda de milhares de quilmetros de distncia.
 - Erika, que est acontecendo? Por que voc ligou?
 - S tenho uma pergunta a fazer, Sr. Ried. - Erika Treibel 
recostou-se na parede da cabine na ante-sala da estao 
telefnica. - O senhor conhece Ewald Dabrowski?
 Hesitante, ele respondeu com evidente reserva:
 - Sim. Por qu?
 - Ele est a bordo. .
 - Estou sabendo.
 - Disse que  detective de uma grande companhia de seguro.
 -  verdade. - Heinrich Ried pigarreou. Era boa a compreenso 
atravs da gigantesca distncia, com a ligao interrompida 
apenas de vez em quando por rumores e estalidos atmosfricos. - 
Ele j a informou sobre sua misso?
 - J. Nesse momento, a acompanhante dele est usando nossa 
melhor jia para servir de isca ao ladro. Eu... eu estou com um 
pouco de medo, Sr. Ried.
 - No se preocupe, Erika. Faa tudo que Dabrowski pedir. Que foi 
que ele lhe contou sobre Carducci?
 - Ele est convencido de que essa pessoa encontra-se a bordo.
 Foi como se Ried tivesse soltado um suspiro.
 - Preste ateno, Erika! - disse ele depois. - Carducci conhece 
centenas de truques. Apresente somente duas peas de jias para 
qualquer cliente, depois retire-as de imediato se outras pessoas 
quiserem ver. Nunca d as costas aos clientes! Numa joalheria de 
Genebra, Carducci trocou com a velocidade do raio trs anis por 
duplicatas sem nenhum valor, no momento em que o vendedor foi at 
o cofre. S notaram a diferena trs dias depois, quando um outro 
fregus examinou os anis. Que
vergonha! Portanto, Erika: fique sempre de olho no cliente...
 Por conseguinte, a conversa colaborou muito pouco para 
tranquilizar Erika. Quando Dabrowski apareceu na joalheria aps o 
desjejum para devolver as jias, a vendedora trancou-as na mesma 
hora no cofre.
 - O senhor notou alguma coisa? - perguntou ela.
 - Nada. Eu receava isso. Primeiro o sujeito d uma olhada, 
avalia tudo que possa ter valor e elabora seu plano. S se torna 
activo na ltima parte da viagem. - Dabrowski apoiava-se na 
bengala branca de cego e olhava o vazio. Havia trs casais diante 
da vitrine admirando as peas de jias.
 - De repente, toda a pessoa torna-se suspeita - disse Erika 
Treibel em voz baixa. - Que sensao mais pavorosa! Que far o 
senhor quando as primeiras jias comearem a desaparecer das 
cabinas?
 - Ainda no sei.
 - Isso no soa muito reconfortante.
 - Carducci s pode ser desmascarado em flagrante. - Dabrowski 
ergueu-se. - Deve ser atrado a uma armadilha, caso contrrio 
jamais o agarraremos. S que eu ainda no sei como essa armadilha 
deve ser montada.

 Dabrowski saiu da joalheria, subiu s apalpadelas a escada que 
levava ao tombadilho e, ali chegando, sentou-se num dos 
banquinhos junto  parede. Ludwig Moor estava percorrendo de novo 
seus mil metros com postura erecta, queixo para a frente, espinha 
recta, os braos perambulando ao ritmo dos passos, sem olhar  
direita ou  esquerda. Para levar a cabo uma tarefa,  preciso 
que a pessoa consiga concentrar-se nela. Dez minutos depois, o 
Dr. Paterna apareceu no tombadilho, olhou em volta e sentou-se ao 
lado de Dabrowski. O cego virou o rosto com os culos de lentes 
escuras na sua direco.
 - Eu sou o mdico do navio - disse Paterna. - Posso ajud-lo 
nalguma coisa?
 - Eu soube logo que o senhor devia ser mdico ou algo parecido. 
O senhor exala um leve odor de desinfectante.
 - aptimo! - o Dr. Paterna arreganhou um sorriso largo. - Voc 
disse com uma convico espantosa. Tem um grande talento para o 
teatro.
 - Como devo entender isso? - perguntou Dabrowski rgido.
 - Voc banca o cego de um modo primoroso.
 - Banca...?
 - At agora j o encontrei trs vezes a bordo. Da primeira vez 
tambm fui iludido. Contudo, j no segundo encontro teve uma 
coisa que me chamou a ateno. Bem, ele deve enxergar um pouco, 
pensei comigo. Mas desde ontem  noite, desde o baile, eu sei que 
voc no  nem um pouco cego.
 - Voc j falou com algum sobre isso?
 - No. Queria diz-lo primeiro a voc .
 - Doutor, que fao de errado? Pelo amor de Deus, eu treinei 
tanto!
- Dabrowski recostou-se na parede. Moor, o zeloso caminhante, 
passou por ele pela sexta vez, sem virar a cabea um centmetro 
sequer. - Onde foi que me tra?
 - S um mdico consegue ver... digo para sua tranquilidade.
So pequenas coisas. Apesar de bater coro a bengala, voc sobe e 
desce a escada com muita rapidez. No baile de boas-vindas, voc 
seguiu uma mulher com os olhos... algum cego faz isso? - Paterna 
soltou um sorriso baixo. - Eu me recordo de uma experincia que 
meu pai contou muitas vezes.
Ele caiu numa priso russa e, entre os prisioneiros alemes, 
tambm havia um ferido com uma venda nos olhos. Ele tentava 
deixar claro para os russos que era cego. Que havia ficado cego 
por uma exploso. Isso significava: hospital militar e nada de 
campo de prisioneiros. Mas havia uma mdica bem refinada no campo 
de concentrao. Ela mandou chamar o alemo cego, tirou a venda 
dos olhos dele e ordenou: "Dispa-se! Tire tudo!" E esperou que 
ficasse nu diante dela. Em seguida, tambm tirou toda a roupa e, 
posto que era realmente uma bela mulher, o pobre "cego" reagiu na 
mesma hora quando, depois do suti, a calcinha caiu no cho. "Mas 
que grande porco!", disse a mdica satisfeita. Ela tornou a 
vestir-se e mandou o "cego" para a pior coluna de trabalho. - O 
Dr. Paterna deu um tapinha na coxa de Dabrowski. - No caso das 
mulheres bonitas, no d para aguentar com a cegueira fingida.
 - Eu no estava interessado naquela dama, mas sim em suas jias.
- Dabrowski riu da expresso de assombro do Dr. Paterna. - Os 
mdicos e sacerdotes so obrigados ao silncio. Portanto, voc 
tambm. O que vou lhe contar no  nenhum romance de capa e 
espada, mas sim a pura verdade. E voc vai me ajudar a virar um 
cego completo.

O ltimo dia antes de Acapulco.
Constava no programa do dia do NM Atlantis: "s 21 horas e 45 
minutos noite das surpresas no Salo dos Sete Mares. O 
mestre-de-cerimnias Hanno Holletitz os levar de uma surpresa a 
outra com muito humor e msica."

 O ponto culminante do espectculo devia ser a apresentao das 
elefantas de Claude Ambert. Contudo, at  tarde ningum ainda 
sabia como os dois colossos cinzentos seriam levados do convs C 
at o salo de festas. De elevador seria impossvel. Em primeiro 
lugar, era pequeno demais e, em segundo lugar, cada elefanta 
ultrapassava o peso permitido. De escada tambm parecia 
impossvel. Eram catorze escadas at o salo, todas revestidas de 
tapete e calculadas para o tamanho do p de um ser humano. A 
grosseira pata de um elefante devia escorregar o tempo todo.
 O comandante Teyendorf assumiu pessoalmente o problema. Mandou 
chamar Claude Ambert. O director de hotel Riemke j se encontrava 
na sute do comandante bebendo um conhaque para acalmar-se. 
Holletitz tragava um cigarro, nervoso...
 - Suas elefantas, Sr. Ambert, morreram! - disse Teyendorf em tom 
abrupto.
 - Como assim? Acabo de deix-las.
 - Elas no vo poder se apresentar.
 - Mas... Claro, fui contratado...
 - O senhor foi imposto a mim. E antes ningum pensou, confesso 
que eu tambm no, no enorme tamanho das elefantas.  bem verdade 
que seus bichinhos puderam subir a bordo atravs da escotilha do 
poro, mas no interior do navio no existe nenhuma possibilidade 
de transport-las do poro de depsito aos conveses. Portanto, 
to-pouco podem ser transportadas ao salo. No existe porta 
alguma que tenha altura e largura suficientes. As elefantas no 
passam em nenhuma escota. Alm disso, so catorze escadas entre o 
convs C e o salo de festas.
 - E da? - Claude Ambert desabou abalado sobre uma cadeira.
 - Vamos desembarc-lo em acapulco. Pode dar-se por satisfeito 
por ter podido fazer essa viagem de graa.
 Ambert bebeu dois conhaques e, em seguida, saiu cabisbaixo da 
cabina do comandante Teyendorf. Que grande merda tudo isso! E 
tambm no conseguira pr as mos num dinheiro muito alto com 
Anne White. A bem da verdade, ela deixou que Ambert entrasse em 
sua sute, mas depois disse em tom frio:
 - Vamos tomar mais um usque juntos e depois voc vai 
desaparecer.
 - Mas Anne, querida! - balbuciou ele desconcertado. - Afinal, 
que est acontecendo?
 Anne White contemplou-o com um imenso escrnio estampado nos 
lbios e depois fez um gesto negativo:
 -  bem verdade que voc  um ano, mas eu no sou Branca de 
Neve. V embora antes que eu tenha um ataque de riso. - Mas 
depois parece que teve compaixo do contrito Claude Ambert e 
perguntou: 
- Est precisando de dinheiro?
 - Estou. Quando se fica sem contrato com frequncia, duas 
elefantas so capazes de levar qualquer um  misria de tanto 
comer.
 - Quanto?
 - No sei... - Ambert no se atreveu a encar-la. Sentia-se como 
um prostituto com o qual se regateia o preo. Por acaso l sou 
alguma outra coisa?, pensou amargurado. Eu quis vender minha 
masculinidade, por que deu errado?
- Mil dlares?
- Seria... seria uma grande ajuda...

- Abra a gaveta da escrivaninha e retire as notas - disse a Sra. 
White de modo frio e indolente. - E depois suma! - Estava vestida 
com uma difana combinao de renda rosada e, sob a maquilhagem, 
tinha a aparncia de florescente mulher aos quarenta anos. 
 Ele foi at a escrivaninha, tirou dez notas de cem dlares do 
mao de dinheiro e enfiou-as no bolso. Todo esse macinho, foi o 
pensamento que teve, e eu estaria salvo. Amanh atracaremos s 
sete da manh em acapulco, as elefantas sero desembarcadas 
primeiro, haver um carro de transporte esperando no per. At o 
comissrio de cabina encontrar Anne White, podem ser onze horas. 
A essa hora, j estaremos no estbulo do circo. Alm disso, por 
que a suspeita cairia sobre mim?
Justamente sobre mim, quando todo mundo sabe que estou sempre ao 
lado de minhas elefantas? H mais de novecentas pessoas a bordo; 
como podero descobrir quem apertou a garganta dessa senhora?
 Claude Ambert foi at a porta, parou e tornou a olhar para trs. 
Anne White estava no barzinho servindo-se de outra dose de 
usque.
 - Adieu! - sua voz soou spera. - Voc me deu uma grande ajuda.
 Ela no respondeu, apenas estalou os dedos e esvaziou o copo.
 Quando Claude Ambert saiu da sute, pensou furioso: hoje  
noite! Vou ter o maior prazer em apertar-lhe a garganta.
 Agora, depois da notcia que no poderia apresentar-se no salo, 
sua raiva ficou mais impetuosa e seu libi mais seguro ainda. Um 
mestre e dois comissrios poderiam testemunhar que na ltima 
noite ele dormira de novo na cama dobrvel ao lado das elefantas. 
H no mnimo vinte mil dlares naquela gaveta, pensou ele j 
emocionado. E quem pode saber o quanto ela tem dentro do armrio. 
Mas s esses vinte mil j seriam uma base s lida para uma nova 
vida. At mais tarde, Anne, darling! Ele desceu a escada at o 
convs C, sentou-se diante das elefantas, deixou-se acariciar 
pelas delicadas trombas e disse:
 - Minhas queridas pequenas, a partir de amanh o mundo vai ficar 
diferente para vocs tambm. S no tenham um colapso cardaco no 
ltimo trecho!

 Sylvia de Jongh ficou um pouco desconcertada. O cavalheiro 
louro, impertinente, porm, simptico, que sabia chamar a ateno 
sobre si com muito charme, mudara por completo.
 Claro que seu marido comportara-se de modo impossvel, mas seria 
isso razo para bancar o insultado na mesma hora e agir como se 
nunca tivessem se visto? Ela passou rebolando algumas vezes para 
ele, mas o cavalheiro no esboara nenhuma reaco. Ficou 
recostado na amurada olhando o encarniado jogo de shovelboard e 
s uma vez lanara um rpido olhar aos seus seios que o biquini 
quase no ocultava.

 Herbert Fehringer era o mais sbrio dos dois, coisa que tambm 
ocorre com os gmeos. Era o pensador, o calculista, o planeador. 
Ele determinava a vida do irmo Hans e este aquiescia com tudo, 
desde que lhe dessem a alegria de gozar a vida. Assim, Herbert 
Fehringer tambm mostrou-se frio quando Sylvia pavoneou-se no 
convs provocando-o; nada de aventuras imbecis, havia repetido 
vrias vezes ao irmo Hans, nada de chamar a ateno. Ns 
queremos ver o mundo e no uma cela cheia de grades! No podemos 
sobressair no meio da multido. Estamos presentes, mas somos 
quase invisveis e silenciosos. As pessoas no devem reparar em 
ns, essa  a melhor proteco. A coisa fica perigosa to logo 
algum comece a falar sobre ns!
 Tambm no reagiu quando Sylvia postou-se ao seu lado na amurada 
e, como ele, ficou olhando a coroa de espuma formada no mar pela 
gigantesca hlice.
 - Quando se pensa que estamos sobre mais de mil e quinhentos 
metros de gua... - disse Sylvia olhando Herbert Fehringer de 
soslaio. - A gente at fica tonta...
 - Nesse caso voc no deve ir nunca a Guam. Ao sul de Guam o mar 
tem 12 mil metros de profundidade.
 - No d nem para imaginar.
 - A maior profundidade ocenica do mundo. - Fehringer esboou 
uma leve vnia. - Meu nome  Fehringer...
 Sylvia de Jongh encarou-o com olhos arregalados e com uma 
expresso quase de horror.
 - Mas... mas que significa isso? Claro que sei como voc se 
chama.
 - Ah! - nesse momento, Fehringer examinou-a com mais ateno. 
Uma mulher digna de uma aventura. Um flerte de frias bem 
quente... mas no para um Fehringer. Quem quiser viajar grtis de 
So Francisco a Hong-Kong, bem que pode renunciar s mulheres por 
um par de semanas. Depois, em Hong-Kong  s botar para danar as 
bonecas at rachar as paredes. L existe uma srie de salSes, 
onde moas lindas como uma imagem irreal de sonho fazem qualquer 
homem esquecer que h um mundo impiedoso fora da cama de seda. - 
Ns nos conhecemos?
 - Sei que meu marido comportou-se de modo impossvel em relao 
a voc . Mas por acaso isso l  motivo para fazer com que me 
sinta mal? Da ltima vez voc foi to simptico comigo. Por 
favor, trate de esquecer o estpido incidente! 
 Hans, foi o pensamento de Herbert Fehringer. Claro que tinha de 
ser meu irmo Hans de novo! Quando aparece uma saia, ele sai logo 
correndo atrs. Quantas vezes eu o avisei: tire as mos das 
fmeas quando estivermos viajando! Se alguma vez formos 
descobertos, a causa s poder ser alguma mulher! E agora ele 
est caando outra vez. Irmozinho, ns ainda vamos conversar 
sobre isso e no vai ser com muita delicadeza no!
 - J esqueci. - Fehringer abriu um sorriso largo, do jeito que 
Hans teria feito. - Vamos at o bar tomar um drinque?
 - Com prazer.
 - E onde est seu marido grosseiro?
 - Est l embaixo, no centro de musculao, pedalando numa 
bicicleta de exerccios. Ele tem a ambio de completar cem anos.
 - Ser que ele chega l?
 - Se continuar bebendo... Jamais!
 Os dois foram ao interior do bar e sentaram-se num banquinho 
junto ao balco espelhado. Muitos olhares seguiram-nos, sem 
sombra de dvida Sylvia de Jongh era uma das mulheres mais 
bonitas a bordo.
 - O que vamos beber? - perguntou Herbert Fehringer.
 - O mesmo de ontem.
 Cuidado, pensou Fehringer na mesma hora. Uma perguntinha dessas 
pode provocar o maior aperto.  preciso reagir com muita 
habilidade.

 - Vamos experimentar algo diferente hoje. De acordo? Que tal um 
coquetel? Chama-se Lagoa Azul.
 - O nome  sedutor. - Sylvia soltou um sorriso gorjeante e 
inclinou-se para trs no banquinho. Seus seios cresceram na 
direco dele. Hans, vou te matar mais tarde, pensou Fehringer, 
s que sorrindo para ela.
 - E ele  mesmo. Qualquer mulher perde a vontade aps "trs 
Lagoas Azuis".
 - Deve ser uma sensao incrvel. Eu nunca perdi a vontade... 
assim, do jeito que voc quis dizer.
 Fehringer pediu dois Lagoas Azuis e, em seguida, ficou 
procurando desesperado algum tema de conversa inofensivo, que o 
desviasse das insinuaSes inequvocas de Sylvia. Afinal, ele 
ainda no sabia seu nome.
 - O Lagoa Azul faz-me lembrar de uma aventura na frica - disse 
ele. Sempre  produtivo e gostoso se falar de viagens.
Sobretudo quando se constata por acaso que o parceiro de conversa 
tambm j esteve no mesmo pas e que depois poder relatar sua 
prpria aventura. No fundo, cada pessoa v um lugar de modo 
diferente; pode-se descrever o fausto do Rio, a praia de 
Copacabana com suas moas mestias de incrvel beleza, o 
Copacabana Palace, a viso do Po de Acar sobre a cidade e o 
mar, a esttua de Cristo que abenoa um mundo inteiro... mas 
pode-se ver tambm apenas as favelas que pululam nas montanhas 
qual cogumelos na cidade; as crianas que, por necessidade e para 
Alimentar as famlias, se transformaram em prostitutas e os 
assaltos e assassinatos dirios em plena rua, contra os quais 
ningum vem em socorro mesmo que se pea ajuda a plenos pulmSes. 
 - Voc est falando sobre a coisa com os massai no Qunia? - 
Sylvia sorriu e sorveu o coquetel com os lbios pintados de 
vermelho vivo atravs de um canudinho. - Voc j contou ontem.
 - Dessa vez eu me referia  visita a Lambarene, ao hospital na 
selva fundado pelo Dr. Schweitzer - disse Fehringer rapidamente.
 - Ah, por favor... no! - Sylvia pousou a cabea em seu ombro.
- Nada de doenas nem doentes. Eu gostaria s ver e ouvir coisas 
bonitas... pelo menos enquanto encontrar-me neste navio. Onde foi 
que voc j teve alguma experincia divertida?
 - No Amazonas. Tinha um crocodilo perseguindo um nadador numa 
praia pblica fechada.
 - Meu Deus! E chama isso de divertido?!
 - Sim, pois logo constatou-se que o terrvel crocodilo no 
passava de um bicho de borracha insuflvel que dois garotos 
empurravam para provocar o pnico entre os banhistas.
 - Meu marido morreria de rir... alis, s se se encontrasse na 
praia a uma distncia segura. Voc tambm riu?
 - Achei divertido - replicou Fehringer com todo cuidado.
 - Tambm estava na areia?
 - No, dentro d'gua. Mas logo reconheci que aquele no era um 
crocodilo de verdade. Todos gritaram para mim: "Saia nadando logo 
da! Para a esquerda!" Foi para l que os outros banhistas 
fugiram, pois  esquerda havia um barco balanando no mar. - 
Fehringer lanou um rpido olhar para Sylvia. Sentia a 
proximidade dela como uma irradiao de calor. - Seu marido no 
teria entrado logo na gua para salv-la?

 - Knut? Que idia essa sua. Ele teria gritado: "Sylvia, ele no 
vai fazer nada com voc, sua maquilhagem vai assust-lo!" Ele  
assim.
 Portanto, ela se chamava Sylvia. Uma mulherzinha  procura de 
aventuras. E meu irmo Hans, esse cabea-de-bagre, caiu cego nos 
braos dela.
Fehringer pediu mais dois Lagoas Azuis e depois retomou a 
conversa:
 - Nas grandes viagens, poucas vezes podemos ter experincias 
divertidas. Na maioria das vezes nos aborrecemos com os 
companheiros de viagem. Com o jeito deles para com os povos 
estrangeiros, com seu comportamento como se fossem os deuses 
brancos, com a ignorncia deles quanto  prpria educao, da 
qual em geral so to orgulhosos. Muitas vezes eu seria capaz de 
sair distribuindo bofetadas por todos os lados. Isso  divertido?
 - Vejo que hoje voc est num pssimo dia. - Sylvia bebeu o 
segundo coquetel com extrema rapidez. Rpido demais, notou ela ao 
deslizar do banquinho do bar. - Ontem voc estava confiado e 
alegre. Meu marido est pesando tanto assim em seu ombro?
 - Tambm. Eu preferiria que voc estivesse sozinha a bordo. Mas 
esses desejos raramente se realizam. 
 - No devamos nos desfazer dos sonhos com tanta rapidez. 
Existem fadas s quais devemos recorrer com frequncia antes que 
elas realizem os famosos trs pedidos. - Ela abriu um sorriso 
largo e provocante, deu um tapinha no ombro de Fehringer e, em 
seguida, voltou ao convs andando com passinhos midos.
 Fehringer continuou sentado no bar, sem fazer a Sylvia o favor 
de segui-la. Viu apenas a maneira como ela estremeceu de repente, 
quando um sujeito macio e com cara de touro surgiu atrs dela. O 
marido, pensou Fehringer respirando fundo. Alguns minutos atrs e 
ele teria visto a mulher no bar, com a cabea recostada no ombro 
do homem com o qual j teve uma altercao ontem. E Hans no 
contara coisa alguma. Eles chegariam a uma situao explosiva.
 Fehringer assinou rapidamente a conta e saiu do bar. Agora, 
irmozinho, vou te pegar pelo colarinho, tenho tanta certeza 
disso quanto sou o mais velho de ns dois.
 - Knut! - disse Sylvia desnorteada. - De onde voc saiu? Pensei 
que estivesse na bicicleta de exerccios. 
. - Tudo merda! Eu me sento, regulo a coisa para a resistncia 
mxima e comeo a pedalar. A vem o salva-vidas, aquele sujeito 
meio pirado, e tem o desplante de me dizer: no v quebrar a 
bicicleta. Voc est pedalando como um touro... A eu perdi a 
vontade. Esses caras aqui a bordo parecem estar acostumados 
apenas com gente com atrofia muscular. - Knut respirou fundo, 
franziu o nariz e encarou-a com olhos furiosos. - Mas voc andou 
enchendo a cara!
 - Encher a cara  privilgio seu.
 - Deus do cu, pare de falar com essa jactncia!
 - S bebi um coquetel. Tive vontade.
 - Sozinha?
 - No. Havia sete cavalheiros sentados  minha volta e trs 
comissrios atrs do balco. Pode ir l bater neles todos. Knut, 
o ferreiro...

 - Seu escrnio me d nojo! - Knut de Jongh olhou para o lado, 
descobriu suas espreguiadeiras ainda livres e apontou para elas. 
- L. Vamos nos deitar l at a hora do almoo. E cara senhora, 
permita-me que depois eu pea uma cerveja.
 - Por mim voc pode beber um barril inteiro... - Sylvia andou 
com passos acentuadamente provocantes at a espreguiadeira 
livre, enquanto Knut a seguia com olhos estreitados. Que mulher 
maldita, pensou ele. Maldita e linda! A gente  obrigado a 
repetir: isso me pertence! Dos ps  cabea. Na cama ela  uma 
deusa e uma fria. Quando eu lhe acariciei a pele lisa, os seios, 
.as coxas, a barriga... Knut apertou um pouco mais o cinto do 
roupo de banho e ficou contente por ningum poder ver sua 
excitao. Ns devamos estar agora na cabina, pensou... a cama 
estalaria como a exploso de uma granada.
 Seguiu-a com passos lentos... no era nem um pouco fcil andar 
sem chamar a ateno com uma poderosa ereco, vestido com um 
apertado calo de banho e um roupo pequeno. Sentou-se na 
espreguiadeira ao lado da mulher e no conseguiu impedir que o 
roupo se abrisse. Sylvia viu na hora o estado dele.
 - Voc devia ter pedalado mais na bicicleta de exerccio - 
sussurrou ela em voz baixa -, pea gua gelada e jogue em cima.
 - Sylvia! - Knut de Jongh respirou pesado. - No posso fazer 
nada. Eu a amo, apesar de tudo o que voc me joga na cara durante 
o dia. Sempre que eu a olho com essa sua bunda tesuda e 
infernal... voc  a maior patife que a natureza j criou.
 - Voc sempre foi e continuar sendo ordinrio, mesmo 
tornando-se um novo Krupp - disse ela. - Trate de deitar-se e 
fechar o roupo. No fique pensando que esse tipo de viso deixa 
algum excitado.
 - Antigamente voc via isso como um sinal para pular na cama, 
era como se estivessem soando as trombetas de Jerico. - Knut 
deitou-se para trs, fechou o roupo de banho e ficou contente j 
que sua excitao estava cedendo. Bem, agora basta que eu no 
olhe para ela. Esse corpo celestial e quase pelado. Devo dizer 
para mim mesmo: eu a odeio! Eu a odeio! S isso ajuda.
 Com a testa enrugada, Knut examinou os homens que passavam pelas 
espreguiadeiras e, sem a menor cerimnia, olhavam o corpo quase 
desnudo de Sylvia. Tambm, ela estava deitada de modo to 
provocante que no era milagre nenhum... as longas pernas um 
pouco dobradas e inclusive com a parte de cima do diminuto 
biquini um tanto puxada para baixo.
Um irrefrevel chamado ao pecado.
 - Precisa isso? - vociferou ele para o lado.
 - O qu? - a voz de Sylvia ostentou um tom de defesa negligente.
 - Essa maneira como est deitada!
 - Fico to confortvel. Afinal, o que  que o est incomodando? 
Quer comear outra briga?
 Knut murmurou qualquer coisa, deitou-se e fechou os olhos. s 
vezes eu gostaria de bater nela, pensou, at ela no conseguir 
mais ficar de p. Mas depois vm as noites nas quais Sylvia me 
leva ao delrio. Estou  merc dela, simplesmente  merc,  
isso. O forte Knut de Jongh  um macaquinho ao qual se do 
torrSes de acar!

 Suspirou fundo e depois sentiu-se entediado. Faltava-lhe o 
jornal dirio com as notcias esportivas e as pequenas sensaSes 
do mundo inteiro. Ele j sabia de cor as revistas que levara a 
bordo. Disseram-lhe que em acapulco subiria a bordo uma revista 
alem. A seleco de livros da loja no era de seu gosto, no 
tinha Jerry Cotton, bem como nenhum romance policial de Goldmann. 
Apenas trs Konsaliks velhssimos, que j havia lido h muito 
tempo atrs. Em compensao, havia alguma "literatura pesada" que 
ningum iria querer ler numa viagem de cruzeiro to repousante.
 Tudo est comeando muito bem, pensou ele furioso. Sylvia deixa 
loucos esses sujeitos lascivos a bordo, no existe nada para ler 
fora as notcias matinais do rdio escritas  mquina e que so 
distribudas junto com o programa do dia; eu apenas fao ridculo 
no shovelboard, no tnis de mesa e outros jogos de bordo, tambm 
falho no tiro ao alvo... sei disso, embora tenha tirado a licena 
para caar graas aos dois bons amigos que tinha na comisso de 
prova. No jogo de xadrez eu s fico irritado porque os outros so 
muito burros para jogar. Portanto, o que nos resta a no ser 
encher a cara? E isso durante vrias semanas! A longo prazo a 
idia das viagens de barco no foi to boa assim. Espreguiou-se, 
descobriu que o baixo-ventre voltara ao normal e tirou o roupo 
de banho. O comissrio de convs passou e deu uma parada.
 - Algum desejo, meu senhor?
 - Um barril de cerveja - sussurrou de Jongh.
 - Serve um copo grande? - o comissrio sorriu. J conhecia 
aquilo. Existem pessoas que ficam de cabea virada, nos primeiros 
dias a bordo at encontrarem o ritmo certo. Depois vem outro 
momento crtico mais ou menos na segunda semana, os dias da 
vertigem do mar, mas depois todos se apaixonam tanto pelo navio 
que preferem permanecer nele e acham que o tempo voa rpido 
demais.
 - Para comear basta um copo. Mas rpido! Estou com uma coisa 
que preciso engolir.
 Ele olhou Sylvia de soslaio. Ela estava deitada na 
espreguiadeira com as pernas dobradas, lendo um livro de bolso. 
Napoleo em Santa Helena era o ttulo. Knut de Jongh voltou a 
fechar os olhos. Que teatro, pensou ele. Voc no entende coisa 
alguma disso que est lendo, sua cabea-de-vento. Bancar a 
intelectual... meu Deus, quando  que o comissrio voltar com a 
cerveja?

Hans Fehringer estava deitado na cama ouvindo a msica do rdio, 
quando seu irmo Herbert precipitou-se na cabina, .fechou a porta 
atrs de si, tirou a jaqueta leve e cerrou os punhos.
 - Levante-se para que eu possa dar-lhe um soco no focinho! - 
disse contido. - Voc  um idiota completo! Seu cabea-de-bagre!
 Hans Fehringer examinou o irmo gmeo com um ar inquisidor, 
preparado para defender-se. Deitado, tencionou os msculos.
 - Que est acontecendo?
 - Quem  Sylvia?
 - Nossa Senhora! - Hans Fehringer desligou o rdio. - Ela topou 
com voc ?
 - Mais ou menos. Eu fui obrigado a interpretar seu papel sem ter 
a menor idia de como. Por que voc no me disse que havia ido  
caa de novo?
 - Esqueci. Simplesmente esqueci, irmozinho.
 - E ainda por cima ela  casada!

 - Com um sujeito nojento e primitivo. - Hans sentou-se. - Mas 
ela no  um avio? Que corpo! E excitante como... Como... bem, 
no existe comparao. Trinta e dois anos cheios de dinamite!
 - E voc vai querer explodir isso?! - Herbert Fehringer foi at 
o banco junto  janela da cabina e sentou-se. - Voc sabe o que 
pode acontecer se ela descobrir nosso truque?
 - Voc j me recitou isso milhares de vezes.
 - E sempre deu certo. Est querendo fazer uma cagada agora? 
Hans, voc sabe que eu confio muito no meu sexto sentido. Isto  
um verdadeiro perigo. Quanto tempo essa Sylvia ficar a bordo?
 - At Sidney.
 - E voc vai querer carreg-la nas costas o tempo todo?
 - Se for possvel... sim. - Hans Fehringer saiu da cama. - E na 
verdade, vai ser aqui! Aqui na cabina. Irmozinho, no tem como 
dar errado.
Voc fica l em cima no convs, o marido l e se tranquiliza. 
Enquanto isso, eu e Sylvia estamos nos roando aqui no lenol.
 - E voc acha mesmo que vou participar disso?
 - Por que no? Por amor fraternal.
 - Esquea! - Herbert Fehringer ps o punho cerrado sobre a mesa.
- Eu juro que essa vai ser a ltima viagem que fazemos juntos. 
Prefiro ficar deambulando quatorze dias no nosso quarteiro. 
 - Por isso mesmo devo gozar ao mximo essa ltima viagem. - Hans 
Fehringer vestiu a mesma jaqueta que o irmo acabara de tirar.
 - Aonde voc pensa que vai? - perguntou Herbert erguendo o tom 
de voz. 
 - Ao convs. Tomar ar. Agora voc vai ficar aqui para se 
acalmar. Ser sua vez de novo aps o almoo. E a minha  noite. 
Depois deixo para voc o alegre baile de bordo. Pode ser que eu 
j precise da cabina.
 - Pois vai ser exactamente ao contrrio, irmo!
 - Engano seu. - Hans j havia chegado  porta da cabina e a 
abria de novo. - Como vai me deter? Ento vem junto comigo, vai 
ser uma sensao!
 - Voc pirou por completo?! - gritou Herbert Fehringer.
 - Veja, irmozinho; algum deve ser o mais esperto e este sempre 
foi e ser voc . Reconheo esse facto e, por isso, permito-me 
certas burrices. Portanto... at a troca do almoo! Ligue o rdio 
na estao dois, esto apresentando uma pera. Divirta-se!
 Saiu da cabina e desceu assobiando pelo corredor que levava ao 
foyer principal. Herbert ficou para trs possudo por uma fria 
impotente. Ficou olhando o infinito oceano Pacfico pela janela, 
meditando como se poderia dar um fim a essa brincadeira perigosa. 
O jeito seria ele, no lugar de Hans, tratar essa Sylvia de um 
modo to miservel que acabassem tendo uma briga sria. Mas 
podia-se pensar tambm numa outra verso: ele continuava fazendo 
o papel de Hans, indo para a cama com Sylvia. Esse seria o jogo 
do qual Hans teria de participar a fim de preservar o segredo.
 Esse pensamento no saiu mais da cabea de Herbert Fehringer. 
Ele viu o corpo excitante de Sylvia  sua frente, tornou a sentir 
seu intenso magnetismo ertico que o envolvera qualquer manto de 
calor e, de repente, teve inveja de Hans pela posse exclusiva 
daquela mulher diablica.

 Portanto, vai ser assim, pensou Herbert Fehringer satisfeito, 
porm, cheio de angstia. Vamos fazer como no almoo e no jantar, 
uma troca rpida na mesa e na cama. Assim, o problema dos gmeos 
entrar nos eixos de novo.
 Enquanto isso, Hans Fehringer deambulou pelos conveses at 
encontrar Sylvia e seu marido. Ela estava deitada numa pose 
excitante lendo um livro de bolso, Knut estava sentado na beirada 
da espreguiadeira bebendo cerveja. Hans aproximou-se com passos 
negligentes.
 - Sade! - disse ao ficar de frente para Knut de Jongh.
 Na mesma hora, Sylvia deixou cair o livro que estava realmente 
lendo. Para ela era novidade o facto de Napoleo ter sido 
assassinado; meu Deus, parecia um romance policial! 
- Obrigado - vociferou de Jongh em resposta. - Tem um sabor 
melhor sem a sua presena.
 - Perdo - Sylvia sentou-se pousando o livro no colo de tal modo 
que o olhar dele foi desviado para a minscula parte de baixo do 
biquini.
- Sou obrigada a pedir desculpas outra vez pelo meu marido. O ar 
marinho sempre o deixa agressivo. Voc no est sentindo calor de 
jaqueta e cala?
 - Tive uma conversa sobre negcios no bar Olympia.
 - Que pena. Eu estava querendo ir nadar na piscina.
 - Mas isso no  problema, cara senhora. - Hans Fehringer 
ostentou um sorriso largo e desafiante. - Estou sempre de calo 
por baixo. S uns minutinhos... e eu me livro rapidamente de meu 
traje.
 Hans correu at uma das cabinas do vestirio, despiu-se e 
colocou terno, sapatos e meias sobre uma espreguiadeira 
desocupada ao lado dos passageiros que tomavam banho de sol.
 - S uns minutinhos... - Knut de Jongh imitou-o quando Fehringer 
saiu correndo. - Eu me dispo rapidamente... Que macaco! E voc se 
comporta...
 - Eu quero nadar, mais nada. 
 - Voc o encorajou!
 - Mas voc no entra na gua. E quando entra, fica grudado na 
borda da piscina! Por acaso at a minha natao o deixa irritado?
 - Idiotice! - ele olhou para Hans Fehringer que, com uma toalha 
vermelha jogada no ombro, vinha trotando pelo convs com seu 
corpo musculoso, desportivo, trabalhado. Esse sujeito tem uma 
ptima aparncia, sobretudo d para se avaliar que deve ser vinte 
anos mais jovem. Sylvia levantou-se e espreguiou-se. Seu corpo 
ertico e insolente brilhou ao sol. Knut de Jongh depositou o 
copo de cerveja ao lado da espreguiadeira e lanou um olhar 
sombrio para Fehringer que primeiro entrou debaixo da ducha, 
depois entrou na piscina e ficou esperando que Sylvia o seguisse. 
Em seguida, ficaram nadando juntos, lado a lado, em crculos. A 
gua apresentava o mesmo movimento do navio quando este 
mergulhava no mar e depois se erguia. Era como estar nadando de 
facto nas ondas do oceano.
 - Por que voc voltou? - perguntou Sylvia enquanto, por baixo 
d'gua, tocava-lhe a coxa com uma das pernas.
 - J no aguentava mais. Precisava v-la. Sylvia, quando voc me 
viu antes...
 - Que foi, Hans?
 - Tive vontade de beij-la:.. mas graas a Deus no estvamos 
sozinhos.

 - Porqu graas a Deus?
 - Porque me conheo.
 - Eu tambm a mim. - Ela sorriu para ele, mergulhou, passou 
deslizando por Hans tocando-lhe o baixo-ventre com o corpo. Qual 
peixe prateado, tornou a emergir do outro lado.
- Seu marido est desconfiado, Sylvia - disse Hans com a voz um 
tanto abafada pela excitao.
 - Ele sempre est.
 - Fica nos observando como um caador  espreita da caa.
 - E o que v? Nada. Somos duas pessoas decentes, no  verdade, 
Hans?
 - Eu no. Nesse momento estou pensando em outra coisa...
 - Por favor, no diga.
 - Gostaria de estar sozinho com voc durante o baile de hoje.  
possvel?
 - No sei. Isso vai depender de como meu marido passar o dia. Se 
continuar bebendo, depois do almoo ter chegado a um ponto em 
que cair na cama e dormir como um urso. Mas pode ser que ocorra 
exactamente o contrrio... Vamos esperar, Hans.
 - Estou to contente que poderia gritar hurra...
 Sylvia tornou a sorrir, mergulhou, roou de novo o baixo-ventre 
de Hans e emergiu ofegando. Com a ondulao no dava para ver o 
que acontecia debaixo d'gua. Ela nadou at a escada, subiu, 
banhou-se no chuveiro para tirar a gua salgada e depois vestiu o 
roupo de banho. Fehringer continuou na piscina nadando de um 
lado para o outro com elegantes movimentos de pernas e braos e 
pensando na noite que estava por vir. Vou lev-la  cabina... 
Mesmo que Herbert bata com a cabea na parede! Nunca possu uma 
mulher assim. Uma maravilha de corpo e teso. Por ela sou capaz 
de brigar at mesmo com meu irmo. Aqui simplesmente acaba o 
mundo real. Aqui eu entro numa nova vida. Knut de Jongh pegou o 
copo de cerveja quando Sylvia saiu da piscina, mas nesse momento 
a bebida teve um gosto inspido. A mulher parou diante dele e 
encarou-o de cima com o lbio inferior esticado num jeito 
sarcstico.
 - E ento? Satisfeito? Ou ser que voc viu algum coito 
submarino?
 - Voc fala como uma puta - disse ele num tom abafado.
 - Talvez eu seja uma, no? Devem existir donas-de-casa honestas 
que ganham a vida como callgirls enquanto o marido est 
trabalhando.
 - Hoje voc no vai me fazer perder a pacincia! - de Jongh 
ergueu o tom de voz. - Comissrio, mais uma cerveja! - berrou 
convs afora antes de o comissrio parar  sua frente. - Vocs 
conversaram enquanto nadavam?
 - Ele me contou que  negociante de carros.
 - Que marca?
 - Isso ele no disse.
 - Um pssimo vendedor! O mais importante  sempre dizer a marca. 
E Mesmo quando se est mijando ao lado de um outro: "J conhece o 
novo "Tubaro de..."
 Sylvia virou-se e foi at o vestirio trocar de biquini. Pouco 
depois, Fehringer saiu da piscina e foi tomar uma ducha. Quando 
ia passando por de Jongh, este dirigiu-lhe a palavra: - Voc  
representante de uma fbrica de automveis?

 - De vrias. Mas em geral fabricaSes especiais. Por exemplo, 
motor de BMW, chassi de Mercedes, carroceria de um lanterneiro 
italiano. Se se quiser, at mesmo um carro de sonhos. Realizamos 
qualquer desejo. Um cliente... no temos permisso para citar 
nomes, bem, um cliente encomendou um carro com uma jaula dourada 
montada no assento de trs para seu tigre de estimao.
 - Mas que piadinha mais boba! - disse de Jongh furioso.
 - No  no. Fazemos qualquer coisa, desde que paguem. Voc nem 
acreditaria o tipo de desejo que aparece. Est interessado numa 
fabricao especial, meu senhor?
 - Meu nome  de Jongh.
 - Sr. de Jongh. Se quiser...
 - No preciso de nenhuma jaula dourada para tigre no meu carro. 
S estava curioso em saber a marca que voc representava, pois 
minha mulher disse que voc vende carros. Onde  o seu negcio?
 - Com essas fabricaSes extravagantes, claro que nos EUA. Em 
Minnesota.
 - Claro. No nosso pas voc iria  falncia.
 - Com toda a certeza. - Hans Fehringer arreganhou um sorriso 
largo e afastou-se no momento em que o comissrio trouxe outra 
cerveja gelada. Knut de Jongh sorveu um longo gole e arrotou 
discretamente. Sujeito esperto, pensou ele. Faz das loucuras dos 
outros o seu negcio. At mesmo a bordo, como ele insinuou antes.
 Seguiu Fehringer com a vista, at este desaparecer no vestirio, 
sem notar que Sylvia ainda no havia sado de l. Recostou-se e 
ocupou-se deliciado com a cerveja gelada.
 Quando Fehringer entrou no vestirio, Sylvia estava nua atrs da 
porta. Ela caiu-lhe imediatamente no pescoo e beijou-o como 
louca, esfregando seu corpo contra o dele, ainda hmido. Sem 
dizer nenhuma palavra, Fehringer agarrou os seios de Sylvia, 
depois dobrou-a para trs e quis livrar-se do calo de banho... 
mas ela afastou-se de seus braos, vestiu a calcinha do biquini 
com a velocidade dum raio e enrolou-se no roupo de banho.
 - Sua malandra! - disse Hans Fehringer com a respirao 
ofegante.
 - At hoje  noite - deu-lhe um sorriso claro e estreitou o 
roupo no corpo. - Um bom jantar comea com um aperitivo... 
tchau...
 Sylvia saiu da cabina, Fehringer passou o ferrolho atrs dela e 
sentou-se num banco dobrvel montado na parede. Tinha plena 
conscincia de que estava entregue a essa mulher, que a partir 
daquele minuto ela podia fazer com ele o que quisesse.
 E Fehringer ansiava tudo que pudesse vir dela...

O dia passou tranquilo. O almoo e o jantar deram certo para os 
gmeos Fehringer, como de modo habitual. Sylvia de Jongh foi ao 
cabeleireiro e depois descansou na cabina pensando na noite que 
viria.
 Para espanto de Hans, no houve nenhuma outra altercao entre 
os irmos. Herbert concordou com a proposta e s colocou uma 
condio: que tudo transcorresse na base da troca como sempre.
 - Quer dizer - disse ele - que voc pode ficar com a sua Sylvia 
noite sim, noite no. As outras noites me pertencem. E  problema 
meu o que eu fizer ento. Talvez eu tambm consiga abocanhar 
alguma coisa...

 - Tem uma excitante cabeleireira a bordo - props Hans de bom 
humor, estalando com a lngua. - No no salo, mas como 
passageira! Cabelos louros longos... em geral fica na piscina...
 Herbert Fehringer arreganhou um sorriso largo.
 - Vamos ver se d certo... - ao dizer isso, estava pensando em 
Sylvia, em seu papel como "Hans" Fehringer, e ento esfregou as 
mos.
- Alguma novidade da parte de Sylvia? - perguntou.
 - Sim. O marido dela falou comigo. Eu disse a ele que tnhamos 
um negcio de carros de fabricao especial em Minnesota.
 - Voc ficou maluco? Que outra mentira disse?
 Hans contou a histria do carro com a gaiola dourada do tigre. 
Ento, os dois riram juntos.
  tarde, enquanto nos conveses serviam-se caf e bolinhos e a 
orquestra de bordo tocava msicas da jarrinha, tomava-se na 
cabina do comandante a deciso definitiva sobre a apresentao 
das elefantas. Manni Flesch, o director de cruzeiro, o director 
de hotel Gerhard Riemke e o comissrio-chefe Rudi Pfannenstiel 
discutiram mais uma vez se e como as duas elefantas poderiam ser 
levadas at o Salo dos Sete Mares. Mas no havia soluo. Riemke 
redigiu um protocolo, a fim de mais tarde poder comprovar a 
impossibilidade da apresentao perante a companhia de navegao. 
E o comandante Teyendorf assinou-o junto com Riemke e o tristonho 
Claude Ambert.
 - Bem, ns realmente tentamos de tudo, meu caro Claude - disse 
Teyendorf servindo-lhe uma dose de conhaque. - O que no tem 
soluo, solucionado est. Voc compreende, no? Estamos num 
navio e no num circo onde se pode abrir uma cortina para os 
elefantes entrarem marchando. Quando voc subiu a bordo, apesar 
de meus escrpulos e somente atravs do insistente pedido da 
companhia de navegao, ns pensamos em tudo... s no pensamos 
na maneira como voc podia subir at o salo de festa com seus 
dois gigantes cinzentos. Mas no final das contas isso vai dar no 
mesmo... Voc receber seu "cache especial" como se tivesse feito 
a apresentao.
 - O dinheiro no  tudo, senhor comandante - disse Ambert 
erguendo o tom de voz. - Trata-se da incorruptvel honra do 
artista...
 - Comunique isso  companhia de navegao. - O comandante 
Teyendorf deu uma tragada no cigarro. Quando o velho fuma com 
essa pressa, pensou Pfannenstiel em expectativa,  porque est 
fervendo por dentro. J conhecemos isso. Nesses casos, ou ele 
fica irnico ou berra  boa e velha maneira dos marinheiros. - 
Minha honra de comandante tambm foi arranhada. Eu o aceitei a 
bordo contra as minhas convicSes. Terei de superar isso, assim 
como voc ter de superar a suspenso da apresentao de suas 
elefantas. Devia reflectir sobre isso.
 - Perdo, comandante. - Claude Ambert assentiu e bebeu o segundo 
conhaque. Ia precisar dele, no apenas por causa do 
desapontamento, mas sobretudo para tomar coragem de realizar seu 
plano de pr as mos no dinheiro da devoradora de homens Anne 
White, nessa ltima noite a bordo. Claro que era preciso coragem, 
mas Ambert jamais voltaria a ter outra oportunidade daquelas, que 
mudaria sua vida por completo. Depois entregaria seus amores 
gigantescos, Sissy e Berta, a mos caridosas; Claude Ambert 
estava pensando no jardim zoolgico de Puebla.

 Deixou que lhe servissem um terceiro conhaque, depois agradeceu 
ao comandante Teyendorf, despediu-se e saiu da ala dos oficiais 
acompanhado de Pfannenstiel.
 - Bem, isso j liquidamos - disse Teyendorf para o director de 
cruzeiro Flesch e para Riemke. - Holletitz tem algum nmero para 
substituir as elefantas?
 - Ele tencionava convencer o cantor da cmara Rieti e a cantora 
Reilingen a apresentar dois duetos.
 - E eles no quiseram?
 - Parece que no podem. Rieti ainda est sentindo-se rouco e s 
quer cantar quando puder pronunciar o "r" de modo correcto e a 
cantora de cmara est deitada na cabina com enjoo do mar.
 - Mas para que temos mdicos a bordo? - Teyendorf acendeu outro 
cigarro. Acabara de esmagar o anterior no cinzeiro. - O que diz o 
Dr. Paterna?
 - Deu comprimidos para ela e jura que a mulher poderia cantar se 
quisesse. Mas ela continua deitada na cama revirando os olhos 
quando algum chega na cabina. Holletitz j quase ajoelhou-se 
diante dela... a mulher simplesmente no pode.
 - Estamos fritos! - Teyendorf olhou pela janela em direco ao 
bote salva-vidas pendurado nos cabos abaixo. - E fora isso?
 - O mgico poderia apresentar-se por mais dez minutos. Mas 
depois seu nmero fica longo demais e o pblico perde o 
interesse. To-pouco podemos cobrir o tempo das elefantas com as 
piadas de Holletitz. Temos um tremendo problema, senhor 
comandante.
 - Falarei pessoalmente com essa cantora sensvel. - O comandante 
Teyendorf ps o quepe e esvaziou o copo de suco de laranja que 
bebia em lugar do conhaque. Nada de lcool at a noite... isso 
era algo evidente para ele, bem como para seus oficiais. O 
comandante e os oficiais esto sempre de servio. Somente na hora 
do jantar  que todos, com a excepo dos que estavam de servio, 
eram "liberados do fronte".
 No incio, quando Teyendorf assumiu o comando do navio, houve 
acirradas discussSes a esse respeito. A conversa girara em torno 
da intromisso na esfera privada, do pensamento do empregado, de 
ordens de garrote.
Afinal de contas, as pessoas no se encontravam na marinha de 
guerra, mas sim num alegre navio de cruzeiro. Mas Teyendorf 
continuou firme e, no princpio, bronqueava com todos os oficiais 
que cheiravam a lcool. Agora, aps quatro anos sob seu comando, 
a coisa tornara-se natural.
 Mais tarde, Holletitz no saberia explicar como o comandante 
Teyendorf conseguira convencer a cantora de msica de cmara Sra. 
Margarete Reilingen e o cantor de cmara Sr. Franco Rietti que 
no estavam nem com enjoo do mar nem roucos. Uma hora antes do 
incio da alegre noitada que incluiria uma dana, os dois 
ensaiavam dois duetos, enquanto o pianista Prof. Helmut Dragger 
fazia o acompanhamento e, alm disso, declarava-se disposto a 
tocar um potpourri de A Viva Alegre. A noite estava salva.
 - O velho  impressionante! - Holletitz disse entusiasmado para 
o director de cruzeiro Manni Flesch. - Ele simplesmente vai e 
ressuscita os moribundos. Como  que ele consegue?
 -  preciso ser comandante, Hanno - riu Flesch. Ele tambm 
estava feliz, afinal cabia-lhe toda a direco do entretenimento 
a bordo. - Quem consegue declinar alguma coisa a um comandante 
como Teyendorf?

 Enquanto isso, Claude Ambert montava um libi. Na presena dos 
comissrios Piet e Volker, ele conversava com suas elefantas como 
se estas fossem seres humanos, explicando o motivo pelo qual no 
poderiam se apresentar.
 - Vocs so grandes e gordas demais, minhas pequenas - disse 
acariciando delicadamente a extremidade das trombas de Sissy e 
Berta. - Mas podem esperar, vamos ser aplaudidos de novo em 
acapulco. Ficarei com vocs duas aqui embaixo de modo que no se 
sintam to tristes.
 - Esse cara est gozando - disse o comissrio Piet quando 
voltaram para cima. - S est faltando cantar uma cano de ninar 
para as feras.
 - Talvez ele cante. - O comissrio Volker cheirou a manga do 
terno branco que exalava um odor de transpirao de animal. - 
Merda, vamos precisar trocar de roupa. Est cheirando a mijo de 
elefante. No fundo, esse tal de Ambert tem um parafuso frouxo. 
Ontem eu vi quando ele saa escondido da sute de Anne White.
 - Bem, ele est acostumado com elefantes.
 Os dois deram uma gargalhada estrondosa e depois foram de 
elevador para suas estaSes.
 Na hora do jantar - a vez era primeiro de Herbert Fehringer -, 
Sylvia de Jongh estava com uma aparncia encantadora. O modelo de 
seu vestido de coquetel era to refinado que nada se via, mas 
tudo se adivinhava. Nessas situaSes, Knut de Jongh banhava-se no 
brilho de sua mulher: vejam, caras, essa mulher me pertence! S a 
mim! Podem arregalar os olhos com toda a calma; Sylvia  minha 
deusa e  assim que eu a trato.
 Ao entrar no restaurante, Herbert Fehringer fez um leve aceno da 
mesa 136 na direco da mesa A 9. Sylvia respondeu com um aceno 
contido. O marido, que nesse instante examinava o fantstico 
cardpio, que em terra poucos hotis cinco estrelas poderiam 
oferecer, no notou a troca de acenos. E mesmo mais tarde, quando 
Hans Fehringer se sentou no lugar de Herbert, que desaparecera, 
de Jongh no percebeu... nesse momento ele negociava uma 
deliciosa sobremesa com o comissrio de mesa.
 Menos afortunado era o comissrio a cujo servio pertencia a 
mesa de Fehringer. Ele foi at o servio contguo e apontou 
furtivamente para Hans:
 - Aquele ali, o louro alto, deve ter um estmago de baleia. 
Agora est comendo um jantar completo pela segunda vez e 
derrubando sozinho a segunda garrafa de borgonha. Mas est firme 
como um dois de paus. D para compreender?
 - Tem gente que  assim. - O outro comissrio arreganhou um 
sorriso encolhendo os ombros com desdm. - Vo at o alojamento, 
do uma cagadinha e depois comeam tudo de novo.
 -  verdade. Ele acabou de ir l fora...
 - A est! No fique a de boca aberta, sirva! Afinal, no  
voc quem paga. Por quase quatrocentos marcos ao dia voc podia 
comer at trs vezes.
 Quando Hans Fehringer retornou  cabina, Herbert estava deitado 
na cama tendo ao seu lado uma garrafa de vodca, uma de soda 
limonada, bem como uma cuba de gelo. Na televiso passava um 
policial de Hitchcock transmitido por videocassete pelo estdio 
de bordo. Nesse momento, acabava de ser achado um cadver sem 
olhos. 
 - E ento, ela no  magnfica? - perguntou Hans tirando o 
palet de seda para poder lavar a mo.
 - Quem, o cadver? No sei dizer...

 - Sylvia, seu bundo! D para compreender agora que se perca a 
cabea com ela?
 - Pode ser. S que ns ainda precisamos de nossa cabea. Ou ser 
que voc est querendo ir parar numa priso de alguma ilha dos 
mares do Sul? Comparada com elas a penitenciria de Stuttgart  
um hotel de luxo. Esses buracos deviam ser mostrados a esses 
terroristas mimados.
 Nesse momento, o cadver sem olhos do filme da televiso era 
levado embora. Hans lavou as mos e depois voltou para a cama.
 - Quando  que voc vai dar o fora da cabina, irmo?
 - Quando voc quer vir? - Herbert bebeu um gole da vodca com 
limonada. - E quanto tempo vai ficar?
 - Digamos que at as quatro da manh. Tudo bem? Enquanto isso 
voc pode ficar no Clube do Pescador. Sua cama estar livre 
quando o cartaz "Favor no incomodar" no estiver mais pendurado 
na maaneta. - Ele arreganhou um sorriso largo e tornou a vestir 
o palet de seda. - Cruze os dedos para que o marido dela tome um 
porre.
 - Suma daqui!
 Hans Fehringer pegou o cartaz "Favor no incomodar", saiu da 
cabina e pendurou-o na maaneta. A partir desse instante nenhum 
comissrio iria incomodar. Ele subiu os dois lances de escada at 
o Salo dos Sete Mares onde j se encontravam os passageiros do 
primeiro horrio de refeio ouvindo a orquestra de bordo tocar 
msicas que no saam da moda.
Agora chegavam os passageiros do segundo horrio e, entre os 
primeiros, estava o casal de Jongh. Hans Fehringer esperou at 
que os dois encontrassem uma mesa e depois procurou um lugar nas 
proximidades, onde ele e Sylvia pudessem trocar olhares e sinais. 
Knut de Jongh ainda dava uma impresso de vivacidade, mas que era 
enganosa. Quem o conhecesse to bem quanto Sylvia, veria que a 
bebedeira j se apossara de seus olhos, mesmo que ainda reprimida 
por sua fora de vontade. Faltavam apenas alguns copos para 
derrub-lo definitivamente.
 - Champanhe - disse de Jongh quando a comissria Helmi passou 
por sua mesa. - Taitting seco. S uma taa para minha mulher. 
Para mim um usque duplo com gelo. O champanhe bem gelado!
 Deu um sorriso apaixonado para sua linda mulher, pegou um estojo 
de couro no bolso interno do palet e tirou um charuto.
 - O Dr. Peters disse que voc no devia fumar mais. Seu corao, 
meu querido... - os lbios de Sylvia pronunciaram essa frase com 
carinho especial.
 - Em primeiro lugar, o Dr. Peters no se encontra nas 
proximidades; em segundo lugar, estou aqui para descansar; em 
terceiro lugar, h muito tempo que gosto dos charutos e, em 
quarto lugar, por mim todos podiam... - de Jongh mordeu a ponta 
do charuto e acendeu-o. Depois recostou-se comodamente no 
assento. - Isso  que  prazer! - disse depois da primeira 
tragada. - Sylvia, hoje eu me sinto bem como um porco. - Soltou 
lufadas de fumaa no ar, coisa que Hans Fehringer aproveitou para 
esticar os lbios mandando beijos na direco de Sylvia. Ela 
respondeu com um leve aceno de cabea.
 O casal von Haller, na realidade prncipe e princesa von Marxen, 
estava sentado no muito longe dos de Jonghs. Haviam acabado de 
pedir um vinho branco  comissria Helmi.
 - Era ela a quem eu estava me referindo - disse a princesa em 
voz baixa, quando Helmi passou  mesa seguinte. - Que achou?

 - Uma moa robusta, Juliane Herbitina. - O prncipe contemplou 
por trs a figura exuberante de Helmi. - Ser que ela participa?
 - Deixe isso por minha conta, meu querido. Por acaso eu sempre 
no tive sucesso at agora?
 - Voc  quem manda, meu amor. - O prncipe olhou para o palco. 
Entrou em cena Hanno Holletitz, o mestre-de-cerimnias e 
conferencista, vestido com um palet de quadrados grandes e 
calas pretas. A orquestra deu um toque de clarins. Comeava a 
grande e alegre noitada.

Claude Ambert esperou ao lado de suas elefantas at mais ou menos 
duas horas da madrugada. Ento, disse a si mesmo que havia 
chegado a hora de comear uma nova vida. 
 - Dentro de dez minutos - disse para as elefantas adormecidas - 
estaremos ricos! A no vamos precisar mais nos apresentar para 
esses babacas estpidos.
 Saiu do poro de depsito, andou em silncio at a escada e 
subiu-a cauteloso como um animal de rapina. Depois foi de 
elevador para o solrio e deslizou na pontinha dos ps at a 
sute 004 com o nome de Goethe.
 Baixou a maaneta bem devagar, a porta cedeu. Como sempre, no 
estava fechada. Silencioso como um gato penetrou na ante-sala da 
cabina.

8

Claude Ambert ficou  espreita durante alguns segundos junto  
porta da cabina, para ver se alguma coisa se mexia no quarto de 
dormir separado da imensa sala de estar. Seu corao batia com 
tanta fora e o sangue pulsava com tanto barulho nas veias de sua 
cabea, que a princpio ele no ouviu coisa alguma. Somente 
quando conseguiu controlar a respirao foi que percebeu suaves 
barulhos de roncos, longos e regulares. Eram mais profundos do 
que se poderia supor no caso das mulheres.
 Ambert ficou perplexo e lutou consigo mesmo. As pernas queriam 
dar uma meia-volta e sair correndo, mas o crebro ordenava: 
fique, procure, pegue o dinheiro! Tudo que um homem faz tem seus 
riscos. Neste caso vale a pena ter coragem e dominar-se.
 Claude Ambert seguiu deslizando para dentro da cabina, tornou a 
parar  espreita diante da parede divisria do quarto de dormir, 
j acostumado com a plida luz da lua que entrava na enorme 
cabina atravs das janelas abertas. Conseguia distinguir cada 
objecto e via sobretudo a escrivaninha em cuja gaveta 
encontrava-se a fortuna. Anne White explicara ao director de 
hotel Riemke o motivo pelo qual no depositava essa soma 
gigantesca no cofre do navio, bem como suas jias valiosas que 
ela simplesmente guardava na gaveta fechada  chave da 
mesinha-de-cabeceira, que um profissional arrombaria sem a menor 
dificuldade.
 - No tenho filhos. Meus filhos so o dinheiro e as jias. E, 
como qualquer me, quero ter meus filhos ao meu lado, dia e 
noite.
Por acaso isso  alguma extravagncia?
 Ao qual Riemke respondera do modo mais amvel:

 - Mas de maneira nenhuma, Sra. White - embora estivesse 
pensando: quanto mais rico, mais pirado! Se alguma coisa fosse 
roubada, ela teria uma bela dor de cabea com sua companhia de 
seguro...
 Nesse momento, Claude Ambert deu a volta na parede divisria e 
olhou para a cama. Quase jogou-se para trs e fugiu, mas o terror 
deixou-o paralisado. Um homem estava deitado na cama. Um homem de 
barba negra, musculoso, robusto. Podia-se ver, pois ele s estava 
coberto at o umbigo. Deitado de costas, em sono profundo, era 
ele quem produzia os roncos.
Somente depois de uma segunda olhada foi que Ambert reconheceu 
Anne White ao lado dele, virada para a direita e coberta at o 
queixo. Tambm dormia respirando fundo, mas quase sem fazer 
barulho.
 Ambert ficou parado durante alguns momentos como que enraizado 
no cho, depois recuperou o raciocnio frio. O destino jogava a 
seu favor. Dava-lhe no apenas uma fortuna, mas tambm o suspeito 
ideal do assassinato... aquele homem ao lado da vtima na cama. 
Vai ser muito difcil provar sua inocncia, j que era a ltima 
pessoa que estivera com Anne White. E assim, Ambert no suspeitou 
em nenhum momento que a pessoa que ali dormia completamente 
extenuada pelo apetite sexual inesgotvel de Anne fosse um membro 
da tripulao do Atlantis, justamente o maquinista Jim, que 
possua a fora de um urso. No dia seguinte, aps a descoberta do 
crime, quando fosse interrogado pelo comandante Teyendorf, a 
coisa seria ainda mais terrvel para ele, posto que no poderia 
provar coisa alguma.
 Ambert olhou mais uma vez em volta, descobriu no div da sala de 
estar um enorme travesseiro com uma fronha colorida que mostrava 
o pr-do-sol junto a uma ilha dos mares do Sul, foi at  sala na 
pontinha dos ps, pressionou o travesseiro contra o peito e 
voltou ao quarto. Inclinou-se sobre Anne White e viu que seria 
impossvel sufoc-la com o travesseiro na posio em que o corpo 
da mulher estava deitado. Anne White precisava ficar de barriga 
para cima, com o rosto desimpedido, somente assim Ambert poderia 
sufoc-la com o travesseiro.
 Ele pousou o travesseiro no tapete do cho, virou Anne White com 
todo cuidado e bem devagar pondo-a de barriga para cima e, ento, 
esperou um pouco para ver se ela acordava. Mas a Sra. White 
tambm estava to esgotada pela capacidade de resistncia de Jim, 
que simplesmente continuou dormindo. Estava sorrindo no sono como 
se estivesse sonhando com algo maravilhoso e, sob a camada de 
maquilhagem um pouco lambuzada, seu rosto apresentava uma 
aparncia francamente jovial.
 Claude Ambert hesitou mais uma vez. No sou um assassino 
sanguinrio, pensou. E to-pouco sou louco; mas l dentro, numa 
simples gaveta, est minha vida nova. Ento o que sou? Um zero  
esquerda com duas elefantas que querem sua comida todos os dias. 
Sou obrigado a suplicar cada contrato, afinal o pblico est 
farto de sensaSes. Isso no pode continuar assim... preciso 
fazer... Nem sequer lhe ocorreu que se todos agissem dessa 
maneira s haveria assassinos no mundo... que ele no passava de 
um criminoso ordinrio.

 Ambert abaixou-se, pegou o travesseiro no tapete e pressionou-o 
com toda a fora no rosto sorridente de Anne White. Constatou 
espantado que a mulher quase no esboou resistncia, que no se 
debateu, que apenas estremeceu dando algumas pernadas... depois 
ficou quieta e ele apertou-lhe o travesseiro no rosto com mais 
fora pondo o peso de seu dorso em cima, enquanto olhava para o 
homem barbudo que roncava ao lado. 
 Aconteceu com muita rapidez; mais rpido do que ele esperava. O 
corpo de Anne distendeu-se, Ambert retirou o travesseiro de seu 
rosto e constatou que nesse momento estava desfigurado. Ela no 
respirava mais.
Ele pousou o ouvido no peito da mulher e no ouviu nenhum 
batimento cardaco. Anne White estava morta.
 Ele foi  escrivaninha com passos rpidos, abriu a gaveta e viu 
o grosso mao de notas. Apressado, enfiou tudo nos bolsos, tornou 
a fechar a escrivaninha e deslizou em direco  porta. 
 No corredor reinava a mais pura calma. quela hora, ningum mais 
deambulava pelo navio,  excepo da guarda dos bombeiros. S 
havia movimentos ainda na boate, que Claude Ambert ouviu ao sair 
do elevador e desaparecer rapidamente atrs da porta de ferro na 
qual estava escrito de maneira bem clara: "Entrada Proibida - 
Alta Tenso!" Mas tratava-se de um engano consciente para iludir 
os passageiros, para reprimir-lhes a curiosidade; atrs da porta 
havia um longo corredor que, passando pelo poro de depsito, 
levava  escada que ia dar no ponto mais fundo do navio, no 
imenso poro onde as elefantas dormiam nesse instante.
 Respirando aliviado, Claude Ambert jogou-se na palha ao lado de 
suas queridas de colorao acinzentada e fechou os olhos. 
Estaremos em acapulco amanh de manh bem cedo. Quando 
encontrarem o cadver da Sra. White, com toda certeza ningum 
pensar no domador de elefantes. E tambm por que haveriam de 
pensar? O que ele tinha a ver com a Sra. White?
 Claude Ambert guardou o mao de notas sem contar no ba de 
roupa, na parte mais funda, embaixo do toucado de elefante com o 
qual as duas se apresentavam no picadeiro. Ele sabia que ali nem 
mesmo os funcionrios da alfndega mexicana iriam procurar. Pelo 
contrrio!
Quando suas elefantas passassem de tromba erguida e soltando 
gritinhos pelos empregados da aduana, estes iriam rir e acenar: 
est tudo em ordem, camarada! Sorte com seus ratinhos cinzentos! 
As pessoas ainda tinham bom humor no Mxico. E ele seria um homem 
rico do outro lado da fronteira e da barreira...
 Ficou acordado ao lado das elefantas at ouvir as mquinas do 
navio operarem com meia fora e depois de um modo quase 
imperceptvel. Haviam chegado na entrada do porto de Acapulco.
 Ambert saiu do subterrneo e subiu ao convs principal. Ali 
encontrou Rainer Steger, o segundo quartel-mestre. O dia 
anunciava-se belo, o sol nascia com uma cor vermelho sangue, o 
cu estava banhado de dourado.
 - Serei o primeiro a desembarcar? - perguntou Ambert.
 - Claro. Est tudo certo com voc ?
 - Tudo.
 - Ento fique preparado!
 Ambert foi de elevador at o solrio, chegou ao tombadilho e 
olhou para a ponte. O comandante Teyendorf e o primeiro-oficial 
Willi Kempen comandavam a manobra de atracao. O colosso branco 
deslizava aproximando-se do cais centmetro por centmetro, 
conduzido, como sempre, pelo prprio Teyendorf com a ajuda do 
moderno raio de orientao de proa.

 Ambert deslocou-se outra vez para o poro indo encontrar ali 
dois marinheiros e o segundo-barqueiro que j estava  sua 
espera. As elefantas perceberam que a viagem chegara ao fim; 
levantaram-se na palha, fizeram barulho com as correntes e 
ficaram balanando as enormes cabeas de um lado para o outro. 
Sua incrvel e refinada sensibilidade reagia a cada barulho.
 - Logo estar tudo acabado, monsieur Ambert - disse o 
segundo-barqueiro. - Assim que atracarmos, a grande escotilha do 
depsito ser logo aberta para voc.
 - Graas a Deus essa viagem chegou ao fim! - Claude Ambert 
postou-se entre as duas elefantas. - Foi tudo  toa! De trem eu 
j teria chegado h muito tempo a Acapulco, sem que minhas 
pequenas tivessem padecido de enjoo do mar. Essa foi a nossa 
primeira e ltima viagem por mar, eu juro. 
 Claude Ambert e as elefantas desembarcaram do Atlantis s seis 
horas e vinte e dois minutos. Com mudo espanto, os passageiros 
que se encontravam na amurada para fotografar e filmar a manobra 
de traco viram que o navio levava elefantes a bordo. Os 
gigantes cinzentos chegaram em terra andando com dificuldade por 
uma rampa de madeira improvisada. Os dois marinheiros levaram a 
bagagem e os bas de roupas ao cais. J havia uma empilhadeira 
esperando ali para colocar as coisas numa plataforma de 
transporte.
 Assim que as elefantas chegaram em terra, Claude Ambert virou-se 
e acenou para Teyendorf. O comandante bateu continncia e chegou 
a mandar um aceno em resposta. Em seguida desapareceu para estar 
pronto para as autoridades porturias que subiriam a bordo dentro 
de alguns minutos. Os controladores de passaporte da repartio 
de imigrao tambm estavam esperando, pois qualquer passeio que 
os passageiros fizessem em terra era uma espcie de imigrao. 
Por conseguinte, cada passaporte teria de ser carimbado e, alm 
disso, cada um desses documentos pessoais permaneceria a bordo 
sob a guarda da comissria. Portanto, ningum poderia desaparecer 
de bordo e entrar na clandestinidade em territrio mexicano.
 Bem  vontade, Claude Ambert seguiu a empilhadeira acompanhado 
das duas elefantas, indo em direco  alfndega e  sada do 
porto. E como era de se esperar, as elefantas trombetearam com um 
som ensurdecedor. O passaporte e os documentos de artista de 
Ambert estavam em ordem, o atestado de vacina estava certo. O 
certificado de apresentao em acapulco, a permisso do 
Ministrio do Interior, tudo estava de acordo com o regulamento. 
Sorte, camarada! Esses seus bichinhos cinzentos so mesmo belos 
exemplares...
 Respirando aliviado, Ambert ultrapassou o porto do Mxico 
acompanhado de suas elefantas. No tornou a olhar para trs em 
direco ao navio, mas pensou no homem barbudo que com toda a 
certeza estaria acordando agora para ver que havia dormido ao 
lado de uma morta. Que iria fazer ento? Esquivar-se s 
escondidas? Impossvel! Nesse momento havia movimento em todos os 
corredores, coisa que fechava os caminhos de fuga.

E como Hans Fehringer havia passado a noite anterior? Pouco se 
interessou pelas atracSes do colorido programa no palco do Salo 
dos Sete Mares. Quando Sylvia de Jongh levantou-se da mesa 
deixando seu marido sozinho para dar uma rpida sada da sala, 
ela passou pela mesa de Fehringer e sussurrou: 
 - Dentro de meia hora no mximo!

 Fehringer fez um leve aceno. Nesse momento, um mgico 
apresentava-se no palco tirando uma bola de golfe do nariz de uma 
passageira que sorria encabulada. Os membros de um clube de golfe 
que se encontravam a bordo na qualidade de passageiros aplaudiram 
freneticamente. 
 Hans Fehringer s se levantou quando Sylvia retornou e foi 
sentar-se ao lado do marido. Nesse instante, os cantores de 
cmara Rieti e Reilingen comeavam o grande dueto de Madame 
Butterfty. Knut de Jongh deu um longo bocejo e entupiu-se de 
usque. Dava para se prever quando Sylvia o rebocaria. Hans 
afastou-se sem fazer nenhum rudo, seguido por olhares irritados. 
Rieti e Reilingen cantavam realmente de um modo extraordinrio. 
Ouvi-los era uma experincia inesquecvel. Holletitz ficou 
contente; o nmero no realizado das elefantas no poderia ter 
sido melhor.
 Herbert Fehringer j estava sentado na cama da cabina esperando.
 - Onde  que voc se meteu? - vociferou para o irmo. - Ela no 
estava com vontade?
 - Ela vai chegar dentro de meia hora. Some daqui, irmozinho do 
corao. Mais tarde, voc pode dar um pulo no Clube do Pescador 
at o salo, para que todos o vejam e ningum sinta a minha 
falta. E trate de no ser visto aqui de manh. Voc s pode 
entrar realmente quando o cartaz "Favor no incomodar" no 
estiver mais pendurado na maaneta.
 - Voc j disse isso pela quarta vez. Divirta-se, irmozinho.
 - Obrigado, meu irmo meia hora mais velho.
 Herbert Fehringer saiu da cabina e foi at o Clube do Pescador. 
Ali chegando, encontrou os dois homossexuais Jens van Bonnerveen 
e Eduard Grashorn, os quais, com os braos pousados um no ombro 
do outro, bebericavam exticos coquetis em copos compridos. 
Alguns casais danavam na pequena pista de dana redonda. Num dos 
sofs de canto estavam sentados o advogado Dr. Schwarme e Arturo 
Tatarani, o italiano proprietrio da vincola.
Os dois conversavam sobre o vinho piemonts. A cabeleireira 
Brbara Steinberg, uma beldade loura de vinte e oito anos, 
mantinha-se inacessvel apesar dos olhares cobiosos dos homens, 
embora, de sua mesa de dois lugares, estivesse flertando com o 
mdico de bordo, o Dr. Paterna, que se encontrava sentado no bar 
ao lado do cego.  uma pena que o doutor no esteja sozinho, 
pensou ela.
 Herbert Fehringer olhou  sua volta, descobriu outra mesa 
desocupada e dirigiu-se at ela. Ao faz-lo, passou por Brbara 
Steinberg e cumprimentou-a  maneira como se cumprimentam os 
conhecidos de convs. Ela ignorou o cumprimento e continuou de 
olhos fixos no Dr. Paterna. Vaca maldita, pensou Fehringer 
irritado.  sempre a mesma coisa: por fora,  bela como uma 
Vnus, mas no crebro apenas o vazio. Por que so justamente as 
mulheres bonitas as mais burras? a est uma questo com a qual 
os antroplogos deviam ocupar-se um dia. 
 Ewald Dabrowski inclinou-se em direco ao Dr. Paterna. Agora 
ele podia falar de modo bastante aberto, pois a msica estava bem 
alta, abafando a conversa.
 - Doutor, acho que como cego vejo melhor do que voc. L atrs 
est sentada uma linda donzela loura que s tem olhos para voc.
 - A cabeleireira Steinberg, de Bochum.

 - Ah! J lanou o lao para pegar?
 - Ainda como. - O Dr. Paterna ostentou um sorriso largo.
- A enfermeira Erna deixou escrito um bilhete. A senhorita 
Steinberg pegou alguns comprimidos para enxaqueca na farmcia do 
hospital. E perguntou por voc.
 - Todas fazem isso. Afinal, eu sou o mdico.
 - E quanto tempo voc ficar a bordo?
 - Durante toda a viagem. Em seguida entrarei de frias. Quero 
aguentar o emprego por mais trs anos.
 - E depois?
 - Penso em montar um consultrio nalgum lugar na Baviera. Junto 
a algum lago. Com uma pequena clnica incutida, na qual se 
praticar tudo que est em voga hoje em dia, terapia de oxignio 
puro, injecSes de trio e xenrio, cura pelo Aslan H3, troca de 
oxignio do sangue, treinamento autageno, diferentes formas de 
dieta, infusSes de quilato, jejuns recuperadores, aplicaSes de 
camada de xido, bioregenerao, terapia celular...
 - Digamos, tudo que da muito dinheiro.
 -  isso a.
 - Voc quer ser um mdico moderno. Um mdico que esteja sempre 
por dentro. Do jet-set. Um mdico que paparica tudo que  chique.
 - Bem, se voc quer chamar assim... quase que no tenho o que 
replicar. s que eu gostaria de insistir que trato todo o 
paciente segundo meus melhores conhecimentos mdicos e 
conscincia. - O Dr. Paterna sacudiu a cabea. - Por que estou 
lhe contando tudo isso? como cheguei a esse ponto? Faz apenas 
algumas horas que lhe conheo.
 - Porque sentimos simpatia  primeira vista. Voc descobriu logo 
o meu truque de cego. 
 - Como j lhe expliquei, isso foi muito simples para um mdico. 
Um cego comporta-se de modo diferente.
 - E eu disse que a partir de Amanh voc me daria um belo 
treinamento! Continua de p?
 - Ser um prazer para mim. - O Dr. Paterna pediu mais duas 
pilsens de barril. - A hora mais adequada ser quando os 
passageiros estiverem dando seu passeio. Ento, noventa por cento 
dos viajantes se encontraro a bordo e ningum nos incomodar. 
Poderei ensinar-lhe inclusive a subir escada. Caso algum nos 
veja... bem,
ento vai pensar que o bom Dr. Paterna est dando uma aula extra 
para o pobre cego.
 - Voc se tornar a bordo a imagem de um homem meio santo!
 - Coisa que qualquer mdico de navio  desde o incio, pelo 
menos para as mulheres. A gente precisa acostumar-se com isso e 
encarar a coisa com coragem. - O Dr. Paterna deu um sorriso 
jovial. - Agora, em viagens to longas como esta, at que no  
muito ruim. Mas quando estamos navegando durante o vero de um 
lado para o outro no Mediterrneo, sempre em viagens de dez ou 
catorze dias, portanto com uma rpida troca de passageiros... 
ento, posso assegurar-lhe que h uma grande confuso.
Ambas mulheres acham que reservaram tambm o mdico de bordo. 
Catorze dias de fuga do quotidiano e depois a volta  brava vida 
de dona-de-casa ou de honrada solteirona...
 - E isso o espanta?

 - Como. Devemos gozar a vida antes de criar mofo, coisa que 
infelizmente acontece com incrvel rapidez! como  que acontece 
com voc?
 - Como devo entender a pergunta?
 - Voc  casado?
 - Bem, dizendo com toda a franqueza e honestidade... ainda no 
tive tempo. Alm disso, minha vida  agitada demais.
 - Voc est acompanhado por uma "enfermeira" encantadora, Sr. 
Dabrowski.
 - Beate? Sim,  uma linda moa. Tem vinte e trs anos e honesta. 
Coisa que raramente encontramos. Vem de uma boa famlia; o pai 
promotor pblico, promotor-chefe.
 - E ela ainda aceita esse tipo de trabalho?
 - Foi o prprio pai que a colocou em minhas mos. Foi dela essa 
idia do cego, para que finalmente a companhia de seguros possa 
agarrar Paolo Carducci, o invisvel com vrios nomes.
 - E esse mestre dos ladrSes encontra-se a bordo?
 - Sim.
 - Tem certeza disso?
 - Como. Apenas sinto.
 - Portanto, trata-se de facto de um cego que sai s apalpadelas. 
- Paterna deu outra risada e lanou um olhar na direco de 
Barbara Steinberg. A mulher respondeu no ato com um sorriso 
irradiante. Tinha uma aparncia esplndida. Seus cabelos louros 
brilhavam como ouro polido.
Barbara recostou-se no assento estofado mostrando ao Dr. Paterna 
os seios de desenho notvel, que apareceram de modo indistinto no 
vestido apertado. No convs, vestida de traje de banho, ela era 
tida como concorrente loura da morena Sylvia de Jongh. A vantagem 
que apresentava era que, ao contrrio de Sylvia, Barbara no 
tinha marido ao lado.
 Os olhos de Dabrowski seguiram aparentemente por acaso o olhar 
de Paterna. Para qualquer estranho foi como se o cego estivesse 
olhando no vazio.
 - Pode ir l agora, doutor - disse ele em voz baixa.
- Eu lhe concedo frias. Daqui a pouco essa beldade vai ficar com 
cobras de tanta nsia. Posso subir sozinho s apalpadelas.
- Voc acha que eu teria alguma chance com sua Beate?
 Essa pergunta directa e repentina deixou Dabrowski mudo de 
espanto por alguns segundos.
 - Voc... e Beate? - perguntou depois, hesitante.
 - Ela me agrada.
 -  melhor voc ir logo tirando isso da cabea.
Beate no  do tipo de moa que sai por a agradando.
 - Com cimes?
 - Sou dezassete anos mais velho do que Beate.
 - E por acaso isso l  algum obstculo? Muitas garotas 
apaixonam-se por homens mais velhos.
 - Que idade tem, doutor?
 - Tenho a idade exacta para ela: trinta e cinco anos.
- O Dr. Paterna ficou srio. - Falando srio, Sr. Dabrowski. 
Gostaria de pedir-lhe para apresentar-me a Beate.
 - Eu sou detective e no casamenteiro.
 - Pense no seu treinamento de cego... 
 - Isso  chantagem, doutor!

 - Voc quer desmascarar um ladro de mulheres e eu vou ajud-lo. 
Afinal de contas, eu bem que poderia agir de outra maneira e 
simplesmente apresentar-me a Beate como mdico. Em vez disso, 
estou quase pedindo sua permisso. Se isso no for prova do quo 
distante estou de uma aventura fugaz!
 - Por hoje voc vai ficar com sua doce cabeleireira, doutor. E 
se continuar assim pelo resto da viagem, sinto muito por Beate. 
Voc acabou de dizer algo a respeito de mais trs anos de viagens 
martimas. Ser que Beate deve esperar trs anos ou voc passar 
trs anos na companhia de outras mulheres? Voc no est falando 
srio! Claro que no pode exigir isso de mim! O pai de Beate 
confiou-me sua filha e, por isso mesmo, ningum vai me passar a 
perna. Nem mesmo voc, doutor, com toda a nossa amizade 
repentina. - Dabrowski deslizou para fora do banquinho do bar e o 
Dr. Paterna fingiu que o ajudava. - Agora tactearei meu caminho 
para a cama.
 Pode ficar e apagar o incndio da cabeleireira. Ela  muito mais 
bonita do que Beate,  provvel que seja a mulher mais linda a 
bordo.
 - Amanh conversaremos mais a esse respeito. - O Dr. Paterna 
conduziu Dabrowski, o cego, at a porta do Clube do Pescador e 
ento retornou, aps esperar que Dabrowski entrasse no elevador. 
E, como se fosse a coisa mais natural, foi sentar-se diante de 
Barbara Steinberg  mesinha redonda. Ela encarou-o com olhos 
imensos, redondos e azuis e um ar francamente medroso. A surpresa 
fez sua respirao oscilar... de repente tornava-se realidade 
aquilo que ela desejara em seu ntimo.
 - Posso? - perguntou o Dr. Paterna com um modo descuidado embora 
jovial, ostentando um sorriso encantador.
 - Voc... voc j est sentado, doutor - balbuciou Barbara.
 - Eu estava pensando: essa linda criatura est sozinha e isso  
uma vergonha! Pela experincia que tenho, d para compreender 
como  difcil para uma mulher que viaja sozinha encontrar a 
companhia certa. No daria para ser com nenhum casal, pois a 
mulher explodiria de cime... e, no seu caso, com toda a razo! 
No existe nenhum homem nesse navio que voc no impressione. 
Claro que com a excepo do nosso pobre cego...
 - Voc me deixa embaraada, doutor. - Barbara Steinberg 
conseguia corar e ficar desconcertada de um modo encantador.
 O Dr. Paterna foi pegado de surpresa. Teria se equivocado? Seria 
verdadeiro aquele embarao? Seria aquela mgica linda talvez 
apenas um pequeno passarinho que se atrevia a entrar 
excepcionalmente e por uma nica vez numa gaiola dourada, aps um 
longo tempo de privaSes e economias?
 Ele acenou para o comissrio, pediu uma garrafa de champanhe e 
colocou os cigarros sobre a mesa.
 - Posso fumar?
 - Mas claro... eu lhe pego, no precisa perguntar.
 - Quer um tambm?
 - Obrigada. Eu no fumo.
 Paterna tornou a encar-la admirado. Apesar de sua experincia 
vrias vezes comprovada com as mulheres, dessa vez ele se sentia 
inseguro e reflectia. Essa mulher fica a, sentada como uma 
vampira; est com um vestido que deixa ver tudo, sua prpria 
entrada em cena  uma s provocao ao sexo masculino, uma 
seduo aberta... mas em compensao ela cora e fica encabulada 
como uma escolar. Que devo achar disso? Refinamento em sua forma 
mais completa? Ou o sonho de um dia tornar-se a grande dama 
admirada por todo mundo?
 - Voc tem um salo de cabeleireiro em Bochum? - perguntou 
Paterna.

 Barbara olhou o comissrio que colocara uma garrafa de champanhe 
e uma cuba de gelo sobre a mesa e depois, como num passe de 
mgica, fizera aparecer duas taas finas na forma clssica de 
tulipa.
 - Voc j sabia?
 - Atravs de um recado da enfermeira Erna. Voc foi pegar 
comprimidos.
 - Essa... essa  minha primeira viagem martima - Barbara sorriu 
encabulada.
 - Ah! E eu que acreditava que voc fosse uma viajante 
experimentada.
 - Oh, no! Economizei durante trs anos para fazer essa viagem. 
O Mxico, a Amrica do Sul pela costa do oceano Pacfico, os 
mares do Sul com suas ilhas de contos de fada... sempre tive esse 
anseio. Eu pensava com meus botSes, o dia em que voc for dona de 
um salo, ento trate de economizar e economizar at poder fazer 
uma viagem como essa. H trs anos eu pude assumir o controle de 
um salo de cabeleireiro que estava indo  falncia. O banco me 
emprestou o dinheiro. E consegui fazer com que o negcio passasse 
a andar de um modo magnfico. Nesse momento eu emprego quatro 
cabeleireiros e trs aprendizes.
 - Muito bem! Meus parabns! - o Dr. Paterna quase sentiu 
vergonha por ter suposto que fosse uma dessas jovens que saem 
viajando pelo mundo inteiro atrs de aventuras amorosas, usando a 
designao profissional de dona de salo apenas como disfarce.
 Nesse meio tempo, o comissrio tirara a rolha do champanhe. 
Encheu as taas com cuidado e disse dando uma olhada 
significativa para o Dr. Paterna: 
 - Aproveite!
 Paterna ergueu a taa e brindou a Barbara. 
 - A que devemos brindar, Sra. Steinberg?
 - Ao meu primeiro champanhe... De facto, ele  o meu primeiro...
 - Ento est bem! - o mdico acenou a ela. -  sua primeira taa 
de Taitting seco!
 Os dois bateram as taas e beberam. Barbara Steinberg sorveu o 
primeiro gole e, ao faz-lo, encarou o Dr. Paterna por cima da 
beira da taa.
 Os olhos inquisidores do mdico deixaram-na intranquila.
 - Essa viagem est me custando 28.290 marcos, fora os custos 
adicionais. E nem ao menos tenho uma cabina externa. Tenho uma 
interna, sem janela, s com ar-condicionado e ar puro. Mas ao 
menos uma vez eu queria entrar nesse navio!
 - Uma vez na vida. Alguma vez voc j economizou cerca de 35 mil 
marcos?
 - J...
 - Verdade?
 - Quero montar mais tarde uma clnica particular e para isso  
preciso algum capital inicial. Sem uma certa segurana, nenhum 
banco d sem mais nem menos crdito a um mdico. - O Dr. Paterna 
levantou-se. - Quer danar?

- Com todo prazer. Tenho uma verdadeira paixo pela dana. Mas 
raramente eu consigo.  noite, quando fecho meu salo, quase 
desmaio de cansao. Muitas vezes eu adormeo diante da televiso. 
- Ela riu, acompanhou Paterna at  pista de dana redonda e 
disse jovial, enquanto ele passava o brao em sua cintura: - 
Vamos parar de falar sobre isso! Amanh verei Acapulco, a praia 
dos milionrios. Torna-se realidade um pedacinho do sonho e, a 
cada dia, um pedacinho mais... Como me arrependo do dinheiro 
gasto!
 Nessa noite, o Dr. Paterna desistiu de ir cedo para a cama... 
sozinho ou acompanhado. Mesmo quando outras solteiras entraram no 
bar, Paterna como reparou nos olhares das mulheres, por mais que 
quisessem atras-lo e, ao mesmo tempo, matar Barbara em 
pensamento... essa sirigaita loura, como ela era chamada em 
segredo.
 Herbert Fehringer aguentou at quase s cinco horas da manh; 
depois, cansado e bem alcoolizado, subiu ao convs principal. O 
cartaz "Favor no incomodar" havia desaparecido da maaneta, 
portanto a cabina encontrava-se desocupada. Ele entrou, foi 
recebido por uma nuvem de perfume adocicado e viu o irmo Hans 
dormindo bem aventurado na cama Pullman arriada.
 Herbert Fehringer aumentou para todo volume o ar-condicionado, 
tirou a roupa e, ao deitar-se, deu um pontap na cama de cima. 
Hans acordou.
 - Seu bundo! - disse sonolento. - O que foi?
 - E voc consegue dormir com esse fedor, hem?
 - Consigo. Deixe-me em paz.
 - Foi gostoso?
 - Amanh lhe escreverei um relatrio a esse respeito. Meu Deus, 
quer fazer o favor de me deixar dormir agora?
 Mas como conseguiu dormir to rpido assim. Foi obrigado a 
pensar em Sylvia de Jongh. Sylvia retornara aps ter rebocado o 
marido para a cabina e lhe ter despejado mais trs vodcas goela 
abaixo. J no primeiro beijo Hans abrira o fecho do decotado 
vestido de noite, sob o qual ela estava nua. Os dois caram na 
cama beijando-se num abrao ofegante e assim comearam algumas 
horas que Hans Fehringer nunca antes tivera. Sylvia mordeu e 
arranhou-o em xtase e Hans cobriu-lhe o corpo sedutor com 
manchas de beijos chupando-a com firmeza. E, por volta das quatro 
horas da manh, antes de deix-lo, Sylvia retornou cinco vezes da 
porta para beijar o corpo desnudo de Hans. Era como se ela 
precisasse arrancar-se dele; foi uma despedida frentica, 
desenfreada, arrebatadora. Que mulher!
 Hans Fehringer levantou um pouco a cabea. Alguma coisa estava 
diferente; depois de algum tempo ele registou: as mquinas do 
Atlantis estavam caladas; de repente, o gigantesco navio branco 
apenas deslizava silenciosamente pelo mar. Os ponteiros luminosos 
do relgio digital montado na cmoda indicavam cinco e meia da 
manh. Acapulco, pensou Fehringer. Estamos entrando no porto de 
Acapulco. No verei Sylvia durante o dia inteiro, pois seu marido 
fez a reserva para um passeio de bote a Roqueta, uma pequena ilha 
situada fora da imensa baa. Ali ela tomara banho de mar e 
almoara no elegante restaurante Palo. E Knut de Jongh tornara a 
encharcar-se de drinques, de tequila. Que vida! Mas que mais lhe 
poderia oferecer um Hans Fehringer? s amor? Nada mais alm do 
amor.
O nico capital que posso apresentar  o elegante guarda-roupa... 
as roupas profissionais minhas. Que vidinha de merda a nossa!
 Ele tornou a adormecer, despertando por alguns segundos ao ser 
arriada a ncora do Atlantis. Ah, Sylvia, pensou ele, que noite!

Herbert vai me achar um maluco completo, mas eu te amo. Eu te amo 
mesmo, com tudo a que tenho direito... que... que podemos fazer.
 Tornou a adormecer e dessa vez caiu num sono profundo.
Herbert saiu da nmero 213 e desceu o corredor em direco ao 
restaurante, ao buf do desjejum.
 Esse dia lhe pertencia, pertencia a Herbert Fehringer e ele 
queria goz-lo da maneira mais completa.
 Jim, o mecnico, colocara o relgio para as quatro da manh, a 
fim de poder sair da sute 004, a Goethe, de Anne White, antes da 
chegada a Acapulco.
 Despertou quando o relgio comeou a soar, bocejou com fora, 
coou o peito peludo, desligou o despertador e lanou um olhar 
para o lado.
 Anne White ainda dormia profundamente sem perturbar-se com o 
barulho do despertador, a coberta puxada at quase ao pescoo. 
Jim saiu da cama em silncio, apalpou o abajur acendendo-o na luz 
do alvorecer, foi at suas roupas e vestiu-se apressado sentindo 
uma sede mortal. Antes de sair da cabina, tornou a lanar um 
olhar para Anne White.
 Do jeito que estava deitada, ela se parece com uma moa, pensou 
ele. No tem ruga nenhuma no rosto, os clios so longos e 
curvos, a boca no apresentava a traioeira pele puxada para o 
lado. Claro que isso vem das muitas plsticas; um bom cirurgio 
plstico  capaz de, num passe de mgica, dar a um rosto velho o 
semblante de uma rainha da beleza. Tudo no passa de uma questo 
de dinheiro e pacincia. E quando se pensa nalgumas horas 
atrs... ela  realmente uma mulher magnfica.
 Ele voltou  cama, para dar-lhe um beijo de despedida nos olhos.
 Inclinou-se com todo cuidado sobre ela e, sem querer, ficou 
aterrorizado.
 Alguma coisa na expresso de Anne White no o agradou; Jim no 
saberia dizer o que o incomodara. Nesse momento, o rosto 
ostentava uma acentuada palidez, como se no estivesse sendo 
bombeado de sangue. Anne tambm parecia no estar respirando; ou 
sua respirao estava to fraca que no se via movimento algum.
 Jim puxou a coberta um pouco para baixo, tocou o brao de Anne 
White com a ponta dos dedos, depois rogou seu rosto. A frieza e 
rigidez sob seus dedos fizeram-no estremecer. 
Horrorizado, deu dois passos para traz com movimentos to rpidos 
como se estivesse fugindo de Anne e, em seguida, foi possudo por 
uma paralisia. "No pode ser", pensou ele sentindo o corao 
comear a martelar. " claro que isso no  possvel!" Ela 
aninhou-se em mim, deu-me um beijo no peito e disse: "Agora vamos 
dormir como dois prncipes. Oh, querido, que homem voc !"
 E depois ela adormeceu bem rpido. Por que agora esta gua fria? 
Que aconteceu? Ser que a noite foi demais para ela? Ser que 
mais tarde seu corao falhou, simplesmente parou de bater? Ser 
que a matei com minha fora?

 Ele tornou a cobri-la, apagou a lmpada e caminhou quase 
cambaleando at  porta. Demorou a encontrar a maaneta por causa 
da agitao e penumbra e depois saiu. No corredor, precisou 
primeiro recostar-se na parede, bombeou-se de ar fresco, sentiu 
brisas de vento e ento, com pernas inseguras, correu at a 
escada de emergncia que somente a tripulao tinha permisso 
para usar. s quando chegou ao convs B e viu seu rosto espantado 
no espelho da cabina, foi que teve clareza que ningum aceitaria 
sua histria. Para os outros, ele teria matado Anne White.
 O comissrio de cabina Josef deu o alarme s onze horas. Posto 
que Anne White no pedira o desjejum como de costume, ele batera 
na porta 004, depois entrara admirando-se de a porta estar aberta 
e encontrara a vizinha milionria morta em cima da cama.
 Gerhard Riemke, o director de hotel, primeira pessoa a ser 
informada, apareceu na sute Goethe indo pelo caminho mais 
rpido. Bastou-lhe uma rpida olhada... telefonou de imediato 
para o hospital e mandou chamar o Dr. Paterna, mdico de bordo, 
no consultrio.
 - Mas isso no  possvel!- o Dr. Paterna, que nesse momento 
preparava-se para desembarcar, gritou ao telefone. Ele vestira 
roupas  paisana, um terno de seda crua sobre uma camisa de 
listras amarelas aberta no peito. Estava com a aparncia exacta 
do homem que se imagina que as mulheres corram atrs. - Anne 
White morta? Ataque do corao?
 - Bem, isso quem deve verificar  o senhor, doutor. Vem c 
imediatamente. Mandei avisar o comandante tambm. Em todo o caso, 
ela est deitada como se estivesse dormindo.
 Paterna, com a maleta de mdico na mo, chegou  porta da sute 
004 quase ao mesmo tempo que o comandante Teyendorf. O 
primeiro-oficial Willi Kempen apareceu logo depois.
 - Era s o que nos faltava! - disse Teyendorf. - Primeiro o 
teatro com os elefantes, agora essa pessoa proeminente morta na 
cama. Vai ser uma falao danada quando o caixo for retirado de 
bordo... isso sem falar da papelada. Algum sabe onde ela pode 
ser enterrada? O melhor  deixar que o consulado americano de 
Acapulco se ocupe disso. Claro que ela deve ter deixado um 
testamento com seu advogado... 
 Estranhamente, o Dr. Paterna contemplou a morta durante um longo 
tempo, sem toc-la. O director de hotel Riemke tragava nervoso 
seu cigarro; fumar ali j no incomodava mais ningum.
 - h alguma coisa? - perguntou Teyendorf preocupado. - Ela est 
deitada como se estivesse dormindo. O corao simplesmente parou 
de bater... no  de se admirar, com essa idade e a vida que 
levava!
 - Pea a Deus para que seja verdade.
 - Que significa isso, doutor?
 - Quer estar presente quando do exame, senhor comandante?
 - Foi para isso que eu vim aqui. O delegado de sade mexicano j 
foi informado por causa do atestado de sbito oficial.
 O Dr. Paterna retirou a coberta. Anne White estava deitada nua. 
Suas mos fechavam-se em punho e pressionavam o trax. Tudo tinha 
a aparncia de ela ter sido surpreendida por um infracto durante 
o sono e, ao sofrer a morte instantnea, ter pressionado os 
punhos contra o peito num movimento de reflexo inconsciente.
 O Dr. Paterna curvou-se sobre ela, levantou as plpebras sobre 
os olhos embaados e depois apalpou o rosto petrificado. Em 
seguida, endireitou-se soltando um longo suspiro.
 - No d para lhe poupar, senhor comandante - disse ele com voz 
estudada. - Chame a polcia e o mdico-legal.

 - O que... o que significa isso? - balbuciou Riemke espantado. 
Teyendorf e Kempen tambm no compreenderam de imediato. Somente 
Josef, o comissrio, compreendeu.
 - Mas que grande merda! - disse ele em voz alta. - Agora nunca 
mais vamos sair daqui.
 O comandante Teyendorf encarou o Dr. Paterna com um ar 
desconcertado.
 - Assassinato...? - disse ele depois de algum tempo. Ningum se 
havia atrevido a pronunciar a palavra antes dele. - Doutor, diga 
que pode estar enganado...
 - Bem, qualquer ser humano pode se enganar. Mas d uma olhada no 
rosto de Anne. Lbios azulados. Claras marcas de presso em ambos 
os lados do nariz. Os punhos pressionando o peito na premncia de 
respirar... Ela precisa ser autopsiada. Em todo o caso, como 
posso diagnosticar paragem cardaca. Ela sufocou... foi sufocada.
 - Neste caso... neste caso temos um assassino a bordo? - 
perguntou Willi Kempen em voz baixa.
 - Pelo amor de Deus! Isso no deve chegar ao conhecimento 
pblico de maneira nenhuma! - Teyendorf encarou a morta como se a 
tivesse surpreendido no momento em que queria afundar seu navio. 
- Sabe o que significa isso, doutor? Vamos ficar presos aqui at 
a polcia mexicana ter interrogado todos os passageiros. Consegue 
imaginar isso? Seiscentos passageiros e trezentos membros da 
tripulao! Vamos ficar
acorrentados o tempo que os mexicanos quiserem. Toda a viagem foi 
por gua abaixo!
 - Mas h um assassino a bordo! - o Dr. Paterna sentou-se na 
beira da cama ao lado da morta. - E o assassino dormiu com ela; 
afinal de contas, a segunda cama foi utilizada. A polcia ver 
isso de caras e partir em busca de pistas. O criminoso deixou 
alguma coisa por a, os prprios cabelos, manchas de esperma...
 - Pare com isso, doutor! - Teyendorf enxugou o suor do rosto. - 
Chamarei a companhia de navegao pelo rdio e perguntarei que 
medidas tomar. Est fora de cogitao a viagem terminar em 
acapulco! Isso custaria milhSes. .
 - O que propSe, senhor comandante? - perguntou o Dr. Paterna com 
toda a calma:
 - Ser o delegado de sade e no a polcia que vir a bordo. Ele 
constatar a morte da Sra. White e, se no notar coisa alguma, 
Ns passaremos o cadver s autoridades mexicanas e informaremos 
o consulado americano. Afinal voc s tem suspeitas...
 - E o assassino fica livre, andando por a?!
 - Ningum sair do navio em acapulco. Se tivermos um assassino a 
bordo, ele permanecer no navio. A prxima troca de passageiros 
s ocorrer em Valparaso. Dentro de dezasseis dias! Portanto, 
temos dezasseis dias de prazo para encontrar o sujeito a bordo: 
Caso seu diagnstico esteja certo, doutor; pois est faltando uma 
coisa: o motivo!
 - Ns ainda vamos descobrir. - Paterna ostentou um sorriso 
fraco. 
- Temos um especialista no navio. Um detective. 
- Como pode ser! - o director de hotel Riemke sacudiu a cabea. - 
No h ningum na lista de passageiros com essa profisso.
 - Claro que no. Ele est a servio.

 - Pelo amor de Deus! - Kempen, o primeiro-oficial, ergueu os 
braos. - Quer dizer ento que aconteceu mais alguma coisa a 
bordo?
 - E por que no fiquei sabendo disso? - a voz de Teyendorf soou 
furiosa. - Doutor, voc sabe bem que como mdico de bordo est 
subordinado a mim. E est escondendo um tremendo segredo.
 - Mas como mdico que sou tambm tenho o dever do silncio. O 
sujeito veio a mim na qualidade de paciente.
 - Mas que grande merda  isso tudo! - Teyendorf desviou o olhar 
na direco do comissrio Kraxler que, sem o menor sentido, 
esfregava a escrivaninha com um pano de p. - Josef, v chamar o 
padre...
 - Quem, senhor comandante?
 - O assistente espiritual catlico de bordo, cara! O padre 
Brause!
 - Na cabina 410 - disse o director de hotel Riemke. - Ele deve 
trazer tudo que seja necessrio para os ltimos sacramentos.
 - Meus senhores, suponho que, num caso assim, o detective que 
at agora manteve-se desconhecido, saia de seu anonimato e nos 
ajude a descobrir o assassino a bordo. Dezasseis dias  um longo 
tempo e ningum poder sair do navio. Devemos conseguir at 
Valparaso... - o Dr. Paterna foi at a cama e tornou a cobrir a 
morta, Anne White. Puxou a coberta tambm por cima da cabea do 
cadver. - Senhor comandante, estamos numa situao maldita.
 - Quer dizer que vai ficar calado, doutor?
 - Vou... Caso o delegado de sade mexicano no note coisa 
alguma.
 - Obrigado. Com isso, assim salva as frias dos passageiros, os 
milhSes da companhia de navegao e os meus nervos. - Teyendorf 
respirou fundo. - Creiam-me - disse com voz estudada - que eu 
prprio condeno a deciso que estou tomando. Nunca antes estive 
metido numa situao assim. E se fosse de facto um infracto 
cardaco?
 - Uma autpsia da medicina legal poderia prov-lo com toda a 
exactido.
 - Doutor, passe o cadver para a delegacia de sade mexicana e, 
com isso, estava liberado do resto. Tudo ficara por conta das 
autoridades mexicanas...
 - Vou esforar-me para ver a coisa dessa maneira, senhor 
comandante.
 - Mas sobretudo preste ateno: silncio total sobre este caso! 
- ao diz-lo, Teyendorf olhou para o comissrio Kraxler. - Voc 
tambm, Josef... voc  conhecido por ter a lngua comprida.
 - Eu no vi nem ouvi nada, senhor comandante! - gritou Kraxler 
ficando em posio de sentido. Seu corpo redondo como um globo, 
me tido em calas pretas e palet branco, tremia. - Eu s digo: 
encontrei a mulher. Afinal, como posso negar...
 - Pode acender uma vela a Deus se vazar alguma coisa.
 - Sim, senhor comandante!
 Uma hora depois - um verdadeiro recorde - o delegado de sade 
apareceu no NM Atlantis. O Dr. Paterna e o primeiro-oficial 
Kempen levaram-no  sute 004. Teyendorf estava postado na ponte, 
nervoso e impaciente, olhando a Acapulco que reluzia ao sol e a 
barra com o balnerio mais lindo do mundo. Os especialistas 
colocam-no acima da famosa Copacabana de Rio de Janeiro.

 O mdico da delegacia de sade mexicana trabalhou de modo rpido 
e rotineiro. Deu uma olhada na Sra. White, colocou o estetoscpio 
em seu corao, no ouviu coisa alguma e levantou-lhe as 
plpebras. 
 - Qual a idade dela, senhor colega?
 - Setenta e sete... - o Dr. Paterna continuou bem calmo. - O que 
o senhor diagnostica?
 - Paragem cardaca. Infracto. Claro... - o mdico tornou a 
cobrir a morta. - Onde posso lavrar o atestado de sbito?
 - Ali na escrivaninha.
 - Devemos notificar o consulado americano. - O mdico da 
delegacia de sade de Acapulco pegou um formulrio em sua pasta e 
preencheu-o. Depois deu sua assinatura enftica embaixo. - Sempre 
que um estrangeiro morre, ocorre uma tremenda maratona
burocrtica. O papel de um lado para o outro. As pessoas deviam 
fazer fora para s morrerem no prprio lar...
 Apenas alguns passageiros notaram a sada de um caixo do 
Atlantis.
 A maioria partira para passeios em terra, os outros 
encontravam-se no restaurante. Jim, o mecnico, fazia parte 
daqueles que viram o caixo e soube com exactido quem estava 
sendo transportado. Os passageiros que perguntaram aos oficiais 
ou ao director de hotel Riemke foram informados de que um 
trabalhador mexicano tivera morte repentina por infracto na 
regio do porto e que, a pedido das autoridades porturias, eles 
haviam colocado o caixo  disposio.
 O comandante Teyendorf respirou aliviado ao ver a partida do 
carro com o caixo, sem que o tivessem chamado. Portanto, tudo 
dera certo. Enquanto isso, Willi Kempen, o primeiro-oficial, 
conduzia o mdico mexicano pelo navio e o convidava para comer na 
cantina dos oficiais. Permaneceram na sute 004 apenas o Dr. 
Paterna e o padre Brause, o assistente espiritual de bordo. Ele 
dera a ltima bno  Sra. White, antes de ser colocada no 
caixo.
 - No vai comer, doutor? - perguntou o padre Brause.
 - No. No conseguiria engolir coisa alguma.
 - Puxa, um mdico? Os mortos sempre lhe afectam tanto assim o 
estado de esprito?
 - Essa morta... sim. - O Dr. Paterna inclinou-se para a frente. 
Os dois estavam sentados frente a frente nas fundas poltronas do 
salo da sute. - Eu lhe pedi para ficar aqui, padre, pois 
gostaria de me confessar.
 - Confessar? - o padre Brause levantou as sobrancelhas. - O 
senhor?
 - Olha, mesmo no parecendo, eu sou um bom cristo.
 - E est mesmo querendo confessar-se? Aqui? Doutor, o tempo  
limitado num lugar desses.
 - Trata-se apenas de uma aflio da qual quero livrar-me. 
Estamos sozinhos aqui nesse momento, ningum nos incomodar. 
Posso falar?
 - Mas  claro, doutor. - O padre Brause assumiu um ar bem srio.
De repente, entendeu que o Dr. Paterna estava sofrendo com um 
problema evidentemente grave.
 - Eu... - a voz de Paterna baixou ao nvel quase de um sussurro. 
- ... bem, para salvar o navio e a viagem, eu encobri um 
assassinato.

 - Oh, meu Deus! - o padre Brause cruzou as mos. - Doutor, diga 
ao Senhor tudo que lhe est afligindo...

Enquanto as pessoas que haviam permanecido a bordo ainda 
encontravam-se na mesa do almoo e os oficiais enchiam de usque 
o mdico da delegacia de sade mexicana - o comandante Teyendorf 
permitiu excepcionalmente o lcool nesse dia - o "cego" Ewald 
Dabrowski estava na sute Goethe contemplando a cama desarrumada. 
O Dr. Paterna e o padre Brause estavam atrs dele.
 - As coisas que a gente v por a - disse o padre quando 
Dabrowski comeou seu trabalho. - Primeiro uma morte secreta e 
agora at os cegos enxergam. h mais alguma surpresa a bordo?
 - Ha. Um ladro de jias internacional, cuja pista estou 
seguindo - respondeu Dabrowski. - Ele est aqui, s que ainda no 
conheo sua mscara.
 - h alguma possibilidade de ele ter participado do assassinato? 
- o Dr. Paterna ficou intranquilo. - Anne White tinha tantas 
jias como nunca antes vi em parte alguma. Isso seria um motivo.
 - A maneira de Carducci operar no  sair matando a fim de poder 
pr as mos nas jias. Alm do que, claro que elas esto no 
cofre. E as jias que a Sra. White usou durante o dia ainda esto 
ali em cima da cmoda.
 Tem uns belos exemplares no meio. Nenhum ladro de jias iria 
esquecer esse tipo de coisa.
 Paterna telefonou para a comissria. Dali Informaram-no que Anne 
White no havia alugado nenhum cofre. As jias e o dinheiro 
deviam estar ali na sute.
 - Na mesinha-de-cabeceira, na gaveta fechada  chave - disse 
Riemke ao telefone. - Quer que eu v at a?
 Paterna transmitiu a pergunta a Dabrowski. Este sacudiu a 
cabea.
 - No ser necessrio, Gerhard - o mdico respondeu.
- Alm disso, o padre Brause est aqui como testemunha...
 Aps rpida revista, eles encontraram a chave da gaveta na bolsa 
de noite adornada com fios de ouro da Sra. White e abriram a 
diviso da mesinha-de-cabeceira. O que viram, deixou-os mudos por 
alguns instantes. O prprio Dabrowski precisou de alguns segundos 
antes de dizer:
 - Incrvel. E isso a ela simplesmente trancava na gaveta! Deve 
haver a uns bons dois milhSes. - Ele retirou um colar de 
brilhantes, levou-o contra a luz e observou-o atravs de uma lupa 
que levara consigo. - Como se trata de uma imitao...  to 
verdadeiro quanto a sede que estou sentindo! - Dabrowski fechou a 
gaveta, foi at o armrio-bar,
pegou uma garrafinha de vodca e uma de soda limonada, misturou as 
duas bebidas e esvaziou o copo num gole s. - Ah, como isso faz 
bem!
 - Portanto, est descartada a hiptese de assassinato por roubo 
- disse o padre Brause de modo inspido. - Agora a coisa fica 
difcil.
 - O sujeito que esteve com Anne por ltimo pode t-la sufocado 
numa vertigem sexual. - O Dr. Paterna tambm dirigiu-se ao 
armrio-bar e serviu-se de um conhaque. O Padre Brause declinou 
quando Paterna ergueu uma garrafinha. - no h dvida nenhuma de 
que um homem passou a noite com ela. A segunda cama 
desarrumada...

 - Vamos descobrir isso logo. - Dabrowski ajoelhou-se
diante da segunda cama e revistou o lenol centmetro por 
centmetro com a lupa. Sacudiu a cabea um par de vezes, depois 
deu a volta na cama e com a mesma exactido examinou a cama onde 
Anne White estivera deitada. Ali, ele tambm deu vrias 
sacudidelas de cabea. O Dr. Paterna teve alguns tremores 
espasmdicos.
 - Ewald, esse seu balanar de cabea mudo ainda vai acabar me 
matando! - disse Paterna com voz roufenha. - Trate de ir falando 
logo! Voc tem alguma pista?
 - O homem que esteve com Anne White tem cabelos pretos. 
 - Bem, j  alguma coisa. - O padre Brause pegou o copo de 
conhaque do Dr. Paterna e ento tomou um gole. - Mas d s uma 
contadela nas pessoas que tm cabelos pretos a bordo! Quem dentre 
elas deixou-se pescar pela Sra. White? Eu quase seria capaz de 
afirmar: nenhum dos passageiros. Fiquei sabendo por intermdio 
dos oficiais que Anne White comprava seus amantes entre os 
membros da tripulao... a cada ano alguns dlares a mais para o 
equilbrio do oramento.
 - Mas padre! Uma coisa dessas dita por uma boca sagrada?! - 
Dabrowski abriu um sorriso largo. Em seguida, tornou a ficar 
srio com a mesma rapidez. - Mas o pensamento est certo, padre 
Brause. Tambm sou de opinio que neste caso o amante secreto de 
Anne de maneira nenhuma seria um dos passageiros. a a rede j 
fica um pouco mais apertada! Quem da tripulao tem cabelos e 
barba negros?
 - Barba, como assim? - perguntou o Dr. Paterna desconcertado.
 - Tem dois tipos diferentes de cabelos nas duas camas. Uns mais 
longos da cabea, outros curtos de uma barba. Alm disso... 
perdoe-me, padre, alguns pequenos pentelhos encrespados... Sabe, 
esse tipo de coisa as pessoas sempre perdem no mpeto do amor! 
Muitos crimes sexuais j foram comprovados atravs disso!
 - Quer dizer ento que se trata de assassinato por vertigem 
sexual?! - gritou o Dr. Paterna. - Como eu estava supondo! 
 - No seja to apressado, doutor. - Dabrowski deu uma olhada 
pela sute. - Onde est o monte de dinheiro?
 - Que dinheiro?
 - O Sr. Riemke acabou de dizer que Anne White no tinha coisa 
alguma no cofre; portanto, nem seu dinheiro vivo. Por 
conseguinte, ele deve estar aqui na cabina. E na verdade no deve 
ser pouca coisa. J que ela comprava seus amantes...
 - Qual era o montante do cache pago ultimamente? - perguntou 
ningum mais que o padre Brause.
 O Dr. Paterna arreganhou um sorriso largo.
 - Essa Igreja moderna! Bem, no ano passado eram quinhentos 
dlares.
 - Por... por uma vez? - perguntou Dabrowski quase horrorizado.
 - .
 - E ela estava querendo permanecer a bordo at...
 - At voltar a So Francisco. Portanto, Amrica do Sul, os mares 
do Sul, Nova Zelndia, Austrlia, Nova Guin, Filipinas, China, 
Japo, Havai... no caso dela o dinheiro no queria dizer coisa 
alguma.
 - Neste caso, ela devia guardar aqui uma fortuna em dlares.
- Dabrowski ficou um pouco mais intranquilo. - Precisamos 
ach-la.

 Os trs fizeram uma revista na sute inteira, empurraram as 
camas para o lado, levantaram os colchSes... a coisa no durou 
muito tempo, pois a sute de um navio  um ambiente desimpedido e 
quase no oferece possibilidades de esconderijo.
 - Nada! - disse o padre Brause. Sua voz tornara-se mais sombria. 
- A temos o motivo.
 -  isso a - Dabrowski retirou as gavetas da 
mesinha-de-cabeceira e virou-as de ponta-cabea. Caram duas 
notas de cem dlares no tapete.
- Elas estavam bem embaixo. O assassino no deu por elas ao 
recolher o dinheiro na gaveta. Uma gaveta no trancada  chave... 
No d para acreditar que seja possvel!
 - Mas tpico da Sra. White. - O Dr. Paterna levantou as notas.
- Anne dava preferncia a trs navios, os quais via como uma 
espcie de lar, como sua segunda casa. o NM Atlantis estava entre 
eles. Aqui ela se sentia segura; portanto, por que fechar as 
gavetas? s por causa do dinheiro? Ela achava isso simplesmente 
ridculo.
 - Monstruoso! - Dabrowski sentou-se na beira da cama da Sra. 
White. - Ter tanto dinheiro assim... ora bolas, bastam dez por 
cento!
 - E depois ser assassinada! - o padre Brause sacudiu a cabea. - 
No era  toa que Cristo pregava a modstia.
 - E que aconteceu a ele? Tambm foi assassinado! - Dabrowski 
levantou-se e foi ao telefone. - Vou chamar o comandante agora. 
Quero ver todos os membros da tripulao que tenham barba preta.
 Teyendorf ficou como que petrificado quando Dabrowski 
comunicou-lhe o resultado de suas investigaSes.
 - Voc  o detective? - perguntou ele. - Qual seu nome?
 - Ewald Dabrowski, senhor comandante. Cabina 136.
 - Pelo amor de Deus!  a cabina do cego! - sussurrou o director 
de hotel Riemke, que se encontrava ao lado de Teyendorf ouvindo a 
conversa.
Teyendorf encarou-o como se ele acabasse de dizer: senhor 
comandante, estamos naufragando!
 - Irei imediatamente  sute 004! - Teyendorf acenou para 
Riemke.
- Voc tambm. Faz vinte e seis anos que navego pelos mares e 
nunca antes vivenciei uma coisa assim. E, creia-me, j vi muita 
coisa por a. Um detective cego... que Loucura!
 Mais tarde ento, Ewald Dabrowski esclareceu na sute Goethe o 
segredo de sua cegueira. O comandante Teyendorf ostentou uma 
expresso visivelmente insultada e ficou mudo.
 - Um ladro de jias internacional a bordo e o comandante no 
fica sabendo de nada! Investiga-se por conta prpria. Como num 
filme de Hollywood de segunda classe! Se a Sra. White no fosse 
assassinada, eu to-pouco ficaria sabendo que voc no  cego, 
mas sim, pelo contrrio, tem uma viso bem aguada.
 -  isso a, senhor comandante.
 - Acho isso inaudito.
 - Eu no queria sobrecarreg-lo com esse problema.
 - Sobrecarregar! Este navio  meu, eu sou responsvel por 
tudo... e no apenas por navegar na rota certa. Um navio to 
grande como este  uma pequena cidade flutuante e, quando ela 
est no mar, eu sou o legislativo e o executivo numa s pessoa! 
Se houver criminosos a bordo...

 - Bem, a princpio trata-se apenas de uma suposio, senhor 
comandante. - Dabrowski estava longe de ver a ira de. Teyendorf e 
rogou um insulto. - Espero que ele esteja a bordo.
 - Voc espera? Eu gostaria de ter esse seu estado de esprito!
- Parece-me bem pior que um assassino esteja deambulando nessa 
sua pequena cidade. De cabelos e barba pretos.
 - A tripulao se apresentar numa hora. Isso se j no 
estiverem de folga em terra. Mas isso no ser um obstculo; os 
outros sabem quem est em terra e quem usa barba. - Teyendorf 
bateu nos bolsos, mas no encontrou o que procurava. Riemke 
ajudou-o estendendo-lhe a cigarreira.
- E como voc pensa descobrir o criminoso... Caso haja dois, trs 
ou mesmo cinco homens de barba preta?
 - Com um blefe. Direi que o Dr. Paterna est examinando os 
cabelos no laboratrio do hospital; em seguida, tirarei de cada 
um fios de barba e cabelo para prova. O Dr. Paterna se ocupar da 
falsa anlise de cabelo. Caso algum se oponha  realizao do 
teste, ele j ser o suspeito. Claro que vocs no tm a menor 
possibilidade de analisar realmente as provas de cabelo no 
laboratrio e nem de compar-las com os cabelos encontrados na 
cama de um modo que possa servir de ndice... mas quem sabe 
disso? Confio que a mdia das pessoas julgue um laboratrio 
mdico capaz de tudo. O assassino, intranquilizado pelo anncio 
desses exames, cometer algum erro que o trair. Um ser humano 
pode ser um assassino frio, mas o medo est  espreita em seu 
ntimo mais profundo. Alm disso, ele precisa esconder uma 
fortuna em notas de dlar e estar sempre controlando esse 
esconderijo por pura preocupao de que algum possa roubar seu 
tesouro. Tudo isso lhe corroer os nervos.
 - Supondo que se trate dum membro da tripulao. Essa  a sua 
teoria, Sr. Dabrowski... alis, uma teoria bem vaga! - Teyendorf 
fumava apressado. - E se for um passageiro?
 - Olha, no consigo imaginar que um passageiro que possa dar-se 
ao luxo de fazer uma viagem como essa, v para a cama com uma 
Sra. White.
 - Por no mnimo quinhentos dlares por noite e com uma soma 
incalculvel na escrivaninha? - o director de hotel Riemke 
encolheu os ombros. - s podemos conhecer uma pessoa pelo rosto. 
Pense em seu ladro de jias. E como devemos reconhec-lo?
 - Ah, existe uma srie de tipos a bordo que poderia ser ele. 
Carducci, seja l a mscara que estiver usando,  um homem muito 
elegante. Um cavalheiro! O tipo das mulheres. E, nesta viagem, 
temos a bordo uma grande quantidade de homens que se encaixam 
nessa descrio. - Dabrowski sacudiu a cabea. - Senhor 
comandante, vamos tratar de investigar a tripulao primeiro. Se 
eu estiver enganado, pode me chamar de cabea-de-bagre em 
pblico.

 - Com todo prazer! - Teyendorf ostentou um sorriso enviesado. Um 
assassino entre sua tripulao, pensou enquanto sorria. Conheo 
cada um dos rapazes. Parte deles j viaja comigo pelos mares h 
vrios anos. Contudo, claro que pode haver um entre eles, cuja 
cabea fique virada ao ver uma pilha de notas de dlar. - Farei 
com que a tripulao se apresente agora mesmo. Na cabina dos 
homens. Mandarei que cada um deles passe marchando  sua frente, 
Sr. Dabrowski. s que uma coisa deve ficar clara: para voc: 
terminou sua brincadeira de cego para a tripulao! E como posso 
afirmar com segurana que esse seu "disfarce", chamemo-lo assim, 
no seja espalhado a bordo. Ento, o seu ladro de jias vai 
mijar-se de tanto rir.
 - Esse  meu ponto vulnervel. Tem razo, senhor comandante. Por 
isso mesmo, proponho que oficialmente a investigao seja levada 
a cabo pelo Sr. Kempen, pelo Dr. Paterna e pelo Sr. Riemke... e 
pelo senhor tambm, comandante, claro... na qualidade de 
executivo. - Dabrowski arreganhou um sorriso largo, coisa que 
Teyendorf encarou como um tanto insolente e arrogante. - Ficarei 
em segundo plano examinando cada homem. Afinal, vocs tm uma 
cmara porttil no estdio de tev; os rapazes devem passar 
diante dela e, enquanto isso, estarei vendo-os na tela do quarto 
contguo. Uma cmara  algo incorruptvel, ela v mais coisas do 
que nossos olhos preguiosos. s preciso de que haja uma tomada 
em close da cabea de cada um. Ento, o menor tremor ou vibrao 
ser visvel.
 - Vivendo e aprendendo. - Teyendorf esmagou o cigarro num pires, 
pois no encontrara nenhum cinzeiro. - Eu jamais acreditaria que 
um dia iria fazer parte de um filme policial...
 - De um assassinato de verdade!
 Dabrowski passou os minutos seguintes recolhendo com uma pina 
os cabelos nos lenis e colchas das camas e depositando-os numa 
taa de vidro redonda com tampa, que o Dr. Paterna mandara pegar 
com a enfermeira Erna no hospital. Teyendorf e Riemke 
encararam-no mudos. Quando Dabrowski terminou a busca e 
levantou-se, Riemke torceu os lbios de leve para fazer a 
pergunta sarcstica:
 - E isso  tudo? Esses cabelinhos a?  com eles que voc vai 
querer pegar um assassino?
 - Esses cabelinhos valem ouro. Por acaso voc sabia que se 
descobrem criminosos atravs de manchas de cuspe e de esperma 
deixadas para trs? Em compensao, a comparao de cabelos  uma 
coisa bem simples. Nos laboratrios da delegacia de homicdios...
 - Sr. Dabrowski, Ns nos encontramos num navio! - Teyendorf 
interrompeu-o.
 -  por isso mesmo que seremos obrigados a blefar! Estamos 
lidando com um caso em que no foi nenhum profissional que 
operou, mas sim um homem que de repente ficou de cabea virada ao 
ver a pilha de dinheiro. E um amador assim pensa logo no pior ao 
ouvir a palavra "laboratrio".
- Dabrowski equilibrou na palma da mo a tacinha de vidro 
contendo os cabelos. - Vamos nos desejar muita sorte para os 
prximos dias, meus senhores!

O Dr. Peter Schwarme estava sentado no balco do bar Atlantis 
tomando um daiquiri. No porque essa bebida feita de rum, suco de 
limo e acar e servida sobre gelo picado, tivesse sido 
consumida literalmente por Hemingway, mas sim por de repente 
estar defrontado com um problema com o qual jamais contara. 

 Sua mulher, a sempre elegante e distante, fora  terra e ele 
observara da amurada quando o bem-apessoado Franois de Angeli 
no apenas entrara no mesmo autocarro que ela, mas tambm pousara 
o brao em seu ombro de uma maneira confiada. Em geral, ela no 
suportaria esse tipo de coisa; mas a mulher reagira com um 
sorriso irradiante, depois inclinou a cabea na direco do 
francos e encarou-o com uma expresso de felicidade. No que o 
Dr. Schwarme fosse ciumento! No existia razo para isso, posto 
que ele era bem ntimo de sua segunda secretria, tendo apenas 
contactos conjugais muito espordicos com sua mulher. O que mais 
o incomodou foi o facto de ela flertar em pblico e ostentar uma 
jovialidade artificial. 
 Tenha mais respeito, Erna!, pensou ele mexendo no daiquiri, 
coisa que Hemingway teria punido com uma bofetada. No sou eu 
apenas que estou vendo, os outros tambm esto. E devem estar 
pensando: agora essa a vai botar uns chifres no Schwarme, 
enquanto o babaquara fica a bordo jogando shovelboard. E 
justamente com esse sujeitinho pilantra, que j na primeira noite 
deixou dois maridos encolerizados com seu comportamento 
descarado.
 Depois o autocarro partiu. Schwarme viu atravs do imenso vidro 
que sua mulher e de Angeli estavam sentados lado a lado rindo. De 
facto, Erna estava com uma jovial aparncia de moa; era quase 
inconcebvel que dentro de trs meses ela fosse comemorar seu 
quinquagsimo aniversrio.
 - Mais um! - o Dr. Schwarme disse ao comissrio de bar e deu uma 
olhada no ambiente quase vazio. Arturo Tatarani, o dono da 
vincola, estava sentado sozinho numa das mesas redondas bebendo 
um negroni - uma infernal mistura de bebidas, feita de campari, 
vodca, vermute doce, soda e cubos de gelo. Um verdadeiro consolo 
para os solitrios.
 O Dr. Schwarme pegou o outro copo de daiquiri e foi 
equilibrando-o na direco do signore Tatarani.
 - Posso fazer-lhe companhia? - perguntou ele. - Ns, "dois 
abandonados"..
 - Por que no foi  terra, doutor? - Tatarani no pareceu ter 
ficado contente com a presena do Dr. Schwarme. - Acapulco 
fantstico! Um pouco fora da barra, sobre um rochedo, est 
situada a gigantesca mano de Johnny Weissmiller, o famoso 
nadador e Tarzam. Quando eu era jovem, assistia seus filmes de 
Tarzam com o rosto corado de entusiasmo. Quando ele dava aquele 
grito selvagem... inesquecvel, no  verdade? Agora ele est 
morto. No final, apesar de sua fama ele era uma pessoa solitria.
 - No fundo, todos Ns somos. - O Dr. Schwarme fez um gesto de 
negao com um ar tristonho. Erna levou seu biquini, pensou. 
Nunca gostei dessa coisa minscula nela, embora Erna ainda tenha 
um bom corpo. Mas provocante demais para a Sra. Schwarme! Agora 
ela vai usar aquele pedacinho de pano na frente do maldito de 
Angeli e ele vai elogi-la e ficar ciscando em volta dela como 
um galo. - Voc conhece muito
o mundo, no  verdade?
 - Quase tudo. Mas existem regiSes que a gente sempre quer rever. 
Bora Bora, por exemplo, ou Ladainha em Maui, uma das ilhas 
havaianas. Fiji tambm  magnfica e Samoa mais ainda. - Tatarani 
examinou o Dr. Schwarme com olhos compadecidos. - Voc tambm 
devia ir  terra agora, doutore. em acapulco, nos morros 
circunvizinhos existem moas nativas de beleza inacreditvel. Por 
um par de dlares voc conhecer o fogo mexicano...
 - E como despedida a gente pega uma gonorreia bem picante, ou 
ento uma sfilis tropical incurvel.

 Tatarani riu; contudo, dava para se ver que ele queria livrar-se 
do Dr. Schwarme. Mas como este continuou sentado, Tatarani 
levantou-se, esvaziou o copo de negroni de p e acenou para o Dr. 
Schwarme. 
 - Preciso escrever algumas cartas antes que venham recolher o 
correio de bordo. Queira desculpar-me, doutore.
 - Mas  claro!
 O Dr. Schwarme lanou um olhar mal-humorado para seu daiquiri. 
No fundo ele tem razo, pensou. Erna est se divertindo com 
aquele sujeito, enquanto eu fico sentado aqui, sem saber o que 
fazer. Eu devia mesmo ter tomado parte do passeio, mas a Erna 
teria me irritado de novo com esse seu jeito de querer ficar em 
primeiro plano. Ela quer ser admirada sempre e em todo o lugar... 
e especialmente agora que essa esplndida mulher, Sylvia de 
Jongh, est participando do passeio. As viagens martimas feitas 
at aqui sempre transcorreram da mesma maneira; ele podia dizer 
com exactido o que ocorreria em seguida; Erna divertia-se como 
cabia a uma mulher na metade da casa dos quarenta, como ela fazia 
questo de parecer, ficava de olhos arregalados e ridcula depois 
de alguns copinhos e, no final, se alegrava em poder ir para a 
cama e besuntar seu rosto com aquele fedorento creme nutritivo 
esverdeado. Grande parte da culpa por sua vida conjugal tornar-se 
cada vez mais inspida cabia a esse creme verde. O galante de 
Angeli tambm se desapontaria quando, bem de repente, Erna 
ficasse sonolenta na volta do passeio. Esse pensamento deixou o 
Dr. Schwarme reconciliado com a vida. E ento ele pensou na 
proposta de Tatarani.
 Moas nativas. Nos morros de Acapulco. Fogo mexicano no corpo! 
Esse tipo de coisa deixa qualquer um excitado. Com cinquenta e 
dois anos de idade, ainda se pode fazer coisas sem cair no 
ridculo. Vamos tentar, Peter?
 O Dr. Schwarme tomou mais coragem enchendo o tanque com um 
pacman - vodca com conhaque de damasco, suco de limo e soda 
limonada com gelo - e ento, ao pensar nas moas dos morros de 
Acapulco, sentiu um formigamento nas veias. Qualquer motorista de 
taxi saberia aonde lev-lo, quando ele dissesse com um piscar de 
olhos: "Para as cabanas, senhor."

  O Dr. Schwarme saiu do bar, foi at o tombadilho e depois, 
atravessando uma das portas de vidro, chegou  sua cabina 018, 
uma das mais caras do NM Atlantis. Nela, tinha-se como paisagem o 
tombadilho, a amurada e o mar. Podia-se ver muitas coisas, sem 
ser visto.
 O Dr. Schwarme abriu a porta da cabina, foi at o armrio e 
procurou uma camisa alegre e colorida que pudesse ser usada por 
fora das calas. Ao faz-lo, seu olhar pousou na 
mesinha-de-cabeceira de Erna. A gaveta estava entreaberta... 
Coisa que no era costume de Erna! Sobretudo quando ela havia 
guardado ali as jias usadas na noite anterior.

 O Dr. Schwarme puxou toda a gaveta para fora e olhou no vazio. 
Nenhuma jia mais... nem o colar com as safiras, a pulseira com 
os brincos que combinavam e o broche. Estranho, pensou ele 
fechando a gaveta de novo. No vi se ela estava usando as jias. 
Afinal, quem  que vai fazer um passeio na praia ostentando essas 
bugigangas? Erna to-pouco, por mais excntrica que seja. Mas a 
gaveta est vazia; portanto, claro que ela ainda deve estar com 
as jias. Na bolsa de praia... que idiotice! Vai banhar-se no mar 
de Acapulco e sai toda pendurada de brilhantes e safiras, s para 
impressionar essa tal de Sylvia de Jongh. Ela pirou de vez 
agora... O Dr. Schwarme estava enganado.
 Carducci havia atacado. Erna Schwarme retornou  tarde de seu 
passeio a Palo, na ilha de Roqueta. 
 Estava cheia de experincias e, por alguns instantes, ficou 
desapontada por seu marido no encontrar-se na cabina.
 Quantas coisas havia visto! As magnficas enseadas de Acapulco. 
Os hotis de luxo e as grandiosas mansSes sobre os rochedos. Os 
mergulhadores da morte, rapazes morenos e musculosos que se 
atiravam ao mar de ponta-cabea abaixo saltando dos altos 
recifes. Um bote com fundo de vidro, debaixo do qual se podia ver 
os cardumes de peixe passarem. Mas sobretudo ela tivera uma 
experincia com um homem que cobriu-a de carcias amorosas, 
beijou-a apaixonadamente atrs de uma parede de flores de malvas 
silvestres, enquanto alisava-lhe os seios. Havia muitos anos que 
Peter,
 o marido que se acomodara de modo criminoso, no a beijava 
daquela maneira. Antes sim, antes ele ainda era o homem corajoso 
que ela conhecera e sobre o qual amigos preocupados a preveniram. 
Ela gostara disso. Ficara incrivelmente excitada por saber que as 
outras garotas sentiam inveja por causa do Dr. Schwarme e que 
estas teriam ido com o maior prazer com ele para a cama. Mas 
depois, sua paixo diminuiu lentamente como uma calcificao 
interna. Aps vinte anos de casamento, ela podia contar nos dedos 
as noites nas quais ele se dava conta que havia uma mulher 
atraente deitada ao seu lado na cama. Isso sem se falar do comum 
das noites; havia alguns beijos, um cumprimento de obrigao, um 
rpido eco com conversas banais e, em seguida, ele se virava de 
lado e adormecia.
 Depois aconteceu mais uma vez nas bodas de prata; ele foi para a 
cama levando uma garrafa de champanhe, tirou por conta prpria a 
camisola da mulher e comportou-se como se tivesse se economizado 
um longo tempo para aquela noite. Erna ficou feliz at a medula 
dos ossos, fez amor com toda a nsia que sua idade permitia e 
transportou-se para a frentica noite de seu casamento. Mas pelos 
vistos o Dr. Schwarme gastou seus ltimos cartuchos nessa noite. 
Aps essa noitada das bodas de prata, ele comportou-se como se 
lhe tivessem apagado a luz.
 Erna reagira com espanto e desamparo. Correra  esteticista e 
submetera-se a cataplasmas, drenagens fantsticas, massagens e 
peelings. Frequentara uma estncia de embelezamento durante trs 
semanas, tendo ali se submetido inclusive a um tratamento  base 
de clulas frescas. Ela chegou at mesmo a ter uma conversa 
particular com seu ginecologista a esse respeito. Este foi de 
opinio que se devia ter uma conversa franca com o Dr. Schwarme, 
coisa que Erna declinou como sendo impossvel.
Resumindo: nada deu certo! era bem verdade que ela podia comprar 
as roupas mais caras e mais modernas, vivia pendurada de jias - 
afinal de contas, ele ganhava muito bem com suas muitas 
actividades jurdicas -, os dois faziam viagens, viam meio mundo 
e bancavam o casal feliz... mas tudo no passava de um jogo ou, 
como Erna chamara um dia ao gritar-lhe numa exploso de raiva, um 
teatro barato.

 E agora esse Franois! Um homem para ser mordido! Um homem que a 
apertava logo no primeiro beijo. Ela podia sentir a excitao 
dele de modo bem claro; estava usando apenas um minsculo biquini 
e uma pequena bermuda de praia. E quando ele acariciou-lhe os 
seios, Erna precisou de toda a sua fora interior para sacudir a 
cabea e poder afastar-lhe as mos.
 - Agora voc no pode dizer no - Franois sussurrou-lhe ao 
ouvido com seu alemo de lindo sotaque francs. -  como se o 
destino nos tivesse juntado.
 Mas ela dissera no, escapara de seus braos e correra para 
junto dos outros passageiros que se encontravam no terrao 
coberto do restaurante Palo construdo ao estilo polinsio, 
servindo-se do fantstico buf. Apesar do blecaute matrimonial de 
Schwarme, at ali Erna ainda no havia sado do casamento, nunca 
tivera um amante e de algum modo preservara o casamento como algo 
sagrado. At que a morte os separe... mas Peter ainda estava 
vivo! No entanto, agora ela percebia uma coisa: que ainda podia 
ser uma mulher desejada e que um homem como Franois representava 
um tremendo perigo para ela.
 Ela trouxera outro triunfo adicional da ilha Roqueta: Sylvia de 
Jongh, em geral to excitante, agiu nesse dia como um "camundongo 
cinzento"; isolou-se dos outros, deitou-se na pequena enseada sob 
uma barraca afastada feita de folhas de palmeiras tranadas e que 
pertencia ao restaurante e dormiu at ser chamada para a partida. 
Enquanto isso, seu marido nadava na enseada ostentando os 
msculos, xingava no restaurante o garom mexicano que no 
encher todo o copo com uma bebida extica e importunava os 
companheiros de passeio com piadas velhas, das quais apenas ele 
ria com vontade.
 Nesse dia, Erna Schwarme foi a mais bela de todas. Coisa Que lhe 
fez bem; sobretudo porque poderia contar a Peter: Mesmo que voc 
esteja cego... eu ainda tenho um bocado de chances! Existem 
homens de sobra que me admiram e desejam; s preciso estalar os 
dedos.
 O Dr. Schwarme s voltou de seu passeio sexual secreto por volta 
do anoitecer, com a cara um pouco derrubada e amarrotada. Quando 
j se passou dos cinquenta anos, um pulinho s cabanas dos morros 
de Acapulco torna-se uma aventura espinhosa. Uma coisa que ele 
no teria acreditado, mas que agora ele sabia: o corpo mais belo, 
liso e apaixonante de uma excitante mestia de pele morena 
exauria sua masculinidade com mais rapidez do que ele achava 
possvel. Sua vontade estava presente, mas seu corpo no 
acompanhava mais. Essa foi uma constatao amarga que Schwarme 
teve de engolir nesse dia. Por cinquenta dlares, a beldade de 
olhos dos Korta esforara-se de facto mexendo-se debaixo dele e 
fazendo com que Schwarme sentisse sua percia, mas depois do 
primeiro orgasmo sentiu-se completamente exaurido, bebeu uma 
cerveja um tanto choca e depois rum com coca-cola e encarou como 
um eunuco os ltimos esforos da linda e delicada moa.
 Desse modo, espantado consigo prprio, ele retornou ao navio, 
entrou na cabina s apalpadelas e encontrou sua mulher Erna, nua, 
de banho recm-tomado, antes mesmo de sentir o perfume do sal de 
banho aromtico que pairava em todo o ambiente. Ela estava 
deitada com o corpo borrifado com um novo perfume, as mos 
cruzadas atrs da cabea, as coxas um pouco abertas... uma 
verdadeira atmosfera de porteiro, como ele resmungou em 
pensamento. E isso depois de uma experincia to ridcula!
 - Ah, finalmente voc chegou Peterzinho - Erna Schwarme tentou 
seduzi-lo com voz anelante. Ela esticou o corpo desnudo e bateu 
com a palma da mo na cama ao seu lado. - Vem c!

 - , sou eu mesmo. - Schwarme tirou o palet de linho fino. - 
Quem mais podia ser?
 - Voc foi at  terra? 
 - Fui. Ao Museu Asteca. Muitssimo interessante! Puxa que 
cultura que esses caras j tinham naquela poca! Mas tambm 
cruel,  o que lhe digo, faziam sacrifcios humanos para os 
deuses!  bem verdade que a gente aprende isso no ginsio, mas 
como d para se ter uma idia exacta. Agora eu vi com meus 
prprios olhos... Como foi seu dia?
 - Maravilhoso! - ela tornou a se esticar. - Vem c, Peterzinho.
 - Aonde?
 - Para a cama. at mim...
 - Escuta aqui, voc est gozando, no? - ele tirou a camisa a 
fim de tambm refrescar-se e encarou-a perplexo. - Que significa 
isso? Voc est deitada a como... Como...
 - E ento, como o qu?
 - Voc j sabe como!
 -  isso mesmo que quero. Estou explodindo de teso. Vem logo!
 - Voc j devia ter em mente o que fazer no passeio.
- A lembrana da cabana no morro com aquele esplndido corpinho 
moreno deixou-o exaltado. - Deixa de idiotice, Erna! Vista-se! 
Dentro de meia hora comea o coquetel no bar Atlantis e depois 
vem o jantar. Vou tomar um rpido banho de chuveiro.
 - Vem c! Agora!
 - Droga! O dia foi bem quente e ficar andando dentro de um museu 
hora aps hora deixa qualquer um cansado. Claro que voc entende! 
- ele foi at o banheiro, tirou as calas e a cueca e jogou por 
cima o roupo de banho branco que pertencia ao navio. Estava com 
a sensao de que o doce aroma da mestia ainda estava grudado 
nele. Esse perfume do corpo moreno e cheio de curvas que teria 
feito qualquer outro homem perder a cabea. Menos ele. O Dr. 
Peter Schwarme, o eunuco. O impotente. Aquele que afrouxava 
depois de dar uma. De repente, pde compreender que havia homens 
que se enforcavam ou metiam uma bala na cabea porque a vida 
chegara ao fim abaixo do umbigo.
 Erna lanou-lhe um olhar cintilante quando ele retornou do 
banheiro. Ela dobrara e recostara as pernas, uma posio que 
antes o teria deixado animado por sua frivolidade.
 - Qualquer outro homem ficaria feliz se estivesse diante de mim 
agora - disse Erna com tom agressivo. - Qualquer outro homem! 
 - Principalmente o cego que temos a bordo.
 - Voc  ordinrio, um cnico, um cnico beberro, no passa 
disso! Se voc visse quantas chances eu ainda tenho...
 - Sobretudo com o marqus comprometido. 
 - Isso mesmo! Com Franois! Ele est ardendo de paixo. est 
louco por mim.
 -  verdade. O cara precisa Mesmo estar doido para ser atrado 
pelo seu canto de sereia.

 - Seu nojento! Seu nojento repugnante! Seu egosta presunoso! - 
Erna esticou as pernas e pousou as mos sobre o tringulo de 
cabelos louros. - V logo para a banheira! No fique a me 
olhando! Quando voc me encara, sinto-me como se estivesse 
coberta de esterco. E depois v beber sozinho seu coquetel! 
Ficarei aqui e telefonarei para a cabina de Franois. Sim, ele 
vir! Deixarei que ele me coma... est ouvindo, compreende... me 
coma... me coma... me coma!
 Ela saiu da cama possuda pela fria, jogou-lhe os travesseiros 
no rosto e teria lhe dado uma surra se Schwarme no fugisse para 
o banheiro trancando a porta com o ferrolho atrs de si.
 A que ponto chegamos, pensou ele cheio de amargura. Bem-sucedido 
na profisso, invejado por muitas pessoas, com boas contas 
bancrias na Sua e em Liechtenstein, com investimentos nos EUA, 
Canad e Japo, com uma manso na Alemanha e uma casa de veraneio 
em Ischia, no momento num navio de luxo para ver meio mundo... e 
agora a derrota no ventre cado de uma mestia de Acapulco e uma 
mulher com quem estou casado h mais de vinte e cinco anos e que 
agora quer dar uma trepada com um playboy. E  assim que essa 
vida vai seguir adiante, com recepSes, noitadas de espera, 
matins no clube, viagens e homenagens sociais, ganhando e 
gastando dinheiro, com uma felicidade conjugal fingida e uma 
importncia incurvel, at que um dia, num momento qualquer, a 
coisa termine com um infracto ou um cncer. E ento faro 
discursos junto ao tmulo e escrevero necrolgios, mas ningum 
dir com toda honestidade: tudo foi uma confuso, foi 
simplesmente uma merda, pura e simplesmente uma grande merda!
 O Dr. Schwarme entrou no banheiro, regulou a temperatura da gua 
para 40 graus e deixou a ducha jorrar. O jacto quente lhe fez 
bem, Schwarme sentiu-se feliz. Sim, sob o tamborilar do jacto 
d'gua ele chegou a ter uma meia ereco... apenas meia ereco, 
mas de qualquer modo... ainda no estava completamente morto na 
parte de baixo e isso deixou-o tranquilo e eufrico. O Dr. 
Schwarme cantou debaixo da ducha.
 Depois de secar-se e esfregar-se um perfume masculino de aroma 
acre - retornou  cabina metido no roupo de banho e viu que Erna 
se vestia. Nesse momento, ela estava colocando um vestido de 
noite vermelho por cima do suti e calcinha.
 - Como , o senhor marqus no podia hoje? - perguntou dando 
vazo ao seu escrnio. - Tambm estava de pernas bambas por causa 
do passeio? Os passarinhos cantam, mesmo quando caem do galho...
 - Ainda ficaremos a bordo algumas semanas, elas bastaro para os 
mais de vinte anos perdidos. Como precisa cantar vitria antes do 
tempo!
 Os dois entraram pontualmente no bar Atlantis s 19 horas e 45 
minutos, para a pequena hora do coquetel antes do jantar. Uma 
banda tocava ritmos sul-americanos decentes. Entraram no bar de 
braos dados; um belo casal cuja felicidade era evidente. Deviam 
sentir inveja deles... ainda to apaixonados aps tantos anos de 
casamento. 
 Tomaram assento nos banquinhos do bar e o Dr. Schwarme, alegre 
como um adolescente, pediu um Red Dragon para si e outro para 
Erna.
 Trata-se de um coquetel infernal com alta percentagem de lcool, 
feito com um rum escuro da Jamaica, rum claro de Barbados, 
conhaque de pssego, suco de limo e de abacaxi. E claro que com 
cubos de gelo. Aquele que continuar de p aps tomar trs copos 
de estmago vazio granjeia a admirao de todos.

 - Oh, meu Deus! - disse Erna num rompante levando a mo ao 
pescoo. - Voc me deixou to nervosa... que acabei no colocando 
as jias. Preciso voltar  cabina.
 - Por que voc levou as jias para ir nadar? Uma loucura!
 - O que foi que eu fiz? - Erna encarou-o como se ele estivesse 
delirando. - As jias esto na mesinha-de-cabeceira.
 - Engano seu. A gaveta estava aberta e no havia nada dentro.
 - Impossvel. Eu sei muito bem...
 - E eu tambm sei! Dei uma olhada dentro da gaveta e depois 
tornei a fech-la.
 - Peter... - seus olhos arregalaram-se de espanto. - Peter,  
verdade? A gaveta estava aberta e vazia?
 - Mas claro que sim! Levar jias como essas para nadar! Voc 
est ficando cada vez mais histrica.
 - Eu no as levei, Peter. - A voz de Erna ficou um pouco 
estridente.
 - Peter, ser que voc no compreende? As... as jias 
desapareceram. Algum pegou as jias...
 Quase que como obedecendo a uma voz de comando, os dois 
deslizaram para fora do banquinho, abandonaram os copos e saram 
correndo do bar Atlantis. Chocaram-se com o primeiro-oficial 
Willi Kempen na porta dupla do vidro. Este queria tomar uma 
pilsen espumante o mais rpido possvel, aps a agitao 
provocada pela morte da Sra. White.
- O bar est pegando fogo? - perguntou ele piscando os olhos.
- O bar no, a nossa cabina. A 018! Meu nome  Dr. Schwarme. - 
Ele parou enquanto Erna continuava correndo. - Pelo que parece, 
algum invadiu a nossa cabina. As jias da minha mulher 
desapareceram.

Um leigo em viagens martimas tem a tendncia de invejar o 
comandante de um navio de cruzeiro, um vapor musical como as 
pessoas chamam sem o menor respeito. Ele v o mundo inteiro, vive 
cercado de lindas mulheres, usa um belo uniforme branco com 
galSes dourados nas mangas e folhas douradas de carvalho na aba 
do quepe,  um reizinho em seu navio, recebe uma bela pilha de 
dinheiro como salrio e acima de tudo: ser comandante  uma bela 
coisa. 
 Ningum fala, posto que ningum v, sobre a montanha de 
preocupaSes quotidianas, sobre a responsabilidade de se conduzir 
com segurana novecentas pessoas atravs dos mares, sobre os 
pequenos e grandes enguios a bordo. Nenhuma permisso para se 
ver! Essa  a lei bsica a bordo.

Os passageiros pagaram muito dinheiro para ficarem felizes e 
alegres durante um par de semanas, para vivenciarem o mundo lindo 
sem nenhuma preocupao, a fim de poderem retornar  vida 
quotidiana com a alegria duradoura de ter esse navio e sua 
tripulao guardados no corao. Ali, o at a vista no  mais 
uma imagem de retrica, as pessoas o dizem com sinceridade. 
Voltaro no ano seguinte ou mais tarde para fazer uma outra 
magnfica viagem. As pessoas o querem de facto, posto que tudo 
deu to certo, tudo foi organizado de maneira primorosa, 
deixando-as completamente satisfeitas. Muitssimo obrigado ao 
comandante e  sua tripulao!  assim que deve ser e uma das 
missSes mais fatigantes e extenuantes do comandante  lutar para 
que assim seja. Proteger os passageiros... Mesmo quando a bordo 
ocorreu um assassinato e um ladro de jias levou a cabo seu 
trabalho e continuar roubando. Willi Kempen telefonou 
imediatamente para Teyendorf ao constatar de facto que as jias 
de brilhante e safira da Sra. Schwarme haviam sido roubadas da 
cabina 018. As outras jias encontravam-se, graas a Deus, no 
cofre do navio.
 Quando o comandante Teyendorf entrou na cabina, Erna Schwarme 
estava chorando sentada na cama. A gaveta vazia estava aberta, o 
Dr. Schwarme fumava um cigarro e segurava um copo de conhaque que 
o comissrio levara para ele. Por causa da outra coisa, o 
assassinato de Anne White, terminara havia pouco mais de meia 
hora o desfile da tripulao diante da cmara de televiso na 
cantina dos marujos, sem que os oficiais tivessem dito o motivo 
daquele teatro. Na manh seguinte seria a vez dos camaradas que 
estivessem passeando em terra, de folga at o amanhecer. Isso 
significava: s seis horas todos se encontrariam a bordo.
 - Portanto, a senhora tem plena certeza de ter colocado as jias 
na gaveta? - perguntou Teyendorf. Sua voz tremeu de leve por 
causa da agitao.
 - Plena certeza. Em que outro lugar teria colocado?
 - Por que a senhora no tornou a deposit-las no cofre?
 - Por qu? Por qu? No se trata disso aqui. - O Dr. Schwarme 
assumiu o tom de advogado de defesa. - Ns fomos roubados! Fomos 
roubados no seu navio! Esses so os factos inequvocos.
 - J era tarde demais ontem  noite - explicou Erna chorando, 
enquanto olhava para a gaveta vazia. - A gente sempre pensa: 
Amanh de manh d tempo, afinal estarei deitada bem ao lado 
durante a noite. Mas quando a manh chega, a gente j esqueceu. 
Toma-se o caf e depois parte-se para o passeio, tudo na maior 
azfama. Alm do que, a gente pensa: est trancada,  uma gaveta 
de segurana, no pode acontecer nada durante o dia. E o 
comissrio vai prestar ateno, agora ele j conhece os 
passageiros e sabe quais so suas cabinas. Qualquer estranho 
chama a ateno. Mas mesmo assim...
 Ela soltou um soluo de romper o corao e recostou-se na 
barriga do marido. Nesse instante, o Dr. Schwarme era pura e 
simplesmente um jurista.
 - O que o senhor propSe, comandante? Informar a polcia...
 - Eu lhe pego! Nada de escndalos a bordo!
 - Foram roubadas jias no valor de mais de cem mil dlares, isso 
 um escndalo! O senhor vai querer jogar essa sujeira para 
debaixo do tapete? Sua companhia de navegao ser...
 - Ela no ser coisa nenhuma, Dr. Schwarme. Ns nos 
responsabilizamos apenas quando alguma coisa desaparece do cofre. 
Temos seguro contra isso. Mas quando alguma coisa  roubada nas 
cabinas, sobretudo jias que ficam jogadas por a...
 - Elas no estavam jogadas por a - vociferou o Dr. Schwarme. - 
Estavam trancadas!
 - Na cabina! Isso  o decisivo! - Teyendorf deu uma olhadela na 
gaveta, sem toc-la. Por fora no dava para se ver que havia sido 
aberta com violncia. A fechadura no fora arrombada, a madeira 
no sofrera danos.
- Por acaso a chave da gaveta no ficou jogada por a nalgum 
lugar?
 - Aqui nada fica jogado por a, senhor comandante, eu j lhe 
disse! - a voz do Dr. Schwarme ergueu-se num tom funesto.
- Faa o favor de no tentar nos fazer culpados! E ento, o que 
vai acontecer agora?
 - Os senhores iro para a mesa e Ns examinaremos a cabina.
 - Eu gostaria de estar presente, senhor comandante.

 - Por favor, compreenda que devemos fazer isso sozinhos. 
 - Como compreendo coisa nenhuma!
 - No vou conseguir engolir nada - disse Erna nesse momento. 
Como chorava mais, em compensao Seu corpo estremecia em soluos 
silenciosos. - Estou enjoada.
 - O senhor est vendo e ouvindo, comandante! - Schwarme tremia 
de dio. - Minha mulher vai ter um colapso nervoso. Eu gostaria 
de ter essa sua calma!
 - O senhor queria que eu tambm vociferasse? A quem serviria 
isso? - o comandante Teyendorf amparou Erna Schwarme quando esta 
levantou-se da cama. Ela foi at o banheiro para recompor a 
maquilhagem. 
- Mas talvez avanssemos se agora o senhor nos deixasse fazer a 
investigao em paz. Como jurista que , o senhor sabe muito bem 
que as pessoas podem borrar provas por pura desateno. 
ImpressSes digitais, por exemplo.
 - Ningum precisa me dizer isso. - O Dr. Schwarme sentiu-se 
muito insultado. Quando a mulher retornou do banheiro, ele deu o 
brao a ela e os dois saram da cabina. Teyendorf respirou 
aliviado e olhou  procura de Willi Kempen.
 - Traga-me o Sr. Dabrowski aqui. Ele deve estar na cabina. Com 
toda a certeza deve estar trocando de roupa para o jantar. Este  
o caso dele. Seu misterioso Carducci encontra-se de facto a 
bordo. Ora, ento sade!
Essa ser uma viagem cheia de aventuras! j nos primeiros dias um 
assassinato, um roubo de jias... que mais pode acontecer, 
Kempen?
 - Bem, a s falta o nosso navio naufragar, comandante. 
 - Pelo amor de Deus, no me venha com essas conversas sobre 
catstrofes. Traga-me esse Dabrowski
 Teyendorf sentou-se  mesa, olhou pela janela o mar que quase 
no se mexia e sentiu-se feliz por poder ficar alguns minutos 
sozinho. Seria conveniente, perguntou-se ele, informar os 
passageiros que entre eles encontrava-se um perigoso e refinado 
ladro? Ser que isso no levaria a uma grande intranquilidade e 
desconfiana mtua? Um navio onde no se podia ficar em 
segurana, mesmo que a causa fosse apenas um ladro de jias, j 
no era mais um lugar para se passarem frias. A serenidade 
interior que se ansiava nessa viagem seria destruda no acto. 
Dabrowski chegou rapidamente, vestido pela metade num roupo. De 
facto, quando Willi Kempen foi busc-lo, ele estava trocando de 
roupa.
 - To rpido assim? - disse ele dando uma olhada na cabina.
 Teyendorf deu um sorriso zangado.
 - Que significa esse "to rpido"?
 - Eu achava que Carducci era mais esperto. Estava achando que 
ele daria o primeiro golpe no mximo pouco antes de Valparaso, 
quando mais de trezentos passageiros partiro e outros subiro a 
bordo.  perigoso ficar andando por a agora com jias roubadas.
 - Voc quer dizer que esse seu maldito Carducci sair do navio 
em Valparaso? Puxa, seria uma bno para todos ns.

 - Ledo engano! O Atlantis permanecer trs dias em Valparaso. 
Ento Carducci levar confortavelmente seu roubo para a terra e o 
depositar no cofre de um banco. Ns supomos que ele disponha de 
cofres em bancos situados em todos os lugares onde os grandes 
navios de cruzeiro passem mais de dois dias. Valparaso, Rio, 
Cairo, Hong-Kong, Singapura, So Francisco, Pireu, Gnova, a 
pode estar sua central!, Veneza, Bremerhaven, Lbeck, Oslo...
- Inconcebvel!
- E mais tarde ele vende as jias roubadas directamente do cofre 
do banco para seus receptadores. Ele deve gozar de toda a 
confiana desses sujeitos, pois nunca enganou nenhum deles. Os 
caras confiam plenamente em sua palavra e aceitam o roubo sem 
fazer nenhum controle anterior. Um ladro de jias  um zero  
esquerda quando no possui um bom receptador. Afinal de contas, 
ele no sai roubando por a, para chocar as jias.
 - Muito engraado - Teyendorf apontou para a gaveta. - Nada foi 
arrombado... mas mesmo assim desapareceu.
 - Uma fechadurinha como essa  brincadeira para um profissional.
Eu abro em dez segundos.
 - Que tranquilizador! Mas no fique falando isso em voz alta.
 - Algum tocou na gaveta?
 - Claro que com toda certeza a Sra. e o Sr. Schwarme.
 - Carducci no deixa impressSes digitais, ele opera de luvas. 
Luvas de pelica; aristocrtico como seria de se esperar dele. Uma 
vez ele foi obrigado a fugir no Stella Pacific e deixou uma luva 
para trs. Apesar do trabalho de laboratrio mais refinado 
possvel e dos exames em microscpio, no se achou nenhuma pista 
traioeira no interior da luva. Coisa que levou  suposio de 
que Carducci toma duplo cuidado: por baixo das luvas de pelica, 
ele ainda usa luvas de borracha, dessas que os cirurgiSes 
utilizam. - Dabrowski arreganhou um sorriso largo. - Digamos que 
ele opera com esterilizao total.
 Sentou-se na beira da cama, abriu a gaveta tirando-a do suporte 
interno e examinou-a centmetro por centmetro com sua lupa que, 
ao que parecia, sempre levava consigo. Teyendorf e Kempen 
observaram-no em silncio.
 - Naturalmente, nada. - Tornou a colocar a gaveta no entalhe de 
correr e fechou-a. - Ele abriu essa ridcula fechadura e, bem  
vontade, retirou as jias. O nico problema foi entrar e depois 
sair da cabina sem ser notado. Mas aqui na 018 isso no 
representa problema algum. Basta virar  direita na curva e a 
pessoa ter ido embora. A cabina tem uma posio bem favorvel ao 
lado da volta.
 - E que podemos fazer?
 - Nada.
 - Puxa, quanta coisa! - Teyendorf levantou-se. - Devo dizer isso 
ao Dr. Schwarme? Ele teria um acesso de fria. Nada! Claro que 
devemos fazer alguma coisa!
 - O qu, senhor comandante?
 - Espero uma proposta sua. Se eu mandar uma circular a todos os 
passageiros avisando-os para s guardar suas jias nos cofres por 
causa do perigo de roubo e se o Dr. Schwarme sair por a contando 
o arrombamento, o que voc acha... vai haver a maior 
intranquilidade entre nossos hspedes. Todo mundo suspeitar de 
todo mundo, cada pessoa desconfiar da outra. E assim se formar 
uma atmosfera bem explosiva. 
 Dabrowski sacudiu a cabea.

 - O Dr. Schwarme deve guardar o mais absoluto segredo sobre o 
roubo. Precisamos arrancar-lhe essa promessa. Carducci no deve 
ser prevenido. s teremos uma chance para desmascar-lo, caso ele 
se sinta seguro e ataque outra vez. Mas tem uma coisa que me 
deixa perplexo: Carducci  um profissional experiente e deve 
estar contando com que reine agora uma tremenda confuso a bordo 
impossibilitando um segundo roubo. Por outro lado, ele no deve 
dar-se por satisfeito com uma nica presa tendo tantas jias a 
bordo. Essa conduta no  tpica dele.
 - Um... um outro roubo? - perguntou Willi Kempen hesitante.
 - era s o que nos faltava! - Teyendorf ps o quepe de 
comandante e foi at  porta. - Vamos tentar, Sr. Dabrowski. O 
Dr. Schwarme e sua mulher no saem por a batendo com a lngua 
nos dentes para as pessoas e o senhor ter tempo, como no caso da 
Sra. White, at Valparaso para encontrar o ou os criminosos. 
Enquanto voc fazia a tripulao desfilar diante da cmara de 
televiso, eu telefonei ao nosso representante em acapulco para a 
companhia de navegao. Os caras ficaram fora de si e deixaram as 
providncias por nossa conta. Bem simples. Mas repetiram uma 
coisa vrias vezes: nada de cena, nada de escndalo, proteja a 
reputao do NN Atlantis. - Nesse momento a voz de Teyendorf soou 
mais amarga:
- Agora o senhor est metido com um assassinato e com um ladro 
de jias internacional! Garanto-lhe uma coisa: quando eu ainda 
navegava num navio de transporte de containers, vivia com mais 
tranquilidade e sem preocupaSes. era uma verdadeira brincadeira 
comparada com a misso de ser comandante de um vapor musical!
 Pela primeira vez Teyendorf usou essa expresso para seu lindo 
navio... uma prova de quanto o haviam abalado os acontecimentos 
dos ltimos dias.

Essa noite pertencia a Herbert Fehringer, havia sido combinado 
assim.
 Depois do jantar com a conhecida troca a jacto no banheiro, Hans 
permaneceu na cabina assistindo  programao da televiso de 
bordo, um filme velho, e depois foi para a cama ler um romance 
policial. De vez em quando ele pensava em Sylvia e sentia 
tremendas saudades dela, tanto que teve vontade de se levantar, 
vestir-se e sair  sua procura... mas isso teria posto tudo a 
perder, trairia o "jogo dos gmeos" e, muito provavelmente, os 
levaria  cadeia.
 - At depois de amanh - dissera ele na despedida. - no devemos 
chamar a ateno...
 Nesse momento, como havia prometido, Herbert estaria sentado no 
elegante bar Olympia, ouvindo o show-man ao piano branco, bebendo 
uma garrafa de vinho seco e evitando tudo que pudesse ocasionar 
um encontro com Sylvia. E sobretudo, tomaria todo o cuidado para 
manter-se longe da noite danante que estava anunciada para essa 
noite no Salo dos Sete Mares, tendo como convidado um grupo 
folclrico de Acapulco; pois era de se supor com segurana que 
Sylvia comparecesse. Desde muito tempo havia uma lei no escrita: 
os gmeos jamais se enfrentaram como rivais por causa de uma 
mulher.
 Contudo, nesse dia Herbert Fehringer, dessa vez o segundo no 
jantar, fez exactamente o contrrio. Atravs de pequenos sinais 
secretos, deu a entender a Sylvia que se veriam mais tarde no 
salo. Ela compreendeu-o no acto, assentiu de modo imperceptvel 
e imediatamente ficou mais animada e contente. O marido, Knut de 
Jongh, ocupava-se nesse momento com um excelente bordeux.
 - De repente voc ficou to contente, querida - disse ele.

 - Estou feliz por causa da noite danante. Adoro ver essas 
danas exticas. E nos intervalos e mais tarde vamos para a 
pista, no vamos?
 - Se voc quiser. - De Jongh assentiu. Ele no gostava de 
sacudir o esqueleto, como ele dizia. era um pssimo danarino, na 
juventude no frequentara nenhuma escola de dana. "Tive de 
manejar o martelo de ferreiro", dizia ele quando se falava sobre 
isso, "e depois limpar a oficina". 
Aprender a danar! Meu pai me daria um soco no focinho se eu 
aparecesse com essa moda. O trabalho, isso era importante. E d 
para se ver: consegui alguma coisa! Agora possuo uma ferraria 
artstica considerada uma das maiores e melhores da Repblica 
Federal da Alemanha. Agora posso falhar tranquilamente ao danar 
um tango..."
 Quando os de Jongh saram do restaurante, Herbert Fehringer 
tambm levantou-se e subiu a escadaria que dava para o Salo dos 
Sete Mares. Ali chegando, ficou parado junto  porta alguns 
momentos, viu onde Sylvia e o marido se sentaram  escolheu um 
assento ao lado de uma coluna atrs da qual podia observar 
Sylvia, inclinando-se um pouco.
 No primeiro intervalo da apresentao do grupo folclrico, 
Herbert Fehringer ficou sentado e deixou que Sylvia danasse com 
o marido. Este saiu dando patadas como um urso pela pista de 
dana, chocando-se com todo mundo - Claro que sem pedir desculpas 
- Com uma cara de quem estivesse sendo prensado num torno. Mas 
suportou a situao com bravura e depois conduziu a suada Sylvia 
de volta  mesa. Ali, ele afundou no assento estofado, enxugou o 
suor com um leno branco e, na mesma hora, recompensou a perda de 
lquido com o vinho. Sylvia lanou um olhar furtivo na direco 
de Herbert, que acenou para ela e depois tirou as mos. O sinal 
significava: no prximo intervalo; ns danaremos juntos. Ela fez 
uns olhos de espanto e sacudiu a cabea.
 De facto, no segundo intervalo, Herbert Fehringer levantou-se e 
foi  mesa dos de Jongh. Fez uma vnia diante de Sylvia, que 
encarou com olhos arregaados de espanto, e depois diante de Knut 
de Jongh.
 - O senhor me permite que eu tire sua mulher para danar? - 
perguntou Herbert.
 De Jongh encarou-o de cima a baixo com um ar de zangado. Sujeito 
repugnante, pensou ele. Mas agora ele est chegando na hora 
certa. Mais uma vez na pista de danas... negas! Alm disso estou 
de olho em Sylvia. Se ela gosta tanto assim de danar, que dance! 
Mas tinha de ser justo com esse patife presunoso?
 Sylvia hesitou, lanou um olhar indeciso ao marido, mas Knut de 
Jongh assentiu, mesmo que um pouco mordido.
 - Tenha a bondade! - disse ele com voz rangente. - Agora vm as 
danas ondulantes das quais no gosto mesmo.
 Sylvia levantou-se e caminhou  frente at a pista de dana. 
Herbert seguiu-a bem-educado,  distncia. Somente quando estavam 
no meio dos outros pares, foi que ele envolveu-a com o brao 
puxando-a um pouco contra seu corpo.
 - Voc  maluco - sussurrou Sylvia com a respirao ofegante.
 - Tudo foi feito de maneira oficial. Pedi a permisso de seu 
marido com toda a educao. 
 - Voc disse que no viria hoje.
 - Eu simplesmente tive de vir. no estava em condiSes de ficar 
muito tempo sem a sua presena. Eu te amo, Sylvia...

 - no me aperte tanto! Devemos danar de um modo sensato. Ele 
est nos observando com toda a ateno. Esto tocando um boogie, 
podemos danar separados. Voc sabe danar boogie?
 - E voc ainda pergunta? ! - Herbert Fehringer deu uma risada, 
deixou as pernas soltas como borracha e meteu-se a danar um 
boogie digno de ser visto. Knut de Jongh observava-o com a testa 
anuviada e achou a coisa toda uma macaquice, parecendo saltos de 
selvagens. Aquele torce e torce, como ele mesmo chamou, deixou-o 
mais desconcertado. Bem, vinte anos de diferena na idade so uma 
grande quantidade, pensou ele. 
 como Sylvia parece jovem agora! no  elstica! Knut de Jongh 
recordou-se de tantas noites na cama com ela e bufou pelo nariz. 
Hoje  noite vai ser sua vez de novo, meu docinho, alegrou-se e 
lambeu os lbios. H quatro dias que o leo no  trocado,  
tempo demais para voc! Fica a mexendo com essa bunda de um 
jeito que qualquer um fica abafado. V se esquentando com esse 
vigarista louro, mais tarde sou eu que darei umas bombadas na 
cabina.
 - Quando nos vemos? - perguntou Herbert Fehringer ao voltar a 
danar um fox lento agarrado em Sylvia.
 - Hoje, no d mesmo, Hans...
 - Claro que d! Estou explodindo de saudade. Voc tem de 
escapulir de alguma maneira. Mesmo que seja apenas por meia 
hora... por uma vez, Sylvia. Preciso senti-la ainda hoje!
 - Voc enlouqueceu por completo, Hans.
 - Por todos os deuses do amor... enlouqueci mesmo. Estou 
incuravelmente louco por voc. Voc precisa inventar alguma coisa 
para vir at mim.
 - Hoje. Knut no desgrudar os olhos de mim, sobretudo agora que 
voc est danando comigo. Eu lhe suplico, querido, espere at 
amanh!
 Herbert Fehringer sacudiu a cabea. Amanh o sortudo ser Hans 
de novo, pensou ele. E a coisa vai continuar assim. A cada dois 
dias eu deverei fazer a pausa. no pode ser mesmo, meu 
irmozinho!
 - Mais tarde estarei no bar Atlantis - disse ele. - Telefone 
para l se voc puder ir. Ento nos encontraremos l fora, no 
solrio.
 - Impossvel, querido! Impossvel! no vai ficar esperando. - 
Sylvia distanciou-se um pouco dele ao ver como o marido os 
observava com as sobrancelhas fechadas. - Afinal, eu no posso 
mat-lo.
 - Essa, por exemplo, seria uma soluo definitiva para todos os 
problemas. - Fehringer riu dessa piada que no era nem um pouco 
divertida.
 - Mas talvez exista outra possibilidade menos dramtica.
 - no conheo nenhuma. - Depois do fox, os dois ficaram 
aplaudindo como os outros pares. Bis. Bis. A orquestra do navio, 
que se chamava Happy Boys, tocou mais uma valsa lenta. A estava 
uma dana na qual as pessoas tinham de abraar-se de um modo bem 
sentimental. Herbert puxou Sylvia contra seu corpo.
 - Meu marido... voc enlouqueceu mesmo... - sussurrou ela.
 Herbert sentiu seu tremor e arreganhou um sorriso largo.
 - Ele to-pouco poder mudar a cara de uma valsa lenta. Pelo 
amor de Deus, no tenha tanto medo assim, meu anjo. Daqui a pouco 
teremos uma idia de como poderemos ficar juntos hoje. Preciso 
possu-la de qualquer maneira!

 Depois dessa ltima dana, Herbert levou Sylvia de volta  mesa 
e tornou a fazer uma vnia para Knut de Jongh.
 - Agradeo, meu senhor - disse ele em tom educado.
 De Jongh assentiu sem dizer nenhuma palavra e esperou at que 
Herbert Fehringer fosse embora. Em seguida, lanou um olhar 
inquisidor para Sylvia.
 - E ento, foi divertido?
 - no dana to bem assim. No entanto voc deve compreender que 
ele dana melhor do que voc.
 - No boogie ele estava parecendo um macaco mordido por uma 
abelha. no sou to imbecil para esse tipo de coisa. Isso j no 
 mais dana.
 No final, a valsa lenta, isso sim  que  dana! A vocs 
formaram um bom par. - Ele tragou o grosso charuto e jogou a 
fumaa para o teto por cima da cabea de Sylvia. - Quando vamos 
para a cama?
 - O que amos fazer? - a voz dela ficou um pouco estridente. 
Isso no, pensou Sylvia como que entrando numa espcie de pnico. 
Isso no, no hoje  noite. 
- Ora, voltar para a cabina. - Knut de Jongh esticou as pernas 
gordas. - O show j acabou, agora s tem sacudidela de esqueleto, 
para mim no  nenhuma diverso mais.
- Podamos dar um pulinho l embaixo no Clube do Pescador.
- L tambm tem sacudidela de esqueleto. Msica de discoteca, uma 
nojeira!
- Ento no bar Olympia. Bebemos mais uma garrafa de champanhe 
juntos ouvindo o sujeito ao piano branco.
 - Uma bela porcaria de piano. De qualquer maneira, sempre  
melhor do que a msica de tumulto. Tudo bem ento, vamos at o 
piano branco. Voc vai ter o seu champanhe. O porre sempre a 
deixa bastante divertida. Talvez eu precise disso hoje  noite.
 Knut de Jongh piscou o olho para ela e acenou  comissria para 
trazer a conta. Sylvia sentiu nsias de vmito ao pensar no que 
ele faria com ela. Viu Fehringer sair do salo e, de repente, 
sentiu-se abandonada a um destino terrvel. Pensou nas mos 
largas e duras de Knut, em seu corpo hmido e forte e em sua 
masculinidade extraordinria que antes a deixava com a respirao 
paralisada, mas da qual agora sentia quase medo e nojo.
 Tem de acontecer alguma coisa, pensou ela com a respirao mais 
apressada. no posso dormir com ele, no hoje  noite. Eu iria 
vomitar se ele comeasse a danar em cima de mim soltando esses 
seus ofegos e bufadas.
 Knut de Jongh assinou a conta, dando nome e nmero da cabina e 
levantou-se.
 Ao chegar ao elegante e bem comportado bar Olympia, uma pea de 
luxo do navio apreciada sobretudo pelos passageiros mais velhos, 
posto que ali,  excepo da msica baixa e inimista do piano, 
reinava um silncio agradvel, Knut de Jongh procurou uma mesa 
junto  curva panormica, que agora  noite estava com as 
cortinas cerradas. O homem estava tocando ao piano branco msicas 
de My Fair Lady.
 - Isso sim  que  msica - disse de Jongh satisfeito. - Tem 
melodia. Mas esse berreiro a de fora... no compreendo como  
que voc gosta dele!

 Sylvia manteve um silncio encarniado. Que devo fazer, pensou. 
Tenho na bolsinha um tubinho de Celibran, um forte comprimido 
para dormir. Trago sempre comigo, pois tambm serve para 
enxaqueca. Ser que Knut vai notar alguma coisa se eu dissolver 
no champanhe? Ela estremeceu em seu ntimo, quando Knut pediu 
champanhe e um usque triplo on the rocks. A estava a soluo! 
Ele no sente gosto de nada no usque.
 - no vai me acompanhar no champanhe? - perguntou Sylvia com 
evidente inocncia.
 - Voc sabe muito bem que s bebo essa agua espumante em caso de 
necessidade! Um usque de verdade  insubstituvel.  o que 
compete a uma verdadeira garganta masculina. 
 Knut de Jongh aguardou a chegada das bebidas, fez um brinde  
mulher e depois levantou-se.
 - Pardon, madame - disse ele amvel, bancando um homem galante. 
- s alguns minutinhos. Preciso ir dar uma mijada...
 Sylvia seguiu-o com a vista at ele desaparecer pela porta de 
vidro, abriu rapidamente a bolsa e despejou cinco comprimidos de 
Celibran do tubinho directamente no usque. Misturou tudo com o 
palito de plstico, os comprimidos dissolveram-se bem rpido, sem 
ao menos apresentar nenhuma turvao na bebida. O ideal, pensou 
ela. Uma idia brilhante. Cinco comprimidos... d para derrubar 
at mesmo ele. Sobretudo porque o lcool acentua o efeito, est 
escrito na bula. Agora, se ele beber mais um ou dois usques, 
dentro de uma hora estar dormindo como um anestesiado. Hans, meu 
querido, podemos nos encontrar!
 Knut de Jongh permaneceu afastado um tempo bem longo, mas ao 
retornar estava bem-humorado. Virou o copo de usque como se 
fosse gua e depois arrotou atrs da mo aberta em concha. 
 - O primeiro  sempre o melhor - disse ele. - Com ele vem o 
apetite. Igual ao caso de vocs, mulheres. - Ele acenou para o 
comissrio no bar. - Mais um, Johnny.
 Onde quer que ele estivesse, tinha sempre por princpio chamar 
todos os barman de Johnny. Ningum saberia dizer como ele chegara 
a isso. Ele prprio no contava que havia lido isso num romance, 
cujo heri o entusiasmara a ponto de desde ento ele passar a 
copi-lo. Alm disso, at ento nenhum barman se queixara, eles 
pareciam estar acostumados com esses nomes.
 Enquanto Sylvia bebia seu champanhe com todo cuidado, de Jongh 
virou mais dois usques super grandes. Ela contemplou-o com 
ateno, viu que suas plpebras comearam a bater e que em pouco 
tempo ele teria trabalho para manter o globo ocular erguido. De 
Jongh tambm perdeu o controle da linguagem.
 - Ah, droga - disse com a lngua pesada. - no estou cansado! A 
causa  esse ar marinho, meu tesouro. Vamos para a cama. Ainda 
consigo dar uma com voc. h quatro dias que ns no... Para a 
caminha!
 Knut de Jongh j no pde assinar a conta. Sylvia rubricou por 
ele, deu-lhe o brao e levou-o embora do bar Olympia. De olhos 
fechados, ele andou s apalpadelas ao lado dela, desceu de 
elevador at a tolda e, ao chegar na cabina, desabou na cama 
quase que em posio de sentido.
 Sylvia tirou-lhe os sapatos, empurrou-o do jeito que estava para 
o meio da cama e cobriu-o. De Jongh dormia como se de facto 
estivesse narcotizado. Ela sacudiu-o para test-lo, gritou seu 
nome no ouvido, esmurrou-o e socou-o com os punhos... ele no 
esboou a menor reaco. Ficou dormindo de boca aberta e comeou 
a soltar roncos horripilantes.

 Sylvia foi tranquila ao telefone e chamou o bar Atlantis. 
Fehringer chegou ao aparelho aps alguns segundos. Parecia estar 
esperando ao lado do telefone.
 - Tudo em ordem, querido - disse ela sentindo-se como que 
engolfada por uma onda de calor. - Ele est dormindo como se 
estivesse anestesiado. Alis, est mesmo. Eu misturei cinco 
Celibran no usque dele.
 - Genial! Estou indo...
 - Eu vou  sua cabina!
 - Vamos fazer ao contrrio. Meu docinho, dispa-se j; chegarei 
a dentro de alguns minutos. Cabina 147, no  mesmo?
 - Sim. Mas Hans, no pode ser, seria uma loucura completa... 
aqui, na cabina... e Knut est deitado por perto... Claro que ns 
no podemos fazer aqui...
- Ns podemos qualquer coisa, querida. Vou voando!
 Sylvia despiu-se com dedos trmulos e cobriu-se com o roupo de 
banho. Em seguida, abriu o ferrolho da porta... na hora exacta, 
pois Herbert Fehringer j se encontrava l. Ele meteu-se na 
cabina, puxou imediatamente Sylvia contra seu corpo, arrancou o 
roupo de banho de seu corpo, beijou-a como um louco, tocou-lhe 
com os lbios o rosto, seios e dorso, levou-a para a cama, 
virou-a, pressionou-lhe o dorso para a frente e possuiu-a por 
trs com um nico impulso quase brutal. Sylvia soltou um gritinho 
baixo, cravou os dedos na colcha e ento comeou a choramingar de 
prazer  medida que ele mexia cada vez mais rpido, sem dizer uma 
palavra sequer.
 - Oh, Deus... - balbuciou Sylvia. - Ohhhhh... voc est to 
diferente, Hans, mas to diferente, querido... melhor, muitssimo 
melhor do que ontem... Oh, deus... voc est to gostoso... to 
gostoso...
 Mas  que eu sou o mais velho, pensou Herbert Fehringer com ar 
triunfante, gozando aquele corpo trmulo.
 Os dois caram na cama soltando um grito baixo e simultneo, 
sempre enganchados, e ento olharam para Knut de Jongh que nesse 
momento roncava com a cabea bem na frente deles. Cobertos de 
suor, Herbert e Sylvia separaram-se.
 - Ns somos dois malucos totais - disse Sylvia. Sua respirao 
estertorava de excitao. - Hans, querido... ningum pode nos 
salvar mais... 
 - Ningum! - ele estava deitado de costas e estremeceu quando 
Sylvia pousou a mo delicadamente no seu baixo-ventre.
 - E quanto a Knut?
 - Falarei com ele.
 - Com dois socos ele o derrubar no cho como se voc fosse um 
pedao de pau. Voc nem imagina como ele  forte. J brandiu o 
martelo de ferreiro mais pesado como se fosse de papel. Falar com 
ele... fora de cogitao! Ele no vai correr atrs, pois  muito 
orgulhoso para isso. Mas se algum quiser tomar-lhe a mulher na 
cara dele, a ento ele sai batendo. Sim, eu vou fugir. Tenho 
dinheiro suficiente para ir atrs de voc na Amrica. Tenho minha 
prpria conta bancria, muitas jias... no vai ser problema!

 O problema vai ser o irmozinho Hans, pensou Herbert Fehringer. 
Um problema insolvel. Sylvia, vamos passar juntos um par de 
semanas maravilhosas e depois vocs voltam de avio de Sidney 
para a Alemanha e nunca mais nos veremos. Oxal Hans pense o 
mesmo. A est o grande perigo para todos ns! E eu nem ao menos 
posso lev-lo a mal, pois Sylvia  o tipo de mulher na qual os 
homens ficam pendurados, para se falar de um modo bem profano. 
Uma mulher que suga qualquer homem. Os dois ainda se juntaram, 
mais uma vez de um modo frentico e desenfreado. Depois ento, 
tomaram um banho de chuveiro juntos, Herbert Fehringer tornou a 
vestir-se e saiu da cabina. O corredor estava vazio. Fehringer s 
viu os primeiros passageiros ao chegar  escadaria. Subiu a 
escada, entrou no bar Atlantis, pediu uma cerveja, virou-a quase 
que de um s gole e disse ofegante ao comissrio do bar:
 - Bah, como isso faz bem! Eu estava ressecado.
 - O ar marinho, meu senhor.
 -  isso a! Mais uma cerveja e um Doppelkorn para completar...
 Pela manh, Knut de Jongh acordou com a cabea cheia de chumbo e 
os membros pesando toneladas. A mulher dormia ao seu lado; 
parecia um anjinho com sua camisola de renda. Knut deu-lhe um 
beijo acanhado nos olhos e depois deixou-se cair para trs.
 - O que ? - perguntou Sylvia sonolenta virando a cabea para 
ele.
 -  o que eu gostaria de saber. Afinal, o que aconteceu ontem  
noite. De repente, eu tive um branco...
 - So esses seus usques duplos e triplos! - ela virou-se de 
costas e ficou de olhos fixos no teto. - Voc est de novo nessa 
sua maldita turma de porre. est mal. Fico to envergonhada.
 Ele calou-se sentindo-se culpado e props-se comprar alguma 
coisa muito bela e valiosa na joalheria de bordo para 
presente-la... Como um pedido de desculpa e como indemnizao.

Depois do jantar, no qual o casal Schwarme ficou remexendo os 
pratos sem nenhum apetite, os dois no ficaram muito tempo no 
restaurante. To-pouco mostraram interesse pelo grupo folclrico 
e pela noite danante no Salo dos Sete Mares, embora Erna 
Schwarme tivesse marcado um encontro com Franois de Angeli e 
ansiasse por seu abrao na dana. Os dois s pensavam nas jias 
roubadas.
 Riemke, o director de hotel, foi de encontro a eles no caminho 
para a cabina.
 - Que bom t-los encontrado aqui - disse ele. - O comandante 
quer inform-los sobre a situao.
 - Pegaram o ladro?
 - Ainda no.
 - O que significa esse "ainda"? Ser que ele vai ser descoberto?
 -  sobre isso que o comandante quer conversar com os senhores.
 - Estou ansioso.
 Teyendorf aguardava o casal Schwarme na sua cabina. Ele 
preparara um bom vinho branco de Lorena e duas bandejas de 
pastis misturados, coisa que pareceu suspeita ao Dr. Schwarme. 
Em geral, era assim que ele era recebido na qualidade de advogado 
na casa dos clientes que se achavam culpados, mas que queriam que 
ele os apresentasse como inocentes perante o tribunal.
 - O Sr. Riemke j me disse: nada! - o Dr. Schwarme aceitou a 
luta.
 - Bem, eu no diria isso de modo to crasso...

 - Minhas belas jias - sussurrou Erna pressionando um leno nos 
olhos e sentando-se no banquinho estofado do canto.
 - De qualquer modo, agora sabemos que se tratou de um 
profissional, um gatuno com muita experincia.
 - Tranquilizador! - o Dr. Schwarme ostentou um sorriso irnico. 
- J vale alguma coisa.
 - A fechadura da gaveta foi aberta com percia. Mas no vamos 
conversar agora sobre a responsabilidade da companhia de 
navegao; falaremos sobre a presena de um criminoso a bordo. 
Todos ficamos espantados, creiam-me. Pelo que se verificou 
posteriormente, ele esteve em actividade j no baile de saudao. 
Depois de uma dana, a mulher de um passageiro deu pela falta de 
um valioso anel de brilhante de vrios quilates. Acreditvamos 
at aqui que ela havia perdido durante a dana, mas o anel no 
foi encontrado. A propsito, a companhia de navegao tambm no 
se responsabiliza pelos danos nesse caso. Tememos que o ladro de 
jias prossiga com sua actividade.
 - Que emocionante! Neste navio esquisito, as pessoas recebem o 
romance policial fornecido  prpria custa!  o que podemos 
chamar realmente, no est escrito no prospecto, de plenitude em 
termos de entretenimento.
 O Dr. Schwarme, irnico, estava possudo por completo pela arte 
do escrnio mordaz. Em muitos processos, ele tirara os 
adversrios da reserva e atrara-os para o campo dos perdedores 
com essa tcnica. 
 - Posso compreender sua amargura, Dr. Schwarme. - O comandante 
Teyendorf encheu os copos. - Apesar disso, agora devemos 
conversar sem emoo.
 - O senhor consegue?
 - Eu devo. No interesse dos passageiros e do navio. O que estou 
falando e propondo ao senhor, j discuti em detalhes.
 - Com quem?
 - Com os oficiais e o Sr. Dabrowski.
 - Dabrowski? O cego? Com ele, como assim?
 O comandante hesitou por um segundo.
 - Vou confiar-lhe uma coisa que deve ficar entre ns - disse 
depois de algum tempo. - Apelo para a sua discrio... O Sr. 
Dabrowski  detective e sua cegueira, apenas um disfarce. E 
tambm precisa continuar incgnito perante os passageiros daqui 
por diante.
 - Ora, mas por qu? Estamos falando de uma jia muito valiosa.
 - Eu sei disso. E  justamente por isso. O roubo tambm no deve 
ser tornado pblico. no devemos de maneira alguma prevenir o 
ladro antes do tempo, isso  o mais importante. Portanto, 
silncio total, nenhuma palavra aos outros passageiros! A mnima 
insinuao poder pr tudo a perder. Devemos comportar-nos como 
se nada tivesse ocorrido. Vocs simplesmente no deram pela falta 
de nada...
 -  realmente uma impertinncia aceitar isso, senhor comandante.
 - Ser para o seu bem. Nenhum passageiro sair de bordo at 
Valparaso. Esperamos ter descoberto o ladro at l. Mas na 
opinio do detective, isso s ser possvel se o senhor e sua 
honrada esposa ignorarem por completo o roubo. Talvez isso faa 
com que ele fique descuidado.

 - E se no ficar? Como voc disse, ele  um profissional. Um 
profissional no fica nervoso... ora, no me venha com essa 
conversa, comandante! j defendi muitos profissionais cujos 
nervos muitas vezes eram melhores do que os meus.
 - O silncio  a melhor armadilha, creiam-me. O ladro ser 
obrigado a conviver com uma tremenda desvantagem: ele no poder 
sair do navio. no antes de Valparaso. Dr. Schwarme, minha cara 
e honrada senhora... Contamos com sua colaborao.
 Eles beberam o vinho de Lorena e, durante algum tempo, 
encararam-se sem dizer palavra nenhuma. No final, o Dr. Schwarme 
recomeou a conversa.
 - Devo reconhecer que quase no existe uma possibilidade. - Ele 
olhou para Erna, sua mulher. esta renunciara a ficar passando o 
leno pelos olhos e lbios. - O que voc diz disso, querida?
 - Sou de sua opinio, Peter - sussurrou ela. Enquanto criatura 
desamparada, Erna parecia ainda mais jovem e bela; as pessoas 
sentiam um impulso constante de acarici-la. - no direi uma 
palavra.
 - Minha velha pergunta ainda est valendo: o que acontecer 
quando ocorrer a troca de passageiros em Valparaso, sem que 
tenhamos encontrado o ladro?
 - Neste caso estaremos numa situao na qual ainda no ouso 
pensar. Mas isso s acontecer quando estivermos a um dia da 
chegada a Valparaso. - O comandante Teyendorf brindou ao casal 
Schwarme: - Bebamos ao nosso sucesso!
 Bateram os copos, um pouco aflitos, mas J no mais to 
desesperanados. Pelo contrrio: nesse momento, Erna Schwarme 
meditava com toda a ateno sobre de quem seria a vez, caso o 
ladro atacasse outra vez. Seria, em primeira linha, a Sra. 
White. Depois as jias de Sylvia de Jongh, a arrogante. No mnimo 
setenta mulheres haviam levado as fortunas de seus maridos para 
passear a bordo... um verdadeiro paraso para um ladro de jias!
 O comandante Teyendorf ficou satisfeito com esse acordo do 
silncio. Agora o detective podia continuar bancando o cego. 
Ento, alguns minutos depois, Dabrowski telefonou chamando o 
comandante com urgncia.
 Teyendorf fingiu que necessitavam de sua
presena na ponte. Despediu-se do casal Schwarme, esperou mais 
alguns minutos at estar seguro de que ambos estavam fora do 
campo de viso e ento desceu ao cinema de bordo.
 Dabrowski, Riemke, Willi Kempen e o comissrio-chefe 
Pfannenstiel estavam sentados diante de um projector de tev a 
cores, cuja tela era espantosamente grande. Levantaram-se quando 
Teyendorf entrou no cinema.
 - no sejamos to formais, cavalheiros! - disse o comandante. 
Foi apenas uma exortao retrica, pois a disciplina, a ordem e a 
boa conduta faziam parte das regras bsicas de sua vida. Jamais 
algum se atreveria, por exemplo, a cham-lo apenas de "com"... 
essa pessoa seria enquadrada no acto. Em toda parte e em qualquer 
momento
chamavam-no apenas de "senhor comandante". Qualquer negligncia 
era, aos olhos de
Teyendorf, o comeo do caos.
 Ele sentou-se junto aos outros e Riemke gritou para o operador 
de filme de tev:
 - Pode rodar, Raffael!

 Raffael, o operador de cinema e tcnico de tev de Catnia, que 
no se abalava diante de nenhum problema relacionado com a 
electricidade, apagou parte da iluminao da sala por intermdio 
do regulador de luz. Em seguida, apareceu na gigantesca tela de 
tev uma tomada total da cabina da tripulao. A cmara fez uma 
evoluo e enfocou o primeiro marinheiro que se dirigiu  porta. 
Com um movimento bem rpido, ela aproximou-se da cabea, de tal 
modo que a partir desse instante s se viam rostos em close.
Os marinheiros, em tamanho gigante, lanavam sorrisos para a 
cmara.
 - Eu nunca vi os rapazes com tanta exactido - disse Willi
Kempen.
 Aps seis tomadas, Dabrowski disse entre as imagens:
 Agora vem o primeiro barbudo. Mas sua barba  louro
avermelhado. Ele sempre foi assim? Ou ser que pintou 
rapidamente?
 - Esse a  Franz Stickerich. - O comissrio-chefe Pfannenstiel 
deu uma gargalhada, pois Stickerich olhou para a cmara como um 
pateta. - Eu s o conheo de barba vermelha.
 O desfile dos rostos durou quase duas horas. Foram, no total, 
cento e setenta homens. Os outros estavam de licena em terra e 
seriam filmados de manh cedo. Havia quatorze homens de barba 
escura no primeiro desfile, mas de cada um deles dizia ou 
Pfannenstiel ou Riemke: "Tenho cem por cento de certeza que este 
 inocente!" Entre eles to-pouco havia algum que antes usasse 
barba e que, de repente, a tivesse cortado.
 - Ningum  inocente - disse entretanto Dabrowski. - Eu no 
gostaria de saber quantos deles tm a conscincia pesada. Mas 
trata-se de um assassinato... ou de algum que tenha algo a ver 
com a morte.
 - Quem dentre os passageiros usa barba escura? - perguntou o 
comandante Teyendorf.
 O director de hotel Riemke pegou numa lista no bolso do palet.
 - Nove senhores. Anotei os nomes e suas profissSes. Nenhum deles 
precisaria dos dlares da Sra. White.

 - Mas  oportuno que tenhamos uma saudvel suspeita em qualquer 
situao. - Dabrowski continuou de olhos fixos no desfile de 
rostos que enchiam toda a tela de linho. - Uma vez eu tive um 
caso no qual estava implicado um multimilionrio. no era um 
milionrio em termos de propriedades, mas sim de conta bancria. 
Coisa que de facto  importante! Existe uma grande quantidade de 
milionrios em propriedades; mas milionrios em conta corrente, 
que podem ter imediatamente seus milhSes em notas quando bem 
entenderem... so pouqussimos. E esse distinto cavalheiro, ele 
tinha um nome fulgurante, havia assaltado,, de mscara de meia, 
nove joalharias em toda a Europa, no total. Ele roubava milhSes 
nesses assaltos; contudo, no mximo dentro de trs dias ele 
sempre mandava as jias apreendidas de volta para o joalheiro. 
at que ns o agarramos em flagrante. Quando tinha quatorze anos, 
um dia esse sujeito viu um filme sobre ladrSes de jias, coisa 
que provocou um contacto frouxo em seu ciclo. Ele ficava possudo 
por uma compulso, de um modo bem irregular. Voc tem de roubar 
uma loja! O sujeito foi para tratamento psiquitrico, no houve 
nenhum processo judicial. Hoje em dia ele est curado numa 
gigantesca manso junto ao lago de Genebra e no consegue 
compreender sua vida anterior. - Dabrowski pigarreou. - Com isso 
s estou querendo dizer que devemos incluir no rol dos suspeitos 
esses nove honrados passageiros que usam barba. Claro que com a 
maior discrio e reserva.
 As duas horas de apresentao no renderam nada de essencial: 
nenhum daqueles que desfilou diante da cmara mostrou o menor 
sinal de medo no rosto. Somente curiosidade, espanto e inclusive 
humor. Para muitos, aquela apario na tev foi uma verdadeira 
diverso.
 - Portanto, para comear um fracasso! - o comandante Teyendorf 
resumiu o resultado do primeiro controle de rostos. - E se for 
assim tambm com a outra parte da tripulao?
 - Ento colocarei os nove passageiros debaixo de minha lupa. Mas 
no creio que seja necessrio. Tenho a sensao de que o 
acharemos entre a tripulao. Temos muito tempo at Valparaso.
 -  o que voc diz! - Teyendorf levantou-se. - Estamos numa 
situao bem desagradvel, meus senhores, para no dizer 
directamente: numa situao de merda!
 Foi a primeira vez que os oficiais ouviram seu comandante falar 
dessa maneira.

Barbara Steinberg, a bela cabeleireira de Bochum, estava 
radiante; sua grande paixo, o Dr. Paterna, o mdico de bordo, a 
convidara para a noite folclrica e danante no Salo dos Sete 
Mares. Ela apareceu num vestido branco e simples, mas com um 
decote to refinado que o Dr. Paterna perguntou-se de novo: no  
possvel? Como ela  na verdade? Ser que s est bancando a 
ingnua que economizou anos para fazer essa viagem... ou o  de 
facto?
 Ele fez um pequeno teste. Na dana, apertou-a contra seu corpo, 
mas sentiu na mesma hora o enriquecimento de seus msculos; uma 
contraco que fez com que o corpo de Barbara ficasse rgido. Uma 
vigarista que sai em busca de aventuras teria reagido de outra 
maneira.
 - est bem quente aqui, apesar do ar-condicionado - disse ele 
aps o fim da rodada de dana. - Vamos dar um pulo ao convs? No 
tombadilho? L fora est uma noite magnfica. Um cu estrelado 
que parece de sonho. E, em compensao, um vento quente soprado 
das montanhas. E depois o mar de luzes de Acapulco... Voc no 
devia perder. Vamos? Ela assentiu, ainda um pouco rgida, e 
seguiu o Dr. Paterna at o elevador. Quando saram no tombadilho 
e viram  sua frente a iluminada Acapulco e acima o cu amplo, 
estrelado e cintilante, deram mais alguns passos e encostaram-se 
na amurada.
 - Parece uma magia - disse Barbara em voz baixa, aps um longo 
tempo de silncio entre os dois. - no  linda a nossa terra...

 - Voc ainda vai ver muitas coisas que a deixaro com o corao 
latejando. O canal do Panam. A ilha de San Blas com os ndios 
cunas. Guaiaquil, a cidade construda na selva, com um esplndido 
cemitrio de mrmore, o mais bonito do mundo. Cuzo, a antiga 
capital dos incas. Machu Pichu, a cidade perdida dos incas no 
meio de um macio de rochedos cobertos pela selva. E muitas, 
muitas coisas mais. - Ele pousou o brao no ombro de Barbara e 
tornou a sentir o endurecimento. - Sempre que for possvel, vou 
acompanh-la a todas as partes... Caso voc queira. Mas com 
certeza a Cuzo e Machu Pichu; como mdico, preciso acompanh-los 
no voo, por causa da altitude extrema: 3.500 metros de altura. 
Todas as vezes, alguns passageiros sentem vertigens, pois o ar  
muito rarefeito.
 - Ser que eu tambm vou sentir?
 - Nunca se sabe de antemo.
 - Sou muito saudvel.
 Ela tornou a olhar para o cu estrelado e estremeceu ao ouvir 
passos no convs atrs. Um outro casal passou por eles e depois 
foi sentar-se num dos banquinhos de plstico branco instalados ao 
longo da parede do convs entre as janelas das cabinas do 
solrio. O jovem de calas brancas e blazer azul pareceu muito 
encabulado e, de repente, levantou-se. 
 Vejam s, pensou o Dr. Paterna, quem poderia imaginar: O 
parceiro bicha de Jens van Bonnerveen est rompendo. Est-se 
iniciando outra tragdia clandestina.
 O jovem foi at o Dr. Paterna e pigarreou:
 - Posso falar com o senhor um minuto a ss, doutor? - perguntou 
ele. Sua voz traa uma grande tenso ntima. Paterna assentiu.
 - Queira desculpar-me, Barbara - disse ele. - Volto daqui a 
pouquinho.
 Ele afastou-se um pouco com o jovem encabulado chegando junto  
parede e, assim, os dois ficaram fora do alcance.
 - est sentindo alguma coisa?
 - Meu nome  Grashorn. Eduard Grashorn. - O jovem hesitou outra 
vez. - Antes de continuar falando, doutor... preciso 
confessar-lhe uma coisa...
 - Eu sei. Voc subiu a bordo com um amigo e agora tem uma jovem 
dama ao seu lado.
 - O senhor... o senhor sabe o que est acontecendo connosco?
 - Olha, quase no daria para se deixar de notar, Sr. Grashorn. 
Seu parceiro no faz o menor esforo para esconder suas 
inclinaSes. Parece que voc  o grande amor dele.
 -  isso. - Grashorn soluou algumas vezes. - Eu... eu gostaria 
de pedir-lhe que o senhor no dissesse a ningum que me viu hoje 
aqui.
 - Mas isso  claro.

 Ele viu Eduard Grashorn respirar aliviado. O rapaz tinha vinte e 
trs anos de idade, era pedreiro desempregado. Por acaso, h 
algum tempo atrs ele chegara a um bar frequentado por 
homossexuais. Foi visto por Jens van Bonnerveen, um rico 
arquitecto, que se apaixonou por ele  primeira vista. Grashorn 
era o que se podia chamar de belo adolescente: de estatura 
mediana e magro, gracioso como uma moa e com imensos olhos 
azuis. Antes de entrar naquele bar, jamais lhe passara pela 
cabea afeioar-se por um homem. Ele no teria a menor inclinao 
para isso. Mas quando van Bonnerveen convidou-o para um champanhe 
e caviar e levou-o para sua manso, quando ele viu toda a riqueza 
e pensou em sua prpria situao, ento foi possudo por uma 
espcie de indiferena para com seu destino. Seu pai bebera at 
morrer quando Grashorn tinha nove anos, ganhava honestamente seu 
dinheiro como passadeira numa lavanderia e ele tornara-se 
servente da construo civil, sendo mais tarde nomeado pedreiro, 
posto que dissera a si prprio: as construSes esto sempre em 
ordem e do que mais precisa um ser humano para viver Alm de 
comida, bebida, amor e um teto sobre a cabea? Depois veio a 
conjuntura de depresso, a firma construtora abriu falncia e ele 
no encontrou outro emprego em lugar nenhum, pois todas as 
empresas de construo queixavam-se da falta de obras.
 Agora ele estava na manso do arquitecto, cercado de quadros e 
tapetes, mrmore e vidro, bebendo champanhe e tolerando que van 
Bonnerveen o acariciasse e inclusive o beijasse e o apalpasse de 
mos trmulas.
 Aqui est o dinheiro, pensara ele. Aqui, o dinheiro jorra na 
fonte. Se voc colaborar, no vai ter mais preocupaSes. O 
sujeito est louco por voc... Colabore, Eduard!
 Nessa noite, ele dormiu com van Bonnerveen. Foi duas vezes ao 
banheiro para vomitar; mas quando teve nas mos sua primeira nota 
de mil dlares, ficou sabendo como seria seu futuro. Nesse meio 
tempo, j estavam juntos havia quase um ano e van Bonnerveen 
continuava to apaixonado como no primeiro dia. O corpo gracioso 
e curvilneo de Grashorn o deixava maluco. no havia nenhum 
desejo que van Bonnerveen no realizasse. Assim tambm fora com 
essa viagem por meio mundo. E agora Eduard Grashorn vira uma 
jovem no navio e sentira que ela no estava inclinada s para uma 
aventura de viagem.
 - Eu Agradeo, doutor - disse ele nesse momento.
 - O que ser se seu parceiro notar? - perguntou o Dr. Paterna.
 - Ainda no sei. Pode acontecer um tremendo dramalho. Mas 
espero que ele no note.
 - Onde est ele nesse momento?
 - No Clube do Pescador. Provoquei uma briga e sa furioso. Para 
ir ao encontro de Annemarie...
 - E no tem medo que ele venha atrs procur-lo?
 - no. Jens sabe ser cabeudo como um touro... Mais uma vez: 
muito obrigado, doutor.
 Grashorn voltou ao banco e sentou-se ao lado da jovem. No mesmo 
instante, ela pousou a cabea em seu ombro e pareceu 
sussurrar-lhe alguma coisa. O Dr. Paterna voltou pensativo  
amurada.
 - Eu gostaria de lhe dar um beijo agora - disse ele sbita e 
directamente para Barbara Steinberg.
 - Oh! Por qu? - os olhos de Barbara ficaram arregalados. - E o 
senhor sempre pede...
 - no. Nunca! Mas com voc  diferente.
 Ele puxou-a, envolveu-a com os braos e beijou-a. De repente, 
estava pouco ligando se era visto ou no. 
 E ele foi visto!

O Atlantis partiu do per de Acapulco s 14 horas em ponto e, 
acompanhado por dois rebocadores, saiu lentamente da ampla e 
magnfica baa retornando ao Pacfico. como sempre, o comandante 
Teyendorf permaneceu na ponte dirigindo com segurana o 
gigantesco navio branco atravs do porto.
 Embora tudo ainda continuasse escuro, ele respirou aliviado  
medida que Acapulco foi ficando cada vez mais longe, at que, no 
final, desapareceu no sol brilhante.
 Haviam escapado de uma baldeao mais longa graas  constatao 
do mdico da delegacia de sade mexicana, segundo o qual a Sra. 
White teria morrido de paragem cardaca. Como antes, Teyendorf 
achava correcto ter-se calado sobre a suspeita de assassinato em 
interesse dos passageiros. Afinal de contas, nada havia sido 
provado e o prprio mdico de bordo, o Dr. Paterna, confessara 
que podia estar enganado. Mas por que sumira todo o dinheiro da 
Sra. White?

 Willi Kempen, o primeiro-oficial, recostou-se na balaustrada ao 
lado de Teyendorf e, como este, ficou olhando para a magnfica 
cidade. De longe ela parecia mais encantadora ainda, posto que 
no se via a sujeira que, lenta porm constantemente, descia das 
encostas, onde os nativos viviam, em direco  cidade. Mas era 
assim por toda a parte. Seja em Caracas ou no Rio, em Lima ou 
Cartagena: a partir das favelas, a misria espraiava-se cada vez 
mais nos centros urbanos. Ela crescia como uma colina de 
cogumelos.
 - Graas a Deus, senhor comandante! - disse Willi Kempen.
Com isso, ele expressou o que Teyendorf estava pensando. 
 - Acabou-se.
 - Por enquanto, meu caro.
 - Que mais pode acontecer?
 - Uma baita duma acusao por encobrimento de um assassinato.
 - E quem faria? Quem pode saber Alm de ns... um punhado de 
pessoas?
 - Quando Dabrowski descobrir o criminoso, este ter de ser 
entregue  polcia. E ento vai ser o diabo! - Teyendorf 
suspirou. - Mas no vamos pensar hoje no que poder acontecer em 
Valparaso. - Nesse momento, eles haviam chegado  larga sada da 
baa e despediram-se de Acapulco com trs potentes tocSes de 
sirene. Os dois rebocadores responderam com suas sirenes claras. 
- Dabrowski est avaliando o videocassete da manh. Se to-pouco 
ele descobrir alguma coisa suspeita na segunda parte da 
tripulao, ento ser a vez dos passageiros. A coisa ainda pode 
ficar mais pesada!
 Na parte de fora da extremidade da ponte, onde havia uma 
plataforma de vista para os passageiros, Ludwig Moor, o homem que 
andava um quilmetro pela manh, estava olhando de binculos a 
cidade que se desvanecia. Ele a achara muito interessante, embora 
muitas vezes o caos das ruas o deixasse perturbado. Na verdade, 
no gostaria de passar suas frias ali, mesmo que possusse o 
dinheiro necessrio para hospedar-se num dos hotis-placio 
protegidos contra tudo, um gueto dos ricos. Sentia-se melhor em 
Norderney, onde as pessoas ainda podiam unir-se  natureza e ao 
mar. em acapulco era-se apenas parte integrante de um barulho 
organizado, uma formiga entre formigas. No Rio a coisa no seria 
diferente; ele j havia visto muitas fotos de Copacabana com o 
formigueiro humano diante da estao do Po de Acar. Moor 
preferia as coisas mais tranquilas da vida, assim como se 
acostumara ao seu trabalho no tribunal da comarca: a repartio 
de cadastro era um osis de tranquilidade.
 - A Sra. White ficou em terra? - perguntou ele a Teyendorf.
 O comandante virou o rosto para Moor e encarou-o com um ar 
inquisidor.
 - Hoje de manh eu vi quando limpavam a sute dela. Ento eu fui 
dar uma espiada... sabe, as pessoas so curiosas e eu nunca tinha 
visto uma sute de luxo. Tudo parecia to abandonado.
 - Sim, a Sra. White ficou em terra: Ela esteve no consulado 
americano e quer viajar por todo o Mxico. Mudou de idia. Alis, 
ns j conhecamos as excentricidades dessa dama, no foi nenhuma 
novidade para ns...
 Ludwig Moor assentiu e saiu da plataforma da ponte. Teyendorf 
seguiu-o com a vista, pensativo.

 - Por que  que ele pergunta tanto? - disse ele a Willi Kempen. 
- Viu alguma coisa?
 - Talvez o desembarque do caixo...
 - Mas alguns outros passageiros tambm viram e Ns tnhamos uma 
explicao para o facto.
 - Podemos supor tambm que ele saiba de mais coisas. Devamos 
informar o Sr. Dabrowski sobre essa rpida conversa.
 Enquanto o Atlantis desaparecia no brilho do sol da entrada da 
baa, Claude Ambert estava na janela de seu hotel um tanto ou 
quanto vagabundo, situado na metade da encosta de Acapulco, no 
lugar onde j comeam as favelas. Ele acenava para o navio 
branco. A despedida de trs tocSes da sirene ecoou at ele e, 
igual ao comandante Teyendorf, Claude Ambert tambm respirou 
aliviado.
 Consegui. Acabou. Esse continuar sendo o assassinato perfeito. 
no havia a menor suspeita sobre o domador de elefantes. Todos a 
bordo sabiam que ele sempre ficara ao lado de seus queridos 
animais, aqueles gigantes com enjoo do mar. Nesse momento, eles 
encontravam-se no estbulo do circo Mxico Glria, que era um 
meio-termo entre variedades, circo e cabar, onde tanto 
apresentavam-se cantores cheios de esperanas, quanto panteras 
negras, ou inclusive elefantes.
 Claude Ambert fez a caixa em seu quarto de hotel, cuja nica 
beleza era um balco de onde se tinha uma vista da cidade - uma 
verdadeira cena de carto-postal. Empilhou as notas de dlar 
sobre a mesa  sua frente e contou-as; uma sensao arrebatadora 
para um homem que, em geral, beijava agradecido qualquer nota de 
cem dlares que possua. O dinheiro deslizou nota aps nota entre 
seus dedos com um tremor cada vez mais potente e, quando terminou 
de contar as pilhas da esquerda para a direita, ficou sabendo que 
encontrara exactamente 63.450 marcos na gaveta de Anne White. Ele 
cruzou as mos no peito, recostou-se para trs e cravou os olhos 
no tecto de gesso de colorao marrom de tanta fumaa de cigarro: 
63.450 marcos! j se podia fazer algo com isso. Aos trinta e seis 
anos ainda no se  velho para comear alguma coisa nova. 
Vivendo-se de modo sensato e caso no ocorra nenhuma desgraa, 
ainda se tm uns bons quarenta anos de vida pela frente. Quarenta 
anos sem preocupaSes, desde que o dinheiro seja aplicado de 
maneira correcta e passe a se multiplicar.
 Para comear, ele se separaria das elefantas. Partia-lhe o 
corao abandonar Sissy e Berta, mas no seria possvel comear 
uma nova vida com duas elefantas ao lado. Terminara sua 
existncia de domador. Claro que ele cumpriria seu contrato com o 
circo apresentando-se com Sissy e Berta durante duas semanas; mas 
depois teria o caminho livre para uma nova vida.
 Nessa tarde, ele deu consecutivos telefonemas para os zoolgicos 
da cidade do Mxico, de Guadalajara, Puebla e Cidade Juarez, 
oferecendo suas elefantas  venda. Descreveu com palavras 
emocionadas suas habilidades, fidelidade, mansido, fora e 
sade. Infelizmente, encontrou pouca correspondncia no amor dos 
directores dos zoolgicos.

 J tinham elefantes de sobra nos jardins zoolgicos e o facto de 
os animais de Ambert dominarem uma srie de pequenas habilidades 
no induziu os directores a comprar Sissy e Berta. Mesmo quando 
Ambert ofereceu, com imensa dor ntima, suas queridas de 
presente, os directores declinaram. Dois elefantes crescidos e 
mimados custavam milhares de pesos por semana. J estavam lotados 
com os exemplares exibidos nos zoolgicos.
 - Mas eu no posso mat-las! - Ambert gritou ao telefone, quando 
o director da Cidade Juarez recusou as duas com toda a 
amabilidade. - Elas so carne de minha carne!
 - Bem, se  assim - respondeu o director com um certo escrnio - 
o senhor s precisa continuar carregando esse fardo...
 Depois dessas conversas, Claude Ambert foi sentar-se muito 
deprimido no balco do quarto de hotel e ficou olhando a cidade 
que dali oferecia uma vista magnfica. Rejeitou no acto a idia 
de simplesmente abandonar Sissy e Berta no estbulo do circo e 
pr o p na estrada, justamente porque seu corao estava preso 
aos dois gigantes cinzentos. Elas o haviam servido com 
fidelidade, o haviam sustentado com suas artes. Bastara para que 
os trs tivessem comida e bebida. Seria uma crueldade infame 
simplesmente abandonar agora as elefantas a um destino inseguro. 
Parecia uma loucura, mas era assim: Claude Ambert, o assassino 
frio de Anne White, ficava com os olhos marejados de lgrimas ao 
imaginar como Sissy e Berta trombeteariam de saudades dele e 
passariam a no comer mais nada de puro desgosto.
 Ele ficou sentado no balco o dia inteiro at o crepsculo, sem 
encontrar nenhuma sada. s sabia de uma coisa: a velha vida 
teria de ficar para trs de uma vez por todas; e as elefantas 
faziam parte dela. Quando o cu tingiu-se de dourado, Ambert 
retornou ao quarto, trocou de roupa e desceu a encosta do morro 
indo em direco ao circo na cidade. No minsculo camarim, vestiu 
seu traje, o hbito de um maraj hindu, cobriu os cabelos com o 
turbante e depois entrou no estbulo. Sissy e Berta 
cumprimentaram-no com o matraquear de correntes e gritos 
ensurdecedores.
 - Meus docinhos! - disse Ambert comovido acariciando as trombas 
que o tocaram. - Que farei de vocs? Ningum quer ficar com 
vocs. Os seres humanos no tm corao,  o que lhes digo. Eu 
tambm sou um egosta, quero livrar-me de vocs para comear vida 
nova. Mas antes disso tratarei de que vocs passem bem at o fim 
da vida, mesmo que ainda no saiba de que maneira.

Aps o jantar do segundo horrio de refeio, ao qual Ewald 
Dabrowski no compareceu - sua "enfermeira" Beate sentou-se 
sozinha  mesa C 8 - o comandante Teyendorf recebeu por telefone 
a notcia de que devia fazer o favor de comparecer  sala de 
cinema; era provvel que o assassino de Anne White tivesse sido 
encontrado.
 Depois desse comunicado, Teyendorf bebeu rpido um copo de 
conhaque, ps o quepe e desceu de elevador ao convs principal. 
Dabrowski, o director de Hotel Riemke e o Dr. Paterna j se 
encontravam sentados diante do projector de tev, fumando 
nervosos, embora fosse expressamente proibido fumar ali.
 - Mas  claro que isso no pode ser verdade! - Teyendorf foi 
logo gritando ao entrar.
 O Dr. Paterna levantou as mos num gesto de defesa.
- Quando assistir ao quadro, o senhor tambm vai fumar, 
comandante.
- no sou da mesma opinio. Fico maluco ao pensar que haja um 
assassino na minha tripulao. Quem  ele, ento?

 Dabrowski apontou para o assento livre ao seu lado. L na 
frente, a tela fosca j estava brilhando. Eles tornaram a ver 
rostos curiosos, espantados, divertidos, risos e piscar de 
olhos... e ento apareceu uma cabea com barba negra e densa, 
cabelos pretos encaracolados e olhos ainda turvos da noite 
anterior. O sujeito lanou um olhar um tanto tmido para a 
cmara, o canto dos olhos tremeu, sua boca manteve-se firmemente 
fechada, nos olhos pairava uma espcie de sorriso. Quanto mais a 
cmara retardava-se nele, mais evidente tornava-se o tremor 
contido de seu rosto.
 O prximo. Outra vez um rosto alegre, bem diferente do homem 
barbudo. Dabrowski mandou parar o filme, voltar atrs e parar no 
momento em que o conhecido barbudo olhava para a cmara. Essa 
imagem fixa traa ainda mais: uma contoro do rosto que, como 
era evidente, o sujeito no conseguia controlar mais.
 - O que lhe ocorre, senhor comandante? - perguntou Dabrowski com 
toda a calma.
 - Esse cara passou a noite inteira bebendo e trepando em 
acapulco. - Teyendorf olhou a imagem fixamente. - Uma grande 
quantidade de meus homens fez o mesmo. Os marinheiros em terra 
so como touros soltos num curral de vacas.
 - Esse homem est com medo, senhor comandante!
 - Quem  ele?
 - Ele se chama Jim Hendriksen e  mecnico da casa de mquinas 
do navio. J me informei com o chefe; ele o acha um de seus 
melhores homens.
 - Que o chefe venha at aqui!
 num navio, o chefe  sempre o engenheiro-chefe, a quem est 
sempre subordinada toda a maquinaria dessa cidade flutuante. Sem 
ele simplesmente nada anda. De que serve o melhor comandante ou o 
melhor oficial-navegador se as mquinas no funcionarem? Devem 
ser dominados e cuidados mais de 28 mil cavalos-vapor, os 
gonimetros e estabilizadores, os geradores e toda a instalao 
tcnica. Quando ocorre
alguma falha tcnica no bojo do navio... o chefe  sempre 
chamado.
 O chefe do Atlantis chamava-se Ludwig Wurzer, era originrio da 
Floresta Negra, havia vinte e quatro anos que estava no mar e, no 
prximo ano, comemoraria seu jubileu de prata no 
engenheiro-chefe. O dia j estava marcado: a festa seria no mar, 
na viagem de Mogadiscio a Aden. era de se esperar uma grande 
bebedeira, pois Ludwig Wurzer era uma pessoa alegre, sempre muito 
querido entre as passageiras, um verdadeiro danarino 
deslumbrante e infatigvel e homem charmoso. Sobre ele corria a 
lenda de que quanto mais lubrificadas funcionassem suas mquinas, 
mais atencioso e activo ele era na cama. no se dava l muito bem 
com Teyendorf, que para ele era austero demais e por demais 
furioso com a disciplina, como ele mesmo dizia, Alm de ser 
inatingvel enquanto pessoa. Tinha um contacto melhor com o outro 
comandante do Atlantis, o mais jovem e enrgico Erik Holter, 
embora este tambm desse prosseguimento  tradio: um comandante 
em viagem tem de ser uma pessoa de autoridade!

 O chefe Ludwig Wurzer levou uns dez minutos para chegar  sala 
de cinema. Parou na porta. No ambiente de iluminao exgua e 
contra o plido brilho da tela da tev, conseguiu reconhecer 
Teyendorf e Riemke, depois o Dr. Paterna tambm. no conhecia o 
sujeito do meio, mas sups tratar-se do detective sobre quem 
Riemke lhe contara sob o juramento de silncio.
 - Quem  esse a na tela, chefe? - perguntou Teyendorf com um 
tom de voz oficial.
 - O mecnico Jim, senhor comandante. Um de meus melhores homens. 
h trs anos que viaja com o Atlantis... mas  claro que o senhor 
o conhece, comandante.
 - Naturalmente. - Teyendorf olhou fixo para o rosto de Jim.
- Voc acha que Jim seria capaz de cometer um assassinato?
 - Um... o qu? Nunca, jamais! - a voz de Wurzer elevou-se um 
pouco. - O cara que pensar isso, deve estar com um parafuso 
frouxo na cabea. no conhece Jim. Desculpe-me, senhor 
comandante... mas fiquei com raiva. Quem, quando e onde Jim 
matou?
 - Quem? A Sra. White. Quando? Anteontem  noite. E onde? Aqui a 
bordo.
 - Impossvel! Jim esteve na casa de mquinas de manh bem cedo e 
depois teve folga em terra at hoje de manh.
 - E na noite anterior?
 - Ficou na cama,  o que eu suponho.
 - Voc supSe, chefe!  disso que estamos tratando: ele ficou 
deitado na sua cama ou na da Sra. White? E depois assassinou-a? E 
por qu?
 - Porque uma grande quantidade de dlares cujo montante no 
sabemos, atrai qualquer pessoa. Mas segundo a nossa opinio deve 
tratar-se de uma fortuna. no foram roubadas jias, estas ainda 
se encontravam na sute. s estava faltando o dinheiro vivo. Mas 
no faria o menor sentido procur-lo agora com Jim. Em primeiro 
lugar, ele no poderia escond-lo em sua cabina, pois no vive 
sozinho. Em segundo lugar, justamente para ele que conhece cada 
cantinho do navio, existem outros esconderijos mais seguros. E em 
terceiro lugar, no temos nada nas mos, trata-se apenas de uma 
suspeita. - Teyendorf apontou para a imagem na televiso. - D s 
uma olhada no rosto dele, chefe.
 - Bem, Jim teve uma noite intranquila. Alm disso, ele tem de 
facto uma bela barba...
 - Esses fios de barba negros foram encontrados na cama da morta 
Anne White - replicou Dabrowski tranquilo. - Claro que isso no  
nenhuma prova contra Jim, mas ele foi o nico que olhou para a 
cmara com medo durante o desfile da tripulao. Seu rosto est 
dizendo que ele tem alguma coisa a esconder.
 - Bem, se se trata de uma barba... eu tambm uso uma! - disse o 
chefe Wurzer em tom agressivo.
 Dabrowski no desistiu:
 -  verdade. Voc tambm est na fila, Sr. Wurzer.
 - Mas isso  uma insolncia! - o chefe Wurzer olhou insultado 
para Teyendorf. - Senhor comandante, afinal quem  esse sujeito? 
Na qualidade de oficial do Atlantis sinto-me agredido sem nenhuma 
justificao.
 - Tomarei nota disso, chefe. - A voz do comandante estava 
estranhamente serena. - Mas no saia por a batendo com a lngua 
nos dentes. Os outros passageiros barbudos tambm so suspeitos. 
Trata-se de um assassinato; num caso como esse, todos Ns, 
inclusive eu, devemos agir com bravura e no fazer barulho. - 
Teyendorf levantou-se. Os outros seguiram-no. - E agora, Sr. 
Dabrowski?
 - Vamos interrogar Jim, senhor comandante.

 - Sem provas?
 - Agiremos como se tivssemos alguma. Olha, e eu chego ao ponto 
de afirmar que existem provas. Aqui no navio esto algumas 
centenas de olhos. Deve existir uma testemunha ocular. Aposto! 
 - Uma testemunha do assassinato?
 - Mas claro que no! Algum que tenha visto Jim entrando ou 
saindo da cabina, caso tenha sido ele realmente quem esteve 
deitado na cama da Sra. White. num navio nada fica em segredo; de 
qualquer modo, ,nunca soube que ficasse.

O interrogatrio de Jim foi feito na cantina. O chefe Wurzer 
ficou mascando a ponta do cachimbo, quando o mecnico entrou, 
devagar, olhando em volta qual animal acossado, com um tremor no 
canto dos olhos. O olhar de seu comandante parecia perturb-lo ao 
extremo. Tomou assento numa cadeira que o chefe lhe apontou e 
enganchou as mos entre os joelhos. Seu olhar deambulou de homem 
a homem, seus lbios estavam cerrados. Dabrowski andou em volta 
dele bem devagar, coisa que evidentemente deixou Jim intranquilo.
 - Eu sou Ewald Dabrowski - disse ao encontrar-se de novo frente 
a frente com Jim. - Detective profissional. E voc  Jim 
Hendriksen, mecnico de bordo do Atlantis. O chefe deu as 
melhores recomendaSes sobre voc, Jim. Mesmo assim tem um ponto 
obscuro em sua vida. Quer falar sobre isso?
 - Eu... eu no sei o que voc quer dizer, Sr...
 -... Dabrowski. Pense direito! no muito atrs no passado, mais 
para o presente. Para sermos precisos: anteontem  noite. O que 
houve ento?
 - A eu estava com a bunda metida no beliche...
 - Mrio, seu companheiro de quarto, pode confirmar isso?
 - no. Afinal, ele estava de servio no buf da meia-noite e 
depois no bar. Deve ter chegado  nossa cabina, quando eu j 
estava de novo na sala das mquinas.
 - Portanto, voc no tem testemunhas?
 - Disso... no.
 - O que voc diria se Ns lhe confessssemos: temos uma 
testemunha que informou t-lo visto saindo furtivamente da sute 
da Sra. White?
 - Eu digo: idiotice! Quem  a Sra. White? Que sute? - sua voz 
saiu abespinhada, mas o canto de sua boca tremeu. E tambm os 
dedos que ele enganchara entre os joelhos, comearam a ficar 
intranquilos. - Afinal ao que imputa, o que  que est vendo-me? 
Eu gostaria de ser confrontado com essa Sra. White.
 - Voc sabe muito bem que isso no  mais possvel, Jim. E agora 
trate de prestar ateno: daqui a pouco Ns vamos cortar-lhe 
alguns plos da barba, da cabea e da plvis e o Dr. Paterna 
examinar esses cabelos no laboratrio, para compar-los com os 
cabelos que foram encontrados na cama da Sra. White. Esse teste 
trar  luz sua culpa ou inocncia. - Dabrowski aguardou o efeito 
de suas palavras, mas Jim era um osso duro de roer.
 - E se eu me recusar a deixar que algum corte os cabelos do meu 
saco? Ningum tem esse direito, ningum!
 - Se voc no tiver nada a ocultar, ento por que iria 
recusar-se a deixar?
 - E no foi que voc chegou justamente a mim? Muitos usam barba. 
At o chefe. Tambm vai cortar os cabelos do saco dele?

 - Se for preciso, sim!
 -  verdade, chefe?
 Wurzer hesitou durante alguns minutos. Depois respondeu:
 - , Jim. Trata-se duma coisa sria pra diabo.
 Jim Hendriksen cravou os olhos no cho  sua frente, tamborilou 
com a ponta dos dedos na parte interna dos joelhos, com expresso 
de quem estava travando uma luta mortal consigo mesmo. Teyendorf 
encarava-o com a respirao presa; Riemke tambm mordia o lbio 
inferior. Reinava um silncio total no ambiente... Qualquer 
palavra suprfula nesse momento teria posto tudo a perder. era 
uma difcil deciso que Jim devia tomar.
 - Eu... eu sei, chefe, disse ele no final, hesitante, deixando a 
cabea pender enquanto falava. - A Sra. White est morta.
 Teyendorf respirou aliviado e acendeu um cigarro. Riemke ficou 
arrancando os cabelos., o Dr. Paterna recostou-se serenamente.
Apenas Wurzer disse em voz alta:
 - Jim, seu arrombado! Por causa de um punhado de dlares... um 
assassinato...
 - Assassinato?! - a cabea de Jim levantou-se de supeto. - 
Assassinato, como assim?! Ela teve um ataque do corao. Estava 
morta como quem dorme, quando acordei pela manh e me levantei da 
cama. S notei que ela estava morta quando a toquei. J estava 
fria como gelo. A eu sa da cabina e dei no p. A velha no 
aguentou mais, foi o que pensei... voc trepou com ela at 
mat-la; cara, isso vai dar o maior alvoroo!
- Jim desviou o olhar de um para o outro balanando a cabea. - 
Portanto, que assassinato? Eu tambm fui surpreendido. no notei 
nada.
 - Porque estava bbado e cansado, seu bobo - disse o chefe de 
modo rude. - Ir para a cama com a velha!
 - Ela ainda tinha um corpo fenomenal e pimenta na bunda. 
Realmente, chefe. E Alm disso eu ganhava mil dlares por cada 
vez.
 - Por cada vez?! - a voz de Teyendorf elevou-se. - Com que 
frequncia voc esteve com a Sra. White?
 - Foi a segunda vez, senhor comandante. - Jim piscou os olhos. 
- Ela me chamava de "meu tourinho forte".
 - Quer dizer ento que ela j estava morta quando voc acordou? 
- perguntou Dabrowski sem entrar nos detalhes erticos.
- Foi o que eu disse. Fria e morta! Ataque do corao.
- Assassinato! - Dabrowski lanou um olhar duro sobre Jim.
- Assassinato por causa de um monte de dlares que se encontrava 
na escrivaninha. Onde voc guardou o dinheiro, Jim?
 - no fui eu.. - Jim levantou-se e esticou os braos na direco 
de Wurzer num gesto splice. - Chefe, me ajude! Voc me conhece 
muito bem... acha que sou capaz de matar algum? Acha que sou 
capaz disso?!

 - O negcio est muito triste, Jim. - O chefe Wurzer enxugou o 
suor da testa. no foi ele, pensou. no pode ser ele, seno 
existe um gigantesco buraco no meu conhecimento do ser humano. - 
Voc foi a ltima pessoa que a viu com vida e depois o primeiro a 
dar pela morte dela. Nenhuma pista, nenhum rudo, nada sobre um 
assassino... voc nem ao menos acordou quando uma mulher era 
morta ao seu lado. Quem pode acreditar nisso?
 - Eu desabei como um saco de batatas e dormi profundamente. V 
trepar cinco horas sem parar com uma mulher como Anne. Voc 
tambm desmaiaria, chefe...
 - Por favor, modere-se, Jim! - disse Teyendorf de modo cortante.
 - Mas a verdade  essa, senhor comandante! - Jim ergueu ambas as 
mos. - Por que ningum acredita em mim? Eu dormi e uma outra 
pessoa deve t-la assassinado. Afinal de contas, como  que ela 
foi morta?
 - Ela foi sufocada.
 - Sufocada?
 - Talvez com um travesseiro. no podemos provar... mas tudo 
indica que tenha sido assim. - Dabrowski tornou a andar em volta 
de Jim. Hendriksen afundou a enorme cabea entre os ombros. - 
Estou Quase inclinado a acreditar em voc, Jim... mas s quase! 
J esclarecemos o motivo pelo qual seus cabelos estavam na cama 
da senhora. E no que tange aos dois mil marcos, bem, a minha 
opinio  de que nossa tarefa no  fazer julgamentos morais. Mas 
mesmo assim resta a pergunta: quem, alm de voc, pode ser 
apresentado como assassino? Uma coisa  incontestvel: o crime 
ocorreu apenas pelo dinheiro. E voc viu muito bem onde estava a 
grana, quando a Sra. White pagou seus... seus servios com o 
pacote de notas de marcos da gaveta. A ganncia pelo dinheiro que 
estava diante de seus olhos de um modo to aberto e sedutor... se 
isso no for um tremendo motivo para o assassinato!
 - Eu juro, no fui eu! Eu juro pela vida da minha me!
 Jim levou as mos ao rosto e, de repente, comeou a chorar.
Era uma cena estranha ouvir o choro daquele homem forte e taurino 
e ver o tremor de seu corpo. O chefe Wurzer fez alguns sinais com 
a mo e sacudiu a cabea. no havia sido ele, esse era o 
significado desses sinais.
 - Pela vida de minha me...  o juramento mais forte dele. Ele 
adora a me como se fosse uma santa. J me contou muitas coisas 
sobre ela. A me o educou sem a presena do pai. Este parece que 
era um caixeiro-viajante de artigos txteis e coisas do gnero; 
viajava pelo pas indo at os camponeses pobres que viviam  
margem das grandes cidades e impingiu uma blusa  camponesa Else 
e cobrou com uma trepadinha no celeiro. Jim nasceu disso.
 - est bem, Jim. Voc pode ir embora! - disse Dabrowski 
recostando-se no balco da cantina. - Voc est mesmo ao nosso 
alcance... a no ser que pule na gua.
 - Jogar-me aos tubarSes? - Jim levantou-se da cadeira e deu um 
sorriso fraco. - no sou maluco. 
 Teyendorf esperou at que a porta se fechasse atrs de 
Hendriksen. Nesse momento, ele j havia fumado trs cigarros 
consecutivos.
 - Foi ele ou no foi? - perguntou rompendo o silncio. - E eu 
digo: no! no foi ele!
 - Ento quem foi? - Dabrowski pegou uma garrafa de gim na 
prateleira e encheu um copo pela metade.

 - Portanto, a coisa dos cabelos est esclarecida. - O Dr. 
Paterna tomou o copo de Dabrowski e bebeu um longo gole. - No se 
pode deduzir uma prova de assassinato a partir da. Uma terceira 
pessoa pode ter entrado na sute e ter morto Anne sem fazer 
nenhum barulho, enquanto esta e Jim dormiam lado a lado. Sr. 
Dabrowski, quando pensamos que mais de novecentas pessoas 
encontram-se a bordo, no  que voc pensa em descobrir a famosa 
agulha no palheiro?
 - Com sorte. Eu confio em minha sorte.
 - no  muita coisa. - Assim, o chefe Wurzer expressou o que 
todos estavam pensando. E prosseguiu: - Jim est limpo como uma 
camisa nova. Eu seria capaz de jurar! Que droga... ento quem 
matou a Sra. White? Que sensao mais esquisita, temos um 
assassino desconhecido a bordo!
 At o anoitecer, aqueles que sabiam do segredo tiveram realmente 
a sensao de estar impotentes nas mos de um criminoso frio. 
Somente pouco antes do jantar do primeiro horrio de refeio, 
foi que o comissrio de cabina Piet, que havia sido informado 
nesse meio tempo, apresentou-se a Pfannenstiel. Aps escut-lo, o 
comissrio-chefe gritou-lhe dizendo que ele era o maior arrombado 
que havia no mundo e depois arrastou-o at Dabrowski.
 Dabrowski, que agora voltara a bancar o cego de modo 
consequente, estava sentado no sof junto  janela e encarou Piet 
com seus culos de lentes escuras.
 - Quem est a? - perguntou assustado, como se tivesse escutado 
algum sem poder enxergar. 
 Pfannenstiel fez um gesto de negao.
 - Pode deixar a mscara cair. Esse aqui  Piet, o comissrio de 
cabina do solrio. Ele viu uma coisa tremendamente importante. O 
comandante e Riemke j esto vindo para c.
 como se fosse uma deixa de teatro, bateram na porta e Teyendorf 
entrou na cabina. Foi seguido pelo director de hotel, o rosto 
avermelhado de agitao.
 - Piet! - gritou ele na mesma hora. - Que foi que o senhor viu?
 O facto de Riemke t-lo chamado de senhor e no de voc, no era 
de hbito, fez com que Piet reconhecesse a gravidade da situao. 
Seu olhar vagou entre o comandante e o director de hotel e, em 
seguida, ele relatou hesitante:
 - Foi assim: o Jim, que  meu chapa, chegou no escritrio do meu 
andar com uma cara de quem estava na maior fossa e se jogou numa 
cadeira. "Mas que merda", ele disse. "Esto querendo botar um 
assassinato no meu pronturio. Imagine s, mataram a velha, a 
Sra. White. E eu fui o ltimo que esteve com ela. Dei uma 
transada com ela por mil marcos... voc tambm teria transado. 
Mil marcos! Dinheiro ganho fcil s com uma trepada..."
 - V directamente ao assunto, Piet! - Teyendorf interrompeu-o 
furioso.
- Ser que vocs so caras que s tm mulheres na cabea? E o que 
mais?

 - "Ento, eu adormeci", disse Jim, "e quando acordei a mulher 
estava morta ao meu lado. Mas eu dei no p como se no tivesse 
acontecido nada!" - Piet olhou na direco de Dabrowski. - "S 
que tem um detective secreto a bordo", disse Jim, "e o cara 
descobriu uns cabelos na cama e com isso me deixou na maior 
encrenca..." Mas Jim  um sujeito boa gente. E eu disse a ele: 
"Cara, tem uma coisa a que no est certa. Quando foi que voc 
trepou com a velha?" "Anteontem  noite", disse Jim. "E quando 
foi que voc dormiu?", eu perguntei. "Sei l", disse Jim, "l 
pela madrugada." E a temos a soluo, comandante. Quando sa do 
Clube do Pescador, parado no escuro na porta aberta do quarto de 
passar roupa, vi por acaso quando algum saiu correndo rpido 
como um raio da sute da Sra. White. Dabrowski tirou os culos. 
Teyendorf e Riemke encararam Piet como se este fosse um fantasma. 
 - Voc o reconheceu, Piet? - perguntou Teyendorf aps o curto 
silncio.
 - Reconheci. Com toda a clareza. era aquele domador de elefantes 
esquisito...
 - Claude Ambert! - Dabrowski enxugou o suor do rosto com ambas 
as mos. - Foi o nico passageiro a abandonar o navio em 
acapulco. Claro! Pelo amor de Deus, o que seria se no o 
tivssemos como testemunha ocular, Piet! Voc seria capaz de 
jurar isso?
 - Tudo! - Piet lanou um olhar um pouco medroso para seu 
comandante. Ele sabia muito bem o que viria a seguir.  noite, a 
tripulao que no est de servio no tem nada a fazer nos 
ambientes dos passageiros, coisa que tambm compreende os bares, 
o salo, a piscina e os conveses de banho de sol. Muito menos 
vestidos  paisana. Ele, no entanto, estivera  paisana e de 
noite no Clube do Pescador!
 - Sim, senhor comandante - disse ele rpido, antes que Teyendorf 
o interpelasse - estive  paisana no bar.
 - Bem, pelo menos dessa vez deu nalguma coisa. - Teyendorf 
preferiu no admoestar Piet. Caso se acumulassem as admoestaSes, 
a referida pessoa seria transferida para os navios de transporte 
de containers ou, em casos especiais de quebra grave da 
disciplina, seria inclusive despedida. Assim, s no ano anterior 
cinco comissrios de bar haviam sido despedidos sem aviso prvio 
por terem no apenas tirado notas falsas na caixa, mas tambm por 
terem misturado usque, conhaque, vodca e outras bebidas: dois 
quintos de bebida de qualidade e trs quintos de mercadoria 
barata. As bebidas baptizadas foram vendidas no bar, mas como se 
fossem mercadorias de boa qualidade. Como os barmen compravam as 
garrafas no depsito do Atlantis, eles guardavam uma diferena 
considervel no prprio bolso. Sobretudo quando anotavam as 
contas com cifras falsas ou nem sequer anotavam.
 - Claude Ambert! - Dabrowski repetiu o nome mais uma vez. - Ele 
est confiando que o assassinato jamais seja esclarecido. 
Precisamos informar a polcia de Acapulco.
 - Mas ser que no vamos ter problemas com as autoridades 
mexicanas, problemas esses que queramos evitar?
 O comandante sacudiu a cabea.
 - Como j samos do Mxico e tanto o assassino como sua vtima 
no se encontram mais no navio, mas sim ao alcance da polcia 
mexicana, a minha opinio  que no teremos nenhuma 
dificuldade... sobretudo se Ambert confessar o crime.
 Dez minutos mais tarde foi enviado o cabograma para Acapulco: 
Claude Ambert, domador, passageiro do NN Atlantis at o dia 14 
deste ms, viajando com dois elefantes,  o suspeito do assassino 
da Sra. White passageira do NN Atlantis. Solicito investigao 
policial e outras providncias. Teyendorf, comandante.
 O cabograma foi lido em acapulco com perplexidade. Trs polcias 
quiseram ir de qualquer maneira no circo Mxico Glria, que teria 
lugar nessa noite.

 - Somente depois da apresentao! - disse com ar satisfeito o 
chefe do departamento de homicdios. - Antes ns ainda vamos ver 
do que so capazes os elefantes. Esse tal de Claude Ambert no 
vai fugir de nossas mos.
 E assim foi que, nessa noite, dez polcias foram ao circo Mxico 
Glria, parte deles com bigodes falsos, pois o director do circo, 
o senhor Adelfana, era bem conhecido nos meios policiais e, por 
conseguinte, tambm conhecia a maioria dos polcias. 
 A apresentao comeou s 21 horas... a ltima de Claude Ambert, 
Sissy e Berta.

A estreia foi um sucesso total. s que no foram as duas 
elefantas que levaram o pblico ao delrio e a um coro de 
aplausos, mas sim a danarina desnuda Saida Jorges que executou 
uma dana to ertica no picadeiro que at mesmo os homens mais 
pndegos e experientes sentiram um pulsar de vida no 
baixo-ventre. Saida foi obrigada a fazer trs repetiSes; a 
terceira, a mais extraordinria, foi um coito transformado em 
dana.
 O pblico entrou em delrio.
 Em compensao, o nmero das elefantas transcorreu como sempre 
no picadeiro, alguns aplausos e chega. Mas Ambert ficou 
satisfeito. Seus queridos gigantes cinzentos haviam suportado a 
viagem de navio com bravura e era evidente que se sentiam bem em 
solo firme. Os comprimidos do Dr. Paterna tambm no provocaram 
efeitos secundrios. Somente o senhor Adelfana ficou um tanto 
insatisfeito.
 - Isso  tudo que seus elefantes sabem fazer? - perguntou ele 
atrs dos bastidores aps a apresentao. - Voc Mesmo viu, o 
nmero no tira ningum das cadeiras.
 - Quem pode ser bem recebido depois de Saida Jorges? - Ambert 
ostentou um sorriso amargurado. - Eu nunca vi um nmero em que 
elefantes fodessem no picadeiro. Alm disso, as duas a so 
fmeas; est querendo que eu ensine a elas umas brincadeirinhas 
lsbicas?
 Adelfana simplesmente deixou Ambert plantado e voltou  Sala de 
espectculos. Isso tambm vai passar, pensou ele. s esse ms. 
Depois escrevo uma carta de apresentao entusiasmada para ele. 
Os colegas das outras cidades que caiam na mesma esparrela em que 
ca. Quem foi que me recomendou esse cara? Juan Hernandez, de So 
Francisco. Esse cretino!
 Ambert ainda fez mais uma visita s suas queridas cinzentas, 
antes de subir a montanha em direco ao hotel. Ao entrar no 
estbulo de paredes de concreto armado, quatro senhores j se 
encontravam l observando as elefantas a uma distncia 
respeitosa. Sissy e Berta estavam em cima da palha, quietas e 
acorrentadas, apenas balanando as trombas de um lado para o 
outro qual pndulo de relgio.
 -  proibida a entrada de estranhos no estbulo! - disse Ambert 
com cara de poucos amigos. - como foi que vocs conseguiram 
entrar?
 - Ns conseguimos entrar em toda a parte. - O chefe da delegacia 
de homicdios de Acapulco estava numa noite alegre. Tambm fora 
esquentado por Saida Jorges. Tirou a credencial e levou-a aos 
olhos de Ambert.
- Delegacia de homicdios. Ento, estamos querendo...
 - O qu? - a voz de Ambert estava firme, mas um tanto ou quanto 
empestada. - O que esto querendo?

 - Ter uma conversinha. Vamos at o distrito, quer dizer, ns 
vamos lev-lo.
 - Sou um cidado francs.
 - E da?
 - no pode levar-me assim sem mais nem menos!
 - Olha aqui, Ns podemos qualquer coisa!
 - no sem dizer as razSes. Alm disso, exijo que meu consulado 
seja informado.
 - Voc ter direito a tudo. Mas uma coisa depois da outra. E 
mesmo assim vai depender de nossa vontade! - o chefe da delegacia 
de homicdios estava de facto com seu melhor humor. Ele discutia, 
coisa que em geral no era seu forte. Aqueles que eram levados  
sua frente, primeiro recebiam um "tratamento preliminar" e 
confessavam tudo. A taxa de sucesso da delegacia de homicdios 
era incrivelmente alta em comparao com a de outras cidades do 
Mxico. - Uma razo? Ora, por favor: Ns somos da delegacia de 
homicdios! 
 Ningum viu como Ambert petrificou-se por dentro. No  
possvel, foi o pensamento que lhe percorreu a cabea. no pode 
ser! Claro que eles acharam o cadver e esse interrogatrio  
apenas uma questo de rotina.
 Afinal de contas, sou a nica pessoa que no se encontra mais no 
navio.
 Vamos esclarecer e superar isso bem rpido. Nada de pnico, 
Claude. Fique sempre tranquilo e amvel. A polcia mexicana  
muito sensvel.
 - Homicdio? Mas claro que isso  uma piada, no?! Mas por 
favor, se os senhores querem. Vamos. O senhor vai ter de se 
desculpar no mximo dentro de uma hora, comissrio.
 - Com certeza. - Os quatro colocaram-no no meio, levaram-no at 
um enorme carro americano que estava aguardando na sada dos 
fundos do circo e partiram em direco  delegacia policial. No 
se falou nenhuma palavra durante a viagem. Coisa que deixou 
Ambert inseguro; e este era o objectivo do silncio.
Reinava um opressivo ar abafado e quente no gabinete do 
comissrio. Eles ligaram os ventiladores de ps, abriram os 
correctos Ns das gravatas, desabotoaram o colarinho e tiraram o 
palet. Todos os quatro polcias usavam coldres de ombro com 
pistolas. Ambert respirou fundo algumas vezes. Sentiu o perigo 
como uma coisa quase fsica.
 - c estamos Ns - disse o chefe bem  vontade. Sentou-se atrs 
da escrivaninha e cruzou as mos sobre o tampo da mesa. - 
Portanto, voc confessa...
 - O qu?
 - O assassinato da cidad americana Anne White.
 - no conheo nenhuma Sra. White...
 Um violento pontap dado por trs em seu traseiro atirou-o 
contra o canto da escrivaninha, deixando-lhe claro que, sob 
certas condiSes, um interrogatrio mexicano podia ser bem 
efectivo.
 - Voc foi passageiro do NM Atlantis junto com seus elefantes. 
Ns recebemos um cabograma do navio afirmando que voc matou a 
Sra. White. Confiscamos o cadver da Sra. White que, 
originalmente, devia ser transportado Amanh para sua cidade 
natal, Nova Orleans, e, com o consentimento da embaixada 
americana, vamos autopsi-lo. Voc vai nos poupar muito trabalho 
se confessar...

 - Mas isso  uma loucura! - a voz de Ambert cresceu contra sua 
vontade; o medo que havia nele procurava um escape. - Eu vivi no 
poro junto com minhas elefantas, no conheci nenhuma Sra. 
White... eu...
 Ele no pde prosseguir. Dois polcias agarraram-no, 
pressionaram-lhe o dorso contra o tampo da escrivaninha, arriaram 
suas calas e cuecas deixando o traseiro  mostra. Tudo aconteceu 
com tanta rapidez e destreza que Ambert s protestou quando suas 
ndegas desnudas j estavam sendo levantadas. Ao mesmo tempo, 
algo sibilou no ar e chocou-se contra seu traseiro e Ambert 
sentiu como se lhe estivessem dilacerando os msculos. As finas 
varas de marmelo - s os atingidos conheciam sua existncia, mas 
mantinham-se calados - eram mal-afamadas.
 Ambert soltou um grito estridente quando o primeiro golpe 
cortou-lhe a carne. Tentou sair de sobre a mesa, quis retroceder, 
mas quatro mos fortes pressionaram-no contra o tampo qual pinas 
de ao.
 - Mas que bunda mais linda ele tem! - disse um dos polcias.
- Um verdadeiro c de tambor! Isso  quase um prazer.
 Ambert foi atingido por outro golpe, uivou e fechou os olhos. 
Ouviu a voz do comissrio como que vinda de uma longa distncia.
- Vamos, conte como voc a matou. no faa cerimnia, meu 
chapinha, Ns vamos arrancar a histria de qualquer jeito. J na 
autpsia: Mas ser mais fcil se voc confessar.
 - no posso confessar uma coisa que no fiz! - gritou Ambert 
desesperado. - Quero falar com meu cnsul. Sou um cidado 
francs!
 - Uma coisa depois da outra. - O comissrio assentiu com um ar 
sereno. - Na sua Frana os assassinatos tambm so punidos. E j 
h algum tempo inclusive com pena de morte! E na Amrica voc 
pode escolher, depende de em qual Estado voc ser executado: 
cadeira elctrica, injeco de veneno ou cmara de gs. Aqui no 
nosso pas voc s recebe pena de priso perptua. Ns somos 
muito humanos.
 Ele acenou e outra vez seu traseiro foi cortado por golpes. 
Agora, quatro vezes... quatro vezes cortado como que por uma 
faca. era uma dor que ultrapassava a fronteira do suportvel, que 
quase arrebentava os nervos. Ambert uivava a plenos pulmSes... os 
polcias deixavam-no gritar. Depois, quando ficou um pouco mais 
calmo, o comissrio inclinou-se um pouco em direco a ele.
 - no faz sentido, meu chapa - disse em tom amigvel. - V se 
entende. - O telefone ao seu lado tocou, ele atendeu, escutou a 
voz e tornou a pr o auscultador no gancho. - era Jlio. Esteve 
com lvaro fazendo uma revista no seu quarto de hotel. Escute s 
o que ele encontrou ali: 63 mil marcos! Com toda a certeza o 
dinheiro caiu do cu directamente em seu quartinho. Que milagre! 
A gente devia comunicar ao bispo... talvez voc seja canonizado, 
no?
 Um aceno... outra vez as varas de marmelo estalaram no traseiro 
de Ambert. A pele estava toda cortada; Ambert sentia o sangue 
escorrer quente por suas coxas e pernas. Sua cabea estava 
explodindo de dor.
 - Sim! - gritou ele de repente. - Sim. Fui eu. Eu sufoquei-a com 
uma almofada! Sim! Sim! Sim! Eu conto tudo... tudo... - ele 
fechou os olhos, arriou o rosto no tampo da mesa e comeou a 
uivar como um filhote de lobo.

 Satisfeito, o comissrio pegou o telefone e piscou para seus 
colaboradores. Outro caso solucionado! s  preciso despertar os 
obstinados, esse  todo o segredo do sucesso.
 - Por favor, dois telefonemas - disse ele para a central 
telefnica. - Um para o consulado francs, outro para o 
americano. Sim, a essa hora mesmo, senhorita! E depois um 
telegrama para o NM Atlantis em alto-mar.
 Monsieur Claude Ambert confessou o assassinato da Sra. White. 
Foi asfixiada com uma almofada. Foi recuperado o produto do roubo 
no montante de cerca de 63 mil dlares. Sem mais, boa viagem. 
Comissrio I, policia de Acapulco.
 O comissrio desviou o olhar para Ambert que jazia em cima da 
escrivaninha, quase inconsciente. Seu traseiro estava coberto de 
vergSes ensanguentados.
 - Eu lhe Agradeo, senhor - disse ele em tom amigvel. - Foi um 
prazer conhec-lo... Levem-no!
 Na manh seguinte, Berta e Sissy foram levadas para o jardim 
zoolgico de Acapulco. De nada adiantou que o director 
protestasse e se lamentasse. Tratava-se de um internamento 
pblico, quer dizer, oficial... nada se podia fazer. no apenas 
em nosso pas, no Mxico o indivduo tambm  quase impotente 
perante as autoridades.

O caso da Sra. White, como se diz por a, podia ser arquivado. O 
comandante Teyendorf e o director de hotel Riemke deram os 
parabns a Dabrowski pelo sucesso.
 - S falta esse seu misterioso ladro de jias, Paolo Carducci - 
disse Teyendorf tomando um copo de vinho em sua cabina. - Ser 
que voc ter a mesma sorte com ele? Uma testemunha ocular 
casual? Quando seu ladro de jias desembarcar em Valparaso, 
poderemos esquec-lo.
 - Um Carducci no desembarca sem antes embolsar uma bolada. - 
Dabrowski seguiu com a vista o anel de fumaa de um grosso 
charuto Havana. - O que roubou at aqui  igual a um zero para 
ele. Nunca, jamais, ele se daria por satisfeito com isso. O 
grande golpe ainda est por vir. Ns sabemos disso. E se ele no 
atacar at Valparaso, seguir viagem at Sidney. Ento, ele ter 
mais alguns dias para recolher seus carneirinhos. Suponho que as 
jias realmente da pesada s subam a bordo em Valparaso.
-  verdade. Somente os bem-sucedidos na vida podem dar-se ao 
luxo de fazer uma viagem como essa. Paga-se de 14.950 a 37.500 
marcos por uma sute, Por pessoa! - Riemke deu uma tragada no 
charuto. Ele era um fumante de cigarros que no gostava de 
charutos. s para agradar o comandante  que estava tragando essa 
haste em brasas. 
- Tem um bocado de milionrios com suas esposas cintilantes a 
bordo! Mas que significa prolongar a viagem? Se esse seu Carducci 
prolongar ainda mais a viagem, vai acabar sendo notado. Pelo 
menos far parte de um pequeno crculo que poderemos abranger.
 - Mas ele pode ter feito a reserva desde o incio at Sidney.
 - Neste caso no poder escapulir em Valparaso... isso chamaria 
ainda mais a ateno. Alm disso ele tambm precisa do lugar no 
avio especial. Portanto, ter de apresentar-se a tempo  
direco da viagem. E a ns o pegvamos!

-  verdade. - Dabrowski encarou Riemke, pensativo. - Suas 
conclusSes so muito esclarecedoras. Portanto, vamos partir do 
princpio de que Carducci  nosso hspede at Sidney.
 - Por conseguinte, mais vinte e seis dias! - Teyendorf ergueu 
seu copo. - Nunca antes esperei to ansioso quanto agora pelo fim 
de uma viagem de cruzeiro.
 A noitada no Salo dos Sete Mares pertencia ao Conferencista. 
Hanno Holletitz e  cantora de rock Evi Stein. "Ritmos da Amrica 
do Sul" era o nome da apresentao. Em cada pessoa que entrava 
colocavam um sombreio feito de papelo prensado - Claro que 
tambm nas senhoras, cujos chapus de aba larga da moda actual 
eram imediatamente retorcidos.
Parecia estar programado um estado de esprito bombstico. Oliver 
Brandes, o oculista tmido e medroso, j se havia acostumado ao 
navio e ao facto de este no poder naufragar ou virar com tanta 
rapidez.
Suportara muitssimo bem o mar encapelado entre So Francisco e 
Acapulco, claro que com a ajuda do assistente espiritual 
evanglico Gnter Wangenheim. O pastor Wangenheim, um velho 
marinheiro, afundara duas vezes com um submarino na Segunda 
Guerra Mundial e nas duas vezes fora salvo - Coisa que foi o 
motivo para, mais tarde, ele estudar teologia; Gnter quis 
agradecer a Deus pelo resto da vida. No Atlantis, ele tirou todo 
o medo de Brandes demonstrando com base em dados que uma viagem 
numa auto-estrada era uma verdadeira tentativa de suicdio em 
comparao com um cruzeiro martimo pelo mundo. Quando naufragara 
o ltimo navio de passageiros? Ora... nem dava para se lembrar. 
Mas todos os dias e todas as noites havia desastres com mortes 
nas estradas. Uma viagem num navio como o Atlantis  a coisa mais 
segura do mundo. 
 Oliver Brandes compreendeu isso, perdeu o medo, presenteou o 
pastor com uma garrafa de Chablis e, na noite do grupo 
folclrico, danou pela primeira vez no Salo dos Sete Mares. Ao 
faz-lo, conheceu a comissria Marianne, uma alegre moa de 
Colnia, com vinte e dois anos de idade e cabelos ruivos e 
encaracolados. Ela estava servindo sua mesa, ele piscou para ela 
e, posto que Oliver Brandes era um homem de boa aparncia, 
Marianne respondeu com um piscar de olhos. Um flerte sem maiores 
compromissos... mas que atingiu o corao de Brandes. Seu 
problema era s saber no poderia conhecer Marianne mais 
intimamente. Quando terminava seu servio no restaurante, ela 
desaparecia em sua cabina no convs B, ao qual nenhum passageiro 
tinha acesso. "Somente para a tripulao" estava escrito na porta 
do corredor que dava na ala proibida. De vez em quando, Marianne 
ainda ia servir num dos bares aps o jantar, ou ento no Salo 
dos Sete Mares. Em suma, ela no dispunha de tempo. Muitas vezes, 
tomava banho de sol no convs da tripulao, entre o almoo e o 
jantar, usando um biquini diminuto. Podia-se v-la da tolda a uma 
distncia quase palpvel, mas como se podia chegar at ela. no 
existia nenhuma escada da tolda para o convs da tripulao. 
Muitos homens mais idosos que tomavam banho de sol na amurada e 
olhavam o belo corpo da moa l embaixo eram obrigados a 
capitular, mesmo sentindo-se terrivelmente rejuvenescidos. 
Marianne de Colnia continuava sendo um sonho.

 Nessa noite de ritmos sul-americanos, Franois de Angeli 
sentiu-se em seu habitat. Riu por obrigao das piadas de 
Holletitz, mostrando a todos sua deslumbrante dentadura - um viva 
para safe dentista! - e quando foi aberto o baile para os 
passageiros, investiu sobre as mulheres mais belas do salo. A 
maioria dos maridos ficava to perplexa, que logo dava sua 
permisso com um acenar de cabea.
 - Voc  uma mulher magnfica - de Angeli sussurrava no ouvido 
de todas ao estreit-las contra seu corpo na dana. - Por que 
esconde seu temdeamento ardente? Porque seu marido est vendo? 
Tem medo de que ele possa dizer alguma coisa? Por acaso seu 
marido sabe que se casou com uma jia? Alguma vez ele compreendeu 
seu calor interno? - No havia nenhuma mulher que duvidasse do 
prprio valor especial, isso enquanto de Angeli a mantinha 
abraada. Mais tarde, ao voltar para a mesa do marido resmungo, 
elas ficavam lanando olhares ardentes para o lado de Franois. 
Sim, ele tem razo: esse cabeudo ao seu lado, que h mais de 
duas dcadas  seu marido, nunca teve o magnetismo que ela 
nseia. Ser que ela havia perdido alguma coisa da vida que 
pudesse recuperar ali?
 Erna Schwarme tambm foi tirada para danar por Franois. E, no 
tumulto da pista de dana, de Angeli apertou-a contra seu corpo..
 - Quando nos veremos? - ele sussurrou-lhe. - A ss. 
Completamente a ss! Eu preciso finalmente senti-la! j no 
consigo mais dormir... s penso em voc, em seu corpo, em seu 
calor...
 - Voc ficou maluco?! - Erna Schwarme sibilou para ele e lanou 
um olhar ao marido. - Ele  bonacho, mas no  idiota! Se notar 
alguma coisa...
 - Eu preciso v-la, Erna!
 - Ainda temos tantos dias pela frente.
 - Cada dia sem voc  um dia perdido! - uma frase muito malhada 
e sentimental, mas que ainda causava efeito, por incrvel que 
parea. - Essa espera  cruel, Erna. Meu amor j virou loucura!
 - Meu Deus! Contenha-se, Franois! Meu marido est nos 
observando! - ela se afastou um pouco dos braos dele e comeou a 
danar em crculos rgidos. No entanto, essa postura s deixou 
mais evidente a ondulao de seus seios. De Angeli notou na hora.
 - Eu gostaria de dar uma mordida nos seus seios agora! - ele 
sussurrou-lhe com voz roufenha. - como um vampiro! Ah, que belo 
momento seria...
 Erna Schwarme sentiu seu corpo sendo possudo por ondas aps 
ondas de calor. Nunca ningum havia falado assim com ela, com 
tamanha desambio, destruindo qualquer resistncia.

 - Se voc continuar falando assim, deixo-o plantado aqui - ela 
sussurrou em resposta. Sua respirao estava ofegante, o sangue a 
inundava como ondas de calor. Peter nunca se comportara assim com 
ela, nunca, em todos esses anos... nem mesmo antes, quando ele 
ainda era jovem e no possua um grande escritrio que quase no 
lhe deixava tempo para a vida privada. E quando to-pouco sofria 
de gota, que sempre o atacava se ele comesse aspargo, espinafre 
ou fgado frito. Hoje em dia, s com um prato de sopa de lentilha 
Peter ficava com o dedo do p inchado e vtreo e trincava os 
dentes de dor. No, Peter jamais deixara-se arrebatar por tamanha 
paixo. Em vez de champanhe, gua mineral... para se dizer usando 
uma linguagem figurada. E agora aparecia de Angeli e injectava 
champanhe directo em seu sangue. - Vamos encontrar uma maneira - 
disse ela, j entregando-se a ele em pensamento. - Dentro em 
breve, Franois. Eu tambm te amo... s que no devemos provocar 
nenhum escndalo! No devemos deixar Peter desconfiado, pois a 
estaria tudo acabado...
 O Dr. Schwarme seguiu de Angeli com a vista, quando este levou 
Erna de volta  mesa. Enquanto isso; sacudiu a cabea de um modo 
inquisidor.
 - No sei o que vocs, as fmeas, vem nesse macaco engomado! 
Claro que ele s tem fachada para apresentar.
 - Talvez porque ele no nos trate como "fmeas", como voc 
disse, seno que nos respeita enquanto mulheres. Fmeas... tpico 
de voc! De vocs todos! Afinal, o que  que ns somos para 
vocs? Um cabide no qual penduram a moda mais recente. Uma cabea 
oca enfeitada com jias. Na cama, a puta necessria porque vocs 
esto com comicho entre as pernas! Mas fora isso... um zero  
esquerda. Apenas um zero! Ns somos mostradas para demonstrar: 
Vejam, posso me dar a esse luxo! Modelos de Lagerfeld e Saint 
Laurent, jias de Cartier e Bulgari... e olhem s o corpinho 
dela... tudo isso me pertence! A vocs estofam o peito, coisa 
que, alis,  a nica coisa que ainda d para vocs estofarem. 
 - Eu gostaria realmente de saber onde voc conseguiu essa sua 
linguagem ordinria. - O Dr. Schwarme olhou  sua volta. Graas a 
Deus ningum ouvira as palavras de Erna, pois a cantora Evi Stein 
se esgoelava no microfone. Ela dobrava o corpo na frente da banda 
em cima do palco e tentava entoar ritmos sul-americanos. - Isso 
mesmo, voc  ordinria!
 - Se minhas palavras o incomodam, desvie os ouvidos!
 - Sim, me incomodam muito.
 - Que transformao! h vinte anos voc dizia: voc fala como 
uma puta e isso me deixa maluco. E agora?!
 - Pelo amor de Deus! Agora ns somos mais velhos! h vinte 
anos...
 - Naquela poca voc ainda conseguia todas as noites. Duas e at 
trs vezes...
Mas ser que voc no tem outras preocupaSes?! - disse o Dr. 
Schwarme ferido.
 - Talvez... talvez no. Afinal de contas, o que  que voc 
entende das mulheres?
 - Mas esse macaco engomado entende, no?
 - Pode ser. - Ela ficou cautelosa. - Preciso perguntar a ele.
 - Como! Monsieur, o senhor ainda d duas por noite? - como 
sempre, o sarcasmo do Dr. Schwarme foi mordaz. - no v deix-lo 
com medo, Erna!
 Ele deu uma estrondosa gargalhada, esvaziou o copo de usque e 
sentiu-se vitorioso de novo, pois Erna manteve-se calada. Seu 
nojento porco, pensou ela achando bom que ele no suspeitasse de 
nada. Sim, vou tra-lo com Franois, agora com toda a razo. 
Vamos trepar at as tripas sarem pela garganta, enquanto voc 
fica sentado a com esse ar autocrtico bebendo uma pilsen. Agora 
nada mais vai me segurar. Oh, mas como voc  babaca!
 Logo depois da apresentao, o casal Schwarme levantou-se e saiu 
do salo, embora o director de cruzeiro Manni Flesch tivesse 
anunciado uma longa noite danante.
 - Vamos at o bar Atlantis? - perguntou o Dr. Schwarme na escada 
externa.
 - No. Se quiser, pode ir sozinho. Vou deitar-me. Estou cansada.
 - Ao Clube do Pescador?

 - Tambm no. Quero ficar sozinha, portanto trate de deixar-me 
em paz. No momento, voc me d nojo.
 - aptimo! - o Dr. Schwarme inclinou-se numa profunda vnia cheia 
de ironia. - Quando a veneranda senhora tiver digerido seu humor, 
traga-me de volta  memria. Eu me chamo Dr. Peter Schwarme... s 
para sua orientao...
 - Idiota! - ela deixou-o plantado e subiu a escada para o 
solrio.
 O Dr. Schwarme seguiu-a com a vista. Realmente, ela ainda  uma 
bela mulher, pensou ele, mas a cada ms que passa fica mais 
rabugenta. s vezes
fica insuportvel, como hoje. Deve ser a menopausa. Muitas 
mulheres piram nos anos de mudana e transformam-se por completo. 
esta natureza sabia que nos poupa aos homens de algo assim! Essa 
histria da crise da meia-idade no passa de conversa fiada. So 
as mulheres que nos empurram para fora. s que ningum fala isso 
com sinceridade, pois a gritaria seria mais insuportvel ainda. 
Bem, e da? Vamos beber uma cerveja, Peter Schwarme!
 Sylvia de Jongh tambm estava nervosa. Agora, depois da ltima 
noite de loucura de amor ao lado do adormecido Knut de Jongh, 
Hans Fehringer estava com um comportamento bem esquisito. Hans 
agia como se ela no passasse de um conhecimento de bordo sem 
maiores compromissos, danava com outras mulheres, acenava-lhe 
com um ar amigvel e depois parava de not-la.
 Quando ele foi ao banheiro, Sylvia seguiu-o e esperou que ele 
sasse.
 - Que est acontecendo? - perguntou ela rapidamente. - O que h 
com voc, Hans?
 - Nada.
 - Voc est to diferente... to distante...
 - Pense naquilo que combinamos: nada de chamar a ateno. Seu 
marido est me observando com uns olhos de quem gostaria de me 
apunhalar. Ele notou alguma coisa?
 - Mas claro que no! - Sylvia pensou na noite anterior e 
suspirou fundo. - Eu gostaria de ficar com voc para sempre.
 - Em terra tudo ser diferente, querida! - a frase tinha duplo 
sentido, mas Sylvia entendeu como um acordo, assentiu com ar de 
felicidade e precisou fazer fora para no jogar-se aos braos 
dele.
 - Quase no consigo esperar! Vamos nos encontrar hoje de novo?
 - Se voc puder ir, telefone para mim...
 - Dessa vez vai ser de novo na sua cabina!
 Hans Fehringer no notou o "dessa vez"; afinal de contas, no 
sabia o que acontecera na noite anterior entre Sylvia e seu irmo 
Herbert.
 - Sim, na minha cabina. Quando?
 - Isso vai depender do que Knut fizer. Se eu no telefonar at  
meia-noite  porque alguma coisa se meteu no meio.
 - S por meia hora, querida!
 - Verei o que  possvel fazer.
 Ela fez um biquinho com os lbios, jogou-lhe um beijo e voltou 
correndo para o salo. Hans Fehringer desceu rapidamente at sua 
cabina 213 e deu um susto em Herbert, que estava sentado diante 
da tev.

 - Levanta, levanta! Some daqui, irmozinho! Desaparea do campo 
de batalha, vem por a um outro tremendo combate! - ele riu, 
desligou o aparelho de tev e jogou o palet branco para Herbert. 
- Passe outra vez pelo salo, d um aceno para Knut de Jongh, 
depois desaparea na multido e d um pulo ao Clube do Pescador. 
Outra vez at s quatro da manh. Pense no cartaz pendurado na 
cabina da porta! Vai, desgruda!
 Herbert vestiu-se e saiu da cabina sem dizer uma palavra. Seu 
corao estava apertado por um sentimento parecido ao cime. Ele 
ficara intranquilo ao pensar que, em duas horas, seu irmo iria 
possuir aquele corpo magnfico e experimentaria a paixo de 
Sylvia. era bem verdade que, como gmeos, os dois sempre haviam 
feito tudo juntos, mas devia existir uma fronteira. No caso de 
Sylvia, essa fronteira fora ultrapassada e no vinha ao caso 
saber quem a ultrapassara, pois aqui era ele, Herbert, quem se 
sentia culpado de maneira insofismvel.
 Entrou no salo dos Sete Mares com a testa toda enrugada, passou 
pela mesa dos de Jongh, lanou um aceno frio e no olhou para 
Sylvia de propsito. Sylvia tambm passou os olhos por Herbert 
como se este no existisse.
 - Ui, ele no te tira para danar de novo? - perguntou de Jongh 
espantado.
 -  como voc v. - Ela fez um beicinho. - Um pateta presunoso!
 - Ele te importunou de alguma forma durante o dia de hoje? - 
Knut de Jongh pousou os punhos em cima da mesa. Punhos grossos e 
redondos de ferreiro. - Vamos, conte... meto-lhe um soco na fuga!
 - No. Foi sempre assim. Ele no me nota.
 - Mas isso j  um insulto. Uma mulher como voc tem de ser 
notada!
 - Acho que voc s est procurando um motivo para comear uma 
briga com ele.
 -  isso mesmo, meu tesourinho. - Knut de Jongh arreganhou um 
sorriso largo e agressivo. -Gostaria de dar-lhe uma porrada to 
potente que ele ficasse rodando como um pico.

Erna Schwarme trancou a porta da cabina 018, acendeu a luz... e 
petrificou-se: seu conjunto de brilhantes e safiras estava em 
cima da cama, exposto lado a lado como numa vitrine. Os brincos, 
a pulseira e o colar. Havia uma carta ao lado. O texto fora 
composto por letras coladas de um jornal e depois coladas nos 
lugares correspondentes. A maneira preferida embora infantil de 
se esconder, de permanecer annimo.
 - Mas... mas isso no  possvel... - balbuciou Erna: Ela parou 
junto ao armrio embutido, sem ousar aproximar-se... como se 
estivesse com medo. no havia dvida, eram suas jias roubadas. 
Todo o seu orgulho e aplicao de capital de Peter, como ele 
sempre enfatizava.
 Finalmente, ela aproximou-se da cama com passos cautelosos, 
pegou a carta, correu ao assento do canto, acendeu a lmpada da 
mesinha-de-cabeceira e desabou no banquinho estofado. No incio, 
as letras recortadas apenas emaranharam-se diante de seus olhos 
de to agitada que Erna estava, mas depois a escrita ficou clara. 
E Erna leu:

 Deixe-me realmente dizer que, durante um dia inteiro, voc se 
sentiu roubada. Sim, foi um roubo, mas eu devolvo-lhe as jias. 
As safiras so de pssima qualidade em cor e claridade e, junto 
com os brilhantes levemente amarelados, as inclusSes claramente 
visveis na lente de aumento diminuem seu brilho. Uma jia assim 
 barata e ordinria demais para mim. No poderia vend-la em 
parte alguma. Mas voc deve sentir-se consolada, pois elas ficam 
maravilhosas em seu pescoo, brao e orelhas aumentando ainda 
mais sua beleza. Pardon! - Um admirador ardoroso que infelizmente 
precisa continuar annimo.
Erna Schwarme leu a carta trs vezes, depois foi at o telefone 
com uma postura bem rgida, telefonou para o bar Atlantis e pediu 
ao comissrio que dissesse ao seu marido para ir  cabina 
imediatamente. 
- Agora mesmo!  urgente.
 O Dr. Schwarme chegou mais ou menos dez minutos depois. como se 
pode deixar de lado uma pilsen bem gelada, ela deve ser bebida. 
Sempre se podia dispor desse tempinho, nada era to urgente 
assim! 
 Ele tambm ficou parado na entrada da cabina como que plantado 
no cho. As jias continuavam em cima da cama cintilando  luz. 
Erna estava sentada no banquinho segurando a carta com ambas as 
mos.
 - Tuas jias! - O Dr. Schwarme inclinou-se sobre elas, sem 
toc-las.
- De facto, so as tuas jias! Ora, que coisa!
 - Teu capital aplicado!
 O tom de voz de Erna deixou-o desconcertado. Ela no estava 
contente, o que havia?
 - Tinha tambm uma carta junto - disse Erna estendendo-lhe a 
folha. - Uma carta de gangster com letras recortadas Interessante 
o que est escrito... Tenha a bondade...
 Entregou-lhe a carta. O Dr. Schwarme leu e, sem querer, ficou 
com o rosto vermelho. Ela observou-o com ateno e fez ouvir um 
leve sorriso de triunfo.
 - Interessante, no  mesmo?
 - Voc acabou de dizer,  uma carta de gangster. - Sua voz saiu 
um pouco contida. - Ser que voc no notou que ele est querendo 
goz-la?
 - Mas claro que sim, meu querido. - A voz de Erna transbordava 
de ironia. - est querendo me gozar, tanto que devolveu as jias! 
As valiosas, a sua aplicao de capital! As "peas nicas". E no 
final no passam de mercadoria ordinria. Rebotalho! no valem 
nada... porcaria com brilho!
 - Erna, oua-me...
 - Olha aqui, falando com toda a clareza: voc me enrolou! - ela 
arrancou-lhe a carta com um safano e enfiou-a entre os seios por 
dentro do decote. - Durante seis anos eu acreditei possuir uma 
coisa nica. Sim,  nica: brilhantes levemente amarelados e com 
inclusSes visveis, safiras de pssima qualidade! no tm valor 
nem para serem roubadas... so to insignificantes a ponto de um 
ladro devolver. Ah, seu sujeitinho de merda...
 - Erna, controle-se! - o Dr. Schwarme apontou para a parede. - 
Pode ter algum escutando a do lado.
 - Mesmo que tenha! Todo mundo deve ficar sabendo o safado que 
voc . O trapaceiro. Andei por a durante seis anos com esse 
traste pendurado no pescoo, esse... essa merda!
 - Mas como  que algum consegue ser to ordinrio! - disse o 
Dr. Schwarme com visvel desgosto. - Qualquer outra mulher 
ficaria feliz, se...

 - Qualquer outra mulher te cuspiria no rosto agora! - a voz de 
Erna ergueu-se histrica e estridente. Quando Schwarme foi na 
direco dela, Erna levantou-se do banco, passou correndo por ele 
e foi para a porta, com tanta rapidez que ele no pde det-la. - 
No me segure! Quanto custaram as jias? Hem, provavelmente nada. 
Voc mesmo teve uma cliente dona de joalheria? Conheo inclusive 
o nome dela. Hanna Stolzer. No  verdade que voc no pagou nada 
por elas? Foi o prmio por voc ter dado uma trepada com ela. Uma 
coroa que de repente tem um robusto advogado entre as pernas! J 
 uma coisa que vale um conjunto de jias... No muito caro, nem 
de primeira qualidade, aposto que voc, pelo que conheo, tambm 
no foi l de primeira qualidade na cama. Seu bosta, h seis anos 
que trago sua trepada nas orelhas, pescoo e brao e ainda por 
cima sentindo orgulho disso!
 - Voc  uma lambisca bem ordinria, ingrata e vil! - disse o 
Dr. Schwarme com voz roufenha. - Se estivesse em casa agora, voc 
podia ir tratando de fazer as malas...
 - Ah, quer dizer que tambm vai acontecer uma coisa dessas?! - 
ela pousara a mo na maaneta. - Eu irei agora at Franois de 
Angeli... e como se atreva a deter-me. Isso mesmo, irei  cabina 
dele e treparei a noite inteira. Se voc soubesse o quanto tenho 
a recuperar!
 - Erna! - o Dr. Schwarme respirava fundo. Seus dedos 
contorciam-se. - Meus nervos tambm tm limites. Se voc for 
agora at esse macaco engomado, eu te mato! est entendendo? Eu 
te mato!
 - Voc  covarde demais para isso! - ela deu uma risada 
histrica e pressionou a maaneta para baixo. - Seu aplicador de 
capital! Voc no vale nem o meu cuspe...
 Erna abriu a porta da cabina, saiu e bateu-a atrs de si. O Dr. 
Schwarme ficou parado como que petrificado. Ainda estava parado 
nessa posio quando Erna tornou a abrir a porta, jogou a carta 
aos seus ps e depois foi definitivamente embora. Aps um longo 
tempo, Schwarme sacudiu-se como um co que estivesse saindo da 
gua, foi at o telefone com passos pesados e discou o nmero da 
cabina 136. Ewald Dabrowski atendeu no acto, como se estivesse 
sentado ao lado do aparelho.
 - Aqui fala Schwarme, cabine 018. Sr. Dabrowski, por favor d um 
pulinho aqui. As jias da minha mulher apareceram de novo.
 - Mas isso no  possvel... - dava para se perceber o espanto 
de Dabrowski.
 - Claro que ! - o Dr. Schwarme sentou-se na cama. - As jias 
reapareceram... mas eu perdi minha mulher... - e depois, com a 
voz mais baixa e um tanto lamuriosa: - Por favor, venha!

9

 necessrio que se seja um sujeito muito escaldado para superar 
a impertinncia de um Paolo Carducci sem se enfurecer. Apesar de 
toda sua experincia profissional, Ewald Dabrowski continuava 
sendo apenas um ser humano capaz de se alterar. Ao ver as jias 
de Erna Schwarme to bem arrumadas em cima da cama, ele cerrou os 
punhos e gritou alto:
 - Mas isso  o cmulo!

 O director de hotel Riemke e o comissrio-chefe Pfannenstiel, a 
quem Dabrowski j havia dado o alarme - ter sempre uma ou duas 
testemunhas ao lado -, olharam para as jias como se estas fossem 
uma bomba-relgio. E, de facto, nesse momento eram algo no 
estilo.
 Sem dizer uma palavra, o Dr. Schwarme entregou a carta composta 
de letras recortadas para Dabrowski. Este leu-a rapidamente, 
passou-a para Riemke e inclinou-se sobre as jias, sem toc-las.
 -  verdade! - disse ele ao levantar-se de novo.
 - O que  que  verdade? - a voz do Dr. Schwarme saiu uma oitava 
acima do normal.
 - As jias so de qualidade inferior. Se ele as conservasse, sua 
fama de ladro de jias internacional ficaria manchada.
 - Mas isso  inaudito! - o Dr. Schwarme sentou-se no banquinho 
junto  janela. - no pode constatar isso a olho nu?
 - no preciso de nenhuma lupa para isso. Suponho que, na pressa, 
Carducci no tenha reconhecido o que estava pegando. Somente mais 
tarde foi que ele, como se diz por a, mordeu a lngua.
 - Mas a coisa no pode ser to ruim assim. Afinal de contas, as 
jias so verdadeiras!
 - Claro que so. Mas... - Dabrowski fez um gesto de desdm. - 
Vamos parar com essa conversa de especialista. Voc pode comprar 
vinho a trs marcos e cinquenta centavos a garrafa, mas tambm 
por quatrocentos e cinquenta. Ambos so vinhos verdadeiros e, no 
entanto, existe um universo de diferena entre os dois. Tanto 
maior  a diferena no caso dos brilhantes e das pedras 
preciosas! Onde voc conseguiu as jias?
 O Dr. Schwarme hesitou durante algum tempo, mas finalmente 
disse:
 - Foi uma oferta de acaso. De um homem que era meu cliente.
 - Cara?
 - , devemos ver a coisa relativamente assim.
 - Tpica resposta de jurista! Seja como for, voc foi 
ludibriado, Dr. Schwarme. - Dabrowski tornou a pegar a carta que 
Pfannenstiel lhe estendeu. - E agora a casa est pegando fogo, 
no  mesmo? Sua mulher est indignada! alis, onde est ela 
nesse momento?
 - No sei. - O Dr. Schwarme sentiu vergonha de dizer que Erna 
encontrava-se com de Angeli e que talvez estivesse na cama com 
ele. Para sua grande surpresa, isso lhe doa bastante, ele o 
sentia com toda a clareza, o cime o atormentava. Afinal, ela 
continua sendo minha mulher, pensou ele, e  claro que me importo 
com quem ela Esteja trepando nesse momento! Na prxima 
oportunidade que tiver, darei um soco no focinho desse 
almofadinha do Franois. Isso mesmo, darei um soco. No convs, na 
frente de todos os passageiros! J faz trinta anos, mas na poca 
de estudante fui durante um longo tempo o campeo universitrio 
de boxe de peso-leve. Ainda sei como se d um gancho no estmago 
e como se acerta a ponta do queixo. De Angeli vai cair como um 
saco de batatas. Esse pensamento deixou-o com o estado de 
esprito um pouco mais ameno. O Dr. Schwarme chegou a sorrir.
 - Suponho que ela esteja sentada num banquinho de bar bebendo 
champanhe. Isso a tranquiliza - disse ele. - E depois, quando 
estiver farta, ela vai voltar aqui e aprontar o maior drama. A, 
a nica coisa que ajuda  dar uma resfolegada na cama e depois 
dormir. - Schwarme estava mentindo para si mesmo, mas foi gostoso 
proteger-se com essa mentira como se fosse um tanque.

 Dabrowski ficou andando de um lado para o outro na cabina, 
seguido dos olhares de Riemke e Pfannenstiel. O Dr. Schwarme 
olhava fixo para o abajur.
 - Essa devoluo  um indcio - disse Dabrowski com ar 
pensativo.
- Ele no est zombando de ns, mas sim assinalando que tenciona 
dar golpes maiores. Ah, como esse cara deve estar sentindo-se 
seguro! - Dabrowski parou na frente de Riemke e sacudiu a cabea 
vrias vezes. - Uma coisa voc deve acreditar agora, caro 
director: Carducci vai continuar ao nosso alcance! no tem a 
inteno de ir  terra em Valparaso e desaparecer do navio. 
Quantos passageiros fizeram a reserva at Sidney?
 - Bem, eu precisaria dar uma olhada. Mas calculo que sejam umas 
duzentas e trinta pessoas.
 - Necessito de uma lista desses passageiros. Com os dados 
exactos: nome, nacionalidade, local de nascimento, endereo, 
idade, profisso. 
 - S tenho permisso para fazer isso se o senhor comandante me 
autorizar.
 - Ento vamos perguntar agora mesmo. - Dabrowski apontou para as 
jias de Erna Schwarme que continuavam intocadas na cama. - No 
vou engolir essa insolncia, Dr. Schwarme!
 - Estou ouvindo.
 - Essa surpreendente devoluo das jias pelo ladro no o 
desobriga do silncio que combinamos.
 - Mas  claro que no. Como antes, eu continuo muito interessado 
em conhecer esse vagabundo! Ele est tentando destruir minha 
honra. E no poderei explicar  minha mulher que comprei esse 
traste?
 - A melhor maneira  com uma abnegao total.
 - no assim?
 - Voc confessa ser um leigo completo em questo de jias.
 - Mas isso eu sou mesmo.
 - E confessa tambm, embora a coisa no tenha ocorrido dessa 
maneira, ter sido violentamente ludibriado. Que pagou um prego 
que o fez crer que as jias eram uma verdadeira fortuna aplicada 
s pelo aumento do valor das pedras preciosas de ano para ano. 
Voc s precisa bancar a pessoa que foi ludibriada no dobro; 
qualquer pessoa acreditaria nisso, inclusive sua mulher. A compra 
de jias sempre  uma questo de confiana. Se voc soubesse 
quantas coisas j presenciei em relao a isso!
 Dabrowski juntou as jias e colocou-as sobre a 
mesinha-de-cabeceira. O Dr. Schwarme encarou-o espantado.
 - Mas voc est sujando todas as pistas! - gritou ele.
 - Pistas? Carducci usa luvas de pelica, no deixa nenhuma 
impresso digital. Ele opera como um fantasma, em silncio, 
invisvel, sem deixar vestgios.  um mestre em sua 
especialidade.
 - Parece at que voc admira esse sujeito! - disse o Dr. 
Schwarme em tom irnico.
 - Adivinhou! - Dabrowski tirou um cigarro do bolso do palet e 
acendeu-o. - Tenho respeito por cada virtuoso, mesmo que ele seja 
um gangster. E  esse reconhecimento que me granjeou grande parte 
de meu sucesso. Eu me ponho na situao de meu adversrio em 
termos de sentimentos e me pergunto: o que voc faria no lugar 
dele agora? E veja, muitas vezes eu consegui prever suas aSes e 
reacSes.

 - S no caso desse Carducci  que no - intrometeu-se Riemke.
- J faz trs anos que voc o persegue.
 - Ele  um sujeito esperto com uma enorme imaginao e uma 
tremenda energia para o crime. Dabrowski apontou para a pilha de 
jias. - Mas dessa vez ele exagerou. Isso vai lhe custar a 
cabea.
 O Dr. Schwarme s contorceu a boca num esgar zombeteiro, mas 
manteve-se calado. Ficou contente quando Dabrowski, Riemke e 
Pfannenstiel saram da cabina deixando-o s de novo. Ele pensava 
em Erna que, nesse momento, estava com de Angeli, recordava-se de 
seu belo corpo com os seios pontudos e a boca entreaberta 
soltando gritos claros, agudos. s vezes, ela gritava palavras e 
frases de total grosseria, para excitar o parceiro s raias do 
xtase. Depois do orgasmo, ela desabava como um castelo de cartas 
derrubado com um sopro. Minha Nossa Senhora, quanto tempo fazia 
que ele no experimentava isso com Erna! Em compensao, ele 
conhecer outras mulheres e cada uma tinha sua maneira peculiar 
de vivncia do gozo. Mas apesar disso, era monstruoso que, nesse 
momento, Erna estivesse resfolegando-se na cama com esse tal de 
Franois, botando uns belos chifres nele, seu marido.
 Sua mulher retornou por volta das duas da manh. Mal-humorada, 
bbada, visivelmente desapontada. Schwarme continuava sentado no 
banquinho junto  janela. Erna jogou os sapatos de salto alto no 
meio do quarto e tirou o vestido pela cabea. Sem dizer uma 
palavra, ela desabotoou o suti e tirou a calcinha. De Angeli 
dera-lhe um desgosto. no havia esperado por ela, seno que 
dirigira-se a uma outra mulher que, na dana no Clube do 
Pescador, cara em seus braos de olhos revirados. Erna a 
conhecia de vista no convs; ela tambm era casada, tinha um 
marido de pernas compridas e bem seco, que passava a maior parte 
do tempo cochilando nas espreguiadeiras, lendo romances de 
fico cientfica ou jogando xadrez na varanda envidraada. Claro 
que comparado com de Angeli, ele no passava de um zero  
esquerda; era compreensvel que a mulher fizesse olhos de vaca 
nos braos de Angeli - como Erna dizia - e jogasse com todos os 
seus encantos. Portanto, nada acontecer com de Angeli nesse dia.
 De pssimo humor, Erna embebedara-se no bar e agora, carregada 
de irritao, retornara  cabina. Nesse momento, ela lanou um 
olhar para o marido, como se este fosse uma lata de lixo.
 - E ento? - disse o Dr. Schwarme malicioso. - Saciada como uma 
gata depois de uma panela cheia de leite?
 - Seu idiota! - sibilou Erna em resposta, desvencilhando-se dos 
brincos. - Vai tomar no c!
 -  voc quem vai! - o Dr. Schwarme levantou-se.
 Nessa noite, o Dr. Schwarme estuprou a prpria mulher.
 s dez da manh, o Dr. Schwarme foi o primeiro a chegar  sala 
de espera do hospital para o horrio oficial de consulta do 
mdico de bordo. Depois dele chegaram quatro mulheres, como de 
hbito, posto que o hospital e o Dr. Paterna eram mais procurados 
pelas passageiras. Quando a enfermeira Erna encontrava-se sozinha 
no consultrio, apenas as pessoas realmente enfermas ficavam na 
sala de espera. 
 O Dr. Paterna, conhecido por sua pontualidade prussiana, deixou 
o Dr. Schwarme entrar s dez em ponto no consultrio.

 - Voc? - perguntou esticando-se ao receb-lo. - Sim, qual o seu 
problema? alis, voc est com uma aparncia esplndida!
 - Trata-se... trata-se... - o Dr. Schwarme sentou-se numa 
poltrona com estofamento de plstico e pousou as palmas das mos 
nos joelhos. - Estou vindo aqui de homem para homem, quer dizer 
de homem para mdico tambm...
 - no devo entender isso, Sr. Schwarme? - o Dr. Paterna 
sentou-se num banquinho de frente para o outro.
 - Bem, trata-se de um assunto delicado. Mas entre homens...
 - Solte logo a lngua.
 - Bem, eu fui dar um passeiozinho em acapulco. Seguindo um 
conselho... l em cima nos morros. Bem, voc compreende...
 - Ah! Quer dizer que voc fez uma visita a um puteiro de moas 
nativas...
 - ... podemos chamar assim. Umas moas lindssimas,  o que lhe 
digo. Mas s que...
- Agora voc est com medo de ter pegado uma gonorreia. - O Dr. 
Paterna arreganhou um sorriso largo. - Os gonococos esto 
sentados espiando a passagem da urina...
 - Por favor, doutor, pare com essas piadinhas de estudante.
Eu gostaria de saber se fui contaminado.
 - Voc sente arder ao urinar?
 - no.
 - Tem alguma secreo aquosa ou com cor de pus?
 - no...
 - E por que est pensando que pegou uma gonorreia?
 - Bem, eu gostaria de ter certeza. Ontem  noite tive relaSes 
conjugais com minha esposa.
 - Se estava com medo, devia ter vindo aqui antes.
 - no. Quer dizer, sim. Mas eu gostaria de saber agora. Depois, 
quero saber se infectei minha mulher. Doutor, se voc constatar 
alguma gonorreia em mim e que eu infectei minha mulher, dou-lhe 
um beijo agora!
 - Voc j andou bebendo a essa hora, Dr. Schwarme? - o Dr. 
Paterna sentiu o cheiro do outro. Nenhum fedor de lcool. - O que 
voc disse  um despropsito.
 - Para voc. Mas no para mim. Minha mulher me trai, doutor, e 
se eu a infectei, ela tambm vai contaminar o amante.  o que eu 
desejo, a vingana dos indefesos! D para voc constatar uma 
infeco?
 - Posso fazer-lhe um teste de gono-reao de Neisser, mas faria 
mais sentido aplicar-lhe uma injeco profiltica.
 - No. Eu quero saber!
 - Bem, a maneira mais rpida  provocar com uma radiao de 
ondas curtas. O estmulo far com que as bactrias fluam, se...
 - Ento, vamos directamente para essas ondas curtas!
 - E se der negativo?
 - Nesse caso, serei o perdedor de novo! - o Dr. Schwarme 
encolheu os ombros. - A s me restar uma coisa a fazer, dar uma 
porrada na fuga daquele macaco engomado. Eu preferiria o mtodo 
mais silencioso de uma blenorragia.
 -. Sr. Schwarme, na verdade eu deveria expuls-lo daqui agora! - 
disse o Dr. Paterna com ar bem srio.
 - Mas voc  mdico e tem um paciente  sua frente, o qual 
gostaria muito de saber se est infeccionado. Um paciente que 
depois tambm gostaria de ser tratado... e que precisaria! 
Portanto, doutor, voc deve exercer seu ofcio.
 - Sim, eu devo. - O Dr. Paterna levantou-se e saiu.

 Foi at uma caixa cromada e esterilizada e retirou algumas 
borrachas. Satisfeito, o Dr. Schwarme deitou para o exame e tirou 
a roupa. 

Trs dias e noites no mar. Ao redor apenas gua, num cu sem 
nuvens e de um profundo azul e, em toda a parte, o marulhar das 
ondas e da espuma branca quando a quilha do navio mergulhava e 
cortava o oceano. Navegavam ao longo da costa no conseguindo ver 
a terra a bombordo, mas sendo esta anunciada por alguns 
albatrozes que seguiam o navio, cercando o Atlantis com seu voo 
elegante. Peixes-voadores, em cujas barbatanas voadoras o sol se 
reflectia, eram avidamente fotografados pelos passageiros, embora 
mais tarde apenas se pudesse ver uma espcie de sombra nas fotos. 
De qualquer modo, quantas pessoas podem servir o crculo de 
conhecidos com peixes-voadores fotografados de prprio punho? Sim 
senhor, eles eram capazes de deslizar quase duzentos metros pelo 
ar como se fossem asas deltas. Aqueles que podem mostrar fotos 
assim, asseguram-se da inveja de seus semelhantes. s isso j 
vale o dinheiro pago!
 Trs dias ininterruptos de vida a bordo podem ser magnficos, 
entediantes, enervantes, perigosos ou desmascaradores. De 
qualquer modo, os seres humanos aparecem como so. Dabrowski 
utilizou sua mscara de cego para observar cada pessoa com toda 
ateno. Receber das mos do director de hotel a relao dos 
duzentos e trinta passageiros que no desembarcariam em 
Valparaso, mas que seguiriam at Sidney. Havia entre eles nomes 
que Dabrowski j conhecia. O casal de Jongh estava na lista, 
assim como o casal Schwarme, o casal von Haller, o prncipe e a 
princesa von Marxen, o milionrio dono da vincola Tatarani, a 
mulher do joalheiro Sassenholtz, Ludwig Moor que todas as manhs 
fazia sua caminhada de mil metros no tombadilho, os dois 
homossexuais van Bonnerveen e Grashorn, o negociante de imveis 
Franois de Angeli, o oculista Brandes, o vendedor de carros 
Herbert Fehringer, a dona do salo de cabeleireiro Barbara 
Steinberg e muitos outros, os quais todos tinham em comum uma 
caracterstica: eram totalmente insuspeitos. Mas Paolo Carducci 
devia encontrar-se entre eles, sob a mscara de inofensivo homem 
de bem.
 O prximo porto que alcanariam e do qual se poderiam fazer 
passeios magnficos era Balboa, na extremidade pacfica do canal 
do Panam. Desde ali, se podia sobrevoar com aviSes pequenos toda 
a zona do canal indo at o lado do Caribe para visitar o 
arquiplago de San Blas composto de mais de 360 ilhas, onde ainda 
hoje os ndios cunas viviam em choupanas de bambu, os ltimos 
ndios insulares da Amrica Central, cujas mulheres adornavam-se 
com cavilhas de orelha douradas e brincos de nariz. Seu 
artesanato tpico, chamado de molas, feito de gravuras de tecido 
colorido, faz parte das lembranas mais procuradas. Mas at l 
ainda faltavam trs dias e noites no mar, trs dias de vida a 
bordo extremamente despreocupada, mas que muitas vezes 
desmascaram as fraquezas humanas. O comandante Teyendorf se 
referira sobre a situao com Dabrowski da seguinte maneira:

 - Enquanto as pessoas fazem escala num porto podendo fazer 
passeios em terra, ento o mundo est em ordem... mas trs dias 
s em alto-mar, tendo  volta apenas gua e sendo forado a 
suportar os outros, bem, para muitos passageiros isso  muito 
duro.  nesses momentos que a pessoa passa a conhecer seu 
vizinho! O mais difcil  de Tquio a Honolulu; durante seis dias 
apenas o oceano, tendo abaixo profundidades de at quatro mil 
metros e, no cruzamento de 165 leste com 30 norte, num dos pontos 
mais solitrios do planeta, com apenas gua num permetro de trs 
dias e noites... ali j vi muita gente ter a clera do mar. Para 
sermos mais exactos, todo ser humano fica estrico. O que voc 
espera, Dabrowski? 
 - Nada.
 - Mas isso  assustador.
 - Carducci tem tempo. Todos os escaravelhos de ouro ficaro a 
bordo at Sidney e, pelo que o Sr. Riemke me disse, em Valparaso 
viro mais alguns bem gorduchos. Portanto, at Sidney ele tem um 
enorme campo no qual fazer a colheita. Vale a pena. A viagem at 
Valparaso , para ele, mais um descanso e um reconhecimento de 
suas vtimas. Ele d tempo ao tempo. Afinal, j sabe muito bem 
que dessa vez trata-se de milhSes. Na verdade, a maior pescaria 
de sua vida. Essa viagem de sonho que voc est comandando agora, 
 to nica que atrai todos aqueles que cobrem suas mulheres de 
jias. Alis, no   toa que a joalheria de Heinrich Ried de 
bordo est abarrotada com as melhores criaSes. E a coisa j vai 
comear. Eu soube por Erika Treibel que ontem  noite Knut de 
Jongh foi sozinho e s escondidas dar uma olhada num anel de trs 
quilates com as mais finas esmeraldas. Um carocinho no valor de 
cerca de cem mil marcos. Livre de imposto sobre circulao de 
mercadorias, no .tudo mais a bordo! S o pensamento de privar o 
imposto de renda desses catorze por cento, j deixa muitos 
maridos de gua na boca. 
 - A velha cantilena. - Teyendorf deu uma risada curta. - Aqueles 
que conseguem engrupir o imposto de renda viram heris nacionais. 
D para eu compreender. Voc acha que esse seu Carducci tambm 
tem a butique de jias de bordo na alga da mira? Apesar da ronda 
da guarda e do equipamento de alarme?
 - Acho pouco provvel. O risco seria grande demais para ele. Mas 
Carducci vai observar com toda ateno qualquer pessoa que 
comprar alguma coisa na joalheria Ried. Se de Jongh sair 
rebocando esse anel de cem mil marcos para sua mulher, a j 
estar correndo um srio perigo. - Dabrowski sacudiu a cabea 
como se obstasse alguma coisa de Teyendorf.
- No, senhor comandante. No devemos prevenir de Jongh. Sei que 
deve ser uma tortura para voc deixar que os passageiros sejam 
usados como isca. Mas a reside a nossa nica chance. Sem isca, 
jamais chegaremos a Carducci. Jamais! Devemos fazer todo o jogo 
dele.
 - no terei culpa alguma. - Teyendorf coou o rosto e
encarou Dabrowski com um ar muito pensativo. - A propsito, vai 
haver um tremendo barulho se de facto Carducci afanar alguma 
coisa aqui e depois escapar. Como voc vai responder por isso? 
Uma advertncia aos passageiros impediria muitas coisas. 
 - Talvez. - Dabrowski encolheu os ombros com desdm. - Mas se 
isso tranquiliza sua conscincia, no terei nenhuma obsesso se 
voc mandar imprimir uma clara referncia nas costas do programa 
do dia: "Pedimos que devolvam suas jias ao cofre da Comissria 
aps cada apresentao. Os senhores sabem que o escritrio presta 
atendimento dia e noite e sabem tambm que a companhia de 
navegao somente indemnizar as perdas do cofre!" Isso basta. 

 - E  assim que ser feito. - Teyendorf respirou aliviado.
- Sr. Dabrowski, muito obrigado. Isso o tranquiliza e  minha 
conscincia. Aqueles que apesar disso guardarem as jias na 
cabina, sero culpados se acontecer algo.
 Trs dias de gua, trs dias de sol escaldante, trs dias em 
comum no convs e trs noites de nsias platnicas e paixSes 
realizadas.
 Os cantores de cmara Franco Rieti e Margarete Reilingen deram 
um concerto com vrias horas de espera, cuja apresentao foi 
magnfica e coberta de aplausos, mesmo com Rieti tendo desafinado 
duas vezes num d agudo - quer dizer, ele no cantou as notas, 
seno que, no momento em que precisava subir, ele cantou mais 
baixo ainda. Deu para ser bem ouvido, s que aqueles que 
conheciam as esperas sentiram a falta da brilhante finalizao 
das vrias e ficaram um pouco irritados. Mas as pessoas 
concordaram, claro que em comentrios  boca pequena, que a voz 
de Rieti soava melhor na tev ou mesmo nos discos do que ao vivo. 
A propsito, o navio no dispunha de nenhuma aparelhagem tcnica 
refinada, com a qual se pudesse transformar uma vozinha qualquer 
na de um tenor dramtico na mesa de mixagem, embora Rieti no 
visse a necessidade disso. De qualquer modo, poderiam ter-lhe 
aumentado a voz um pouco. Em contrapartida, Reilingen soltou-se 
com uma eufonia e uma respirao capaz de fazer com que as 
pessoas prendessem a prpria. Pelo menos Sylvia de Jongh sentiu 
assim; ela estava sentada numa poltrona funda amassando o 
lencinho de tanta emoo. Knut de Jongh aboletou-se no assento 
estofado com as pernas escarranchadas, bocejando de vez em quando 
como um rinoceronte, e ficou muito contente quando finalmente o 
programa foi encerrado com o ltimo dueto da A iria. E tambm 
achou o bis uma coisa de uma superfluidade total.
 - no sei o que as pessoas acham de to bonito nisso - disse ele 
to logo pde levantar-se sem passar por inculto. A entusistica 
plateia continuava aplaudindo. Knut olhou para a mulher e notou 
que seus olhos estavam avermelhados. Sylvia ostentava inclusive 
algumas lgrimas nos cantos dos olhos. - E ainda por cima uivam 
s para abrirem a boca e as pessoas poderem ver que o dentista 
fez um bom trabalho.
 - Voc  e continuar sendo um brbaro! - disse Sylvia de modo 
rspido.
 - Mas tenho o dinheiro suficiente para comprar uma espera 
inteira por uma noite e fazer esse sujeitinho cantar s para mim, 
quando eu bem entender.
 - E sente orgulho disso, no  mesmo? 
 - Isso me tranquiliza. Afinal, eu consegui alguma coisa com o 
martelo de ferreiro.
 - Nesse caso, Siegfried deve ser sua espera predilecta. A cano 
do brilho e da forja...

 - L vem voc com mais idiotice! Se voc estivesse diante da 
bigorna segurando um pedao de ferro em brasa, a voc no 
cantaria, mas trincaria os dentes e pensaria: s mais uma 
porretada! E ento no empregaria toda a sua fora na garganta, 
mas sim nos msculos do brao e malharia. Isso  que  vida! E 
quando se solta o martelo direito, com toda a fora de cima para 
baixo, com a presso dos msculos da barriga, a a pessoa fica 
contente s em conseguir peidar. Voc j ouviu esse Siegfried 
peidar alguma vez no palco? E ele quer ser um ferreiro? Pura 
babaquice!
Aps o concerto, Knut de Jongh dirigiu-se vido ao bar Atlantis, 
subiu num banquinho e, ao faz-lo, gritou por cima do balco.
 - Garom! Uma pilsen gelada! E meia garrafa de champanhe para 
minha mulher. O que foi mesmo que o cantor disse com sua voz 
esganiada durante o bis? Amigos, vale a pena viver a vida. Foi a 
nica frase inteligente a noite inteira.
 - Voc devia envergonhar-se! - disse Sylvia em voz baixa. Ela 
aboletou-se no banquinho ao lado de Knut e estava olhando para o 
outro lado do balco redondo. Herbert Fehringer j se encontrava 
l - era a sua noite - esperando por ela. Fehringer fez um sinal 
dissimulado, mas Sylvia balanou a cabea. - Comporte-se! 
 - Paguei e pagarei - disse de Jongh em voz alta -, eles esto 
pouco ligando para o resto. - Deu uma olhada em volta, reconheceu 
Fehringer e fez uma careta. - O sujeito de olhos azuis da cor do 
mar tambm est a.
 - E por que no haveria de estar? Ele  to passageiro quanto 
voc.
 - Ele est atrs de voc, no est?
 - Voc est gozando de novo, Knut.
 - O cara est sempre nas proximidades, onde quer que estejamos. 
No restaurante, no convs, no salo, nos bares... est sempre 
presente paquerando e paquerando, de olhos arregalados. Com toda 
certeza deve estar sentindo falta de uma porrada nos olhos! Mas 
isso ele pode ter...
 - Se voc no parar com isso, volto agora mesmo para a cabina - 
Sylvia sibilou entre os dentes. - Est todo mundo olhando para 
ns.
 - Estou cagando e andando. Alis, estou morrendo de vontade de 
fazer um barulho. - De Jongh ergueu as mos e girou-as no ar. Deu 
a impresso de que iria esbofetear a mulher; alguns homens 
sentados mais longe empurraram as cadeiras para trs. Mesmo sendo 
directores-gerais, ainda sentiam-se protectores das mulheres. - 
Mas no! No! No tenha medo, minha querida, estou bem pacfico. 
Mas primeiro preciso engolir essa gritaria de antes... E tudo em 
italiano! Para qu isso? Esse navio aqui  alemo.
 - Mas as esperas eram de Verdi, Puccini, Leoncavallo, Mascagni e 
Bonito.
 - E por acaso no existem esperas alegas? Gostaria de ter 
beijado as mulheres...
 - Isso  uma pera de Lehar e se chama Paganini. - Sylvia deu 
uma risada de escrnio. - Lehar era hngaro e Paganini um dos 
maiores violinistas... um italiano.
 - Foi o que eu disse: s tem merda no palco. - Knut recebeu sua 
pilsen, esvaziou o copo quase que de um s gole e abafou um 
poderoso arroto. - Esse  o nosso mal: Ns sofremos a invaso 
estrangeira. Isso mesmo! - virou-se e deu um tapinha no ombro do 
cavalheiro sentado  sua esquerda. - Meu caro vizinho, o senhor  
industrial?
 - Sim... - respondeu o passageiro numa postura rgida e 
antiptica.
 - E qual a percentagem de trabalhadores estrangeiros na sua 
fbrica?
 - Mais ou menos trinta por cento.
 - E isso  normal, hem?

 - Bem, todos so homens e mulheres muito diferentes - disse o 
homem com atitude de reserva. - Eu no gostaria de perd-los. Se 
na sua empresa for diferente, talvez o problema esteja na 
administrao.
 - A o cachorro morde a prpria cauda! - Knut de Jongh 
inclinou-se para a frente. - Escute aqui, meu caro senhor, a 
administrao sou eu. Eu sozinho. est querendo dizer com isso 
que administro mal a minha empresa?
 - Vou embora agora! - disse Sylvia em tom mordaz. - Afinal, voc 
no precisa mais de mim.
 Deslizou para fora do banquinho, lanou um olhar para Herbert 
Fehringer e saiu para o convs.
 Na acirrada discusso sobre trabalhadores estrangeiros que se 
ampliou, na qual outros passageiros se intrometeram, sobretudo um 
turro chamado Afim Uxikill, que havia trabalhado como mestre de 
oficina numa grande fbrica de automveis de Munique, que 
economizara duro para fazer aquela viagem at Valparaso e que 
agora precisava ouvir Knut de Jongh dizer que nem trs turrSes 
podiam substituir um alemo; nessa irritada troca de palavras, de 
Jongh no percebeu que Fehringer tambm se afastou do bar aps 
algum tempo indo para o solrio. Knut de Jongh estava a pleno 
vapor e sentia-se bem assim. Uma verdadeira baguna de homens 
sempre o animava.
 Sylvia estava esperando na amurada ao lado da escada que levava 
para o convs de descanso, em cima. Como em toda a parte das 
vastidSes do sul, ali as noites tambm eram muito mais frias do 
que os dias; por isso mesmo, Sylvia jogara sobre os ombros uma 
estola larga de seda, com bordados de penas de ave-do-paraso, 
uma pega de valor inestimvel que Knut comprara em Paris, s 
porque ela parara diante da vitrine com um ar arrebatado e 
dissera: "Que sonho!"
 Fehringer recostou-se ao seu lado na amurada e ficou olhando 
para a espuma branca abaixo, provocada pela gigantesca hlice do 
navio.
 - Eu te amo - disse ele em voz bem baixa, posto que alguns 
metros adiante um outro casal tambm desfrutava da noite clara. 
 - Voc deixa isso ntido demais, Hans. - O sussurro de Sylvia 
tambm saiu quase inaudvel.
 Herbert Fehringer encolheu os ombros.
 - Eu s vivo com voc. No vejo outras pessoas, no vejo a 
terra, no vejo o mar, nem o baro... nada existe  minha volta a 
no ser voc...  terrvel... terrvel de bonito... Quanto tempo 
voc tem? 
 - S alguns minutos, Hans. Preciso voltar ao bar antes que Knut 
comece uma pancadaria. Com ele  sempre assim; depois de alguns 
dias em alto-mar, ele fica com uma espcie de clera, mas esta 
cede aps uma semana. J sei como . - Sylvia encarou-o em cheio 
com os enormes olhos cintilantes. - Devemos ter cuidado, querido.
 Herbert Fehringer olhou em volta, descobriu a porta da cabina do 
vestirio e respirou fundo. 
 - V ao vestirio - disse em voz baixa - irei logo depois. 
 - Voc ficou maluco, Hans!
 - Ningum ver voc. A porta est situada num ngulo morto. Eu 
lhe suplico: v l dentro. Caso contrrio, perderei as 
estribeiras e lhe dou um beijo aqui no convs!

 Sylvia engoliu em seco algumas vezes, depois virou-se, passou 
pela piscina andando como quem no quer nada, chegou  cabina do 
vestirio e desapareceu na sombra. Fehringer ouviu a dobadeira da 
porta soltar um leve rangido no momento em que Sylvia entrou. O 
casal ao seu lado voltou de brao dado para o bar Atlantis. 
Herbert Fehringer ficou sozinho no convs.
 Com passos rpidos, ele deu a volta na escada que levava ao 
convs principal, aproximou-se da cabina pelo outro lado e 
entrou. Quando quis levar a mo ao interruptor de luz, Sylvia 
segurou-lhe a mo.
 - No! - disse ela. Sua voz vibrava. - A luz sai por baixo da 
porta e se um comissrio a vir...
 Fehringer respirou fundo, excitado. Agarrou-a, puxou-a contra 
seu corpo, levantou-lhe o vestido, arriou a calcinha e 
pressionou-a contra a parede da cabina. O ventre quente e as 
coxas de Sylvia sob o toque de suas mos deixaram-no ofegante e 
vido ao mesmo tempo. Ela cedia a ele, todo o seu corpo exalava 
um perfume doce e ertico; na escurido total, Fehringer anteviu 
a proximidade de seus seios, abaixou-se um pouco e tocou-lhe os 
mamilos com os lbios. Foi cercado por suspiros e gemidos e ento 
possuiu-a como um sedento, sempre pressionando-a contra a parede 
da cabina, mexendo-se para a frente e para trs, para a frente e 
para trs, num ritmo cada vez mais rpido., sem pensar que aquilo 
podia ressoar l fora com um barulho de batidas abafadas.
 O orgasmo foi como uma exploso conjunta. Os dois abraaram-se, 
morderam-se os ombros e depois ficaram parados durante um longo 
tempo, como que soldados, em silncio. At que finalmente 
separaram-se e encararam-se. A escurido completa no deixava que 
nada fosse visto, mas os dois sabiam que estavam encarando-se.
 - Eu... agora eu preciso ir... - Sylvia disse em voz baixa, como 
se os dois ainda estivessem na amurada. - Amanh devemos agir 
como se fossemos estranhos. No faz sentido nenhum deixar que 
Knut fique desconfiado. Caso contrrio, ele no me perderia de 
vista. Vamos parar por alguns dias... Mesmo que nos seja muito 
difcil.
 - Por um dia. Amanh. - Esse  o dia de Hans, pensou Herbert 
Fehringer satisfeito. Se mantivermos essa sequncia, nunca mais 
meu querido irmo vai aproximar-se dela. No incio, ele ficar 
espantado, depois perplexo e, no final, recalcitrante. Afinal, 
conheo meu irmozinho gmeo.
Nesse ponto somos completamente diferentes; ele desiste com 
facilidade, mas eu me torno mais activo quanto maiores forem as 
dificuldades. Por maior que seja nossa semelhana externa, mais 
diferentes e separadas com as nossas naturezas interiores. Terei 
Sylvia s para mim!
 - aptimo. Amanh no nos vemos. - Sylvia deu-lhe um beijo aps 
apalpar  procura de seu rosto e pux-lo contra si.
 - E ficamos assim. - Herbert Fehringer estreitou-a contra seu 
corpo, abraou-a. - Ns nos veremos a cada dois dias nalgum 
lugar. Um navio como este tem muitos cantos onde podemos ficar a 
ss.

 Sylvia assentiu, libertou-se de seus braos e abriu a porta. O 
brilho da iluminao do convs entrou na cabina, Sylvia saiu ao 
ar livre e tornou a fechar a porta. Fehringer esperou algum tempo 
sentado no banquinho da parede dos fundos. Depois tambm saiu no 
convs. Trs homens que estavam sentados na piscina, no notaram 
Fehringer quando este passou deslizando por eles e voltou ao bar 
Atlantis. Ao chegar ali, ainda viu Sylvia empurrando o irritado 
Knut de Jongh pela porta envidraada, enquanto ouvia um 
passageiro dizer em voz alta:
 -  incrvel que a gente seja obrigado a passar o tempo junto 
com um malcriado como esse! Um cara como esse devia ser 
desembarcado... Ah, se eu fosse o comandante!
 Fehringer sentou-se num banquinhho do bar, pediu um Pear Plum 
Rickey - trata-se de um forte drinque feito de licor de pra, 
licor de abrunho, aguardente de ameixa e suco de limo, 
completado com soda e guarnecido com pedacinhos de pra - e gozou 
as reminiscncias dos minutos de amor.
 J havia tomado a metade do copo, quando o advogado Dr. Schwarme 
juntou-se a ele subindo no banquinho ao seu lado. Schwarme estava 
com cara de poucos amigos, com uma expresso francamente 
rabugenta, e era assim que se sentia. O Dr. Paterna acabara de 
comunicar-lhe que no daria para ser feita a vingana silenciosa 
contra Erna. no havia nada que indicasse uma contaminao, no 
tivera consequncias o passeio ao puteiro nos morros de Acapulco. 
O Dr. Schwarme estava muito desapontado... mais uma vez o 
perdedor era ele.
 - , agora  assim - dissera o Dr. Paterna em tom sarcstico. - 
Nada  mais como antes. at alguns anos atrs, todos os 
marinheiros que iam em terra precisavam desfilar diante do mdico 
ou do enfermeiro para tomar uma injeco contra gonorreia. At 
mesmo os chatos morriam devagar. Sinto muito, Dr. Schwarme, mas 
saiu saudvel do puteiro. 
 - Usque! - o advogado gritou para o barman. - Um triplo, sem 
gelo, puro. - Ele acenou na direco de Fehringer; afinal, eram 
conhecidos do jogo de shovelboard e da natao e, Alm disso, 
Fehringer - alis, havia sido Hans - uma vez tirara Erna para 
danar na pista. - O que  que voc est bebendo a?
 - Pear Plum Rickey...
 - Parece forte.
 - E ! como uma pequena cacetada no crebro.  disso que estou 
precisando agora - o Dr. Schwarme estalou os dedos. - Garom, 
depois do usque, uma cacetada como essa que meu vizinho est 
bebendo.
 - Eu me chamo Fehringer. - Herbert fez uma pequena vnia.
 - Dr. Schwarme. Encantado. Voc viaja sozinho?
 - Sim. Para relaxar de verdade. Fugindo de tudo que se chama 
quotidiano. Sonhar um pouco... nada mais indicado do que os mares 
do Sul!
 - Eu o invejo. - O Dr. Schwarme virou o usque triplo como se 
fosse gua.  bem verdade que tossiu um pouco depois, mas fora 
isso pareceu estar acostumado a esse tipo de gole. Fehringer 
encarou-o quase que com respeito. - Estou com minha mulher 
pendurada no pescoo.
 - Uma mulher encantadora, se me permite dizer.
 - Por fora. A fachada est sempre bem limpinha. - O Dr. Schwarme 
esperou o drinque forte e fisgou um cigarro no bolso do casaco. - 
Voc deixou sua mulher em casa, Sr. Fehringer?
 - Sou solteiro.
 - Seu felizardo! Ento  por isso que tem essa fraqueza pela 
Sra. De Jongh.
 - Droga! - Herbert Fehringer sentiu uma pontada no peito. - D 
para se notar?

 - Mas quem menos nota  o marido. - O Dr. Schwarme arreganhou um 
sorriso enviesado, olhou para o copo de Pear Plum Rickey que o 
garom empurrou na sua direco e depois mexeu-o com a colher de 
cabo comprido. - Antes eu era procurado como advogado de 
divrcio, antes de montar o esquema de aconselhamento e alocuo 
de pessoal. Somente fora de trabalho para a direco! Mas 
vivenciei muitas coisas como advogado das mulheres ou maridos 
trados, posso assegurar-lhe.  por causa disso que me permito 
uma palavrinha honesta de homem para homem: a Sra. de Jongh  uma 
verdadeira beldade, confesso... mas aquele que se meter com ela, 
 um idiota.
 - Obrigado, doutor.
 - Conheo bem esse tipo de mulher. So como as aranhas que 
devoram os machos depois do coito. s que Ns, os machos humanos, 
no percebemos. Continuamos vivendo como sombras dessas mulheres. 
E isso  o fatal: Ns somos felizes com a nossa burrice.
 - Parece que hoje o senhor est vivendo um momento de horror, 
doutor. - Fehringer deu uma risada um pouco spera. - Alguma 
briga com a esposa?
 - Uma briga permanente. - O Dr. Schwarme sorveu um longo gole 
atravs do canudinho de palha. - Ah! Que coisa infernal... mas 
boa! A gente sente at na pontinha do dedo do p. Minha mulher 
realmente  uma beldade como voc observou correctamente h 
poucos momentos. Eu mimeia muito, at onde minhas possibilidades 
financeiras permitiram. E olhe que no so poucas. Mas quanto 
mais eu me afeioava a ela, mais a mulher me chutava o traseiro. 
Eu fui o aranha-macho devorado. - O Dr. Schwarme fez um gesto de 
desdm. - Vamos deixar isso para l, Sr. Fehringer! Afinal, o que 
voc tem com isso, no  mesmo? Por que  que estou conversando 
sobre isso? Sinto simpatia por voc,  isso. Voc  um ser humano 
e um ser humano  sempre melhor do que o espelho a quem contamos 
tudo.
- Tornou a sugar no canudinho piscando com olhos que, pouco a 
pouco, ficavam viciados pelo lcool. - Eu tambm no tenho 
porcaria nenhuma a ver com essa sua fraqueza pela Sra. de Jongh, 
eu sei. Um flerte das frias... tudo bem. A coisa s ficar ruim 
se voc se apaixonar. Olha s para mim! Eu conheci minha mulher 
num passeio de esqui em Voralberg, nessa poca ela era uma linda 
esquiadora... meu crebro parou de funcionar por completo... - 
Schwarme fez um gesto de desdm, bebeu o resto do drinque, 
deslizou para fora do banquinho e balanou a cabea 
perigosamente.
- O que voc tem a ver com isso, no? Esquea essa nossa 
conversa, meu jovem. Boa noite!
 O Dr. Schwarme saiu do bar Atlantis com passos bem tropeos. O 
garom seguiu-o com a vista.
- Quem era ele? - perguntou. - O sujeito no assinou a nota.
- Ponha na minha conta. Cabina 213. Fehringer. - Herbert olhou 
para o balco de vidro e, de repente, comeou a sentir-se mal. As 
pessoas podem ver que amo Sylvia; d para se ver, s precisa ter 
olhos. era justamente isso que no devia acontecer. No sei como 
Hans reagiria se algum falasse assim com ele. Sylvia tem razo, 
devemos ter mais cuidado ainda. E no seria se um dia Sylvia 
descobrisse que havia amado dois homens ao mesmo tempo, gmeos?

10


Fehringer pensou nas palavras do Dr. Schwarme; nas aranhas que 
devoram os machos. E ento encolheu os ombros sentindo incmodo. 
Nem mesmo um segundo copo de Pear Plum Rickey pode dissipar essa 
sensao.
 No dia seguinte, na manh irradiante, dois marinheiros montaram 
a instalao de tiro ao alvo na tolda, s onze horas, quando 
todos tomavam banho de sol,  excepo do caminhante Ludwig Moor, 
que hoje dormira at mais tarde e que nesse momento marchava em 
posio de sentido seus mil metros no tombadilho.
 O tiro ao alvo era um dos tipos de desporto mais exclusivos a 
bordo, no por ser muito caro - afinal, todos tinham dinheiro de 
sobra -, mas sim porque centenas de olhos assistiam e a pessoa 
podia ridicularizar-se caso acertasse duas vezes em dez tiros. 
At mesmo carregadores experientes, que dispunham de um stio de 
caa prprio na terra natal e que viviam orgulhosos entre trofeus 
empalhados, ficavam com um ar bem estpido quando os discos 
lanados ao alto eram mais rpidos do que suas reacSes. Assim, 
s apareciam pequenos grupos de atiradores corajosos o bastante 
para demonstrarem sua percia ou fracasso aos olhos dos outros 
passageiros.
 Knut de Jongh fazia parte desse grupo de valentes. Ele era mpar 
no tiro ao alvo; ele prprio No sabia como nem por qu. Quatro 
anos atrs, numa pequena viagem de cruzeiro pelo Mediterrneo 
Oriental, provara s por diverso e ganhara logo de cara; nove 
acertos em dez tiros! Depois disso, ele sempre voltou a 
experimentar e, para seu prprio espanto, sempre ganhou. Quando 
ele gritava "solta!" e os discos eram atirados ao cu pela 
mquina de lanamento, Knut levantava o fuzil e dava o tiro no 
momento exacto em que o disco encontrava-se no ponto culminante. 
Pai... e o disco se espatifava. A maioria dos atiradores apertava 
o gatilho um momento antes, enquanto o disco ainda estava voando; 
ou ento um momento depois, quando ele comeava a descer. Knut de 
Jongh tinha um sentido infernal para saber quando o disco 
encontrava-se no ngulo certo para ele. era o tipo de coisa que 
Como se aprendia, era puro talento. Knut de Jongh constatara isso 
orgulhoso, aps ter sido derrotado apenas uma vez em dezanove 
competiSes. Numa caada a coisa era completamente diferente, por 
mais estranho e incompreensvel que parea: em geral ele errava o 
tiro em cabras com renas, faisSes e patos, a tal ponto que ele 
ainda convidava os amigos para caar, mas quase No participava 
mais.
 - Isso  por causa dos porres e trepadas! - berravam seis 
amigos.
- Quem acerta numa mulher como Sylvia, no acerta mais em veado 
nenhum!
 Nessa manh, o tiro ao alvo era uma espcie de exerccio 
preliminar no Atlantis. O grande concurso de tiro devia ter lugar 
entre frica e Valparaso, nos dois ltimos dias de mar antes da 
partida de cerca de trezentos passageiros que, do Chile, 
retornariam para Frankfurt. At l ainda se tinha muito tempo 
para os exerccios, para conhecer as armas e para corrigir a 
mira. O especialista sabe que cada arma tem vida prpria e 
"caracterstica de tiro" individual.
 Portanto, era mais que natural que Knut de Jongh se apresentasse 
para o tiro ao alvo. Com enorme suspense, ele esperou para ver 
que passageiros julgavam-se capazes de arrebentar os discos 
lanados no cu azul.

Com calas e camisa brancas deixando aparecer seus enormes 
msculos, um quepe de aba larga contra a claridade, de Jongh 
recostou-se na amurada, depois segurou cada um dos quatro rifles, 
deu uma olhada no cano, pesou-os nas mos e olhou o cu de 
horizonte a horizonte. Desconcertado, Knut depositou o ltimo 
rifle em cima de uma mesa dobrvel quando os outros participantes 
desceram a escada.
 Na ponta ia o prncipe que se dizia chamar Sr. von Haller; de 
camisa branca, calas azuis, sapatos brancos e um bon em cuja 
parte da frente estava bordado um braso. Apesar de seus setenta 
e trs anos e uma certa imbecilidade expressa em seu andar 
cambaleante, o prncipe tinha necessidade de demonstrar sua 
pontaria. Alm disso, Helmi, a Comissria, sua eleita secreta que 
nesse dia estava de servio no convs, assistia do solrio e ele 
devia mostrar que seus olhos ainda eram bons e que suas mos no 
tremiam. Enquanto isso, Juliane Herbitina, a princesa, 
participava na varanda envidraada de um curso de hobby para 
pintores, ministrado pela anfitri Bianca. A aquarela iniciada 
mostrava um enorme talento da princesa na direco de Franz Marc. 
Ela utilizava muitas tonalidades do azul.
 Ao prncipe seguiram-se o oculista Brandes, o vinicultor 
Tatarani, dois outros senhores que de Jongh s havia visto uma 
vez, pois ambos sempre mantinham-se  parte, os dois amigos 
homossexuais e, claro, tambm Franois de Angeli. Caso ele 
ganhasse, podia estar certo de receber os aplausos de algumas 
damas, mas tambm aumentaria o dio dos maridos. Hans Fehringer 
foi o ltimo a descer a escada. Knut de Jongh estreitou os olhos 
e foi at ele.
 - Tem certeza de que no se enganou? - disse ele contido. - Os 
discos so disparados um lance de escada abaixo. Voc deve estar 
querendo ser fuzilado, no  mesmo?
 - Muito engraado! - Hans Fehringer arreganhou um sorriso largo.
- Se voc tiver cinco acertos, eu pago uma rodada.
 - E se eu acertar dez, posso dar-lhe um pontap na bunda?!
 - Apostado! E o que me oferece se eu vencer?
 De Jongh hesitou por alguns momentos, depois tornou a Piscar os 
olhos.
 - O que propSe? No importa, seja o que for... eu concordo.
 - Se voc soubesse no que estou pensando agora, retiraria 
imediatamente sua oferta. - Hans lanou um olhar para o solrio, 
mas Sylvia no estava  vista. Ela entrara na piscina quando Hans 
passara ao seu lado e lhe sussurrara: "Agora eu vou esmigalhar 
seu marido! Ningum me passa para trs no tiro ao alvo" . Sylvia 
ficara com medo... agora o duelo dos homens j se tornara 
pblico. A situao agravara-se. Na noite anterior, ela 
recusara-se pela primeira vez, quando Knut tentou acariciar-lhe. 
Chegara ao ponto de repeli-lo usando as mos. "Deixe-me em paz!", 
dissera Sylvia. "No me toque! Eu grito chamando todo mundo. Hoje 
estou com nojo de voc. Deixe-me em paz, seu..." Ainda estava 
excitada com a paixo de Fehringer e no podia suportar ter de 
enfrentar o desejo do marido.
 De facto, de Jongh capitulara, mas antes de adormecer ainda 
dissera: "Se eu peg-la com essa belezinha loura, voc vai ter. E 
se ele tir-la outra vez para danar, sairei dando porrada nele 
pelo salo! Estamos entendidos?"

 Sylvia assentira sem dizer uma palavra; nessa situao, no 
fazia o menor sentido conversar com ele.
 - No que est pensando? - grunhiu de Jongh examinando Hans 
Fehringer como se este fosse um disco pronto para ser lanado.
- Vamos, desembuche! O que est procurando l em cima na amurada?
 - Deixa para l! - Fehringer fez um gesto de desdm e, passando 
por de Jongh, foi na direco dos rifles e dos outros rivais no 
tiro ao alvo. Os homens cumprimentaram-se com batidas de mo como 
se fossem pugilistas entrando no ringue. Knut de Jongh respirou 
fundo e seguiu atrs dele. Deve ter sido ele quem causou tamanha 
transformao em Sylvia, pensou Knut com um ar sombrio. Quem mais 
poderia ser? Mas que provas tenho contra ele? Nenhuma. 
Absolutamente nenhuma. Eu apenas sinto que ele  o perigo. Sou 
como um animal que fareja o adversrio. E  ele, aposto minha 
cabea como  ele! 
 O tiro ao alvo durou mais de uma hora.
 Foram saindo um aps o outro; primeiro os dois amigos, em 
seguida os dois senhores reservados, Tatarani seguiu-os, depois 
Brandes e Franois de Angeli, que de qualquer modo foi muito 
bem-sucedido com sete acertos. Ele subiu a escada com pose de 
toureiro, enquanto algumas mulheres aplaudiam. Foi uma cena quase 
dolorosa, posto que cada uma das damas lanava um olhar hostil 
para as outras. Restaram para a revanche o prncipe, de Jongh e 
Hans Fehringer, cada qual com oito acertos.
 Nesse momento, as pessoas chegaram-se  amurada dos diferentes 
conveses e ficaram olhando para baixo. Havia corrido  boca 
pequena que ali travava-se um duelo muito interessante. Queriam 
v-lo, era uma distraco excitante. 
 Knut de Jongh recostou-se na amurada, enquanto o prncipe era o 
primeiro a escolher sua arma. era o mais velho e tinha a 
preferncia. Fehringer estava postado junto  mesa dobrvel de 
olhos fixos no solrio. Sylvia tambm chegara. Estava parada na 
amurada, impossvel de no ser vista, um sonho de mulher de 
roupo de banho vermelho bordado com imensas orqudeas. O mesmo 
pensou de Jongh, mordendo o lbio inferior, quando Fehringer 
retrocedeu e recostou-se ao seu lado.
 - Se eu vencer, dou-lhe um pontap na bunda aqui, na frente de 
todo mundo! - disse de Jongh contido.
 - Claro. A aposta foi essa. Infelizmente no poderei fazer em 
pblico o que gostaria, caso eu vena...
 - Seu babaca! - de Jongh grunhiu entre os dentes. - Sei muito 
bem no que est pensando.
 - Voc no sabe coisa alguma, de Jongh! E  por isso que est 
explodindo. Devia dar uma passada no Dr. Paterna para ele 
medir-lhe a presso sangunea. Ele podia tambm fazer-lhe um 
eltro. O hospital tem as melhores instalaSes.
 - Inclusive para operaSes de emergncia! - de Jongh respirou 
fundo.
 O prncipe cantou "lana" e o primeiro disco foi atirado ao cu 
azul e desanuviado. Passou. Nas folhagens, como dizem os 
atiradores. Outros trs tiros passaram ao largo. Enervado, o 
prncipe deps o rifle e fez um gesto de desdm. Estava de fora. 
No tinha mais chance.
 - Agora voc! - disse Fehringer fazendo uma pequena vnia. - 
Tenha um bom tiro, caro colega...

 - Pode mostrar-me o caminho! - de Jongh foi  mesa, escolheu um 
rifle e chegou-se  amurada. Sem esperar muito tempo, ele gritou 
"lana!", ergueu a arma e atirou. No alvo. O disco espatifou-se. 
Soaram as primeiras palmas.
 - Lana!
 No alvo.
 - Lana!
 No alvo.
 No ltimo acerto aumentaram as palmas. De Jongh olhou de soslaio 
para cima. Sylvia tambm aplaudia; facto inspito, mas que deixou 
de Jongh muito contente. Espere s, minha querida, para ver o que 
vir agora! Tenho na mo os ltimos trs cartuchos. Vai ser golpe 
atrs de golpe... o marinheiro nunca carregou a mquina com tanta 
rapidez... Oito. No alvo. Nove. No alvo. Nesse momento, alguns 
passageiros j estavam gritando "bravo". Knut de Jongh enfiou o 
ltimo cartucho no rifle. Mas ento hesitou, apenas um segundo, 
mas hesitou. Dar a volta e meter o ltimo cartucho na cabea 
desse macaco louro, pensou ele. Vai ficar com uma cara que 
Ningum o reconhecer depois. Uma nica massa ensanguentada de 
carne, ossos e crebro. Ah, com que prazer eu faria isso!
 Ele virou-se, ergueu o rifle e gritou a plenos pulmSes:
 - Lana!
 O disco rebolou no cu; de facto, no voou, rebolou como se 
estivesse bbado e saiu do alcance do senso de tiro de Knut de 
Jongh. Ento, ele pensou rpido como um raio: depor a arma e 
exigir um tiro extra, era seu direito; ou atirar mesmo assim?
 Knut de Jongh apertou o gatilho. Nunca em sua vida tivera Medo 
de assumir um risco e sempre ganhara. E agora tambm ele 
ganhou... o disco espatifou-se ao terminar seu voo caindo 
directamente na direco do tiro.
 O aplauso dos passageiros tornou a ecoar pelo navio. De Jongh 
respirou aliviado, recuou, depositou o rifle na mesa dobrvel e 
foi para a amurada. Hans Fehringer avanou. Havia visto como 
Sylvia aplaudira o marido em cada acerto no alvo, por obrigao, 
sups ele. E agora estava curioso em saber se ela tambm 
aplaudiria seus acertos. Um pouco mais  esquerda, o Dr. Schwarme 
estava recostado na amurada ao lado da mulher e, quando Fehringer 
olhou nessa direco, ele ergueu os dois polegares. Hans fez um 
aceno de cabea, pegou o rifle e chegou-se  amurada.
 - Lana!
 Nove tiros e nove acertos no alvo. O silncio espalhou-se pelo 
navio. Sylvia, ele notara ao carregar a arma, no aplaudira. 
Fehringer estava pouco ligando para os gritos de bravo que lhe 
vinham de trs conveses. Agora ele s poderia perder. Seria 
impossvel vencer; s havia dez tiros. A aposta terminaria 
empatada. No dava tempo para o tiro de definio... em pouco 
tempo comearia o primeiro horrio de almoo.
 Hans Fehringer gritou "lana!" e prendeu a respirao . O disco 
saiu exemplar do lanador, alou-se sibilando e brilhando ao sol.
 Tiro! O espatifar-se do disco, o jbilo dos passageiros, os 
gritos de bravo e os aplausos unindo-se num grito de redeno.

 Respirando aliviado como antes de Jongh fizera, Hans Fehringer 
deps o rifle sobre a mesa. Ergueu os olhos para o convs do 
solrio. Sylvia comportava-se como uma louca, aplaudindo e dando 
pulos seguidos, parecia uma dana. E ela gritava com sua voz 
clara: 
 - Vitria! Vitria! Vitria!
 Knut de Jongh aproximou-se de Fehringer.
 - Revanche? - perguntou em tom duro.
 - Quando quiser.
 - Tem uma burra gritando ali: vitria! Voc no venceu, a 
competio terminou empatada. est tudo empatado. Estamos 
entendidos?
 - Em tudo, Sr. de Jongh. 
 - Mas vamos ter uma deciso.
 -  o que espero.
 - E a voc ser derrotado!
 - Vamos esperar para ver! - Hans Fehringer acenou para todos os 
lados qual matador glorioso. Nesse momento, os passageiros do 
primeiro horrio de refeio saram correndo, a fim de chegarem a 
tempo aos seus lugares. - O negcio foi que hoje tivemos sorte. 
Mas nem sempre  assim.
 - Que bom que voc perceba isso. Voc devia mandar aparafusar 
essa frase na sua cabea.
 De Jongh empurrou o quepe para trs, subiu a escada para o 
convs do solrio e foi na direco de Sylvia. Ela ainda estava 
ofegante de tanta excitao .
 - Voc devia beber champanhe agora - disse Knut com uma 
expresso sombria. - Quem grita vitria, deve comemor-la.

E ento Balboa tambm ficou para trs, a cidade porturia na 
extremidade do canal do Panam na costa do Pacfico, a porta para 
a capital Panam com seu suntuoso palcio presidencial e a 
imponente catedral, assim como a Velha Panam, agora s runas, 
fundada em 1519 por Pedrarias Devitla e destruda em 1671 pelo 
pirata Morgan. Portentosos muros de cantaria, colunas e uma 
resistente torre construda como que para a eternidade desafiando 
as foras da natureza e a moderna poluio do ar.
 Parte dos passageiros fora visitar as imensas represas, uma 
outra parte voara para a San Blas dos ndios cunas e todos 
voltaram cheios de entusiasmo, carregados de lembranas e 
impressSes, com fotos, filmes e cartSes-postais. Afinal, qual o 
ser humano normal que chega aos ltimos ndios insulares do 
Panam?
 O nico que ficara irritado foi Ludwig Moor. Nada mudara em sua 
mente de funcionrio pblico alemo, mesmo aps ter herdado a 
viagem e uma gorda conta bancria do tio.
 Ele se expressara assim: 
 -  uma insolncia inslita que esses ndios passem logo a 
gritar to logo algum levante a mquina fotogrfica: "Um dlar, 
por favor! Um dlar!',' E quando no se paga esse dlar, eles 
chegam a ameaar com os punhos. Sim, a que ponto chegamos. Essa 
comercializao dos povos primitivos! E os pregos dos bolas, os 
lenos de remendos coloridos! Uma coisinha assim, de 40 por 50 
centmetros, custa doze dlares! Doze dlares!  uma usura! I uma 
explorao aos visitantes! Mas a gente j conhece isso da Europa: 
l um mendigo fica o dia inteiro numa esquina e  noite, aps 
fechar a loja, ele vai ao estacionamento e entra em seu Mercedes. 
Em toda a parte a mesma coisa! No, comigo no, violo.
 Na manh seguinte, ele tornou a fazer sua encarniada caminhada 
no tombadilho s oito horas.

 At mesmo Ewald Dabrowski sara para passear no Panam. 
Conduzido pela enfermeira Beate, com a bengala branca sempre um 
pouco avanada, s apalpadelas e inseguro em solo desconhecido, 
ele andou lento acompanhando o grupo do autocarro, enquanto Beate 
explicava o que estavam vendo. Ningum saberia dizer que imagem 
ele fazia dessas impressSes, mas todos os passageiros do 
autocarro acharam notvel a intensidade com que um cego 
participava da vida quotidiana.
 Dabrowski mais do que os outros. Ningum precisa esconder-se de 
um cego. Foi o que pensaram Erna Schwarme e Franois de Angeli, 
que se separaram do grupo, desapareceram nas runas da Velha 
Panam, sentaram-se em duas enormes pedras de cantaria e; 
cobertos por arbustos, beijaram-se com toda a paixo. O Dr. 
Schwarme permanecera a bordo; No se dava bem com o ar quente e 
hmido do Panam. Preferiu ficar sentado  sombra no convs do 
solrio, segurando um drinque bem gelado e observando as mulheres 
que tambm ficaram a bordo e que patinhavam na piscina. Tatarani, 
o italiano dono da vincola, lhe fazia companhia. J conhecia o 
Panam e estava contando quantos milhares de trabalhadores haviam 
morrido naquele inferno de febre durante a construo do canal. 
Havia um monumento em sua memria.
 Dabrowski tambm assistiu aos dois homossexuais brigando 
aparentemente s raias da loucura. Jens van Bonnerveen levantou o 
punho algumas vezes num gesto ameaador, enquanto Eduard Grashorn 
gritava com a cara desfigurada. Estavam um pouco afastados no 
muro do cais e davam a impresso de que iriam investir um sobre o 
outro a qualquer momento. 
Van Bonnerveen tomara conhecimento de alguma maneira que o seu 
amante o "traa" com a assistente do fotgrafo de bordo e no era 
tanto a traio em si que o deixara to irritado, mas sim o facto 
repugnante de isso acontecer com uma moa.
 Um grupo de mdicos de Hamburgo, que participavam da viagem de 
cruzeiro acompanhados de suas mulheres, formou um clube  parte. 
Estavam sempre um pouco separados da "gente comum", encaravam-se 
como se fossem uma equipa absoluta, ministravam ensinamentos a 
cada pessoa no convs ou nos passeios, reclamavam uma ateno 
reverente, reivindicavam direitos especiais e irritavam-se com 
soberba acadmica, mas com as vozes elevadas, quando os outros 
passageiros No compartilhavam de suas opiniSes. Ludwig Moor, o 
funcionrio pblico correcto e de olhar incorruptvel, j no 
segundo dia baptizara o grupo com o nome de "a mfia dos mdicos 
de Hamburgo"; na verdade, isso era um tanto duro e exagerado, mas 
agora, no passeio pelo Panam, ficara demonstrado o quanto ele 
estava certo. Os mdicos voaram a San Blas, tendo reservado um 
aviso particular na agncia de viagem de bordo; eles 
reivindicaram um baro especial para a ilha principal dos ndios 
cunas e nas fotos postaram-se atrs dos passageiros que haviam 
pago "Um dlar, por favor". Ao serem exorados a pagar esse dlar, 
eles respondiam a impertinncia com um franzir de sobrancelhas e 
rspidos olhares de mdico-chefe.
 Coberto de suor e sedento, Dabrowski sentou-se  sombra do 
parque no qual haviam transformado as runas da Velha Panam e 
estremeceu sem querer quando uma voz disse s suas costas:
 - Como  que um cego imagina a paisagem que explicam para ele?

 - Dr. Paterna! - Dabrowski virou a cabea. O mdico de bordo, 
vestido com um terno tropical branco, elegante como um manequim 
de revista de moda, arreganhou-lhe um sorriso largo. - No o vi 
desembarcar.
 - Sa mais tarde, depois da partida do autocarro, e segui atrs 
de taxi. - Ele olhou para Beate que, a alguns metros de distncia 
do banco, fotografava um arbusto de buganvlia em flor. - Agora 
voc poder demonstrar sua gratido por eu ter protegido seu 
disfarce, Sr. Dabrowski. Apresente-me  jovem.
 - A Beate?
 - Sim, por favor.
 - Doutor! - Dabrowski tirou os culos de lentes escuras, no 
havia ningum nas proximidades,  excepo do casal Franois e 
Erna Schwarme que tirava um sarro escondido atrs dos arbustos. - 
j lhe deixei claro uma vez que ela No est  disposio para um 
flerte de frias.
 - No quero flertar, s quero ser apresentado. Alm do que, ela 
j deve ser maior de idade.
 - Sou responsvel por ela, doutor. Ah, vocs, os malditos 
mdicos de navio! No   toa que tm fama de garanhSes! - 
Dabrowski tornou a deslizar os culos no nariz e apoiou-se na 
bengala branca. - Beate! Podia vir aqui um instantinho? - e, 
quando Beate aproximou-se, disse: - Este  o Dr. Paterna, o homem 
mais perigoso a bordo! Beate Schlichter...
 - Ele est exagerando muito. - O Dr. Paterna apertou a mo de 
Beate fazendo uma leve vnia.
 Beate deu um sorriso contido, sem se impressionar.
 - Quem No o conhece a bordo? - disse ela. - Ento, que est 
achando do Panam?
 - J passou h muito tempo o primeiro encanto. Essa  a nona vez 
que venho aqui. Todas as vezes eu descubro algumas mudanas e nem 
sempre para melhor... Posso convid-la e ao Sr. Dabrowski para 
tomar um drinque refrescante? Conheo um bar aqui onde os 
estrangeiros no so enganados. Chama-se Na Casa de Pedro, fica 
na cidade velha e, do terrao, tem-se uma linda vista para a 
baa. Bela Vista com suas praias est situada bem nas 
proximidades.
 Foi um lindo dia. O Dr. Paterna desfez a reserva de Dabrowski e 
Beate Schlichter com a guia do passeio que tomava conta do 
autocarro, chamou outro txi e os trs deram uma volta pela 
esplndida costa. no seria de se esperar, Paterna era uma pessoa 
de conversa cativante. Contou sobre sua vida e os planos para o 
futuro, nos quais a clnica para as pessoas que ganhavam acima de 
dez mil desempenhava um papel importante, segundo o lema: as 
pessoas que tm muito dinheiro, podem dar-se ao luxo de ter uma 
doena cara, porm, inofensiva.
 Quando viajaram de volta ao porto, Beate parecia outra pessoa 
dando sorrisos de prola e com gestos mais coquetes do que nunca. 
Dabrowski chamou-a com ar srio  sua cabina.
 - Minha filha, voc vai me fazer o favor de no se apaixonar 
pelo Dr. Paterna - disse ele em paternal advertncia. - Ele  um 
doidivanas. Tenho observado que pelo menos cinco mulheres a bordo 
reviram Os olhos quando ele aparece. Sobretudo essa encantadora 
cabeleireira, Barbara Steinberg. O nmero de suas admiradoras vai 
aumentar continuamente at Sidney; isso No vai deixar de 
acontecer, especialmente aps a troca de passageiros em 
Valparaso. Filhinha, tenha juzo!
 Beate concordou, deu um beijo na testa de Dabrowski e saiu 
danando. Ele seguiu-a com a vista de mos cruzadas.

 - , a coisa pode esquentar! - disse ele para si mesmo. - E na 
qualidade de cego eu nem posso enxergar nada... 
 Portanto, agora haviam deixado para trs essas vinte e quatro 
horas de Balboa e Panam, assim como o baile folclrico que 
tivera lugar  noite no Salo dos Sete Mares, animada por Hanno 
Holletitz e cuja concepo artstica fora do director de cruzeiro 
Manni Flesch, que depois apresentou gigantescos buques de flores, 
desses que se podem comprar em qualquer esquina. O Atlantis 
zarpou s oito da noite, a orquestra de bordo tocou a infalvel 
Comandante, leve-nos junto na viagem... e ali  vista, at  
vista; coisa que pouco interessou s pessoas do porto, pois todos 
os dias os navios brancos de cruzeiro de todas as naSes chegavam 
a Balboa e despejavam passageiros loucos para tirarem fotos, Os 
mais impressionantes eram os viajantes japoneses... o consumo de 
filme deles era francamente ilimitado.
 O comandante Teyendorf seguiu com a vista a costa do Panam que 
desaparecia no brilho do sol. Como de hbito, estava postado na 
ponte com seu uniforme de comandante, branco com galSes dourados, 
e ficou contente por deixar aquele porto para trs. Ele no 
gostava de Balboa, desde h trs anos atrs quando dois de seus 
oficiais foram espancados, coisa que quase provocou uma guerrinha 
diplomtica, pois os atacantes pertenciam a uma organizao da 
esquerda radical e gritavam "Fora com os estrangeiros!". Em 
contrapartida, o Panam vive das taxas do canal e do trfego de 
estrangeiros. Contudo, o pior porto, que seria alcanado dentro 
de seis dias, era Callo, no Peru, o porto da capital Lima com 
suas gigantescas favelas e seus assaltos  luz do dia; e quando 
se gritava por socorro. Ningum dava importncia, as pessoas 
simplesmente preferiam desviar o olhar. Ali, at a prpria 
polcia uniformizada assaltava os estrangeiros ultrapassando os 
taxis que transportavam passageiros de navios, detendo-os e 
exigindo dez dlares por cabea sob a ameaa de lev-los para a 
priso. Posto que a libertao podia demorar semanas, os 
assustados estrangeiros preferiam pagar.

 Nesse momento, dois novos acontecimentos abalaram a direco do 
navio, sem que os passageiros dele tomassem conhecimento: lady 
Evelyn Cumberiand, mulher sempre tranquila, distinta e que 
viajava sozinha, que ocupava uma mesa de uma s pessoa bem no 
fundo junto  parede, a mesa G1, comunicou com comoo contida ao 
chocado director de hotel Riemke - sempre conservando seu 
temdeamento britnico frio - o roubo de sua pulseira de 
brilhantes. Valor: 70 mil dlares; comprado de Bulgari, no hotel 
St. Pierre, em Nova York. 
 Riemke deu o alarme na mesma hora informando o comandante 
Teyendorf e Ewald Dabrowski. Agora ficava claro que o invisvel 
Paolo Carducci comeara a roubar as melhores pegas. No havia 
dvida alguma que a jia de lady Cumberiand fazia parte dos 
modelos mais exclusivos. O nome Bulgari atestava este facto.

 - Nada de pnico - disse Dabrowski aps ter conversado com lady 
Evelyn. - A senhora receber a pulseira de volta. s lhe peo que 
tenha um pouco mais de pacincia. Vamos averiguar primeiro quais 
as pessoas que no saram para passear em terra. Carducci 
encontra-se entre aqueles que permaneceram a bordo, pois ele No 
pode ter deambulado pelo Panam ao mesmo tempo em que roubava a 
bordo.
 - Sempre que se parta da suposio que esse seu mestre dos 
ladrSes trabalha sozinho. - Teyendorf viu espantado quando lady 
Evelyn, para tranquilizar-se, levou aos lbios um copo cheio de 
usque e esvaziou-o at a metade com um potente gole digno de 
homem. - Afinal; ele tambm poderia ter deixado um "assistente" a 
bordo...
 - Tambm j tive esse pensamento, mas logo depois o rejeitei. 
Carducci  um solitrio fantico. 
 - Bem, seja l como for. - Teyendorf tornou a admirar-se quando 
lady Evelyn esvaziou o copo de usque com um segundo gole. Um 
copo desse de se beber gua, cheio de usque puro, esvaziado com 
dois goles!
- Comeamos a contagem regressiva.
 A segunda pssima notcia chegou pelo rdio transmitida de 
terra: o departamento de imigrao da polcia do Panam comunicou 
que uma passageira do NM Atlantis no chegara na hora de tomar o 
navio, seno que entrou no cais quando este j se encontrava em 
alto-mar. Havia participado de uma festa na casa de conhecidos em 
Cristobal e simplesmente acordara atrasada para a partida.
 Seu nome era Thea Sassenholtz. Tinha sessenta anos, era casada 
com um joalheiro de Munique. A polcia panamenha perguntava o que 
se podia fazer. Do ponto de vista jurdico, aquilo era encarado 
como imigrao ilegal.
 - Chame de volta, Mehrkatz - disse Teyendorf ao primeiro-oficial 
da estao de rdio, que levara por escrito a conversa tida 
atravs do rdio. - Diga que a Sra. Sassenholtz deve dirigir-se 
ao consulado alemo para pedir ajuda. Nosso prximo porto  
Guaiaquil, no Equador. Ela pode viajar para l com toda a calma. 
s chegaremos a esse porto daqui a trs dias. O consulado sabe 
todo o resto, refiro-me aos documentos e coisas assim.
 - Sim, senhor comandante - o oficial de radio Mehrkatz encarou 
Teyendorf com uma expresso pensativa. Ele j estava no mar e na 
cabina de rdio o tempo suficiente para saber que um passageiro 
perdido sempre representava um problema. - Comunicar ao consulado 
alemo... Ningum podia imaginar o que se causava com isso.

Agora o baro navegava desaparecendo com imersvel rapidez no 
brilho do sol e no mar cheio de reflexos. Havia passado a andar a 
pleno vapor e seria impossvel algum alcan-lo de bote. Thea 
Sassenholtz ficou parada no cais, sem ter nada consigo,  
excepo de uma bolsinha de mo e um saco de plstico com 
lembranas do canal do Panam, compradas no dia anterior. Seus 
amigos de Cristobal no a acompanharam, pois deviam seguir para 
seu trabalho. Haviam-se despedido de Thea com muitos beijinhos e 
a promessa de voltar um dia e agora, pelos vistos, parecia que 
isso iria acontecer mais rpido do que esperavam.
 O motorista de taxi que a levara ao porto parecia estar 
acostumado com esse tipo de situao . Enquanto Thea Sassenholtz 
andava agitada de um lado para o outro no per, sem saber o que 
estaria por vir, ele primeiro fumou um cigarro com toda 
indolncia e depois disse bem-humorado:
 - No perca a cabea, madame. Este  o nono caso em minha vida, 
em que algum perde o navio.

 - E o que os outros fizeram? - perguntou Thea desesperada.
 - Trs ficaram aqui para sempre.
 - Pelo amor de Deus, mas que proposta! - ela gritou horrorizada.
 - Quatro voaram atrs do navio at o porto seguinte.
 - Isso seria em Guaiaquil, no Equador.
 - , um trajetinho bem pesado. Bem, dois morreram.
 Thea olhou fixo para o motorista de taxi e engoliu vrias vezes 
em seco.
 - Morreram? Aqui? Como assim?
 - Um bebeu at morrer, quer dizer, serviram-lhe lcool impuro, 
que tinha metal na frmula, no teve salvao ao chegar  
clnica. E o outro recebeu uma facada entre as costelas quando 
tentou passar o tempo com uma moa daqui. - O chofer de taxi 
jogou fora a guimba do cigarro, amassou-a com a ponta da bota e 
apontou para seu carro:
- Vamos at o aeroporto, madame, e a senhora toma um aviso para 
Guaiaquil. L ter bastante tempo at seu navio chegar. Poder 
inclusive voar at Quito para fazer uma visita ao monumento do 
Equador. - Ele deu uma risada jovial mostrando os dentes 
reluzentes, um mestio com sangue de ndios, espanhis e 
ingleses. Seu ingls era fluente, mas com um certo sotaque do 
idioma gutural dos ndios. - No  uma boa idia, madame?
- Primorosa. - Thea Sassenholtz deu uma batidinha em sua bolsa de 
mo. - Isso  tudo que tenho comigo.
 - Pode-se comprar qualquer coisa no Panam.
- Dispondo-se de dinheiro. Ainda sou proprietria de cerca de 
trinta dlares.
 O motorista de taxi, que j havia recebido seu pagamento, fez 
uma careta e forou um bico com o lbio inferior.
 - , a senhora No vai chegar muito longe com isso.
 -  isso mesmo. Estou completamente lisa aqui.
 - No tem carto de crdito?
 - Ficou a bordo.
 - Talo de cheque?
 - Tambm a bordo.
 -  realmente descuidada, madame; vir passear em terra assim, 
sem nada.
 - Afinal, quem iria pensar que perderia o navio? - disse Thea 
Sassenholtz em tom de queixa.
 - Vamos primeiro at a polcia.
 - E por qu? Como a polcia poderia ajudar?
 - A senhora est com seu passaporte?
 Thea Sassenholtz baixou a cabea.
 - . A bordo. Com a comissria.. Todos viemos  terra com um 
documento especial. Vlido por um dia.
 - era isso que eu estava imaginando. Sem passaporte a senhora  
uma imigrante clandestina e primeiro devemos ir  polcia para 
esclarecer a situao . O que acha que lhe acontecer se cair num 
controle e nada tiver alm desses trinta dlares? Nenhum 
documento! Vai na mesma hora para a priso.
 - Nesse caso, vamos... Qual o seu nome, chofer?
 - Manuel Jacky. Manuel foi o nome que meu pai me deu e Jacky 
minha me americana. - Ele abriu a porta do carro, esperou que 
Thea Sassenholtz entrasse e depois meteu-se atrs do volante. - 
Mostre-me esse seu documento do navio.

 Thea revirou a bolsa de mo, sacudiu a sacola de plstico 
despejando as lembranas no assento e procurou: Seus dedos 
comearam a tremer.
 - Nada... - balbuciou ela encarando Manuel Jacky com uns olhos 
de criana arregalados. - Devo ter esquecido o cartozinho em 
Cristobal. Afinal, era s um cartozinho estreito. Ou ento devo 
t-lo tirado da bolsa e perdido no momento de pagar.
 - era s o que faltava!
 - Mas podem passar um rdio para o navio. Ali eles confirmaro 
que sou passageira do Atlantis. E meus conhecidos de Cristobal 
tambm podem confirmar que eu...
 - E no  que a senhora quer chegar a Cristobal com trinta 
dlares no bolso? D um telefonema para que lhe enviem dinheiro.
 - Meus conhecidos No tm telefone.
 - Parece que a senhora  uma pessoa que tem tudo a zero! , 
existe esse tipo de coisa. - O chofer ligou o motor. - Portanto, 
vamos embora, para a polcia.

 A polcia do Panam est acostumada com o possvel e o 
impossvel. Havia muito tempo que o pas era o Eldorado dos 
aventureiros, no somente desde a construo do canal do Panam, 
mas j desde antes e, sobretudo, depois. Se antes havia a luta 
contra o inferno verde, contra os pntanos e mirades de 
mosquitos venenosos e aranhas, na carga ao ouro com o qual os 
ndios se adornavam, hoje em dia especulava-se tentando a sorte 
no comrcio no estreito pas do Caribe ao Pacfico - alis, 
comrcio era a expresso educada para o contrabando. Assim, a 
criminalidade no Panam representava um enorme problema; 
sobretudo a luta contra as drogas e a prostituio.
 Por isso mesmo, Thea Sassenholtz foi uma mudana quase
agradvel
no escritrio central da imigrao . Fizeram um protocolo do 
interrogatrio, tiraram-lhe as impressSes digitais, anotaram o 
endereo de seus conhecidos em Cristobal, asseguraram  dama que 
estava a ponto de chorar que, claro, acreditavam em tudo, fizeram 
a ligao por rdio com o NM Atlantis e 
informaram por rdio o 
consulado alemo.
 - est tudo em ordem, madame - disse o 
chefe do departamento da 
repartio de imigrao escrevendo no 
documento apresentado um 
novo prazo de permanncia. - A senhora 
deve tomar o navio em 
Guaiaquil.
 - E no chegarei l sem dinheiro? E 
tambm precisarei de um 
passaporte de emergncia para entrar no 
Equador.
 - O consulado alemo vai cuidar de tudo 
- disse o amvel 
funcionrio num tom de voz amigvel. - 
No se preocupe, dentro de 
trs dias a senhora estar navegando de 
novo pelo Pacfico.
 Mas a coisa no foi to fcil assim como 
viam os funcionrios 
panamenhos. Haviam esquecido que o 
consulado-geral alemo era 
ocupado por funcionrios alemes. Assim, 
um empregado pblico 
alemo no acha que seja a coisa mais 
natural do mundo que algum 
perca seu navio. Antes de mais nada, a 
primeira coisa que se deve 
fazer com essa pessoa - segundo a velha e 
boa maneira alem -  
dar-lhe uma lio e adverti-la.

 Thea Sassenholtz caiu nas mos de um 
funcionrio do consulado 
que ouviu sua histria com um rosto 
rabugento e amarelado como 
consequncia de uma doena heptica e que 
depois passou os olhos 
com todo cuidado no protocolo do 
departamento de imigrao, assim 
como nos apontamentos sobre a conversa 
por rdio com o comandante 
Teyendorf do NM Atlantis.
 - Mas no pde acontecer isso? - ele 
perguntou com cara de 
poucos amigos.
 - Eu simplesmente dormi Alm da hora. - 
Thea Sassenholtz esboou 
um sorriso estimulante. - S cheguei 
quinze minutos atrasada.
 - S quinze minutos? Que quer dizer com 
s? A senhora chegou 
tarde demais, o navio tinha ido embora e 
agora estamos com esse 
lodaal aqui.
 - Que quer dizer com lodaal?
 - Se a senhora me permite: permisso de 
sada do Panam, 
permisso para entrada no Equador, 
pagamento da passagem area, a 
senhora ainda quer dinheiro e ns devemos 
emitir um passaporte de 
emergncia... ser que isso No  nenhum 
lodaal?
 - Mas  para esse tipo de coisas que o 
senhor est aqui - opinou 
Thea Sassenholtz.
 No devia ter dito tal coisa. Nunca se 
deve dizer a um 
funcionrio pblico o motivo pelo qual 
ele se encontra ali! S 
ele sabe disso. Atirar-lhe isso na cara 
significa sujar um 
santurio. Nada  pior na repartio de 
uma autoridade do que 
faz-la reconhecer que se tem direito a 
alguma prestao de 
servio.
 O funcionrio consular de rosto 
amarelado empurrou seus culos 
um pouco para a ponta do nariz, 
contemplou Thea Sassenholtz por 
cima da armao como se esta fosse um 
insecto zumbidor e depois 
recostou-se na cadeira.
 - No seja insolente! - ele disse em tom 
cortante. - Primeiro a 
senhora dorme e perde o navio... deve ter 
bebido um bocado em 
Cristobal, no  mesmo?. . depois esquece 
a bordo tudo que se 
deve levar para um pas estrangeiro, 
perde seu documento de 
bordo, no traz dinheiro nos bolsos... um 
pouquinho demais, no?! 
E agora comea tambm a cuspir no nosso 
prato, gente que s lhe 
quer ajudar! Minha cara, sabemos muito 
melhor do que a senhora 
para que estamos aqui! - ele assumiu uma 
postura bem formal e 
funcional e procurou um formulrio na 
gaveta. - A senhora dispSe 
dos meios necessrios para nos pagar na 
Alemanha o dinheiro que 
lhe emprestaremos?
 - Se me permite! - Thea Sassenholtz 
encarou atnita o sujeito 
rabugento. - Sou mulher de um conhecido 
joalheiro de Munique.
 - No perguntei quem a senhora  nem com 
quem  casada; 
perguntei por sua situao financeira. 
Por favor, d uma resposta 
precisa!
 - Eu disponho de uma fortuna, minhas 
finanas esto excelentes - 
disse Thea j um pouco nervosa nesse 
instante.
 - E por que seu marido No est viajando 
junto?
 - E o que o senhor tem a ver com isso?
 - Temos a ver com tudo se for para 
ajud-la! - a voz do sujeito 
de rosto amarelado ergueu-se. - No seja 
mais insolente...
 - O senhor j disse isso.

 Erro aps erro! Thea Sassenholtz, que 
nesse momento fora 
recalcitrante, no compreendeu porque 
devia ser interrogada ali 
sobre sua vida privada. Sentia-se com 
todo direito, mas quem  
que tem algum direito diante de um 
funcionrio pblico alemo? 
Quando um cidado tem alguma coisa a dar 
a uma autoridade,  
exortado de maneira amvel mas decisiva a 
faz-lo com a maior 
rapidez... no caso inverso, a temos 
tempo de sobra.
 - Vou dizer-lhe uma coisa - o doente da 
vescula biliar, ou 
seria do estmago? - inclinou-se por cima 
da escrivaninha. - Ns 
temos tempo de sobra. No estamos 
correndo atrs de nenhum navio. 
Poderamos primeiro perguntar  Alemanha 
se  mesmo verdade isso 
que a senhora declarou no protocolo. Isso 
pode durar uma, duas 
semanas...
 - A o navio j estar a caminho da ilha 
de Pscoa. Ento, no 
chegarei l? - disse Thea horrorizada.
 - Fomos ns que perdemos o navio? 
Portanto, seria muito bom para 
a senhora se respondesse a todas as 
perguntas de modo correcto. A 
senhora poderia, por exemplo, ter fugido 
de seu marido... a no 
seria sua situao financeira?
 - Mas isso  incrvel! - Thea 
Sassenholtz soltou um grito. - Vou 
queixar-me ao Ministrio do Exterior na 
Alemanha.
 No existe nada pior para um funcionrio 
pblico do que ser 
ameaado de queixa numa instncia 
superior  dele. No que ele 
tenha medo disso - a autoridade superior 
agir sempre em favor do 
denunciado -, mas sim porque ele encara 
essa ameaa como um 
ataque. Por isso mesmo, os funcionrios 
pblicos ameaados 
tornam-se mais perigosos do que um tigre 
ferido.
 Ento, o sujeito de rosto amarelado 
bateu com a palma da mo no 
tampo da escrivaninha, respirou fundo, 
mas no seguiu-se nenhuma 
exploso e sim apenas a frase:
 - Podemos fazer a coisa de outra 
maneira, minha senhora! - 
ento, ele pegou o telefone, ligou para o 
departamento de 
imigrao e disse em ingls: - Vocs nos 
enviaram uma certa Sra. 
Sassenholtz. Sim, essa, essa que 
supostamente teria perdido o 
navio...
 - Eu perdi! - Thea intrometeu-se com um 
grito. - Eu perdi!
 - Quieta! - a mo tornou a bater no 
tampo da mesa. - Sim, 
surgiram algumas dificuldades. Vocs 
recebero notcias nossas. 
Obrigado. - ps o auscultador no gancho e 
tornou a recostar-se. - 
Com que ento, a senhora quer queixar-se 
ao Ministrio do 
Exterior, Sra. Sassenholtz. Faa isso! A 
propsito, em Bonn eles 
tm coisas mais importantes a fazer do 
que estar dando ouvidos a 
reclamaSes estpidas. No somos ns que 
queremos alguma coisa da 
senhora, mas sim a senhora  que quer de 
ns! Portanto, deve 
concordar que busquemos informaSes.  a 
nossa obrigao!
 Thea Sassenholtz percebeu que No fazia 
sentido continuar 
brigando com aquele homem. Ela assentiu 
sem dizer uma palavra, 
pegou o formulrio que lhe foi empurrado 
e preencheu-o.
 - Quando poderei voar para Guaiaquil? - 
perguntou no fim.
 - Isso somos ns que decidimos.
 - Claro. Afinal, so os senhores que 
pagaro o voo.
 - Justamente! - o impiedoso homem puxou 
de novo o formulrio e 
correu os olhos por ele. - Quando alguma 
coisa no vem ao caso, 
no se deve simplesmente fazer um trao, 
mas sim escrever: No 
vem ao caso.
 - Eu No sabia, perdo - disse Thea com 
um ar atencioso. - Em 
geral  o meu marido quem lida com as 
autoridades.
 era evidente que o sujeito rabugento 
ficou ponderando se a 
resposta era outro insulto, ou apenas uma 
inofensiva informao, 
mas depois de algum tempo enfiou o 
formulrio numa pasta. Thea 
Sassenholtz respirou aliviada.
 - E agora? - perguntou ela.

 - Volte  tarde. Seus trinta dlares 
bastam. Afinal, a senhora 
no precisa comer num hotel de luxo. 
Teremos mais informaSes por 
volta das 15 horas. Tenha um bom dia!
 Resumindo: Thea Sassenholtz recebeu uma 
passagem de avio para 
Guaiaquil, um passaporte de emergncia, a 
permisso de entrada no 
Equador e um cheque de viagem de 
quinhentos dlares americanos. 
Foi obrigada a declarar o nmero de sua 
conta bancria na 
Alemanha e a assinar um pedido de 
remessa, a fim de que o 
dinheiro emprestado fosse devolvido o 
mais rpido possvel. Alm 
disso, foi aberta - era preciso manter-se 
a ordem - uma ficha com 
seus dados.
  noite, Thea foi a um pequeno hotel em 
Balboa e alugou um 
quarto com varanda dando para o mar, 
muito limpo, barato para as 
condiSes do Panam (cinquenta dlares 
por noite) e com um 
servio bem amvel. Seu avio decolaria 
no dia seguinte s oito 
da manh. E ali; no pequeno restaurante 
do hotel, sob as ps de 
um ventilador, Thea conheceu Juan de 
Garcia, um fazendeiro de 
caf da Costa Rica, de cinquenta e cinco 
anos de idade e maneiras 
educadas.

No NM Atlantis havia um lugar que apenas 
uns poucos corajosos 
visitavam: o convs CFL, escondido de 
todos os olhos, situado 
atrs da chamin e tendo apenas um rtulo 
numa porta com a 
indicao clara de sua funo de convs 
para fanticos absolutos 
do sol. Nele as pessoas deitavam-se 
desnudas lado a lado nas 
espreguiadeiras, bronzeavam-se sem 
marcas e em pouco tempo 
formavam uma comunidade, uma espcie de 
tropa de conspiradores.
 Os voyeurs no eram permitidos, essa era 
uma lei frrea. 
Quem atravessava a porta com o cartaz 
"Ateno, convs CFL", logo 
depois dessa porta tirava o traje ou 
calo de banho; e 
reconhecia-se o profissional, que em 
geral tomava banho de sol 
sem nenhuma roupa, pela maneira como o 
fazia. Os novatos a 
princpio sempre hesitavam um pouco, 
olhando em volta e depois 
fazendo uma cara como se estivessem 
pensando: em todo caso sou 
mais bonito do que aquele ou aquela l. 
Portanto, nada de 
inibio, garoto, estamos entrando no 
paraso, trate de 
comportar-se de acordo!
 Na segunda vez a pessoa ficava mais 
despreocupada e no 
gaguejava quando uma exuberante mulher 
pelada deitava-se ao seu 
lado e batia um papo sobre suas 
experincias num clube de nudismo 
do Qunia. 
 Sylvia de Jongh tambm descobrira esse 
convs especial. Quando 
apareceu pela primeira vez, tirou o 
biquini junto  porta e saiu 
rebolando sua nudez francamente 
provocante pelas pranchas em 
busca de uma espreguiadeira desocupada, 
algumas senhoras mais 
velhas acharam que aquilo poderia 
perturbar a paz da comunidade. 
Mas Sylvia de Jongh foi um agradvel 
desapontamento. Ocupou uma 
espreguiadeira bem afastada, comportou-
se com toda a 
tranquilidade e, enquanto entregava-se ao 
calor, ao vento e ao 
barulho do mar, leu um romance de Harold 
Robbins. era um romance 
ertico, coisa que combinava com ela.

 Em compensao, Hans Fehringer estava um 
pouco perturbado. Como 
no sabia o que Herbert combinara com 
Sylvia - ou seja o encontro 
apenas a cada dois dias -, Hans achava o 
comportamento de Sylvia 
totalmente incompreensvel. No convs, 
ela passava por ele como 
se no o conhecesse, no esboava nenhuma 
reaco aos seus 
sussurros quando ele se aproximava, 
olhava-o sem v-lo, procurava 
seu marido rabugento e se afastava de 
tudo que pudesse levar a 
uma troca de palavras.
 Fehringer andava de um lado para o outro 
no navio como um louco 
e, no final, foi queixar sua magoa com o 
irmo gmeo Herbert.
 - No consigo explicar o porqu disso! - 
balbuciou ele, enquanto 
ambos vestiam-se para o jantar: os mesmos 
smokings azul-ferrete, 
as mesmas camisas, as mesmas gravatas, as 
mesmas meias e sapatos. 
Inclusive as cuecas, que de facto ningum 
podia ver, eram 
"gmeas". nul, sua cidade natal, os dois 
tambm saam juntos 
para as compras e, em toda a parte, os 
vendedores tinham o maior 
prazer quando os dois fregueses chegavam 
diante do espelho 
vestidos com ternos iguais e se 
comparavam. At mesmo o n da 
gravata eles davam da mesma maneira. s 
podiam ser diferenciados 
em seu negcio, o comrcio de carros 
usados com um ano de 
garantia: Hans, o mecnico de automveis, 
de macaco e todo sujo 
de leo, ficava debaixo dos carros ou no 
buraco de montagem - o 
dinheiro nunca sobrou para um mecnico 
hidrulico; em 
contrapartida, Herbert era o vendedor 
sempre elegante e com um 
talento extraordinrio para as conversas 
de venda; era bem o tipo 
do empresrio que parecia destinado a 
missSes mais elevadas do 
que a venda, com um sorriso radiante de 
carros sucateados e 
depois reparados.
 - Que est acontecendo? - perguntou 
Herbert nesse momento com ar 
inofensivo.
 - Sylvia est to esquisita...
 - Ah, no. no assim?
 - Ela age como se fssemos dois 
estranhos.
 - O velho dela deve estar vigiando-a com 
olhos de lince.
 - No pode ser s isso. Deve ter outra 
coisa metida no meio.
 Herbert Fehringer ficou satisfeito. 
Sylvia iria pertencer 
somente a ele, pelo menos durante os 
prximos dias. No queria 
pensar agora no momento da verdade - era 
possvel que esse fosse 
o fim da fraternidade dos gmeos. Ele 
tinha a inteno de 
desaparecer com Sylvia em Sidney e 
recomear a vida nalgum lugar 
do vasto mundo. No pensou que uma mulher 
como Sylvia de Jongh em 
pouco tempo sentiria a falta do luxo com 
que se habituara e que 
ento se transformaria numa tortura 
permanente, no pensou que 
no se pode viver apenas de um amor 
tempestuoso e que a cama no 
 nenhuma base para a vida. Mas quem  
que pensa nessas coisas, 
quando cada poro de seu corpo arde de 
febre, por outra pessoa?
 - Bem, talvez existam outros homens a 
bordo dos quais ela goste 
mais, no? - observou Herbert de 
passagem.
 Hans Fehringer, que nesse momento estava 
dando o n da gravata, 
deu um salto para o lado. 
 - Impossvel! - gritou ele.

 - Como assim? Posso apontar-lhe uma 
dzia de homens por aqui, 
com os quais quase no podemos competir. 
A est esse tal de 
Tatarani, to rico que nem consegue 
contar seu dinheiro. Depois 
vem de Angeli, o playboy que deixa todas 
as mulheres de olhos 
marejados. O mdico de bordo, o Dr. 
Paterna, um gal do tipo 
cinematogrfico. O primeiro-oficial Willi 
Kempen. O chefe Ludwig 
Wurzer, o lutador baixo. Sem esquecer 
Pfannenstiel, capaz de 
devorar uma mulher como outros devoram um 
bolo. E assim por 
diante, Hans. - Agora Herbert tambm 
estava dando o n na 
gravata. Os dois pararam lado a lado 
diante do espelho e cada 
qual olhou para o outro. era incrvel 
como se assemelhavam. - Uma 
mulher como Sylvia  como uma borboleta. 
Qualquer flor colorida 
atrai. Ela provou o seu nctar... e agora 
vai embora batendo 
asas.
 - Eu simplesmente No acredito nisso. 
Ela me disse que ama s a 
mim.
 - No abrao se dizem muitas coisas que 
depois do afrouxamento 
parecem diferentes.
 - Essas suas malditas liSes irritam-me. 
- Hans vestiu o smoking 
de seda. Os gmeos davam muita 
importncia s roupas, gastavam 
quase todo o dinheiro em ternos novos 
que, Alm disso, faziam 
parte do "traje de trabalho". Quem cruza 
o mundo em dupla, mas s 
paga por um, precisa pelo menos ter uma 
aparncia que inspire 
confiana. "A roupa faz o homem" No  um 
ditado antiquado, pelo 
contrrio, especialmente em nosso mundo 
moderno a pessoa bem 
vestida  vista como digna de crdito. Em 
compensao, so 
justamente os maiores gangsters que usam 
as melhores roupas 
feitas sob medida. - Voc nem ao menos 
sabe como Sylvia pode ser.
 - E to-pouco estou interessado em 
saber. - Herbert Fehringer 
recuou do espelho. Passou mais uma vez um 
pano macio sobre o 
brilho dos sapatos pretos. - Mas faa-me 
o favor, Hans: No v 
correr atrs dela como um cachorrinho! 
Mostre que tem orgulho.
 - E se isso for o fim?
 - Ento, a coisa ter acabado mesmo.
 - Seria insuportvel para mim. Herbert, 
eu a amo com todas as 
fibras do meu corao .
 - O corao No tem fibra nenhuma,  um 
msculo compacto.
 - Ora, vai tomar no c! - Hans 
Fehringer, a quem tocava jantar 
por primeiro, saiu da cabina. Herbert 
fechou logo depois de ter 
pendurado o cartaz de "Favor No 
incomodar" na maaneta.
 Isso ocorrera no dia anterior. Agora, 
nesse magnfico Domingo de 
vento quente que soprava agradvel sobre 
os corpos, mas com o 
navio navegando num acentuado movimento 
deslizante, Sylvia de 
Jongh foi deitar-se pela primeira vez no 
convs CFL, uma Vnus de 
cabelos pretos a qual s poderia ser 
observada por olhos 
invejosos, desde que o fosse por uma 
outra mulher. Trs 
cavalheiros, todos em idade avanada, 
esforavam-se para no 
olhar em sua direco. De repente, 
sentiram-se miserveis na 
condio de sua nudez enrugada. Voltar a 
ter trinta anos outra 
vez, pensaram... ah, cara, quantas coisas 
iramos fazer! Eles 
viraram a cabea, olharam para as 
respectivas mulheres deitadas 
ao seu lado tambm desnudas e soltaram 
suspiros secretos. Como a 
vida  curta e quantas coisas so 
perdidas!
 Hans Fehringer, que procurava Sylvia em 
todos os conveses, ficou 
perplexo ao v-la subir a escada, 
dirigindo-se bem para cima, 
onde em geral no haveria nenhuma 
possibilidade de se deitar em 
espreguiadeiras. Ele observou-a at 
perd-la de vista e depois 
deteve um comissrio de convs que ia 
passando.
 - Pode-se deitar l em cima tambm? - 
perguntou.
 - No, meu senhor.
 - Mas uma senhora acabou de subir para 
l.
 O comissrio olhou ao longo da lateral 
do navio e, com um gesto 
enviesado, apontou para cima.
 - O senhor quer dizer, l em cima?
 - Sim, foi o que eu disse.
 - Por l se vai ao convs CFL, meu 
senhor.

 - Ao CFL... obrigado!
 Hans Fehringer esperou at que o 
comissrio desaparecesse entre 
as espreguiadeiras do convs do solrio 
e ento andou com passos 
lentos at  primeira escada. Sylvia 
deslocava-se para l? 
Estaria a a soluo para explicar sua 
mudana? Ser que ela se 
encontrava com outro homem l em cima, 
deitada pelada ao seu 
lado, flertava com ele? Hans foi possuda 
por uma sensao 
indmita. Prendeu a respirao; o cime 
ameaava rach-lo ao 
meio.
 Seu primeiro impulso foi: Herbert tem 
razo, ela no vale nada. 
Uma magnfica puta, mais nada. Voc no 
poder segur-la por 
longo tempo. Ela vai tra-lo com o mesmo 
descaramento como trai o 
marido agora. Esquea-a, passe por ela 
como ela faz com voc . 
Claro que isso vai doer, mas essa dor 
tambm pode ser superada. 
S no corra atrs dela! No faa isso, 
cara!
 Contudo, em geral existe um imenso 
abismo entre o querer e o 
poder. Hans Fehringer subiu a escada que 
levava ao convs CFL. 
Ali chegando, deteve-se por alguns 
momentos e tomou conscincia 
de que deveria tirar o calo de banho 
atrs da porta. At ento, 
ele s havia tomado banho desnudo junto 
com seu irmo em enseadas 
isoladas da Jugoslvia e do sul da 
Frana. No sabia como seria 
sua reaco no meio a tanta nudez 
feminina, mas logo convenceu-se 
de que j havia visto Sylvia em situaSes 
bem diferentes e que um 
aglomerado de pessoas desnudas era 
qualquer coisa menos algo 
ertico.
 Hans abriu a pesada porta de ferro, 
entrou no convs CFL, tirou 
o calo de banho, mas por precauo 
jogou o roupo no ombro 
para, em caso de emergncia, pod-lo 
fechar com o cinto.
 As duas primeiras pessoas peladas, duas 
senhoras mais idosas, 
desiludiram-no. Estavam deitadas qual 
dois leSes-marinhos 
largados em terra, com grossos tampSes de 
algodo em cima dos 
olhos, reluzentes de leo de bronzear; 
uma cena que fazia com que 
qualquer um desviasse os olhos 
rapidamente. Mas depois, Hans viu 
bem l atrs e isolado por completo o 
fantstico corpo de Sylvia 
e seu corao comeou a bater com toda a 
fora. Sozinha! E no 
com um outro homem! Afastada de todos os 
outros. Herbert, seu 
idiota, claro que ela  uma mulher 
fantstica. Meu Deus, como eu 
a amo!
 Aproximou-se sem fazer barulho, deitou-
se na espreguiadeira ao 
lado de Sylvia e viu que ela adormecera 
lendo o livro. O romance 
de Robbins estava cado sobre seus 
joelhos, os dedos finos 
continuavam segurando a capa do livro. 
Com todo o cuidado, Hans 
inclinou-se para a frente e deu-lhe um 
beijo na ponta do nariz.
 - Meu amor - disse ele em voz baixa. - 
Se estivssemos sozinhos 
agora, com toda certeza voc no estaria 
dormindo.
 Sylvia assustou-se, encarou-o perplexa 
e, sem querer, por 
reflexo empurrou o livro para cima da 
vulva.
 - Mas voc pirou por completo? - 
sussurrou horrorizada.
 - Voc j sabe... Claro que sim!
 - Quem foi que lhe disse que eu estava 
aqui?
 - Meu instinto. O seu magnetismo que 
sempre me atrai para perto 
de voc.
 - Se Knut nos v aqui!

 - Voc acha que seu marido iria perder-
se por aqui? Querida, eu 
nem cheguei a pensar nisso. Claro que o 
convs CFL  o nosso 
ponto de encontro mais seguro! 
simplesmente fantstico! - ele 
pousou a mo sobre o seio direito de 
Sylvia, acariciou a firme 
ondulao e depois deitou-se bem  
vontade. Sem dizer uma 
palavra, Sylvia pegou a mo e afastou-a. 
 - No estamos sozinhos, Hans.
 - Que pena. Sinto-me como um sedento que 
se encontra diante de 
uma fonte e no tem permisso para beber. 
- Hans Fehringer tomou 
o livro do colo de Sylvia, folheou-o e 
sorriu. - A verdadeira 
leitura para a sensualidade reprimida. 
Com que frequncia eles 
transam no livro?
 - Pare com isso! - ela arrancou-lhe o 
romance das mos e jogou-o 
nas pranchas do outro lado. - Saia deste 
convs agora mesmo!
 - Ora, por qu? Estou comeando a me 
sentir bem. Esse calor no 
corpo, essa carcia do vento... podiam 
ser suas mos. Quando 
penso nisso, sou obrigado a fechar o 
roupo.
 Sylvia levantou-se, olhou para o ventre 
de Hans e depois para os 
outros veneradores do sol.
 - No me venha fazer um escndalo aqui! 
- sussurrou ela. - 
Comporte-se!
 - Se voc me prometer que hoje  
noite... - ele hesitou, pois a 
noite pertenceria a Herbert, depois 
corrigiu-se. - No, amanh  
noite... ou hoje mesmo. Nos encontraremos 
aqui.
 - A porta  fechada aps o pr-do-sol.
 - Subornarei o comissrio encarregado 
para deix-la aberta hoje. 
Puxa, por que no pensei nisso antes?! 
No existe esconderijo 
melhor, claro que ningum vem aqui  
noite! Para ns, querida, o 
lugar mais seguro de todo o navio. - Ele 
espreguiou-se com uma 
sensao de bem-estar, seu corpo 
musculoso valia um longo olhar, 
Sylvia tambm pensou o mesmo e jogou-se 
de volta  
espreguiadeira para escapar quela 
viso.
 - Acho que no ser possvel, Hans.
 - Por qu?
 - O tiro ao alvo de vocs. O empate deixou-o terrivelmente 
irritado. Ele no tira mais os olhos de mim.
 - E agora? Voc est aqui... onde se encontra ele?
 - Eu disse que viria ao convs CFL.
 - E ele no veio junto?
 - No. Por mais estranho que possa parecer, ele sente vergonha.
 - Mas isso  fantstico! Quer dizer ento que vamos poder nos 
encontrar sempre aqui?! - Hans acariciou-lhe a coxa com a ponta 
dos dedos. - Para mim j  uma glria poder ficar deitado aqui 
com voc vendo esse seu corpo maravilhoso. E ento sonhar que 
poderei t-la em meus braos  noite. Que sensao mais maluca!
 Enquanto isso, Knut de Jongh deambulava pelos conveses. Assistiu 
aos jogadores de tnis de mesa, viu os entusiastas do 
shovelboard, a competio de mergulho na piscina, dirigida pela 
anfitri Brbara - ela atirou doze colheres na gua e aquele que 
recolhesse mais, ganharia uma garrafa de champanhe - e depois 
seguiu at os "artesos", que era como os passageiros chamavam 
queles que pintavam na varanda,
faziam gravaSes em vidros, faziam bonecas ou modelavam 
estatuetas de massa. No existia tdio a bordo, oferecia-se 
alguma coisa a cada pessoa.
At mesmo os mais preguiosos no de Jongh tinham seu quinho: 
abriu-se um barril de cerveja para eles no bar externo do convs 
do solrio.

Como acompanhamento, a orquestra de bordo tocava msicas sobre a 
filosofia do beber, algo como O melhor lugar  sempre no 
balco... Assim, todos sentiam-se muito  vontade em toda a 
parte.
 A nica excepo era o Dr. Schwarme. O advogado brigava com Seu 
destino. Sua mulher Erna frequentara um curso de dana dado no 
Atlantis pelo casal de professores Raimondi.
 - Quero finalmente aprender a danar direito! - dissera Erna com 
um jeito impertinente. - As danas modernas! Afinal de contas, 
voc s sabe sair batendo os ps como um urso. No perteno ao 
ferro-velho. S tenho quarenta e sete anos. Ainda d para sacudir 
num boogie. 
 Mas claro que o factor decisivo foi Franois de Angeli ter 
participado do curso. Para ele, essa era a melhor oportunidade 
para conhecer as senhoras mais elsticas e alegres, mesmo que ali 
elas danassem honestamente com seus maridos. Os contactos 
visuais resultariam mais tarde em encontros secretos. O facto de 
ele frequentar o curso com Erna Schwarme s fez aumentar o 
interesse das mulheres exortando-as  competio.
 Os Raimondis danavam de um jeito maravilhoso; eram professores 
bem-humorados e cuidadosos. Corria o boato de que os dois teriam 
ganho uma grande quantidade de prmios internacionais de dana e 
que seriam originrios da Siclia. Na realidade, ambos vinham de 
Witoen, na regio do Ruhr, chamavam-se Ramynovsky e dirigiam uma 
escola de dana em Essensteele. Mas claro que Siclia soava 
melhor, assim como Raimondi: uma aura de mfia os cercava.
 O Dr. Schwarme assistira  primeira aula, examinara de Angeli 
com um olhar sombrio e achara tudo muito idiota. Os Raimondis 
danaram um passo doble, seguiram-se os aplausos estrondosos, 
depois os alunos tentaram os primeiros passos, no que j se 
constatou quem era dotado ou no de senso de ritmo. Erna Schwarme 
tinha ritmo, todo seu belo corpo acompanhou a dana. O Dr. 
Schwarme saiu furioso do Salo dos Sete Mares e foi procurar um 
companheiro de conversa. no o comandante Ludwig Moor tambm 
estava participando da dana - sua parceira era uma dama seca e 
um tanto agitada que de vez em quando caa numa risada sem o 
menor motivo - e o Dr. Paterna encontrava-se no consultrio do 
hospital, Schwarme encontrou Knut de Jongh que, carregando uma 
caneca de vidro cheio de cerveja, procurava um lugar numa das 
mesas do solrio.
 - Ah, isso  a nica coisa certa! - disse o Dr. Schwarme. - 
Construram monumentos para tanta gente, s no construram para 
o inventor da cerveja. - Ele foi no barril buscar um copo e 
depois voltou  mesa de Knut de Jongh. - Posso?
 - Por favor, a cadeira est desocupada.
 O Dr. Schwarme sentou-se, mergulhou num longo gole e depois 
respirou aliviado.
 - Sua mulher tambm o deixou sozinho?
 De Jongh lanou um olhar desconfiado para o Dr. Schwarme.
 - Por qu?
 - A minha est na aula de dana pulando como uma danarina Lulu. 
Ah, como essas viagens martimas transforma as mulheres! A gente 
passa a conhecer novas facetas delas. como um poeta j disse: 
"Ento as mulheres tornam-se hienas e fazem gracejos com o 
horror..." E ento, onde est a sua mulher?
 - No convs CFL.
 - E voc fica sentado aqui bebendo cerveja com essa 
tranquilidade?

 - E por que no? - De Jongh sentiu que o canto do olho comeava 
a tremer. Que significaria essa maldita conversa fiada? Ser que 
o Dr. Schwarme sabia de alguma coisa a mais sobre Sylvia? Ser 
que ela no se encontrava no convs bloqueado?
 - Se fosse a minha mulher, eu no ficaria to tranquilo assim. 
Sua esposa  uma verdadeira beldade. Eu no a deixaria sozinha 
entre aqueles pelados. Suponho que o convs CFL est  disposio 
de qualquer um.
 - Claro.
 - Portanto, tambm para os homens charmosos. - O Dr. Schwarme 
deu uma risada um tanto irnica. - No se faz mais nada junto 
quando j se  um velho aleijo casado. Mas em cada ser humano 
esconde-se a curiosidade e o impulso  descoberta. A terra nova 
sempre excita. Knut de Jongh ficou calado, perplexo. Somente 
agora ocorreu-lhe no ter visto o macaco louro, aquele tal de 
Fehringer, em parte alguma. Ele to-pouco estava nos bares. De 
Jongh bebeu a cerveja e levantou-se. O Dr. Schwarme olhou para 
ele.
 - Tenha um bom-dia! - disse Knut de Jongh.
 - Aonde voc vai agora? - perguntou o Dr. Schwarme com ar 
inocente.
 - Voc no tem merda nenhuma a ver com isso!
 - Obrigado.
 - No tem de qu.
 Com o queixo esticado para a frente qual pugilista que avana 
para o adversrio, Knut de Jongh foi at  escada e subiu. Tambm 
parou e hesitou diante da porta de ferro do dividido convs 
Nelson. Sentiu uma sensao desagradvel ao pensar que dentro em 
pouco teria de passar desnudo diante dos muitos olhares curiosos. 
No que ele tivesse um corpo que devesse ser escondido, ah, no, 
mas era justamente isso que o fazia hesitar.
Havia uma coisa que degradava os homens ao nvel de crianas, to 
logo era feita a comparao. era um grande sacrifcio andar com 
essa coisa  solta. 
 De Jongh bufou pelo nariz, superou a inibio e entrou no convs 
CFL. Tirou o calo de banho atrs da porta, colocou-o debaixo do 
brao, e em seguida, deu de caras com as duas rechonchudas 
senhoras. Elas levantaram a cabea to logo de Jongh entrou e um 
espanto visvel cobriu-lhes os rostos que reluziam a leo. Justo 
na velhice que se viva de certas recordaSes.
 De Jongh seguiu encarniado em frente... e ento viu Sylvia 
deitada bem l atrs com sua nudez exuberante, tranquila e bem 
comportada, o belo corpo exposto ao sol e ao vento quente. Teria 
sido uma cena agradvel, caso o repugnante macaco louro no 
estivesse deitado ao seu lado tambm desnudo. 
 Knut de Jongh pediu perdo em pensamento ao Dr. Schwarme por sua 
grosseria, segurou o calo com a mo direita e atravessou o 
convs. Parou e ficou calado diante de Sylvia e Hans Fehringer. 
Os dois haviam fechado os olhos e entregavam-se por completo ao 
calor.

 De Jongh contemplou os dois corpos sem dizer uma palavra. 
Formavam um par ideal e Knut imaginou como se uniriam com a 
selvajaria da qual Sylvia era capaz. Com os dentes trincados e as 
mas do rosto contradas, de Jongh reprimiu o impulso de enrolar 
o calo na mo e de dar umas bofetadas em Hans Fehringer e 
Sylvia. Seria melhor ainda arranc-lo da espreguiadeira, jog-lo 
contra a parede e aniquil-lo com alguns socos. Destro, d-los-ia 
como um pedao do ferro sob o martelo do ferreiro! Pouco se 
importaria se Sylvia gritasse e grunhisse. Ela tambm merecia uma 
bofetada que a atirasse para o outro lado desse maldito convs 
CFL. 
Ah, mas que grande puta!
 Mas na realidade, de Jongh retornou  porta da mesma maneira 
silenciosa como entrara, tornou a vestir o calo e saiu do 
convs Nelson. Mais uma vez, deu ensejo a que as damas 
rechonchudas junto  porta o admirassem e ficou contente quando 
desceu a escada. O Dr. Schwarme continuava sentado na mesa do 
convs do solrio. De Jongh sentou-se ao seu lado.
 - E ento? - perguntou Schwarme. - Encontrou?
 - Sim. Pode enfiar no rabo essas suas observaSes estpidas. Se 
Sylvia no estivesse deitada l, aquilo seria uma grelha para 
mamais.
 - Puxa, que magnfica comparao! - o Dr. Schwarme aplaudiu. - 
Est com uma imaginao aguada, Sr. de Jongh!
 - E vou agu-la ainda mais! - disse de Jongh em tom de ameaa 
sombria. - Ficarei contente quando chegarmos a Sidney e voarmos 
de volta para casa.
 - At l faltam exactamente catorze dias.
 - Mas que droga, claro! Vo ser os catorze dias mais longos da 
minha vida.
 Ele devia ter razo, mas nesse momento ningum supunha isso.
 Sylvia apareceu no bar Atlantis usando um vestido largo de 
flores imensas, para tirar Knut de Jongh do banquinho e lev-lo 
ao segundo horrio de refeio.
 - Mas  claro que voc no vai comer assim, no - perguntou ela. 
- De calo de banho!
 - Comerei aqui, no buf do convs!
 - E porqu isso? Dei uma lida no cardpio;  genial tudo que h 
para se comer hoje. Um assado dourado ao lcool, sorvete de rum 
com frutas frescas de sobremesas...
 - Ento, tudo bem!
 De Jongh deslizou do banquinho, foi at  cabina, vestiu calas 
e camisa e subiu at o convs principal. Sylvia o estava 
esperando diante da porta de vidro do restaurante, com uma pose 
de esposa bem honesta. Ah, sua vagabunda, pensou de Jongh. Sua 
mulherzinha maldita! Se voc soubesse como me sinto por dentro! 
Sairia correndo e se esconderia. Mas veja, estou sorrindo para 
voc do jeito que s os malditos e estpidos maridos trados so 
capazes de sorrir quando no tm a menor idia do que se passa. 
Agora vou dar-lhe inclusive um beijo na testa, embora voc merea 
que eu parta sua cabea. Voc jamais notar o que estou pensando.
 Bom apetite, minha putinha enfeitada!
 Deu-lhe um beijo, deu o brao  espantada Sylvia e entrou no 
restaurante. Claro que o repugnante cabea loura j estava 
sentado  mesa.
 Mas dessa vez era Herbert Fehringer.

11


 tarde, finalmente, Brbara Steinberg conseguiu pegar o Dr. 
Paterna. Os dois se encontraram no corredor do convs Pacfico. 
Paterna estava voltando de uma paciente acamada, que sofria de 
enxaqueca e que acabara de tomar uma injeco. O mdico de bordo 
depositou a pequena maleta no cho do corredor e piscou o olho 
para Brbara.
 - Mas voc quase no aparece - disse ele com ar jovial. era a 
melhor maneira de superar o grande embarao.
 - Eu mais do que ningum poderia dizer isso de voc. - Brbara 
Steinberg fez um biquinho com a boca um tanto maquilhada demais e 
fingiu estar muito ofendida. Fica bem nela, pensou Paterna. - 
Pensei que voc fosse mostrar-me o Panam. Est lembrado do que 
disse? "Voaremos juntos at San Blas, a ilha dos cunas." Fiz a 
reserva no voo, mas quem no estava no grupo? Voc !
 . - Tive planto no grupo da cidade do Panam. A enfermeira Erna 
ficou com o seu grupo. 
 Paterna mentiu de modo brilhante e incrvel.
 - Se eu soubesse, podia ter cancelado a reserva - disse Brbara, 
agora fazendo-se de apenas um pouco insultada. - Mas Mrio no 
foi encontrado em parte alguma. Eu no quis ir ao hospital... 
justamente por causa da enfermeira Erna. Acho que ela v, escuta 
e prev tudo que acontece no navio.
 - Isso mesmo. Todos os canais de informaSes passam por ela.  
fenomenal a maneira como ela, fica por dentro de tudo... melhor 
do que as cabeleireiras! - Paterna deu uma risada jovial. - Ah, 
mas a quem estou dizendo isso! Voc j sabe disso pelo seu salo. 
Pintar os cabelos e fofocar so o mesmo ritual. Vocs ficam 
sabendo mais das mulheres do que um padre.
 -  verdade. - Brbara Steinberg respirou fundo. - Voc no 
esteve no grupo da cidade do Panam, mas partiu de txi sozinho.
 - Os tambores da selva esto certos! - Paterna bancou o 
engraado.
- Que mais disseram os tambores?
 - Que voc encontrou o cego e flertou com a enfermeira dele.
 - Absurdo! Flertou! A tarefa dela  acompanhar o cego Dabrowski 
por toda a parte e, quando me dirijo a ele,  claro que no posso 
mand-la embora!
 - Ela  muito bonita, no  verdade? Chama-se Beate. Enfermeira 
e mdico, at que combina bem. 
 - Pare com isso agora! - disse Paterna num tom um tanto irado.
 - Em todo o caso,  melhor do que mdico e cabeleireira.
 - A conversa vai continuar nesse tom?
 - Voc disse que me amava.
 - E estava falando srio.
 - Voc me beijou no convs...
 - E beijaria de novo.
 - Mesmo na presena de Beate?
 - Mas  claro que no vai ser necessrio isso.
 - Tem medo de que ela ficasse chocada? Para mim isso no tem a 
menor importncia.
 - Minha Nossa Senhora, h trs dias que nos conhecemos e estamos 
conversando como um casal velhssimo! Que significa esse absurdo, 
Brbara?

 - S estou querendo dizer que no sou o tipo de moa com quem se 
possa brincar. - Brbara Steinberg recostou-se na parede. 
Calou-se porque dois passageiros passaram por eles em direco s 
suas cabinas e esperou at que as portas fossem fechadas. - Tem 
uma coisa que voc no sabe, eu j fui noiva. De um dono de 
salsicharia. A especialidade dele eram bufs frios para festas 
particulares. S que eu no sabia de uma coisa. Ele mantinha 
relacionamentos com a maioria das empregadas das casas finas. 
Elas iam inclusive ao meu salo e eu era obrigada a servi-las. 
Sem saber de nada, como era o meu caso. At que uma contou tudo, 
por cime. Ento, dei um pontap no meu noivo. Nunca mais outro 
homem, foi o que jurei para mim mesma nessa poca. Trate de 
passar a vida bem sozinha. Nunca mais acredite num sujeito quando 
ele sussurrar coisas lindas e lisonjeiras que a gente gosta de 
escutar. Seja desconfiada, eles no prestam. - Ela encarou o Dr. 
Paterna com um ar pensativo. Ele esquivou-se de seu olhar 
inquisidor inclinando-se para a frente e tirando a maleta de 
mdico do cho. - Foi com esse tipo de cabea que eu o conheci. 
Voc no sussurrou nenhuma lisonja, no flertou, apenas me ouviu 
e simplesmente me beijou. Assim, como se fosse a coisa mais 
natural. E eu joguei todos os meus preconceitos por terra... Fui 
precipitada demais? Teria sido um outro erro?
 - Precisamos conversar isso aqui no corredor? - disse o Dr. 
Paterna com um ar meigo. Nesse momento, a meiguice era a nica 
coisa que poderia deter uma exploso.
 - E em que outro lugar? Afinal, desde o Panam que eu no 
consigo chegar a voc .
 - Vamos nos encontrar hoje  noite no bar Olympia, depois do 
baile do Equador: De acordo?
 - Sim. - Brbara balanou a cabea vrias vezes. De repente, seu 
rosto tornou a iluminar-se. - Beije-me! - disse em voz baixa.
- Beije-me, agora!
 - Aqui no corredor? Se algum chegar...
 - Bem rpido! No momento no tem ningum aqui.
 Paterna beijou-a nos olhos e na boca, sentindo-se tremendamente 
miservel e perverso, pois ao faz-lo pensou em Beate Schlichter. 
 - Satisfeita? - perguntou.
 - Por enquanto sim.
 - A grande reconciliao?
 - Ainda est por vir. - Brbara sorriu para ele.
 Paterna achou-a de uma beleza maravilhosa e sentiu-se bem 
mesquinho. Mas qual o homem que, numa situao como essa, 
consegue dizer: minha querida, sejamos sinceros, existe mesmo uma 
outra moa...
 Ao chegar l embaixo, no hospital, o Dr. Paterna teve ento 
tempo de sobra para reflectir sobre tudo, era paz. Esquivou-se da 
enfermeira Erna com a desculpa de que precisava escrever um 
relatrio e deixou por conta dela o atendimento dos doentes da 
tripulao: trs ataduras por causa de ferimentos, dois banhos de 
infravermelho, duas inalaSes. 

 Portanto, aps o baile do Equador ele se encontraria com Brbara 
mas no prprio baile ele danaria com Beate, havia prometido a 
ela. Um empreendimento arriscado e impossvel que s podia 
terminar com uma briga dos dois lados. Por conseguinte, no 
restava outra alternativa a no ser manter-se afastado dos 
prazeres do baile. Um mdico sempre tem uma boa desculpa  mo: 
um paciente est precisando de sua ajuda. A verificao disso era 
impossvel; nenhum estranho tinha permisso para entrar num 
quarto de doente. E esto sempre ocorrendo casos agudos, 
inclusive num navio. Um colapso circulatrio no  algo raro na 
repentina mudana climtica entre Frankfurt e o Panam.
 Assim, o Dr. Paterna decidiu - foi uma tpica deciso de homem - 
arranjar a desculpa de um atendimento de emergncia no hospital e 
afastar-se do caso. Esperou at o jantar para fazer essa 
comunicao. Pouco antes das 20 horas e 15 minutos, ele telefonou 
para Beate e informou que um passageiro idoso fora levado para o 
hospital com um ataque do corao. 
 - Receio que ser impossvel cumprir minha promessa de ir ao 
baile do Equador. Serei obrigado a passar a noite com o enfermo. 
 - Claro que isso  uma desculpa... - Ele ouviu a fulgurante 
risada de Beate e, em pensamento, viu-a  sua frente jogando a 
cabea para trs. - Os pacientes tm sempre prioridade. Quem 
melhor do que eu para ter mais compreenso quanto a isso? Afinal, 
eu tambm tenho um "cego" para cuidar o tempo todo.
 - Voc  maravilhosa, Beate. Mas depois ns descontamos isso. 
Palavra de honra.
 - Aceito sua palavra de honra e anoto-a no corao.
 - Ser que esse lindo caderno de anotaSes pode registrar mais 
coisas?
 - Todas as pginas esto em branco.
 - Ento, Beate, anote e sublinhe em vermelho: Mrio est louco 
de alegria.
 - Por qu?
 - Por t-la conhecido. E por todos os dias que ainda esto por 
vir. Anotou?
 - Est anotado. - Outra vez sua risada clara. - A quem devemos 
rezar para que o hospital no fique lotado de enfermos malogrando 
todos os planos?
 - Ao deus do amor - respondeu ele rpido.
 - Acho que ele s tem competncia para os amantes, no?
 - E para os doentes de amor, claro! Alm disso, pelo que dizem 
por a, o amor remove montanhas. Do ponto de vista puramente 
terico, ele tambm poderia afastar os doentes.
 - Neste caso pedirei ao deus do amor...
 - Faa isso, Beate. Por favor. E quando falar com ele, cite 
sempre meu nome para que ele no esquea, Mrio...
 Ele ps o auscultador no gancho e recostou-se no sof. No vai 
poder continuar assim, pensou ele ao pegar o mao de cigarro. 
Tenho de encontrar uma soluo. Preciso ter clareza: Brbara ou 
Beate? Mas sobretudo: que ser depois de Sidney? Vir ento a 
grande despedida ou a coisa continuar? Vamos trocar acenos e nos 
esquecer? Ou ser que o mundo mudou para mim e eu comecei um novo 
captulo da vida?
 J era bem estranho que um homem como o Dr. Paterna, idolatrado 
pelas mulheres e muito poucas vezes decidido a dar um no, no 
soubesse nesse momento o que fazer. Com a tpica naturalidade 
masculina, disse a si prprio: amo as duas. era de se prever que 
elas no compreendessem ou mesmo aceitassem isso.
 Vamos aguardar, pensou o Dr. Paterna. Ainda faltam catorze dias 
at Sidney, muitas coisas podem acontecer! Em geral, as situaSes 
enredadas resolvem-se por si s, sem a interveno de ningum, s 
precisamos esperar.
 - Por favor, meu jantar no hospital - ele telefonou para a 
cozinha. - No vou sair daqui.


O baile do Equador foi um sucesso total. O cantor de cmara Rieti 
condescendeu em cantar uma cano veneziana. A cantora Reilingen 
trauteou a Valsa da Primavera de Strauss. O show-man Hanno 
Holletitz interpretou algumas coplas. O mgico tirou pequenos 
Neptunos da cartola. E a cantora pop Zizzi sonhou com praias dos 
mares do Sul. Enquanto isso danou-se, o tridente de Neptuno foi 
leiloado - foi ganho por Knut de Jongh pela quantia de 3.200 
marcos - e fez-se o que  chamado de vida social. Todos os 
oficiais, tendo  frente o comandante Teyendorf, encontravam-se 
no salo, trajados com calas pretas e palets brancos, dando ao 
baile um qu especialmente festivo. S faltou o Dr. Paterna, em 
geral o mais elegante de todos. Teyendorf puxou seu 
primeiro-oficial a um canto.
 - Onde est o nosso curandeiro, Kempen?
 - Desde a tarde que no o vejo. A ltima vez que o vi, ele 
estava deambulando pelos corredores com sua maletinha de mdico.
 - Temos casos graves a bordo?
 - No tenho a menor idia.
 To-pouco o director de hotel Riemke, que em geral estava sempre 
orientando sobre tudo e de quem nada escapava do que ocorresse a 
bordo - afinal, essa era sua tarefa -, sabia de alguma coisa. 
Caso grave no hospital? Nenhuma idia. Paterna no dissera nada.
 - Vou dar um telefonema - disse ele.
 O Dr. Paterna atendeu no acto.
 - Esto sentindo a sua falta, doutor - disse Riemke. - H pelo 
menos uma dzia de lindas mulheres melanclicas por aqui, todas 
chorando por sua causa. Voc no pode fazer isso com essas 
beldades! Onde  que voc est? Est acontecendo alguma coisa a 
no seu subterrneo?
 - Nada. Todas as camas vazias...
 - Ah, mas isso  raro em se tratando de voc! - Riemke deu uma 
risada insinuante.
 Paterna riu em resposta.
 - Eu simplesmente no estou com vontade... talvez por causa 
dessa dzia...
 - Mas esse  o destino dos homens bonitos. Tambm s estou 
telefonando porque o comandante perguntou por voc . Sabe como , 
um baile como este faz parte do servio oficial e todos os 
portadores de galSes dourados devem estar presentes.
 - Por favor, pea minhas desculpas a ele. Talvez eu ainda 
aparea por a, quando terminar o grande tumulto...

 Por volta da uma da madrugada, Paterna subiu at o bar Olympia. 
Estava quase vazio, havia apenas alguns passageiros mais velhos 
sentados nas poltronas fundas acompanhados de suas mulheres, 
bebendo champanhe e trocando recordaSes da vida. Os dois 
comissrios de bar estavam recostados atrs do gigantesco balco 
redondo, uma Comissria loura aboletara-se numa cadeira ao fundo 
e bocejava de cansao. Para cumprir o contracto, o pianista 
tocava ao piano branco, situado no meio do lindo e imenso bar com 
sua janela panormica, melodias de todas as operetas. Quando 
fazia uma pausa, era recompensado por palmas apagadas. Ento, ele 
fazia uma vnia rgida e dava um sorriso atormentado. Ao 
contrrio do bar Atlantis ou mesmo do Clube do Pescador, o 
Olympia era o refgio educado dos fregueses em busca de paz e 
reflexo. Ali ocorriam tambm os encontros bem aristocrticos no 
decorrer da viagem: membros do Rotary ou do Lions Club reuniam-se 
num isolamento feudal. Queriam estar entre conhecidos. Ali j 
tivera lugar inclusive um congresso de mdicos numa viagem pelo 
oceano +ndico; congresso este que terminou com a formao de trs 
grupos de mdicos que tiveram discussSes acaloradas e, no fim da 
viagem, nutrindo um dio figadal pelos outros, foram embora sem 
cumprimentar-se. Quando o Dr. Paterna contava esse facto, chegava 
a chorar de tanto rir.
 Nesse momento, os comissrios do bar acenaram para ele, a 
comissria levantou-se para ir anotar o pedido. J ao entrar pela 
larga porta giratria de vidro, Paterna vira Brbara Steinberg 
sentada sozinha numa das mesas diante da janela panormica.  
noite, as imensas vidraas eram cobertas por cortinas; s no 
eram fechadas nos portos, quando o Atlantis ficava parado no cais 
com o topo todo embandeirado.
 Paterna estava prestes a dirigir-se at Brbara com passos 
vigorosos, quando petrificou-se por dentro. Cinco metros adiante 
estavam sentados Edward Dabrowski e Beate Schlichter, numa 
posio que no podia ser vista da entrada, posto que o espao 
redondo era encoberto em parte pelo balco. era evidente que o 
cego estava desfrutando da paz e de uma boa garrafa de bordeux, 
enquanto Beate decidira-se por um coquetel de champanhe.
 Meia-volta! Paterna pensou com seus botSes. Virar agora mesmo e 
dar o fora daqui! Mas j era tarde demais para isso. Brbara 
Steinberg, que o esperava havia mais de uma hora, sempre de olhos 
grudados na porta, j o vira e acenara para ele. Isso tambm 
despertou a curiosidade de Beate, ela virou a cabea um pouco e 
seu rosto petrificou-se. O pianista arreganhou um sorriso e, com 
prfida alegria, tocou e beijou a mulher com gosto.
O Dr. Paterna lanou-lhe um olhar aniquilador.
 - At que enfim! - disse Brbara estendendo-lhe a mo. - Eu j 
estava pensando: ele vai dar o bolo.
 - E por que eu haveria de dar? - Paterna sentou-se e esperou que 
a comissria anotasse seu pedido: uma garrafa de vinho francs do 
interior. - Como foi o baile?
 - Com certeza bonito para todos os outros. 
 - E para voc?
 - S pensei em voc ... - ela deu uma risada clara e inclinou-se 
sobre a mesa. - Veja s quem est sentada l atrs! Que 
coincidncia!
 - Ora, quem est sentada l? - Paterna fingiu nada ter visto.
 - O seu flerte do Panam. A enfermeira do cego. No quer 
cumpriment-la?
 - Por qu? - como todos os homens, Paterna tambm era de uma 
covardia ingnua. J que no se pode sair correndo, o melhor  
fazer-se de bobo. Isso sempre funciona por um curto perodo de 
tempo. - No estou de planto.
 - Mas ele est olhando fixo para c, como se quisesse te dar uma 
punhalada com o olhar.
 - No seja ridcula, Brbara. - O Dr. Paterna ficou contente por 
estar sentado de costas para Beate, sem poder v-la.
 - Suas costas devem estar pegando fogo de tanto que ela o queima 
com os olhos.
 - Se essa for a nossa conversa, eu me levanto agora mesmo e vou 
embora.

 - Tambm sou a favor. Vamos nos levantar e ir para o tombadilho. 
Eu gostaria de dar-lhe um beijo; aqui no pode ser. Voc est de 
uniforme, eu sei, j li isso: um oficial uniformizado no pode 
beijar em pblico, deve manter sempre a dignidade. Mas estaremos 
a ss no tombadilho, ou ento entre outras pessoas que se amam. - 
Ela encarou-o com os imensos olhos redondos. - Voc me ama 
mesmo...
 - Ser que terei de repetir isso sempre? - esquivou-se ele.
 - Sempre, a cada hora, a cada duas frases: "O cu estrelado no 
est encantador? Eu te amo! Olha como o luar dana sobre as 
ondas. Eu te amo!"  to gostoso escutar.
 Minha situao  francamente miservel, pensou o Dr. Paterna, 
enquanto, nesse momento, a comissria lhe servia o vinho. Diante 
de mim, Brbara, uma moa lindssima; e atrs de mim, Beate, no 
menos desejvel... e eu amo as duas! uma coisa maluca, como 
terminar isso? Nenhuma mulher compreende quando lhe explicam que 
o homem  polgamo por natureza.
 - Hoje foi um dia agitado no hospital - disse ele. - Iremos 
daqui a pouco para o convs, s gostaria de recuperar-me um pouco 
com o vinho.
 O pianista tocava agora ao piano branco a msica. Sejam louras 
ou morenas, eu beijo todas as mulheres... e, enquanto tocava, 
sentia-se muito, muito engraado. De repente, o bar Olympia 
encheu-se de tumulto; os mdicos de Hamburgo entraram formando 
uma tropa animada e ocuparam os banquinhos. Alguns passageiros 
mais velhos pagaram e levantaram-se; acabara-se a paz.
 - Vamos dar o fora tambm - disse Paterna assinando a conta. 
Estendeu a mo para Brbara, puxou-a da poltrona funda e no pde 
impedir que ela se enganchasse em seu brao na mesma hora. O 
mdico no ousou dar nenhuma olhada para o lado onde Beate estava 
sentada. Que outro homem teria se comportado de modo diferente?
 Os dois passaram pelo bar sendo logo incomodados pelos mdicos.
 - Senhor colega! - gritou o porta-voz do grupo, um sujeito 
taurino de mos enormes como pratos, em quem no se via um 
ginecologista. - Um traquino  corporao! Venha at ns. 
Ficaremos com essa linda beldade.
 - Amanh, meus senhores. - O Dr. Paterna fez um gesto de recusa. 
- J estou de partida e ainda preciso ir ver um paciente.
 - Agora! A essa hora?
 - Vocs no conhecem isso? Que felizardos!
 - Doentes nocturnos! - um dos mdicos agitou as mos no ar. - 
Comigo nunca mais, Colega! Eduquei meus pacientes para esperarem 
at o dia seguinte. Voc tambm devia deixar isso claro para as 
pessoas: estamos aqui num navio para ver o mundo alegre e no num 
hospital militar!  preciso que os pacientes sejam os primeiros 
da fila.
 O Dr. Paterna preferiu no meter-se nessa discusso superficial 
e saiu rapidamente do bar Olympia ao lado de Brbara. L fora, na 
escadaria, ela deu-lhe um beijo na face. 
 - Acho os bbados nojentos! - disse ela. - Mas as bbadas so um 
horror! E voc, voc bebe muito?
 - Pouco. - O Dr. Paterna sentia-se miservel. Brbara o beijava 
e ele pensava em Beate. Que situao! - No acha que agora est 
um pouquinho frio aqui no tombadilho?
 - E aonde voc quer ir, Brbara?

 - Uma proposta:  sua cabina.
 -  minha cabina? - Paterna sentiu-a enrijecer-se de novo em seu 
brao, exactamente como no primeiro beijo. - Impossvel...
 - Na certa ningum nos ver. Mas se voc est com medo... vamos 
 minha cabina...
 - No hospital? A enfermeira Erna...
 - Minha cabina tem uma segunda porta, pelo laboratrio.
 - No, Mrio. - Ela sacudiu a cabea e recostou-se nele. - Eu j 
lhe disse como  a coisa comigo. No sou do tipo de moa que vai 
logo topando.
 - No foi o que eu quis dizer, Brbara! - disse Paterna 
desconcertado. - Claro que no.
 - Mas deu no mesmo. No existe defesa contra isso e  disso que 
tenho medo. Por enquanto... - ela lanou-lhe um olhar inseguro.
- Vamos andar no tombadilho, por favor! Para mim no est to 
frio assim.
 No bar Olympia, Beate pediu um coquetel forte. Ela examinara a 
lista de bebidas e escolhera o que lhe pareceu mais forte: Blade 
Runner, um coquetel de vodca, rum carta branca, cointreau, suco 
de limo e laranja amarga. Ewald Dabrowski coou o queixo.
 - At mesmo um cego de verdade farejaria isso; esse negcio no 
 para mocinhas.
 - No sou mais uma mocinha! - Beate soou teimosa e frentica, de 
um modo que Dabrowski no conhecia. - E se depois eu desmaiar...
 - Mas  claro que um cego no poder lev-la para a cama, 
garota.
 - Logo aparecer algum que me reboque.
 - At eu tossiria com um Blade Runner. Beate, no leve a coisa 
to a srio.
 - O qu? - perguntou ela com um jeito de criana mal-educada. - 
O que  que no deve ser srio?
 - Esse seu Dr. Paterna  um homem livre.
 - Ele no  o meu Dr. Paterna!
 - Bem, e ento? Porqu esse alvoroo?
 - No tenho nenhuma inveja dessa burra pintada por causa dele. 
Voc viu como ela se comportou? Com que olhos arregalados ela...
 - Minha criana, eu sou cego. - Dabrowski deu uma risadinha. - 
como  que poderia ver esse tipo de coisa?
 O Blade Runner chegou, Beate tomou um pequeno gole cauteloso e 
depois ficou ofegante.
 - Nossa... mas  gostoso! Justamente o certo. Pode divertir-se  
minha custa. Voc  o chefe. A dana do pessoal est includa no 
salrio. 
 - Beate, voc ama o Dr. Paterna?
 - Talvez...
 - Mas voc nem o conhece. As poucas horas no Panam... e ainda 
por cima eu estava junto. 
 - Por acaso nos quarenta anos de sua vida, voc nunca teve a 
sensao: agora eu sou terrivelmente feliz?
 - Claro. Uma vez. Aos cinco anos. Foi quando ganhei meu primeiro 
comboiozinho elctrico e quebrei-o numa hora. Ah, que 
experincia!

 - Chefe, por que voc no consegue falar srio pelo menos agora? 
Bem, goste voc ou no de escutar: sim, eu me apaixonei pelo Dr. 
Paterna. Ningum pode mudar isso.
 - Eu prometi aos seus pais que tomaria conta de voc - de 
repente Dabrowski ficou bem srio. Beate percebeu que nesse 
momento ele a estaria encarando com um ar admoestador atravs dos 
culos de lentes escuras. - Pode confiar que eu impedirei que 
voc seja vtima de um playboy como o Dr. Paterna.
 - Vtima? Que significa isso?
 - Exactamente o que pode acontecer com uma moa inocente como 
voc.
 Ela encarou-o com olhos arregalados, depois recostou-se, cruzou 
as pernas e, consciente, bebeu devagar um gole do coquetel-bomba. 
Ao repor o copo em cima da mesa, disse de modo bem inspido:
 - No sou mais uma moa inocente. Para a sua informao, Sr. 
Dabrowski. J aconteceu, quando eu tinha dezassete anos.
 - Pombas, cacete, seus pais no sabem disso!
 - E o que  que os pais tm a ver com isso? O rapaz era 
estudante. No segundo semestre de teologia.
 - Ainda por cima isso!
 - Hoje ele  sacerdote em Oldenburg e j tem dois filhos.
 - Ora elabora! Essa de novo! - Dabrowski sacudiu a cabea. - 
Tome seu drinque, garota, e me reboque para a cabina. A noite 
acabou para mim. E para voc tambm. Busque-me amanh s nove 
para o desjejum no convs.
 Dabrowski, conduzido pela "enfermeira" Beate, passou pela 
ruidosa mfia de mdicos de Hamburgo e saiu do bar Olympia 
tacteando o caminho com a bengala branca. Os mdicos calaram-se 
por alguns instantes, enquanto o seguiam com a vista. Quando a 
porta de vidro tornou a fechar-se, o ginecologista disse:
 - Se esse cara enxergasse essa coisinha que o conduz, viraria um 
corredor de primeira. 
 - Thea, no se esquea do tacto dos cegos! - gritou algum do 
fundo.
 Outras observaSes sucumbiram nas estrondosas gargalhadas.
 Beate levou Dabrowski para a cabina e prometeu que tambm iria 
para a cama. De facto, ela dirigiu-se  sua cabina; contudo l 
permaneceu apenas uns cinco minutos e depois saiu para a 
escadaria dos fundos. Desceu a escada pulando de dois em dois 
degraus, at parar diante da porta que dava para o tombadilho. 
Abriu a pesada porta de vidro com um empurro e saiu ao luar 
realmente prateado. Um cu estrelado como ela nunca vira antes, 
servia de abbada para um mar quase liso.
 Avanou at a amurada, olhou para os dois lados e viu Brbara, 
tambm parada junto  amurada, debaixo do primeiro bote 
salva-vidas. Estava sozinha olhando imvel para a gua tingida de 
prata.
 Beate respirou fundo, tirou o cabelo da testa e dirigiu-se a 
Brbara dando passos largos. No viu Ewald Dabrowski aparecer 
pela mesma porta que ela chegara ao tombadilho e esconder-se nas 
sombras.
 Ento, Brbara e Beate estavam lado a lado, com os olhos fixos 
na gua e caladas durante um bom tempo. No final, Beate rompeu o 
encarniado silncio.
 - Por que voc no diz nada? - perguntou ela. - Afinal, as duas 
sabemos porque estamos aqui. Voc esperava por mim.

 Foi como se Brbara Steinberg no tivesse escutado som algum. 
Seguiu de olhos fixos no mar que reflectia o luar, sem virar a 
cabea para Beate. Mas depois, de repente, ela disse com voz 
hesitante:
 - O que voc quer de mim?
 - E voc ainda me pergunta? - Beate Schlichter inclinou-se um 
pouco em sua direco. Nesse momento, viu com toda a clareza o 
rosto de Brbara, seus olhos, a boca e emudeceu na hora. Meu 
Deus, ela est com medo! De facto, est a quase desamparada, 
como que abandonada e diante de algum perigo, sem saber o que 
fazer. O silncio dela no  uma provocao, mas sim a expresso 
de seu pavor: Ela no est aqui para lutar, mas sim - digamos que 
de um modo um pouco exagerado - para sacrificar-se.
 Sim, ela simplesmente est com medo.
 - No sei o que voc quer de mim... - a postura de Brbara tinha 
uma certa rigidez.
 - Voc ama o Dr. Paterna?
 Que pergunta! To directa como um soco... e, pelo que Beate viu, 
o soco acertou em cheio. Brbara estremeceu.
 - Sim - respondeu e depois tornou a hesitar. Ela virou-se um 
pouco para Beate e examinou-a, no de um modo hostil, nem 
depreciativo e, de maneira nenhuma, com desprezo; havia um qu de 
humildade naquele olhar. - Sei o que voc quer dizer - prosseguiu 
ela ento e, de palavra a palavra, sua fala foi ficando mais 
rpida - sei muito bem, pois meu pai diria o mesmo: afinal voc 
s o conhece h alguns dias, voc est num navio, numa viagem de 
muito sol e alegria... a o mundo fica bem diferente do 
quotidiano cinzento. Dentro de um par de semanas voc voltar e 
ento no haver mais palmeiras, nem praias brancas ou areias de 
coral, nenhum mar azul-claro e nenhum cu infinito cheio de sol. 
Voc voltar ao seu salo de cabeleireiro, trabalhar das nove da 
manh s sete da noite ou mais tarde ainda e, ento, suas pernas 
estaro doendo, incharo e voc ficar contente em poder 
deitar-se no div com os ps para cima. A fria do dia foi boa, 
mas voc est liquidada, totalmente quebrada. Quo longe estar 
ento o Pacfico. Que distncia infinita at os mares do Sul! 
Isso ser uma recordao capaz de arrancar suspiros, mas apenas 
uma recordao para a qual se economizou durante anos a fio, 
marco aps marco, a fim de se viver uma vez na vida algo parecido 
 aventura da grande distncia. Quem era Mrio? Ah, sim, o Dr.: 
Paterna, o mdico de bordo. Algumas semanas de felicidade - o que 
se chama de felicidade -, depois um aperto de mo, talvez um 
abrao tambm, um aceno... e o autocarro vai embora para o 
aeroporto. Acabado, tudo acabado, pois nunca, jamais devemos 
aferrar-nos ao que  dito na despedida: voltaremos a nos ver... 
irei visit-la... no a esquecerei... se voc puder esperar, tudo 
ser diferente... esperar! To logo o autocarro parte, voc j 
sabe que aquele aceno ser a ltima coisa que ver dele. Assim  
a vida, nada diferente disso. - Ela passou a mo pelos cabelos 
louros penteados para o alto tirando uma mecha da testa. - Talvez 
voc tenha razo em tudo, mas no quero acreditar nisso. S sei 
duma coisa: eu o amo.
 - E voc acha que dar certo?

 - Voc pensou nisso tambm. - Um dolorido sorriso percorreu o 
rosto de Brbara. - Por acaso voc tambm no est flutuando 
sobre uma onda de esperana? Sei que Mrio passou com voc o dia 
no Panam, as fofocas dos passageiros pularam, as pessoas 
procuram sensaSes e temas de conversa no navio depois que cada 
grupo passou a saber tudo dos outros. E ainda temos algumas 
semanas pela frente... Eu sei inclusive o que voc comeu e bebeu.
- E eu sei que Mrio te beijou uma noite no convs.
 Brbara ergueu a cabea de supeto.
 - J esto falando disso?
 - No. Eu vi, por acaso. Eu tambm quis vir ao convs. Parei 
junto  porta l do outro lado e depois retornei  minha cabina. 
No senti nenhuma inveja, no, absolutamente nada. Nessa poca o 
Dr. Paterna me era indiferente. Eu apenas no quis incomodar. Mas 
depois veio o Panam e desde ento tudo ficou bem diferente.
 - Ainda mais recente do que o meu caso? E voc ainda se admira? 
- Brbara Steinberg sacudiu a cabea. Uma resposta muda  prpria 
pergunta. - Voc quer que eu d a liberdade a Mrio?
 - Voc ainda no  a dona dele.
 - E voc menos ainda! Por acaso devemos duelar por causa dele? 
No me venha com esses chamados argumentos sensatos de que um 
mdico no tem nada a ver com uma cabeleireira, de que uma 
enfermeira combina muito melhor com ele do que uma 
cabeleireira... Voc conhece os planos de Mrio?
 - No muito - disse Beate hesitante.
 - Mas eu sim. Ele vai navegar mais dois anos pelos mares e 
depois uma clnica particular exclusiva nalgum lugar do sul da 
Alemanha. Com todas as terapias modernas que custam muito 
dinheiro e no fazem mal a ningum. Uma clnica da moda, como se 
diz por a. Eu posso ajud-lo nisso...
 - Com um salo de cabeleireiro na clnica? Nada mal! - a frase 
devia soar com sarcasmo, mas saiu com um certo espanto 
concomitante.
 - No s isso! como dona de salo, eu aprendi a fazer a 
contabilidade, registros nos livros, impostos, clculos. 
Portanto, posso ajud-lo com uma base mais ampla. Posso ajud-lo 
em toda a administrao; ele s precisar estar presente para 
seus pacientes.
 - Vocs j conversaram a esse respeito? - de repente, Beate 
disse "vocs" como se tivesse reconhecido que Mrio e Brbara 
fossem companheiros.
 - No. Mas eu o farei.
 - E se ele esquivar-se, se ele, como todos os homens, usar o 
futuro como desculpa: no podemos saber o que ser daqui a dois 
anos? Vamos aguardar, minha querida. Ainda  cedo demais para j 
fazermos planos... E se ele reagir assim?
 - Ento ficarei sabendo melhor. - Brbara Steinberg tornou a 
tirar a mecha de cabelo da testa. Da terra firme soprava um vento 
quente bem leve que era sentido como uma carcia. Alm disso o 
infinito cu estrelado e o mar coberto pelo luar de prata - se 
algum pintasse esse quadro, ficaria terrivelmente cafona. Nada  
mais cintilante e multiforme do que a vida verdadeira; nada  to 
mltiplo como a natureza, do nascer ao pr-do-sol e pela noite 
adentro. - Isso tambm passar, Beate. Posso cham-la assim?
 - No tenho nada contra, Brbara.
 As duas deram-se as mos, de um modo hesitante, sem apertar, 
depois retiraram-nas num movimento rpido, como se aquele aperto 
de mo pudesse infeccion-las. De qualquer modo, fora armada uma 
ponte forte o bastante para que nela se caminhasse.

 - E ento, o que ser? - perguntou Brbara. - No  uma situao 
bem maluca? Voc ama Mrio, eu amo Mrio, uma de ns duas est 
sobrando. Voc quer que eu v para o inferno, eu desejaria que 
voc nunca tivesse nascido. No entanto, vamos ser obrigadas a 
conviver no mesmo navio durante semanas, nesse espao apertado 
que no tem sada. Vamos nos ver todos os dias, vamos nos vigiar 
e odiar; tentaremos suplantar a outra; pelas noites morderemos o 
travesseiro de tanto cime s de pensar: agora ele est com 
aquela sirigaita! E uma de ns ser repelida e voltar dessa 
viagem triste, humilhada. No  uma espcie de loucura?
 - Uma proposta: por que no deixamos a deciso por conta de 
Mrio?
 - era isso mesmo que eu queria dizer. Ele precisa ter certeza 
sobre qual de ns duas ele ama mais.
 era exactamente essa deciso que o Dr. Paterna mais receava. 
Quando se despedira de Brbara h alguns momentos atrs, ele 
ficara muito contente com o facto de ela querer continuar um 
pouco mais no convs, pois o ar estava to magnfico e o cu 
estrelado to inesquecvel. Na mesma hora, ele desceu de elevador 
at o bar Olympia, mas Beate e Dabrowski j haviam ido embora. 
Somente a mfia dos mdicos de Hamburgo continuava a baguna por 
l, aps ter "limpado" o bar dos outros passageiros; agora 
estavam  vontade contando piadas de medicina. As pessoas que 
conhecem essas piadas compreendem porque a cada minuto o ambiente 
se enche de gargalhadas estrondosas.
 O Dr. Paterna lanou um rpido olhar pelo bar, acenou uma recusa 
agradecida ao convite para ir participar do crculo de colegas e 
depois foi percorrer todos os lugares nos quais Beate pudesse 
encontrar-se. Mas no encontrou-a nem no bar Atlantis nem no 
Clube do Pescador e to-pouco nos vrios conveses.
 Bem deprimido, desceu ao seu "subterrneo", o hospital, e 
deitou-se na cama com pensamentos sombrios. Sucumbira a um estado 
no qual como se conhecia e no qual, com sua experincia quase 
infinita com as mulheres, no deveria entrar: apaixonara-se. 
Aquilo j no era mais um flerte como as centenas de outros dos 
ltimos anos, mas sim um amor que o corroa at a medula. S que 
esse amor estava voltado para duas moas; isso era o fatal.
 No tombadilho, Beate hesitou aps ter recuado dois passos da 
amurada.
 - Voc no vem junto? - ela perguntou a Brbara Steinberg.
 - Aonde? - Brbara encarou-a espantada.
 - Pensei que voc tambm quisesse ir dormir.
 - No. Estou agitada demais por dentro. Gostaria de ficar 
olhando o mar mais algum tempo para acalmar-me. Essa tambm  a 
sua primeira viagem martima, Beate?
 -  a minha terceira.
 - No meu caso  a primeira... e tambm, por longo tempo, a 
ltima. Mas estou comeando a gostar do mar.
 Dabrowski estava esperando na escadaria quando Beate retornou da 
amurada. Ela parou assustada e com a respirao agitada.
 - Voc ... voc me seguiu? - sua voz tremeu um pouco.

 - Essa expresso est errada, Beate. Eu tinha tanta certeza como 
minha orelha esquerda est no lado esquerdo da cabea que voc 
sairia da cabina depois de um rpido momento de espera, a fim de 
ir observar Paterna e Brbara Steinberg. Mas no sabia como voc 
se comportaria, por isso eu a segui.
 - E como me comportei?
 - De um modo estupendo. Simplesmente estupendo, Beate.
 - Obrigada, Sr. Dabrowski.
 - Seria mais estupendo ainda se voc percebesse que o melhor a 
fazer  parar de venerar o Dr. Paterna.
 - Precisamos conversar sobre isso s duas da madrugada numa 
escadaria?
 - A gente deve malhar o ferro enquanto ele ainda est quente. 
Depois fica muito mais difcil. Voc vai querer meter-se entre 
Brbara e Paterna?
 - Meter-me, eu?! S estou reagindo  aco dele.
 - , pode-se dizer assim. Trate de cortar essa sua reaco. 
Ficou bem claro para voc o que Paterna significa para Brbara. 
Ele  o destino dela.
 - E quem foi que perguntou isso? - disse ela de modo duro, com o 
rosto inflexvel. - Por acaso eu no tenho destino?
 - Ora, no fique plantada a como se fosse uma antiga tragdia 
grega! Paterna e voc ... os dois no combinam. No seu caso 
trata-se de uma paixo fulgurante, no caso dele apenas um flerte 
ardente e vai acontecer exactamente o que Brbara disse com tanta 
sapincia: despedida em Sidney, uma piedosa promessa de 
reencontro, juras de amor... e depois o silncio! Depois de seis 
meses, tudo no passar de uma lembrana borrada.
 - Voc ficou escutando no tombadilho?
 - Eu estava na sombra da porta e escutei tudo. Cada palavra.
 - Puxa!
 - Assumo isso. Escutar sem ser visto tem um certo valor. Agora 
eu sei mais e voc tambm! - Dabrowski aproximou-se dela e 
envolveu-lhe a cintura com o brao. Nesse momento, sentiu um 
tremor interno percorrer-lhe o corpo. - Venha! - disse em tom 
paternal. - V deitar-se, tente dormir. A coisa  to ruim assim?
 -  muito pior.
 - Isso passa. D uma sacudidela no corao e trate de coloc-lo 
de volta ao lugar certo.
 - Vou tentar, Sr. Dabrowski.
 De repente, Beate comeou a chorar como uma criana pequena que 
d um tombo. E Dabrowski levou-a at  cabina, deu-lhe um beijo 
na testa e disse ao sair:
 - Chore at lavar a alma. Amanh tudo ser mais fcil e o mundo 
parecer como deve ser: ensolarado, cheio de aventuras, cheio de 
novas descobertas... simplesmente lindo.
 Ela concordou, jogou-se na cama e continuou chorando... 

 Guaiaquil.
 No  apenas uma cidade porturia sul-americana, no somente o 
maior porto do Equador, ou um memorial sempre vivo dos 
conquistadores espanhis sob o comando do capito de Pizarro, 
Sebastian de Belalczar, que, em 1533/1534, conquistou o pas do 
rei inca Huascar, um filho do famoso soberano inca Atahualpa, e 
entregou-o  coroa espanhola... Guaiaquil  a porta para um dos 
pases mais fascinantes do norte da Amrica do Sul.

 J a entrada pelo Pacfico na foz do rio Guayas, em cuja margem 
do delta est situada a cidade de trs quartos de milho de 
pessoas, tem algo de sensacional. De repente, fica-se cercado de 
ilhas de mangues flutuantes que deslizam indolentes pelo rio 
largo e de colorao amarela parda indo em direco ao mar, pois 
em toda a volta do navio estende-se uma paisagem de selva. A 
selva impenetrvel alterna-se com imensos pntanos de mansSes. 
Nos terrenos baixos dos afluentes abrem-se gigantescas plantaSes 
de bananas, campos de caf e cacau, arroz, cana-de-acar e 
algodo. Exploram-se as madeiras nobres e as corantes das 
florestas tropicais que em grande parte ainda no foram 
transformadas em cidades. Ali guincham os macacos do Novo Mundo, 
as preguias penduram-se nos galhos das rvores, matraqueiam os 
papagaios e voam em bandos os colibris, pelicanos e alcatrazes... 
um paraso quente e hmido, no qual a temperatura do dia nunca 
vai abaixo dos 31 graus. Nos rios afluentes do Guayas, 
revolvem-se as capivaras no solo pantanoso, os crocodilos 
espreitam suas presas e as guas esto apinhadas das temveis e 
vorazes piranhas, que em poucos minutos so capazes de roer at o 
esqueleto de qualquer poro que caia na gua. Ao longo da margem, 
cips e orqudeas enroscam-se nas rvores, florescem as bromlias 
e a humidade evaporada sobe qual nvoa dos exuberantes pntanos 
dos manguezais.
 Viaja-se por entre esse magnfico, porm, perigoso mundo de 
encanto em direco  cidade de Guaiaquil. Da costa com seus 
amplos e frteis aluviSes que transformaram o Equador no maior 
produtor de banana do mercado mundial, pode-se, com bom tempo, 
ver a outra terra: a cordilheira dos Andes, a sierra, que corta 
todo o pas numa extenso de 650 quilmetros, coroada com os 
brancos picos glaciais do Chimborazo, de 6.267 metros de altura e 
do vulco Cotopaxi, ainda em actividade, com 5.897 metros, o mais 
alto vulco activo do mundo.  sua volta, uma cadeia de vulcSes 
extintos, cobertos de gelo e da neve eterna, projectando-se num 
cu incrivelmente azul. Bosques montanhosos e nebulosos cobrem os 
flancos dos morros e ali, no leste, onde a cordilheira afunda na 
plancie do Amazonas, comea a selva tropical, habitada apenas 
por poucos ndios selvagens que, qual nmadas, vivem mudando de 
um lugar para o outro.
 Somente no meio das terras altas, onde medram o milho, o trigo, 
a batata, as verduras e frutas, onde se criam porcos e vacas  
que os ndios tornaram-se sedentrios: a tribo dos ndios 
quchuas, descendentes directos dos lendrios incas.
 Guaiaquil.
 Guaiaquil significa tambm: a sede do episcopado com a 
maravilhosa catedral, a famosa igreja de So Domingo na cidade 
velha de Las Penas, avenidas largas e parques, o monumento aos 
heris da libertao da Amrica do Sul, Jos de San Martin e 
Simon Bolvar. Mas sobretudo uma pequena maravilha de beleza 
imponente: o cemitrio de mrmore. Ali fica-se mudo de admirao 
diante de centenas de pequenos mausolus e anjos de mrmore 
branco, dos monumentos esculpidos cheios de expresso alegrica e 
de milhares de cmaras sepulcrais encravadas em paredes de 
mrmore branco, com trs, quatro andares uns sobre os outros... 
uma cidade de luxo singular para os mortos.

 Sul-americanos ricos de todos os pases, mas tambm 
Norte-americanos e europeus, comovidos com esse cemitrio de 
mrmore, expressaram em seus testamentos o desejo de encontrar 
ali a paz derradeira, sob um monumento esculpido em mrmore s 
para si. E, assim, caminha-se por entre os esplndidos monumentos 
sepulcrais lendo-se nomes do mundo inteiro, para-se diante do 
gigantesco Cristo do lado frontal do cemitrio, cujas mos, em 
gesto de bno, tudo abrangem, e ento se compreende de repente 
que aquele lugar  um smbolo da crena, da humildade e da 
esperana, um monumento de mrmore  imortalidade.
 Diante do comprido muro do cemitrio, na ampla calada da rua, 
ficam sentados os ndios e mestios oferecendo flores aos 
visitantes. Imensas coroas e grinaldas de todas. as cores, 
adornadas com enormes fitas e laos, arranjos artsticos e buques 
de cores vivas... e tudo isso artesanato domstico feito de 
flores de papel e caules de plstico, ou fornecido pelas fbricas 
de flores de papel.
 Guaiaquil. 
 Mais do que um porto;  um monumento aos sculos inolvidveis.
 Foi mais ou menos assim que Juan de Garcia explicou a cidade 
para Thea Sassenholtz, ao aterrissar no aeroporto de Guaiaquil 
vindo do Panam. Haviam sobrevoado as selvas e o Alto Amazonas 
com um tempo to claro que as pessoas acharam que podiam tocar as 
copas das gigantescas rvores da selva. Sobrevoaram algumas vezes 
acampamentos solitrios de ndios rechaados para dentro da 
infinita floresta tropical, espaos vitais desbravados, em sua 
maior parte situados junto ao leito de rios que asseguravam a 
vida dos nativos: peixes, animais selvagens abatidos com as setas 
envenenadas das zarabatanas, quando aproximavam-se do rio para 
beber, e milho selvagem.
 - L embaixo existem tribos indgenas nunca vistas por nenhum 
branco, que nunca toparam com um branco - disse Juan de Garcia. - 
Ningum consegue penetrar na selva at esse ponto. Os ndios 
matariam na hora, cortariam a cabea e depois reduziriam seu 
tamanho para pendur-la na cabana como trofu de vitria.
 - E o que eles pensam quando um avio como esse passa 
trovejando? - Thea Sassenholtz ergueu os ombros arrepiada e olhou 
para a selva virgem l embaixo.
 - No sei. No princpio devem ter ficado com muito medo do Deus 
gritante, mas nesse meio tempo j se acostumaram. - E, quando 
atravessaram as primeiras colnias e plantaSes de banana antes 
de Guaiaquil, ele disse: - Que pena...
 - Pena de qu?
 - Que o voo j esteja no fim. Aterrissaremos dentro de vinte 
minutos, um aperto de mo... e nunca mais nos veremos.  
realmente uma pena.
 - Voc me ajudou muito quando eu estava em pnico, senhor 
Garcia. Primeiro perdi o navio, depois aquele sujeito da 
embaixada e mais tarde sozinha naquele mundo estranho... que 
sorte o nosso encontro no hotel.
 - Que sorte! Eu que o diga! A propsito, no vou deixar para l 
o tratamento que lhe deram seus compatriotas. Ele vai ter 
consequncias. Podem intimid-la, mas no a mim! Sou 
costa-riquenho, no nasci com essa mentalidade alem submissa.
 - Deixa para l, por favor. - Thea Sassenholtz sacudiu a cabea.

- O que resultaria da? Uma anotao em documento que ficaria 
pegando poeira em Bonn. Eles diro: puxa, mais outro enchendo o 
saco. E ainda por cima meio-ndio! era s o que faltava! - ela 
encarou-o chocada. - Oh, desculpe-me. Isso do meio-ndio no foi 
um insulto.
 - Mesmo que eu fosse, no seria um insulto para mim. Meu orgulho 
de ndio seria mais forte do que o ar aristocrtico dos brancos. 
s vezes fico admirado ao pensar na docilidade e pacincia com 
que os nativos se deixam fotografar de todos os lados como se 
fossem animais raros. As pessoas entram em seus templos e locais 
de culto, sem perguntar pelos ritos, insultam os deuses...  
incompreensvel. - Garcia recostou-se no assento. - O que diriam 
os brancos se os ndios ou negros entrassem em seu pas, 
fotografassem os brancos, as mes dando de mamar, invadissem aos 
bandos as igrejas percorrendo os altares e as figuras de Cristo, 
enquanto conversavam em voz alta em seu idioma, sem tirar o 
chapu ou bon, iluminando as missas com os flashes das mquinas; 
fotografando as oraSes com centenas de cmaras, sentando-se nos 
bancos da igreja e fazendo um delicioso piquenique... voc 
consegue imaginar isso? Vi tal coisa no Japo, na +ndia e no 
Cairo, na China e recentemente em Hadramaut. L os turistas 
entraram nos prdios de barro sem perguntar a ningum e 
fotografaram a vida em comunidade dos homens e animais, como se 
isso j estivesse includo no preo. Voc consegue sonhar que um 
ndio entre numa residncia alem sem falar com ningum e 
fotografe tudo? Voc vai dizer: impossvel. Haveria o maior 
barulho! Mas as pessoas exigem dos "selvagens" que fiquem 
quietos. Por acaso eles no so seres humanos com orgulho e 
direito  vida privada? E ai deles se se mostrarem reservados! 
A, os brancos tm uma exploso de soberba, demonstram quem  a 
"raa superior", e ento o negcio : esses percevejos deviam ser 
esmigalhados! - Garcia respirou fundo. - Uma vez eu chamei a 
ateno de um alemo que entrou numa mesquita da Jordnia e 
fotografou o sepulcro de um santo. O cara estava de Bermudas, um 
quepe de linho na cabea e sapatos. Sabe o que ele gritou para 
mim? "V se mijar, seu comedor de macarro!" Assim  a vida.
 - Sim, assim  a vida. - Thea Sassenholtz concordou perplexa. - 
E por isso no faz o menor sentido queixar-se do funcionrio da 
embaixada. Voc  um "comedor de macarro". Eu j lhe disse: sua 
queixa vai parar na mesma hora na lata do lixo. Portanto, para 
qu tanto trabalho? - ela olhou pela janela.
 Sob eles corriam os afluentes do rio Guayas, as colnias, os 
aluviSes cultivados e urbanizados, os manguezais, os campos de 
cacau e tambm algumas torres de perfurao de petrleo. 
Procurava-se ali a nova riqueza do Equador. Petrleo... a palavra 
mgica para milhSes. 
 - Agora falta pouco para chegarmos em Guaiaquil - disse ela.
 - Em poucos minutos veremos o mar de casas junto ao rio. - 
Garcia apertou o cinto de segurana. A aeromoa grasnou o 
primeiro aviso pelos alto-falantes. Chegada a Guaiaquil. - Quando 
o seu Atlantis chega aqui?
 - Dentro de dois dias.
 - Seria uma insolncia pedir-lhe que me conceda esses dois dias?
 - era isso que eu estava esperando. - De repente, Thea riu como 
uma garota e aninhou-se no cinto de segurana para apert-lo.
- Uma tolice, no  mesmo? Esses pensamentos com quase sessenta 
anos de idade.
 - O que significa quase?

 - Em trs meses. - Ela encarou-o com um ar inquisidor. - 
Desapontado, no?
 - Por que estaria? Eu tambm j tenho cinquenta e cinco.
 - No caso dos homens isso  diferente. As tmporas grisalhas 
deixam os homens terrivelmente interessantes. Em compensao, uma 
mulher de cabelos grisalhos torna-se av no acto. E isso  
verdade. Tenho um neto de doze anos.
 - Acho isso extraordinrio. - Garcia pousou a mo no joelho de 
Thea.
 Sou uma maluca, foi o pensamento de Thea Sassenholtz. O toque 
dele me deixa nervosa. Esse tipo de coisa na minha idade. Se eu 
ainda tivesse quarenta anos... e depois esse homem! Componha-se, 
Thea... por acaso esses so pensamentos de uma av?!
 - Sou vivo. Sem filhos. Cafeicultor na Costa Rica. Quando 
nalgum lugar da Alemanha voc compra ou toma uma xcara de caf, 
com toda certeza um gro da minha fazenda est no meio. Grande 
parte de minha exportao vai para seu pas. Minha mulher morreu 
com quarenta anos; era uma mulher alta, esguia e bonita, com 
cabelos pretos caindo nos ombros. Uma aristocrata. - Ele olhou 
pela janela. Nesse momento, Guaiaquil estava debaixo deles. O 
avio fez uma larga curva sobre a cidade,
dirigindo-se ao aeroporto. A catedral, os parques, as amplas 
avenidas, o rio indolente com as centenas de pequenas ilhas de 
mansSes soltos que flutuavam em direco ao delta e que ali 
enredavam-se de novo. 
 - Quarenta anos no  velhice - disse Thea Sassenholtz com 
cuidado. - Ela estava muito doente?
 - era saudvel como poucos. Foi assassinada.
 - Assas... - a palavra parou em sua garganta. Ela encarou 
Garcia, horrorizada. - Mas isso  terrvel.
 - A poltica...
 - A poltica, como assim?
 - Bem, foi formado um grupo no pas. Ele baptizou-se com o nome 
orgulhoso de Frente de Libertao Nacional. Sua consigna 
principal: expropriao. Todo poder para o povo. Na verdade, eram 
terroristas que formavam grupos guerrilheiros e assaltavam os 
fazendeiros. Uma guerra de guerrilhas pelas costas. Minha fazenda 
tambm foi atacada. No incio ramos cinco homens e uma mulher... 
minha esposa. Durante trs dias, conseguimos defender-nos e 
rechaar o ataque. Depois... depois uma bala atingiu minha 
mulher. Eu quis desistir, nessa hora estava pouco ligando para 
tudo, eles podiam empalar-me vivo numa estaca de bambu, coisa que 
j haviam feito com outras pessoas, ou picar-me com machetes. Mas 
ento, meus trabalhadores ndios desceram das terras altas, onde 
esto situados os meus campos. Eles desceram silenciosa e 
impiedosamente. O grupo de terroristas no teve sobreviventes,. 
meus ndios acabaram com todos. Nunca mais algum tentou 
assaltar-me, essas coisas so faladas por toda a parte. Mas minha 
mulher, Joana de Garcia, estava morta. Os ndios prepararam um 
enterro como se ela fosse uma rainha Maia. Nunca se viu algo 
igual. - Ele passou ambas as mos no rosto. - Desde ento, os 
ndios so os nicos seres humanos que eu amo. Com meus 
semelhantes, com os brancos, eu s lido comercialmente. - Ele 
olhou com ar cndido para Thea Sassenholtz. - E tambm confesso: 
de vez em quando tenho uma amante ndia. Isso lhe espanta?

 - De jeito nenhum. Por qu? Voc  um homem saudvel... - ela 
mordeu o lbio como se j tivesse falado demais. - E 
principalmente  um homem livre.
 - E voc, senhora?
 - Meu marido  cangalheiro, tem cinco anos a mais do que eu,  
gordo e por isso tem presso alta, adora bolinho de batata e 
assado. - Ela deu uma risada alta. - um sujeito bem simptico e 
alegre que, aps trinta e cinco anos de casamento, ainda me chama 
de "florzinha".
 - Florzinha?
 - Quando me viu pela primeira vez, eu tinha vinte e um anos, ele 
disse: "Voc parece uma florzinha." Nessa poca fiquei perplexa, 
at que mais tarde percebi que ele no sabia fazer galanteios. 
Para ele, florzinha era o mais elevado.
 - Quer dizer, ento, que voc tem um casamento feliz?
 - Tenho.
 - Mesmo assim, eu lhe peo dois dias em Guaiaquil... Vamos dar 
uma olhada no belo vulco extinto de Chimborazo, que agora est 
coberto por uma geleira. Ele foi escalado por seu compatriota 
Alexander von Humboldt. Nas frteis depressSes dos vales vivem os 
ndios quchuas que ainda hoje falam o velho idioma inca.
 O aparelho preparou-se para a aterrissagem, desceu suavemente e 
rolou pela pista. De repente, Juan de Garcia sacudiu a cabea.
 - O que foi? - perguntou Thea Sassenholtz. - O que lhe 
desagrada? Por que balanou a cabea?
 Juan de Garcia riu.
 -  estranho - observou ele. - Posso possuir as mais belas 
ndias. Os pais das mais educadas moas da sociedade 
costa-riquenha me apertariam contra seus peitos peitudos, se eu 
ficasse com uma delas. E o que me acontece agora? Ns nos 
conhecemos apenas h um dia e, contudo, eu estaria j disposto a 
cham-la de "florzinha", assim como seu marido. - Soou o ltimo 
sinal, a permisso para que se soltasse o cinto de segurana. 
Garcia soltou o seu na mesma hora e levantou-se do assento. - 
Mas, por favor, senhora, esquea isso.
 Ela concordou, sentiu o corao bater apressado e advertiu-se: 
seja sensata! No perca a linha. Contenha-se, vovozinha...

Juliane Herbitina princesa von Marxen, alis Juliane von Haller, 
finalmente conseguira fazer com que a bela comissria Marianne a 
visitasse na cabina 56. O prncipe Friedrich Enno, enrolado num 
robe caseiro com brocados bordados, estava sentado no banquinho 
estofado junto  janela, parecia febril, tinha o rosto 
avermelhado, uma garrafa de borgonha  sua frente e um charuto 
entre os dedos levemente trmulos. 
 A cabina cheirava a um perfume adocicado, como se aquilo fosse o 
boudoir de uma mulher que tivesse borrifado o corpo da cabea aos 
ps para uma aventura nocturna. O ar-condicionado zumbia de leve. 
O rdio tocava baixo uma msica clssica, um concerto para piano 
de Lis. A estao de bordo tinha dois canais, um com msica de 
dana e entretenimento e o outro com selectas peas clssicas. 
Nesse momento, o pianista sovitico Swlatoslaw Richter, o melhor 
do mundo, estava tocando.
 - Mas ela vem mesmo? - perguntou o prncipe. Em sua voz tremeu a 
expectativa. - O que voc lhe disse?

 - J lhe expliquei isso cinco vezes. - A princesa, num vestido 
longo de noite, de chiffon, de cor azul-marinho e com ramos de 
orqudeas bordados em branco e rosa, deu uma tragada na longa 
piteira dourada e soprou a fumaa contra a grade do condicionador 
de ar em cima da porta do corredor. - Ela vir!
 - Tem certeza 
 - Se cumprir sua promessa..
 - Se...! - o prncipe soltou um suspiro pesado. O copo de vinho 
tremeu em sua mo. - Ser que voc no foi explcita demais?
 - Eu disse que ela podia ganhar quinhentos marcos da maneira 
mais fcil... ou mesmo cinco mil at a chegada a Sidney. Ela 
desembarcar somente na Austrlia e ento voar para a Alemanha 
em frias. Tem um namorado, um estudante; ela quer ir esquiar com 
ele nas montanhas. Deve ser mesmo um teso ir reviver-se na neve 
depois de tanto sol
tropical.
 - No fale desse modo vulgar, Juliane Herbitina. - O prncipe 
fez uma careta de tortura com seu rosto enrugado. - Essa espera!
 - Aumenta a tenso. Depois voc ficar totalmente satisfeito, 
Friedrich Enno.
 Finalmente bateram  porta. A princesa foi abrir com um ar 
majestoso, o prncipe bebeu um rpido gole de vinho e lambeu os 
lbios.
 Essa Marianne, da cidade de Colnia, era uma moa simptica. No 
incio, a princesa observara Helmi, uma mulher um pouco mais 
rechonchuda, mas j a primeira conversa mostrou que ela no era 
adequada. A pequena tinha princpios e um deles era: nenhum 
contato privado com os passageiros. Em servio, corts... fora do 
servio, tambm corts... fora isso, mais nada. O objectivo dela 
era um dia tornar-se anfitri como Laura, a anfitri-chefe que, 
num longo vestido de noite, postava-se ao lado de Teyendorf junto 
 porta envidraada do Salo dos Sete Mares e apresentava-lhe os 
convidados. Alm disso, ela administrava a biblioteca de bordo, 
preparava torneios de xadrez e bridge, acompanhava os encontros 
dos aristocrticos membros do Rotary e do Lions Club e era quem 
sabia de tudo a bordo. Portanto, no deu para ser com Helmi.
 Marianne de Colnia, ruiva e animada, com olhos 
Verde-acinzentados e boca sensual, pernas longas e seios 
pontudos, tambm encarara a Sra. von Haller de um modo bem 
reservado no incio, ao receber a proposta; mas por trs daquela 
bela testa, parecia que uma mquina de calcular entrara em 
funcionamento. Cinco mil marcos a mais... no podiam escapar 
assim, sem mais nem menos. Mas o que seria essa companhia 
privada? No podia ser to ruim assim. O Sr. von Haller era um 
homem idoso e grisalho, talvez estivesse precisando de uma 
espcie de enfermeira particular. Vamos esperar para ver! Ela 
concordara e ficara de aparecer na cabina aps o jantar... agora 
estava l.
 A princesa cumprimentou-a com uma carcia em seus cabelos 
ruivos, coisa que Marianne achou estranha.
- Voc cumpriu a palavra, minha filha - disse Juliane Herbitina 
com um ar solene. - Agora vou deix-la a ss com meu marido. Tem 
quinhentos marcos na mesinha-de-cabeceira da esquerda. Muito 
obrigada.

 A porta fechou-se, Marianne ficou sozinha com o prncipe. Um 
silncio tenso surgiu entre os dois. O velho encarou a moa e 
engoliu em seco vrias vezes, como se tivesse um bolo na 
garganta. Marianne ficou parada no meio do quarto, indecisa.
 Depois, teve sua ateno chamada para o forte perfume. Em 
seguida, notou espantada que aquele robe com brocados que o 
cavalheiro usava, na verdade era um robe de mulher e, quando seu 
olhar percorreu-lhe o corpo para baixo, Marianne viu com incrvel 
espanto que Haller estava usando meias de mulher e sapatos de 
salto mdio.
 Mas isso no pode ser possvel, pensou ela. Esse tipo de coisa a 
bordo? Uma vez, quando passava frias em Colnia, Marianne 
assistira a uma pea de Miltowitsch representada por um grupo de 
travestis berlinenses. Ela quase morrera de tanto rir daqueles 
homens que se apresentavam com roupas de mulheres. Os 
senhores-damas... era assim que eles se chamavam e, entre eles, 
havia algumas "mulheres" que poderiam ganhar qualquer concurso de 
beleza. Isso se fossem mesmo mulheres, claro.
 Com que ento, o Sr. von Haller era um desses? Impossvel! 
 O prncipe notou seu olhar espantado e comeou a tremer com o 
corpo todo. Ele levantou-se, o robe de bordado cambaleou em seu 
corpo magro e,- quando deu alguns passos pela cabina em cima dos 
sapatos de salto mdio, von Haller rebolou realmente como uma 
mulher. Marianne no conseguiu se conter, foi obrigada a sorrir. 
 O prncipe apontou com a cabea para um dos armrios de parede.
 - Abra-o! - disse ele e, quando Marianne abriu-o, concluiu: - O 
que est vendo?
 - Ternos...
 - De trs tamanhos diferentes. Um nmero deve dar em voc . 
Vista o menor.
 - Eu? Por qu?
 - Vamos interpretar uma pecinha teatral
 - No sei fazer isso...
 - Sabe sim. Qualquer um sabe. Voc veste o terno e vira um 
homem. Vou cham-la de Jacob. Eu sou uma mulher e meu nome  
Helmione.
 - Que nome esquisito.
 - De Shakespeare. Da pea Sonhos de uma Noite de Vero. -
O prncipe sentou-se com pose afectada em cima da cama e
suspirou. - Uma pea bem simples, Jacob. Voc entra no quarto, me 
v deitado dormindo na cama e aproveita a oportunidade. Voc se 
joga em cima de mim e me estupra.
 - O que  que eu fao? - Marianne recuou at a porta do 
banheiro.
- Voc ficou maluco...
 - De que voc tem medo? Voc  Jacob, um homem. No vai 
acontecer-lhe coisa alguma;  comigo que deve acontecer algo! 
Voc me estupra. Quando mais brutal for, melhor. Voc pode fazer 
o que bem entender, bater em mim, me torturar, cuspir em mim... 
tem um chicote de couro na prateleira em cima dos ternos. Tem 
tambm algemas de ao e uma escova com fios de ao. Voc pode 
fazer tudo. Voc  o senhor, eu sou apenas sua escrava, sua 
sbdita. Pune-me!

 Um calafrio percorreu as costas de Marianne. Fuja, pensou ela, 
fuja o mais rpido que puder! Isso j no  nem mais loucura, no 
existe nenhuma palavra para descrever. um monstro perverso... 
sim,  isso que ele . Um monstro!
 Seu olhar deambulou e, no final, parou nas cinco notas de cem 
marcos. At Sidney cinco mil marcos. Quer dizer, suportar dez 
vezes esse teatro perverso. Ser dez vezes o impiedoso Jacob, que 
tortura Helmione at arrancar-lhe sangue. Espancar dez vezes com 
o chicote esse velho e pobre ser humano, algem-lo e tortur-lo 
ao mximo at que, esfolado, ele tenha seu orgasmo. Mas que 
maldita sacanagem!
 Mas, no recompensa, quinhentos marcos... sem que ele te agarre, 
sem que te acontea alguma coisa... s para espancares o velho, 
esse doente digno de compaixo, que s reage quando sente o 
chicote... por isso, recebers cinco mil marcos.
 Marianne respirou fundo. Enfiou a mo dentro do armrio de 
roupa, tirou o terno menor e abriu a porta do banheiro. No se 
olhe no espelho, Marianne, pensou ela, no pense em nada. Pense 
apenas que vai interpretar uma pea teatral. E se sentir nsias 
de vmito, bata com toda a fora, libere-se de toda a presso. Se 
papai e mame soubessem disso... e Micha. Ah, Micha, meu pobre 
namorado, que bom emprego voc pode dar a esses quinhentos 
marcos... Marianne trocou de roupa, abotoou o terno que de facto 
lhe caiu bem e voltou  cabina.
 O prncipe estava deitado na cama fingindo dormir, o robe de 
brocado fora aberto e suas pernas estavam um pouco 
escarranchadas. Usava calcinha de renda fina e um suti de renda 
tambm transparente.
 Marianne aproximou-se na ponta dos ps, agarrou as algemas em 
cima da prateleira e jogou-se sobre o prncipe. Friedrich Enno 
soltou um grito estridente igual ao de uma mulher atacada, mas 
no se defendeu quando Marianne algemou-o meio sem jeito.
 Ele s gemeu quando Marianne deu-lhe bofetadas  direita e  
esquerda e, quando ela, entrando em sbito desespero, socou-o com 
ambos os punhos, seu corpo comeou a tremer e a esticar-se como 
se o prncipe estivesse deitado ao sol bem  vontade. 
 Uma hora depois, a princesa retornou  cabina. Marianne deixara 
o prncipe, fugindo em debandada aps ter visto que ele se 
satisfizera, acompanhado por frenticos gemidos. Pegara os 
quinhentos marcos, jogara o terno no cho do banheiro e sara em 
desabalada carreira.
 O prncipe estava na cama com olhos sonhadores, o robe de 
bordado fechado de novo. Juliane Herbitina foi at o assento 
junto  janela e enfiou outro cigarro na piteira de ouro.
 - Satisfeito? - perguntou ela sem nenhuma entonao especial. - 
Como foi?
 - Maravilhoso. Fantstico... Jacob  to talentoso...
 - Foi o que pensei. Tenho um olho clnico para isso. Pode deixar 
por minha conta, querido.
 - Voc tambm  insubstituvel. - O prncipe cruzou os braos na 
nuca. - Acho que hoje fui muito bem. Essa tonificante brisa 
marinha, o contedo de oznio puro do ar, o sol animador, a 
inalao do sal iodado do mar na espuma... sinto-me vrios anos 
mais jovem! H pelo menos vinte anos que no tenho uma 
experincia to magnfica como a de hoje.
 - Que bom que voc tenha se dado bem, Friedrich Enno. Vai sair 
bem recuperado dessa viagem. Quando Marianne... perdo, Jacob 
ficou de voltar?

 - No prximo sbado, meu amor. - O prncipe viu o olhar de 
atrevimento da mulher e balanou a cabea. - No. No  cedo 
demais. Sinto-me com uma imensa fora. E voc ? Tambm teve 
sucesso?
 - Ele vai aparecer. Uma mulher no tem tanta felicidade para 
atacar. O escolhido  um industrial de Lbeck... no, no de 
maapo; pelo contrrio, peixes em conserva. Marcamos um encontro 
para amanh  noite. Para tomarmos uma garrafa de champanhe na 
cabina dele. Tem uma conversa muito charmosa.
 - Que maravilhoso para voc, meu amor; quer dizer ento que 
tambm ficar satisfeita. - O prncipe espreguiou-se bem  
vontade, sentou-se e comeou a tirar as meias de mulher. - Essa 
viagem de cruzeiro vai ser um sucesso total. Uma verdadeira fonte 
de sade para ns dois.
Nessa mesma hora, na cabina 262, o arquitecto Jens van Bonnerveen 
batia em seu amado Eduard Grashorn.
 - Sua puta! - gritou com voz estridente. - Seu merda! Seu... 
seu... - ele respirou ofegante, deu tapinhas nos braos de 
Grashorn erguidos em defesa, ao mesmo tempo em que o cuspia. - Eu 
devia mat-lo. Sim, mat-lo! Ir foder com uma mulherzinha no 
quarto de passar roupa! Seu poro miservel, seu! Vou partir sua 
cabea!
 O casal da cabina contgua 264 estava sentado na cama ouvindo 
essa briga de cime com toda clareza atravs da parede. Quando 
van Bonnerveen gritou "seu merda", a mulher estremeceu 
consternada e encarou o marido. Este encolhera as pernas e 
ostentava um sorriso largo no rosto.
 - Voc ouviu? Ele quer matar o outro! - disse a mulher.
 - Mas no vai fazer isso...
 - como voc sabe?!
 - Se tem um capaz de matar algum, no  Bonnerveen a esse 
veadinho, mas sim o veadinho ao grande Bonnerveen.
 - Voc deve estar muito por dentro dos usos e costumes das 
bichas, no? - disse a mulher em tom mordaz. - Seu conhecimento 
sobre mim j no  to grande assim.
 Nesse momento, na cabina ao lado, Bonnerveen gritava palavras 
que revelavam uma espantosa imaginao sexual. A mulher ouviu com 
a boca entreaberta estremecendo a cada vez que os estalos dos 
golpes interrompiam as palavras.
 - Ele... ele vai mesmo matar o outro s pancadas! Voc devia 
telefonar para a ronda da noite, Erich. Caso contrrio, seremos 
cmplices por no impedirmos um feito criminoso. Coitadinho!
 - Bem, em todo o caso, pelo menos uma vez ele fodeu direito. 
 - Seu imundo!
 - O facto de Bonnerveen t-lo flagrado enquanto trepava 
demonstra a falta de prtica dele. Elfriede, trate de deitar-se e 
dormir! 
 - Com esse barulho a? Com essas palavras? Escute s... Que 
significa isso?
 - Seu piroca de javali...
 - Horrvel! E esse tipo de gente est no navio! O comandante 
devia ser informado.
 - Ele to-pouco poderia fazer alguma coisa. Os caras pagaram a 
passagem e se se espancam em sua cabina,  diverso privada 
deles. Somente se causarem algum escndalo pblico...
 - Estou chocada!
 - D para se ver. - O homem, que se chamava Erich, deitou-se e 
arreganhou um sorriso  mulher que ele chamara de Elfriede. - O 
que voc gostaria mesmo era de fazer um buraco na parede. Ah, 
isso sim  que so expressSes! Trate de conserv-las.

 - Voc  um nojento! - a mulher bufou, mas continuou sentada na 
cama, fazendo for a para escutar as tiradas de dio de van 
Bonnerveen. Ficou visivelmente desapontada quando diminuiu o 
barulho na cabina contgua, at que se fez silncio total. - 
Agora ele matou o outro - disse ela em voz baixa - e ns no 
impedimos... Ns podamos t-lo salvo, Erich.
 - Besteira. Deite-se e durma... s faltava essa! - ele levantou 
a cabea. Elfriede tambm tornou a erguer-se e, com a respirao 
presa, ficou  espreita.
 Um homem chorava ao lado.
 - o assassino est chorando... - gaguejou a mulher. Seus olhos 
estavam arregalados de espanto. - como  que voc consegue ficar 
a to calmo?
 - Estou vivo e, para mim, isso  o principal. - O marido, Erich, 
virou-se de lado. 
 - Puxa, como voc mudou com os anos - disse a mulher Elfriede.
- Os outros deviam ver esse seu comportamento para comigo...

Nessa noite, a enfermeira Erna foi tirar o Dr. Paterna da cama no 
hospital.
 Eduard Grashorn estava sentado num banquinho da pequena sala de 
operaSes. Sangrava num ferimento na testa, a face esquerda 
estava toda arranhada, a cabea apresentava trs galos visveis. 
 O Dr. Paterna vestiu o jaleco de mdico e esfregou as mos.
 - Foi atingido? - perguntou.
 - Sim. - Grashorn concordou extenuado.
 - Mas tambm  uma tremenda bobeira ficar beijando no 
tombadilho. Existem outros lugares melhores a bordo.
 - Pois foi num desses que eu estava. No quartinho de passar 
roupa. Mas ela gemeu to alto... que no pude fazer nada contra. 
De repente, a porta foi aberta e Jens invadiu o quarto. A foi a 
maior confuso. - Grashorn encarou o Dr. Paterna com um ar 
splice. - Doutor escreve que estou doente. Mantenha-me aqui no 
hospital. S por alguns dias... por favor! Voc deve dizer a Jens 
que fui seriamente ferido. Que preciso de repouso absoluto. Nada 
de visitas! Por favor, doutor, faz isso. Estou com medo de Jens.
 - Primeiro vou dar uma olhada para verificar at que ponto ele o 
machucou. Depois ns continuamos essa conversa.
 Meia hora depois estava tudo acertado. Eduard Grashorn foi para 
o quarto 4 do hospital e deu-se por satisfeito. O Dr. Paterna 
prometera-lhe deix-lo ali por quatro dias e dizer a van 
Bonnerveen que aos ferimentos dos golpes seguira-se um choque. 
Repouso absoluto!
 - Voc  fantstico, doutor - disse Grashorn sentindo-se feliz. 
- Devia haver mais gente como voc.

 Guaiaquil.

 Quase todos os passageiros foram para os conveses quando o 
Atlantis entrou na embocadura do delta do rio Guayas e as 
primeiras ilhas de mansSes flutuantes chocaram-se contra o casco 
do navio. Enormes gaivotas e albatrozes passaram a acompanhar o 
navio e, de uma faixa pantanosa da margem, uma colnia inteira de 
pelicanos bateu asas subindo ao cu escaldante. Oliver Brandes, o 
oculista com o medo constante de que o barco pudesse soobrar, 
tambm encontrava-se junto , amurada. Nesse dia ele separara-se 
de seus amigos do coral, no somente porque estes divertiam-se 
com seu medo e recebiam-no com frases do tipo "No fundo do mar, 
no fundo do mar, as bundas das ninfas so redondas e gordinhas", 
mas tambm repugnava-lhe o facto de ver os amigos bbados todas 
as noites nos bares, ou ento saindo para paquerar as passageiras 
que viajavam sozinhas.
 Assim, ele se afastara e passara a ser chamado de covarde e 
desmancha prazeres por seus companheiros de canto. Mas o factor 
decisivo foi uma observao cafajeste que lhe foi feita quando, 
ao danar com uma senhora realmente sria, um de seus amigos 
intrometeu-se e disse com toda a clareza:
 - Oliver, no esquea de abrir a braguilha...
 Foi natural que a mulher no tivesse danado uma segunda vez com 
Oliver Brandes.
 O Dr. Paterna, que caminhava pelo convs para ver a entrada no 
rio Guayas, parou ao ver Brandes e postou-se ao seu lado.
 - E ento, tudo em ordem? J se adaptou? - perguntou ele.
 Brandes assentiu.
 - Obrigado, doutor. Como  que a gente consegue ser to idiota 
aos trinta e trs anos?
 - Existe muita gente que ainda o  aos oitenta. Vai querer 
participar do passeio em Quito?
 - No sei, doutor. - Oliver Brandes balanou a cabea. - Eu... 
li que Quito  uma das capitais mais altas do mundo: 2.850 metros 
de altitude nos Andes. Ser que aguento? O ar rarefeito dali... 
nunca estive num lugar to alto assim. E se eu tiver problemas de 
altitude?
 - Acompanharei o grupo como mdico de planto. Alm disso, at 
trs mil metros o ser humano tem reacSes normais, mesmo quando 
vem de terras baixas. Fora isso, levarei comigo alguns frascos de 
oxignio puro e mscaras para respirar. Como precauo, posso 
dar-lhe uns comprimidos. Portanto, nada de medo.
 - Mas que esforo! Ser que o passeio vale isso?
 - Quando voc poder voltar a Quito outra vez?
 - Nunca mais nesta vida.
 - Ento, voc no deve perder. A propsito, os ndios de l 
fazem uma bebida de extractos de razes para oferecer aos brancos 
com problemas de altitude e cujo efeito  extraordinrio. No 
dizem do que  feita. Tem um gosto de erva-mate e tambm a mesma 
cor. - O Dr. Paterna baixou o olhar para as pequenas ilhas 
flutuantes e trs botes de nativos parados na margem da selva. 
Inclusive um pequeno grupo subir no Chimborazo, at o 
acampamento de Humboldt. L em cima, at eu fico com a vista 
escurecida.
 - E ento por que no probem isso?
 - Por causa da ostentao individual. Cada um precisa saber 
pessoal mente do que  capaz de suportar. - O Dr. Paterna sorriu. 
- O membro mais velho do grupo est com setenta e oito anos.
 - Minha Nossa Senhora!

 - Engano seu. Esses so os mais resistentes! De acordo com minha 
experincia de muitas viagens de cruzeiro, quando os passageiros 
de "melhor idade" afrouxam os velhos continuam firmes. Sobretudo 
as mulheres. J vi muitas iluminadas velhinhas que, na parte mais 
alta atrs do Cuzo ou no deserto de Hadramaut, correram na 
frente dos outros e no demonstraram a menor compreenso pela 
respirao ofegante de todos. 
 - Quais so as pessoas que participaro do passeio? Pode-se 
saber?
 - No  segredo nenhum. L estaro o Dr. Schwarme com a mulher, 
os cavalheiros de Angeli, Fehringer, Moor, Lindenthaler, Wrangel 
e mais quatro pessoas, o casal de Jongh, a Sra. Steinberg...
 - Espere um instante, doutor! - Brandes fez um gesto de recusa.
 - Voc disse o casal de Jongh?
 - Disse.
 - E o Sr. Fehringer?
 - Tambm.
 - Pode dar encrenca.
 - Como assim? - O Dr. Paterna encarou Brandes com um ar 
inocente. - Afinal, qual  o problema?
 - Tem um bocado de problemas. Fehringer est dando em cima de 
Sylvia de Jongh e o marido j percebeu. Eu mesmo j andei 
observando os dois trocando beijos num canto da varanda. Depois 
teve aquele duelo no tiro ao alvo.
 - Duelo?
 - Bem, as pessoas que j conheciam a histria, perceberam com 
toda a clareza: como se tratava l de um tiro ao alvo, era uma 
briga mascarada. Terminou empatada. Portanto, ainda est por 
acontecer a continuao. O Sr. de Jongh no  o tipo de homem que 
desista da revanche. Est acostumado com a vitria. - Oliver 
Brandes olhou para o rosto bem srio do Dr. Paterna. Imaginou o 
que o mdico estava pensando nesse momento. - Doutor no  
verdade que uma pessoa que esteja sofrendo de vertigem de altura 
no pode ser responsabilizada por quaisquer aSes loucas?
 - , quase no pode. Sua conscincia pode estar limitada e 
extremamente perturbada.
 - Portanto, essa pessoa pode fazer coisas que jamais faria em 
condiSes normais, no?
 - Nos casos extremos, sim.
 Brandes respirou fundo.
 - Doutor, vamos elaborar uma tese. O Sr. de Jongh sabe disso, 
aproveita a altura, banca o pirado e provoca um acidente no qual 
o Sr. Fehringer perde a vida. Ningum pode responsabiliz-lo, mas 
com isso est solucionado o conflito de honra de "de Jongh". Um 
assassinato perfeito. Mesmo quando se percebe que o crime foi 
premeditado... a vertigem de altura tira toda a responsabilidade 
do Sr. de Jongh. Que, oportunidade maravilhosa e nica!
 - Sr. Brandes, com toda certeza voc anda lendo muito romance 
policial.
 - No momento estou lendo Konsalik.
 - Isso tambm basta! - o Dr. Paterna balanou a cabea, mas o 
gesto foi de defesa, sem efeito. - Claro que se trata apenas de 
um flerte de frias! Se por causa disso qualquer um sasse 
matando os outros...
 - De Jongh no  "qualquer um". Uma vez eu fiquei bebendo com 
ele no bar Atlantis. Ele me perguntou: "Voc  casado?" Eu 
respondi que no. "Voc  que  feliz, seu esperto", disse ele. 
"Uma mulher bonita  um castigo de Deus, sobretudo quando se  
muito mais velho do que ela.

No meu caso a diferena  de vinte anos. E quando a gente nota 
que no passa de um velho pateta, j bateram as doze horas." 
Depois ele encheu a cara e eu o reboquei de volta  cabina. 
Quando estava voltando para o bar, vi sua mulher trocando beijos 
com o Sr. Fehringer. - Oliver Brandes recuou da amurada para 
fotografar o baro de pesca junto ao manguezal.
- Esse passeio ao Chimborazo pode tornar-se uma tragdia.
 - Se  voc quem o diz, Oliver,  porque a coisa  realmente 
alarmante.
- O Dr. Paterna esperou que Brandes fotografasse o baro junto  
selva. - J andou conversando com outros passageiros a respeito 
das suas observaSes?
 - E por acaso sou algum dedo-duro, doutor? Claro que no. S 
estou falando agora com voc e s porque me contou sobre esse 
passeio nas montanhas e citou o nome dos participantes.
 - Por favor, continue calado como at agora. E se acontecer 
alguma coisa entre o Sr. Fehringer e Knut de Jongh, telefone-me 
na mesma hora para o hospital.
 Paterna deixou o tombadilho e subiu de elevador at o convs da 
ponte. O comandante Teyendorf encontrava-se fumando com o piloto 
na ponte de bombordo. O ar quente e hmido tambm o fazia suar. - 
Ah, a est o nosso distribuidor de plulas! - gritou ele alegre 
ao ver o Dr. Paterna chegar  ponte. - Tenha a postos um galo de 
spray contra mosquitos. Quando os bichinhos sarem da margem do 
pntano e vierem para c...
 - Posso lhe falar durante alguns momentos, senhor comandante? - 
a voz sria e a expresso do rosto de Paterna fizeram desaparecer 
o sorriso de Teyendorf.
 Ele assentiu, entrou na sala de navegao e recostou-se na mesa 
dos mapas.
 - Alguma m notcia, doutor? Bonnerveen quebrou mesmo a .cabea 
do namorado?
 - Isso ainda seria curvel, senhor comandante. - O Dr. Paterna 
tirou o quepe. Ali na ponte, onde nenhum passageiro tinha 
permisso para frequentar, Teyendorf era um pouco mais brando com 
suas exigncias quanto ao uniforme. - Est comeando a se 
desenvolver um drama a bordo. Partindo de uma coisa  toa.
 - Que significa drama e que significa uma coisa  toa?
 - Bem, pelo que parece, um flerte pode acabar transformando-se 
em tragdia.
 - Doutor, sei muito bem que para voc um flerte  uma coisa  
toa.
- Teyendorf arreganhou um sorriso um tanto insinuante. - E ento, 
o que aconteceu?
 - Um certo Sr. Fehringer est sobremaneira interessado na Sra. 
de Jongh. O marido j percebeu...
 - Olha aqui, se eu precisar acalmar todos os maridos
furiosos, a prxima viagem no farei como comandante, mas sim 
como psiclogo de bordo. Alis, eis a uma nova profisso muito 
til. De facto, ela devia ser introduzida. Psiclogo de bordo... 
eis uma bela idia! Meu Deus, quantas almas descarriladas j vi 
nas minhas viagens. Quantas maluquices! Quanto acmulo de 
histeria! Doutor, esse negcio deve ser resolvido entre Fehringer 
e de Jongh. O que  que eu poderia fazer?
 - O que justamente temo, comandante,  que eles resolvam a coisa 
entre si. Ambos encontram-se no grupo que vai escalar parte do 
Chimborazo. At a altitude de 4.800 metros. 

 - Isso bastar para que esfriem a cabea.
 - Pelo contrrio, comandante; bastar para que percam a cabea 
sem terem nenhuma culpa.
 - No o compreendo. - Teyendorf encarou o Dr. Paterna com um ar 
desamparado. - O que est querendo dizer?
 - Se de Jongh bancar o sujeito que est pirado por causa da 
vertigem de altura... Jamais se poderia demonstrar que na verdade 
ele no enlouquecera... e, por exemplo, jogara o Sr. Fehringer 
num abismo.:.
 - Pelo amor de Deus, no que est pensando, doutor?! Mas  claro 
que isso  um absurdo.
 Teyendorf empurrou o quepe para a nuca. Ele no o tirava mesmo 
ali, na sala de navegao apesar do calor abafado. Na verdade, o 
ar-condicionado estava funcionando a pleno vapor em todo o navio 
- os salSes, em comparao com a temperatura externa, estavam 
quase frios e, por isso mesmo, o Dr. Paterna previra uma grande 
quantidade de resfriados -, mas isso de pouco adiantava ali, 
posto que estavam abertas as portas que davam para as 
extremidades da ponte. Teyendorf, sempre um modelo exemplar, 
ignorava o calor.
 - Andei reflectindo muito sobre a coisa, comandante, antes de 
traz-la ao senhor - disse Paterna. - Mas quanto mais penso na 
situao, mais dramtica ela me parece. No devemos subestimar o 
perigo.  No existiria um assassino mais inocente do que de 
Jongh! Qualquer percia mdica atestaria que ele j no era mais 
senhor de si numa altitude de quase cinco mil metros,  qual 
quase foi catapultado a partir de zero. Num caso como esse, 
pode-se plagiar Schiller: "A oportunidade  adequada..."
 - E no podemos impedir, doutor?
 - Andei pensando que se o senhor fosse conversar com Fehringer, 
comandante...
 - Eu? - Teyendorf balanou a cabea com toda a energia. - E 
porqu no voc ?
 - O senhor  o comandante.
 - Mas no juiz de boxe.
 - Pode ser um caso de vida ou morte.
 - Nesse caso, os assistentes espirituais de bordo seriam os 
mediadores mais adequados. - Evidente que Teyendorf ficou feliz 
por ter tido essa idia. - isso mesmo, doutor! Vamos averiguar 
nos documentos a que religio pertencem esses dois galos de briga 
e depois enviaremos os sagrados sacerdotes.
 - Melhor seria dizer, para consagr-los.
 - No me venha com jogo de palavras! Voc nem imagina as coisas 
que um padre ouve! Existem certas confissSes para as quais se 
precisa de muita capacidade de resistncia... Voc no cr em 
nada, no  mesmo?
 - Meu Deus  diferente desse do plpito.
 - Muito diplomtico de sua parte, doutor. V falar com os 
assistentes espirituais.
 - E se no conseguirem?
 - O que devem conseguir?

 - Um deles precisa abrir mo do passeio. Ou Fehringer ou de 
Jongh. Podia-se chamar a ateno de Fehringer para o grande 
perigo e desaconselhar de Jongh por causa da altitude. Podemos 
sugerir-lhe que, como hipertnico, ele corre perigo de vida e que 
no nos responsabilizamos. Acho que nem de Jongh assumiria um 
risco como esse. Afinal de contas, ele deve querer continuar 
vivendo com sua bela Sylvia, seno nada mais teria sentido.
 - E se os dois continuarem obstinados?
 - Nesse caso, tanto o sacerdote quanto o mdico chamaro o 
comandante.
 - Mas que droga! - Teyendorf afastou-se do canto da mesa de 
mapas. - Quando vim para a vida no mar, sonhava em navegar pelos 
mares do mundo com um imenso navio de passageiros. Tornei-me 
comandante de um navio assim, mas se soubesse que outras 
utilidades teria, me defenderia com unhas e dentes para no 
assumir o batelo. Teria me acorrentado a meu belo baro de 
transporte de containers para que ningum me arrancasse dele! 
Muito bem, mos  obra, doutor. Atracaremos em menos de duas 
horas. Quando comea o passeio?
 - Amanh s sete, com o voo para Quito.
 - Ento, sorte, doutor.
 - Obrigado, senhor comandante.
 O Dr. Paterna saiu da ponte e, da sala do primeiro-oficial, 
telefonou para o director de hotel Riemke. Cinco minutos depois, 
ficou sabendo: Fehringer era protestante; de Jongh, catlico. Por 
conseguinte, os dois sacerdotes precisavam entrar em aco.
 Gnter Wangenheim, o pastor evanglico, encontrou o Dr. Paterna 
no convs de esportes num jogo de shovelboard. O mdico era um 
jogador extraordinrio e quase sempre vencia.
 - O que tem no corao, doutor? - perguntou o pastor quando 
Paterna puxou-o a um lado. - Tomou a deciso de pr um fim a essa 
existncia de poro?
 - Preciso da sua ajuda, pastor. Vamos at a varanda. L poderei 
explicar-lhe com toda a calma...
 O padre Heinrich Brause, o alegre jesuta, encontrou o Dr. 
Paterna meia hora depois na parte superior, na piscina do 
Olympia. Ele nadou algumas voltas na gua morna, cercado de 
algumas mulheres, como se fosse o chefe de um cardume de peixes.
 - Voc me tirou de minha ocupao preferida, doutor! - deu uma 
risada quando, todo ensopado, acompanhou Paterna at o pequeno 
bar externo. - Um papa no meio de belas mulheres seminuas... 
vigiado pelos olhos de Deus... - os dois sentaram-se nas cadeiras 
de plstico branco, pediram vodca com suco de laranja e lanaram 
um olhar para a luxuosa piscina toda cercada de vidro. - Aonde 
devo ir? Quem est precisando da fora da orao?
 era uma grande vantagem o padre Brause ter tanto senso de humor. 
Ele tinha o talento dos grandes comediantes e isso, dissera o 
padre um dia, era a base para um sacerdote bem-sucedido. Na 
catequizao de Papua-Nova Guin, os missionrios tiveram sucesso 
junto aos homens da Idade da Pedra no com a palavra de Deus, mas 
sim com conhecidos truques de mgica. O padre Brause contava como 
uma tribo inteira entrou em jbilo quando foram tirados ovos de 
galinha do nariz de um papua. E quando um padre, num passe de 
mgica, tirou uma bola de tnis da nuca de um cacique e f-la 
rolar pelo cho, todos soltaram terrveis gritos de guerra e 
atiraram as lanas na bola que saltitava de uma maneira incrvel. 
Nessa poca, isso foi a base. Depois ento surgiu a possibilidade 
de se falar de modo convincente do Deus maior, que a todos os 
outros dominava.

 - Voc precisa de ter uma conversa com o Sr. de Jongh, padre - 
disse o Dr. Paterna.
 - Com aquele cabea de vaca? Por qu?
 - Ele est querendo participar do passeio de amanh a 
Chimborazo.
 - Esplndido. Ele tambm vai dar uma amolecida naquela altitude 
de ventos fortes.
 - Talvez a amole demais, padre. Gostaria de explicar-lhe...
 O Dr. Paterna jamais ficou sabendo que conversa os sacerdotes 
tiveram com Fehringer e de Jongh. O voto de silncio os proibia 
de informar sobre os detalhes. Mas os efeitos fizeram-se sentir: 
na hora do jantar, Fehringer passou pela mesa de Knut de Jongh 
sem cumprimentar e este ficou com os olhos fixos num ponto  sua 
frente, como se seu esprito estivesse noutra parte.
 - O que voc tem? - perguntou-lhe Sylvia.
 Os dois haviam retornado de um passeio pela cidade de Guaiaquil 
e, mesmo ento, Knut j apresentara um comportamento estranho. 
Ficara mudo no magnfico cemitrio de mrmore, contemplara as 
compridas paredes de sepulturas com seus caixSes embutidos e 
selados com tampas de mrmore e se mantivera calado s abalizadas 
perguntas de Sylvia, que em geral tanto o comoviam. Em 
compensao, nesse momento ele estava pensando muito mais. 
 Suponhamos por exemplo, pensou ele, que a coisa acontea mesmo 
como o padre Brause insinuou; eu banco o sujeito que ficou 
enlouquecido pela altura e atiro esse louro nojento Fehringer no 
abismo... a ento seria um grande gesto demonstrar um 
arrependimento contrito aps o regresso ao nvel do mar e comprar 
um tmulo para ele aqui no cemitrio de mrmore. No uma dessas 
gavetas das paredes, mas sim um belo
tmulo com um monumento de mrmore branco em cima. Pode custar 
quanto quiser... seria uma prova de meu espanto para comigo 
mesmo. Esse tipo de coisa sempre pega bem.
 Knut de Jongh ocupou-se ainda mais com as suspeitas humanas do 
padre. Que deu nele para ter essas idias?, pensou Knut vrias 
vezes. Ser que me comportei de modo a chamar tanto a ateno dos 
outros, que qualquer pessoa pde notar meu dio por Fehringer? Ou 
trata-se apenas do famoso olho clnico dos padres que penetra 
fundo nas almas? Bem, seja como for... estava estragada a 
dramtica surpresa em Chimborazo.
 Num determinado momento dessa noite, o Dr. Paterna encontrou os 
dois sacerdotes. Ambos tinham boas notcias.
 - Fehringer desistiu - informou o pastor Wangenheim. - Ficou 
plido quando insinuei a possibilidade de uma luta de vida e 
morte. Ele prefere no chegar a essa prova de fora. Pouco 
depois, o padre Brause disse satisfeito:
 - De Jongh desistiu do passeio. "Bem, de qualquer modo, se esse 
"macaco" vai, no tenho a menor vontade, vociferou ele. Doutor, 
parece que colocamos as coisas nos trilhos!
 O Dr. Paterna voltou ao hospital tranquilizado, fez a maleta de 
mdico para o dia seguinte e preparou uma bolsa especial com trs 
garrafas de oxignio e mscaras respiratrias.

 O despertador tocou s seis horas, s seis e meia o Dr. Paterna 
chegou  escada que levava ao cais. L embaixo j se encontrava o 
autocarro encomendado para o aeroporto de Guaiaquil. A Comissria 
Brbara, que viajaria junto com o grupo, j havia comeado a 
recolher os bilhetes. O grupo que iria ao Chimborazo j estava 
esperando completo para entrar no autocarro.
 O Dr. Paterna deteve-se na escada e fechou os olhos por alguns 
momentos. Agora s Deus nos ajuda, pensou ele, inclusive Esse no 
qual eu acredito. E devem existir mesmo os deuses incas... eu os 
convoco tambm!
 Separados um do outro, cada qual numa ponta da fila de espera, 
estavam o casal de Jongh e Hans Fehringer. 
 Nada mais havia a fazer, a no ser esperar e rezar.

12

 O primeiro dia em Guaiaquil passou rpido demais para Thea 
Sassenholtz.
 Aps as visitas de hbito  catedral, ao cemitrio de mrmore e 
 igreja de So Domingo, ao bairro do governo e ao monumento la 
Rotunda, ela sentou-se com Juan de Garcia no jardim de um caf  
margem do rio Guayas. Os dois ficaram olhando para o largo rio 
com suas pequenas ilhas de mansSes arrancados das margens e 
levados pelas guas. Manchas verdes numa gua cinzento amarelada. 
Beberam caf e depois um licor forte e adocicado, que to-pouco 
Garcia conhecia. O almoo num pequeno restaurante, tambm na 
margem do rio, foi tpico: llapinachos - ou seja, pur de batata 
com queijo gratinado - e cubique de corvina - um peixe ao 
escabeche em suco de limo. Tudo muito condimentado e simples. 
Como acompanhamento, eles beberam vinho chileno, um aromtico 
vinho branco que lembrava o Chardonnay Traube da Frana.
 - Amanh voaremos para Quito - disse de Garcia de repente. - 
Ainda temos um dia inteiro pela frente.
 - E os seus negcios? - Thea Sassenholtz esforava-se para no 
pensar na hora da despedida. Sou uma boa e fiel esposa, ela 
repetira para si mesma sempre que Juan de Garcia a enchia de um 
desassossego de moa. Voc nunca traiu seu marido nesses trinta e 
sete anos de casamento e tambm no far isso agora com Juan de 
Garcia. Voc tem sessenta anos, Thea,  av e, apesar da 
aparncia ainda boa, uma mulher na qual ficariam ridculos os 
arrebatamentos de moa. D s uma olhada em Juan: um homem 
realmente bonito, um cavalheiro de grandeza espanhola; um sujeito 
que qualquer mulher pode querer e que no est destinado a uma 
av em viagem... Mas mesmo assim, di l no fundo do corao, num 
lugar bem escondido, quando se pensa: amanh estar tudo acabado. 
Um aceno da amurada, um sorriso, mesmo que seja doloroso, coisa 
que ningum notar, e tudo se transformar em recordao, tudo 
ser enterrado num cantinho da alma, restando apenas como um 
sopro de vida. A inesquecvel Guaiaquil...
 - No tenho negcio nenhum no Equador.
 - Voc no tem... - ela encarou-o perplexa. - Mas ento por que 
veio at aqui?

 - Para no deix-la sozinha num mundo estranho e muitas vezes 
hostil. - Garcia arreganhou um sorriso largo. Seu rosto simtrico 
assumiu um ar jovial. - Originalmente meu objectivo era 
Cartagena, na Colmbia. Eu tinha uma entrevista l. - Ele fez um 
gesto de desdm. - Um telefonema... liquidado. E postergado por 
trs dias. Qualquer ser humano pode se dar esse tempo, caso 
contrrio a existncia seria uma tortura sem sentido. Os homens 
tm muito pouco tempo para si e seus semelhantes. O tempo s no 
tem importncia quando eles entram em guerra.
 - Sinto-me terrivelmente miservel, Juan - disse Thea 
Sassenholtz. - Sinto-me muito mal. 
 - No lhe caiu bem o cubique de corvina? - de Garcia inclinou-se 
preocupado para junto de Thea. - Os peixes daqui so sempre 
frescos.
 - Voc mudou todos os planos para perder dois dias indo comigo a 
um pas, ao qual no queria ir. Isso me deixa triste.
 - Mas eu fico feliz.
 - Estou roubando seu tempo.
 De Garcia balanou a cabea.
 - No devia pensar assim, "florzinha".
 - Que bom. - Thea Sassenholtz bebericou o licor doce e depois 
sorveu um gole de caf. A mistura era magnfica.
 - O que foi bom?
 - Que voc me tenha chamado de "florzinha". Trouxe-me de volta  
realidade. Assim que eu voltar a bordo, vou telefonar para Peter.
 - Peter  o seu marido?
 - .
 - Deve ser um homem feliz. Eu pelo menos seria com uma mulher...
 - Vou dizer a ele: "Oi, estou aqui no Equador. E voc deve saber 
atravs desses milhares de quilmetros de distncia: eu te amo." 
- Thea lanou um rpido olhar a Juan de Garcia, mas este olhava 
imvel para o rio. - Sua mulher tambm no diria a mesma coisa?
 - Todos os dias! A cada hora! Quando ela foi fuzilada pelos 
rebeldes, meus trabalhadores precisaram amarrar-me, pois eu 
queria sair correndo da casa para me deixar matar tambm.
 - Posso compreender isso - disse ela em voz baixa. - No sei se 
Peter teria agido da mesma maneira, mas sei que sua vida estaria 
destroada se ele me perdesse... num acontecimento como esse... 
ou de alguma outra forma... Quantas pessoas se perdem sem morte?
 Foi como se com isso estivesse liquidado o assunto entre eles. 
No curto crepsculo, os dois ainda foram passear pelo rio num 
pequeno baro a motor, depois retornaram a Guaiaquil na penumbra 
e foram comer num hotel de luxo da cidade. Garcia tambm 
reservara os quartos no mesmo hotel.
Quando ele e Thea foram inspeccion-los, Garcia desculpou-se na 
mesma hora, embora ela nada tivesse dito.
 - Eu no tinha a menor idia de que eles ficavam lado a lado com 
uma porta de ligao aberta. Mandarei trocar agora mesmo. - Ele 
ostentou um sorriso acanhado. - Parece que aqui eles pensam mais 
alm quando um homem e uma mulher reservam dois quartos, mas 
esto viajando juntos.
 - Mas muitas vezes eles acertam no alvo - ela tambm sorriu. - 
No se preocupe, Juan. Basta fechar a porta de ligao e a chave 
ficar do meu lado.
 - Mas voc no est pensando que eu...
 - Mas claro que no! Voc  um cavalheiro. - Nesse momento ela 
deu uma risada, viu o mensageiro ndio, com um visvel espanto 
estampado no rosto, levar a mala de Garcia para o outro quarto e 
ento deu-lhe o brao.

- Acredite voc ou no, estou morta de fome. Quero um bife 
gigantesco. Sabe o que uma vez Peter disse com um alegre estado 
de esprito provocado pelo lcool? "Esse negcio de se comer sem 
carne  uma coisa quase pervertida!" E olha que isso foi num 
convite para um congresso de vegetarianos. Quase ca no cho de 
tanta vergonha... Mas sabe o que fizeram os homens e mulheres que 
odiavam carne? Morreram de rir! Depois, como vegetarianos 
conscientes, passaram aos cereais. Sabe o que  isso?
 - No.
 - Um milho... uma pilsen. No final do congresso, Peter 
balbuciou: "A gente no conhece os vegetarianos." Ser que este 
hotel tem um fil gigantesco, ou o restaurante  aristocrtico 
demais para tal coisa?
 - Pedirei a metade de um boi assado.
 - Voc tem cara de quem  mesmo capaz.
 Satisfeitos, os dois desceram at o restaurante, onde j estava 
reservada uma mesa, discreta, num canto, encoberta por um 
gigantesco ramo de buganvlia num vaso de mrmore branco. Thea 
Sassenholtz ficou parada.
 - Isso tambm foi encomendado?
 - Um atencioso servio de hspede. - Garcia conduziu-a em volta 
do ramo. - Sem saber, o esperto gerente de hotel fez a coisa 
certa: um mar de flores para uma "florzinha".
 Mais tarde, quando os dois se despediam diante da porta do 
quarto de Thea, Garcia disse:
 - Quer dizer ento que amanh de manh Quito! Pense nisso: o 
aparelho levanta voo s sete da manh.
 Ele beijou a mo de Thea, esperou que a porta se fechasse e a 
chave fosse girada e depois foi para seu quarto. Ali chegando, 
sentou-se numa poltrona e acendeu um cigarro.
 Enquanto isso, Thea Sassenholtz contemplava o arranjo montado em 
cima de uma mesa redonda: um buquet de rosas claras, um imenso 
cesto de palha com frutas tropicais e uma garrafa de champanhe 
dentro de uma cuba de gelo... Com duas taas.
 Servio de hspede.
 Thea olhou para a porta de ligao e sentou-se numa poltrona ao 
lado da mesinha. Agora, s preciso girar essa chave, pensou.  
bem simples. Mas mesmo assim muito difcil. No fundo, eu no 
devia ter esses pensamentos, mas no sou nenhuma velha. Pareo 
bem mais jovem do que sou. no dizem, me conservei bem e ainda 
no passei para o outro lado do muro das paixSes e desejos. O que 
foi mesmo que me disse Monika, minha filha mais velha, numa festa 
dada no jardim? "Mame, voc est usando uma saia de adolescente. 
Assim no d. Pense na sua idade..." E eu respondi: "Seu pai 
gosta dela, foi ele quem escolheu; outras pessoas tambm gostam, 
mas o importante  que eu gosto. Alm do que, sei muito bem a 
minha idade e me sinto trinta anos mais jovem! Em compensao, 
voc parece mais velha do que eu..." Que cara estpida Monika 
fez! E nunca mais zombou das minhas roupas. Ser jovem, poder 
voltar a ser jovem outra vez... seria bonito, no ser uma jovem 
tagarela, mas voltar a ter quarenta anos.
 Thea deu outra olhada na garrafa de champanhe, nas flores, nas 
frutas e depois na porta de ligao. A chave brilhou na luz.

 Ter quarenta anos... no  terrvel? Para uma sexagenria, 
quarenta anos ainda  juventude; e como os outros vinte anos 
passaram rpido! Ou ter trinta, a metade de hoje... meu Deus, 
como trinta anos  pouco tempo! Claro que parecem infinitos 
quando se os tm pela frente. E como voaram quando j foram 
vividos. Mas agora a gente j sabe: cada hora  importante,  
valiosa, irrecupervel, muitas vezes  desperdiada sem nenhum 
sentido, quase sem ser notada e ento a gente comea a ser levada 
com as horas... tarde demais. E sabemos de mais uma coisa: no se 
pode recuperar nada. No faz sentido acumularem-se anos 
esquecidos.
 Thea Sassenholtz levantou-se, foi devagar at  porta de 
ligao, encostou o ouvido na madeira e ficou escutando. No 
quarto ao lado reinava um silncio completo. Nenhum passo, nenhum 
sussurro, nenhum pigarro. Ser que Juan de Garcia j saiu do 
quarto e est l embaixo sentado no bar?
 Thea deu uma batidinha tmida na porta e prendeu a respirao. 
Ele ainda estava l, Thea ouviu uma poltrona ser empurrada. 
 - Sim? - perguntou ele. Devia estar bem ao lado da porta. - 
Florzinha?
 - S uma pergunta: voc tambm tem champanhe no seu quarto?
 - No. S um cesto de frutas.
 - Bem, aqui eu tenho frutas, um buquet de rosas e uma cuba de 
gelo com champanhe. E dois copos...
 - Chamarei a ateno do gerente do hotel.
 - Mas o que fao com a garrafa de champanhe?
 - Beba! Mas no toque nas frutas. Nunca se sabe, nem nos hotis 
de luxo, se elas esto livres de bactrias. Mesmo quando so 
lavadas. No confio na gua. At os dentes eu lavo com gua 
mineral em garrafa. Que champanhe ?
 - Louis Roederer...
 - Excelente! Sade, florzinha!
 Ela pousara a mo na chave e hesitava. Mas nesse momento retirou 
a mo com um solavanco como se a chave estivesse em brasa.
 - Obrigada! - sua voz mudara, estava mais spera e sombria. 
Seria sua primeira traio, pensou Thea chocada. Duas noites... 
pouco tempo demais para ultrapassar trinta e sete anos. Trinta e 
sete anos com Peter Sassenholtz, o gordo alegre. Ele no pode ser 
trocado por duas noites.
 - Beberei  sua sade, Juan, e ao dia de amanh. Boa noite.
 - Boa noite, florzinha...
 No me chame assim, ela quis gritar. Chame-me por milhares de 
outros nomes, s no de florzinha! Ser que voc no compreende 
que isso  uma parede intransponvel entre ns? Quando voc diz 
florzinha, Peter fica entre ns dois... Mesmo que nada acontea, 
no deixe que eu seja florzinha durante dois dias! Sonhar dois 
dias... eu gostaria de viver isso mais uma vez!
 Thea retornou  mesa, tirou a rolha da garrafa e encheu a taa. 
Em seguida, ergueu-a em direco  porta de ligao, mas 
continuou muda e esvaziou a taa de um s gole.
 Meia hora depois, Thea estava dormindo como que anestesiada. 
Nunca em toda a sua vida havia bebido sozinha uma garrafa inteira 
de champanhe.
 Na manh seguinte, s sete horas, os dois se encontravam no 
avio para Quito.
 - Quando chega seu barco? - perguntou ele.
 - Acho que hoje  noite.
 - E quando zarpa?
 - Depois de amanh, bem cedo.

 - Quer dizer que voc s precisar subir a bordo amanh durante 
o dia. Alis, a qualquer hora... Mesmo noite alta.
 - Pelo amor de Deus, Juan! - ela deu uma risada alta. - Imagine 
s se perdermos o navio aqui tambm. Voc seria obrigado a me 
levar para o Peru, a Callo.
 - E isso seria alguma desgraa? Ns telefonaramos para o 
comandante e explicaramos tudo.
 - Impossvel! - Thea olhou pela janela. As turbinas trovejavam, 
a escada foi retirada. - Preciso telefonar para Peter.
 Peter... o escudo protector! O muro. Ajude-me, Peter. Fique ao 
meu lado!
 Garcia assentiu.
 - Ah, sim... Peter. O que voc dir a meu respeito?
 - Devo dizer algo sobre voc?
 - Peter  muito ciumento?
 - No sei. - Ela encarou Juan com toda a ateno. Seus olhos 
pesquisaram-lhe o rosto. - Ele nunca teve oportunidade para se 
mostrar. A confiana dele  ilimitada. .
 - Eu j disse, ele  um homem feliz: Eu sou terrivelmente 
ciumento, florzinha. Seria capaz de espancar qualquer pessoa que 
a fitasse por mais de dois segundos. Voc no faz idia da 
eternidade que dois segundos podem ser para um homem ciumento. 
Acho que se uma mulher me trasse, eu poderia tornar-me um 
assassino. D para notar isso em mim?
 - D - concordou ela. Nesse momento, o avio comeou a rolar 
tomando velocidade cada vez maior, at erguer-se no cu azul.
Thea Sassenholtz respirou aliviada. Tinha medo da decolagem e de 
cada aterrissagem.
 So os minutos crticos do voo. Quando se est no ar, ento a 
segurana  maior do que em terra - Sim. d para se notar que 
voc  capaz de amar uma mulher at as raias da loucura.
 como um dia passa rpido!
 No d nem para se ver todos os monumentos de Quito. Sobra 
apenas uma hora para o interior, para alm da cordilheira. Os 
ndios quchuas, ainda hoje em dia de raa pura, deixam nas 
aldeias seus rebanhos, carneiros, porSes e chamas, enquanto 
pastam nas sempre hmidas campinas de grama ou erva dos pramos 
desrticos, ou cultivam batatas e gros nos palmos das terras 
montanhosas protegidas contra o vento. Thea e Juan tambm foram 
ao Monumento da l lnea, o obelisco construdo exactamente sobre 
o Equador, 24 quilmetros ao norte de Quito, e que tem em cima um 
globo terrestre.
 Juan de Garcia preparara uma surpresa para esse momento. Retirou 
uma garrafa de sidra chilena de uma pequena caixa de isopor, 
desarrolhou-a e realizou o baptizado do Equador de Thea 
Sassenholtz despejando um pouco da bebida na concha da mo. Ela 
devia mergulhar o rosto na bebida. Em seguida, de Garcia 
enxugou-lhe o rosto com o leno e Thea estendeu-lhe a boca numa 
esperana febril de que ele pudesse beij-la. Mas de Garcia 
apenas enxugou sua face e nariz. Em seguida, os dois sentaram-se 
diante do monumento ao Equador e beberam a sidra pelo gargalo.
 Mais tarde, ao cair da noite, os dois voltaram a Quito e foram 
para o morro Panecillo com sua ampla e magnfica viso para a 
cidade e para os picos das montanhas dos Andes. 
 - Nosso primeiro avio parte s oito da manh - disse de Garcia 
de repente. Thea estremeceu como se ele a tivesse golpeado. - O 
ltimo s 19 horas. Qual deles devemos tomar?

 - O primeiro, Juan.
 - Voc vai ficar contente quando acabar esse tempo de espera.
 - Vou...
 - Fui uma companhia to ruim assim?
 - Pelo contrrio, Juan. No  isso! - ela recostou-se no ombro 
de Juan com pose de moa apaixonada. J no havia nela mais 
nenhuma timidez, nenhuma defesa, to-pouco arrependimento. Do que 
haveria de se arrepender? Passaram-se dois dias encantadores, 
cheios de encantamento, dois dias nunca antes vividos... e mesmo 
assim foram dois dias no cativeiro de sua conscincia. Nada havia 
do que ela pudesse recriminar-se. Os outros pensamentos? 
Permaneceriam como desejos secretos e no eram motivo de 
arrependimento. - No queremos uma despedida longa. Adeus... e 
depois ir embora. Quase no h possibilidade de um novo encontro.
 - Por que no?
 - Quando  que eu voltarei outra vez  Amrica do Sul?
 - Mas eu posso ir  Alemanha. Eu j lhe disse que a Alemanha  
minha maior importadora. Visitarei meus amigos de negcios em 
Hamburgo e Bremen e depois dou um pulinho rpido em Munique. - 
Juan de Garcia hesitou, mas depois disse: - Gostaria de conhecer 
Peter tambm, esse sujeito mais feliz do mundo. Quero dar-lhe os 
parabns pela mulher que tem.
 A ltima noite, a ltima madrugada.
 Sentaram-se juntos no bar do hotel, danaram ao som de uma banda 
de trs homens e esforaram-se para ficar felizes. Garcia comprou 
a uma vendedora de flores que ia de mesa em mesa um gigantesco 
buquet de paniculas de orqudea, colhidas na infinita selva 
situada a leste e s habitada pelos ndios nmadas e que ainda 
hoje  um trecho no pesquisado da floresta do Amazonas. Juan de 
Garcia disse ao entregar o buquet para Thea: 
 - Enquanto voc estiver no navio, elas permanecero frescas. 
Depois, quando voar de volta  Alemanha, jogue as flores ao mar, 
em Sidney. Os polinsios dizem: quem joga flores ao mar, volta 
sempre... Talvez essa magia tambm funcione no seu caso.
 Ela concordou sem dizer uma palavra, depositou no colo o buquet 
de orqudeas e ostentou um sorriso espasmdico.
 - Primeiro voc deve ir a Munique, Juan.
 - Com toda certeza.
 Os dois brindaram sabendo que estavam mentindo; que seus 
caminhos nunca mais se cruzariam; que aquela noite significava 
realmente o fim. Dois dias de conto de fadas na vida de uma 
sexagenria.
 Na manh seguinte, os dois andaram de brao dado no saguo do 
aeroporto de Quito. O primeiro aparelho vindo de Guaiaquil j 
aterrissara.
Os passageiros aglomeravam-se na parte reservada.
 - Minha Nossa Senhora! - gritou Thea Sassenholtz ao ver primeiro 
o Dr. Paterna e depois o enxame das outras pessoas. - Mas eles 
so do meu navio! Claro que esse  o passeio especial nos Andes!

 Ela acenou com a mo direita, enquanto a esquerda continuava 
enganchada em Garcia, alegrando-se com o espanto dos companheiros 
de viagem cuja maioria no dera pela sua falta nos ltimos dias. 
Somente o Dr. Paterna sabia de sua desgraa no Panam. Ele 
respondeu com um aceno alegre, mas no tinha tempo para 
aproximar-se dela. O autocarro estava esperando l fora e cada 
minuto era importante.
 O Dr. Schwarme parou segurando sua mulher Erna.
 - Dois dias desaparecida e j com um amante debaixo do brao! - 
disse cheio de amargura. - A est de novo. Vocs, as malditas 
fmeas, so todas iguais!

 Ningum do grupo teve vontade de escalar o Chimborazo comeando 
de baixo, como fez o compatriota Alexander von Humboldt em 1802.
Os primeiros indcios de vertigem de altura apareceram na rpida 
visita atravs de Quito; o Dr. Paterna foi obrigado a distribuir 
comprimidos a alguns passageiros, lev-los para a sombra de um 
arpo de porto e auscultar seus coraSes, justamente diante da 
residncia arcebispal, o Palcio Arzobispal.
 - Os caras que j esto cagando nas calas a 2.800 metros deviam 
voltar! - anunciou Knut De Jongh suficientemente alto para que 
todos ouvissem. - Ns antes j sabamos o que nos esperava. E 
tambm sabemos o que ainda est por vir. Sero mais de quatro mil 
metros. Os frouxos deviam ficar no hotel!
 Hans Fehringer esforara-se em manter sempre uma grande 
distncia de Sylvia. Quando ela se encontrava  frente do grupo, 
Hans formava a retaguarda; quando ela retardava-se nas visitas, 
ele avanava para a ponta. Knut De Jongh estava pouco ligando 
para isso. Estava sempre onde os outros no estavam; fotografava 
com flash em locais onde ele era proibido, sobretudo nas igrejas; 
e, numas exquias na qual chegaram por acaso, postou-se entre os 
parentes do falecido e fotografou os pranteadores com as velas 
nas mos.
 - Bah, um motivo genial! - disse tambm em voz alta e depois 
enfiou o dedo indicador na pia de gua benta para, em seguida, 
lamb-lo, pois estava querendo verificar se, de facto, a gua 
benta era mesclada com leo aromtico. - Pura mentira! - disse 
ento, desapontado. - gua morna, mais nada.
 Somente de vez em quando  que De Jongh dava uma olhada no 
crculo, via a mulher, Sylvia, em atitude decorosa perto do guia 
turstico que falava um pssimo ingls e se dava por plenamente 
satisfeito.
 Mais tarde, o autocarro levou-os para os Andes, aos ps do 
Chimborazo, subiu o macio vulcnico atravs de uma estrada 
sinuosa e, depois, parou num ptio que havia sido transformado em 
estacionamento. Um cartaz anunciava: 3.562 metros.
 Oliver Brandes permaneceu sentado no autocarro com a respirao 
ofegante. Seus olhos bruxuleavam, a boca tremia. O Dr. Paterna 
foi at ele e sentou-se ao seu lado.
 - Voc foi pegado!
 - Sim. Eu lhe disse. Voc vai ter mais problemas comigo. Est 
tudo girando diante de meus olhos, o sangue martela em minhas 
tmporas, cada vez que respiro  como se estivesse engolindo 
chumbo.
 -  exactamente o contrrio que acontece: o ar  rarefeito. - 
Paterna retirou a pequena garrafa de oxignio da maleta, deu a 
mscara respiratria e o tubo a Brandes. - Fique no autocarro e 
de vez em quando respire o oxignio. Quando voc aperta essa 
alavanca aqui, a mscara enche-se de oxignio.
 Knut De Jongh estava aguardando diante do autocarro, como sempre 
falando em voz alta.

 - E a! - gritou ele. - Ainda vamos subir mais quinhentos metros 
a p. A o ar  to rarefeito que um peido torna-se to visvel 
quanto uma nuvem... - ningum riu, coisa que De Jongh encarou 
como terrivelmente estpida. As pessoas sem humor deixavam-no 
frentico.
Contudo, ele no compreendia que seu tipo de humor existia  
custa de seus semelhantes. - Portanto, quem achar que pode 
revirar os olhinhos durante o trajecto,  melhor ir fazer 
companhia ao Sr. Brandes! - Como ningum reagiu de novo, ele 
encolheu os ombros e foi em direco a Sylvia. - no est a coisa 
para o seu lado?
 - Eu consigo! - foi a lacnica resposta dela. - Se voc no 
desmaiar... Voc nunca esteve numa altitude como essa.
 - Nada derruba um Knut De Jongh! - ele olhou de soslaio para 
Hans Fehringer. O patife louro, como ele o chamava, havia chegado 
 borda do ptio e estava fotografando o vale. Agora, um 
empurro, pensou De Jongh... e quando ele chegar l embaixo, 
ningum o reconhecer. Virou rapidamente a cabea, abalado com o 
pensamento que somente lhe ocorrera motivado pelo assistente 
espiritual quando de sua campanha de convencimento para que De 
Jongh permanecesse no navio. Ele nunca pensara em tal coisa. Uma 
boa surra sim, isso era possvel, um nariz ensanguentado, lbios 
rachados, olhos arroxeados, o queixo inchado... mas matar um ser 
humano? Puxa, as coisas que os sacerdotes esperavam de uma 
pessoa... 
 O Dr. Paterna saiu do autocarro e acenou chamando o grupo. 
 - Quem achar que o ar  rarefeito demais, deve ficar aqui com o 
Sr. Brandes. Por favor, nada de prova de fora e coragem! Afinal, 
no  vergonha nenhuma confessar: tenho dvida se vou conseguir. 
Por favor, aqueles que estiverem sentindo dor de cabea, sensao 
de vertigem, dificuldade respiratria, quem estiver vendo imagens 
duplas, permaneam no autocarro.
- Fez uma pausa. Ningum apresentou-se, menos ainda as trs 
senhoras idosas, das quais a mais nova tinha mais de setenta 
anos. Elas apoiaram-se em suas bengalas e, firmes e serenas, 
encararam o Dr. Paterna. O Dr. Schwarme lanou um olhar  mulher 
Erna. esta balanou a cabea, muda. Ora, ento vamos, pensou ele 
satisfeito.
 O guia turstico deu uma olhada provocadora no relgio de pulso. 
Havia sido contratado para nove horas; se fossem dez, ningum lhe 
pagaria, nem a agncia que o empregava e muito menos os 
estrangeiros. Nove ou dez horas... de qualquer modo a gorjeta no 
seria aumentada.

 - Muito bem, ento vamos! - disse o Dr. Paterna acenando para a 
segunda acompanhante, a Comissria Brbara. Ela foi na frente. 
Paterna queria subir por ltimo para recolher os que ficassem 
para trs. J sabia como era: num grupo de quarenta e dois 
participantes, pelo menos um afrouxava. Paterna apostava em De 
Angeli, o playboy que ento j era odiado por todos os maridos. O 
elegante francs estava um tanto quieto no grupo, alis quieto 
demais, esforando-se por ostentar um sorriso estpido para 
todos. De vez em quando, dava uma piscada de olho furtiva para 
Erna Schwarme. Comeou a escalada feita atravs de um estreito 
atalho, entre rochedos escalvados e trechos de musgo, conferas 
rasteiras e liquens que desafiavam o tempo. Para o guia nativo, 
aquilo era um passeio; quatro mil metros nada significavam para 
as pessoas nascidas no lugar. Ele no compreendia aqueles 
europeus que vinham atrs ofegando; eles subiam a montanha 
arrastando-se, enfrentavam as fainas s quais no estavam 
habituados, tossiam e estertoravam e, depois, chegavam ao mirante 
de joelhos bambos e olhos saltados para fora... e tudo isso s 
para tirar algumas fotos dos verdes vales l embaixo, ao lado das 
outras montanhas dos Andes, e do pico do Chimborazo azul ao sol, 
com a cpula sempre coberta de neve. Coisa que se podia comprar 
em Quito na forma de carto-postal, de um modo mais confortvel e 
barato. Bem, esses estrangeiros devem ter um parafuso a menos, 
pensou ele, sem reflectir na incrvel sensao de triunfo, quando 
eles voltassem  Alemanha e mostrassem as fotos para parentes, 
conhecidos e amigos. Aqui, estive no Chimborazo, foi genial, o ar 
era rarefeito... E, ento, a inveja nos olhos dos outros seria o 
blsamo que amenizaria todos os esforos.
 O Dr. Schwarme parou aps cerca de duzentos e setenta metros, 
deu o brao  mulher Erna e deixou que o grupo passasse ofegante. 
Quando Franois De Angeli parou ao lado deles e perguntou se 
podia ajudar, o Dr. Schwarme respondeu com voz grosseira:
 - No!
 O Dr. Paterna, chegando por ltimo na curva atrs da qual o 
grupo desaparecera, examinou o casal Schwarme com um olhar rpido 
e clnico. No estavam com aparncia de terem sido acometidos da 
doena das alturas. Com Knut De Jongh a coisa era diferente. O ar 
rarefeito teve um efeito de champanhe em seu sangue. De repente, 
ele ficou eufrico, comeou a cantar em voz alta e passou a 
saltitar em vez de andar.
 - No Chimborazo cresce uma velha tamareira... tubidai.. 
tubidai... - cantava ele.
 Claro que o texto estava errado, inclusive o poeta no qual se 
inspirara, pois no existiam tamareiras no Equador; mas quem se 
importava? Sylvia foi a nica pessoa a envergonhar-se. Ela puxou 
a camisa de Knut e sussurrou-lhe:
 - Cale a boca!
 Mas isso de nada adiantou. Pelo contrrio, De Jongh reagiu e 
berrou:
 - Cale a boca, minha amada criana, pois quando estamos juntos, 
avanamos e corremos, primeiro a trote, depois a galope...
 O guia nativo encarou-o perplexo. Nunca antes havia visto esse 
tipo de vertigem de altura. Em geral, a maioria dos estrangeiros 
recostava-se nos rochedos, ficava com o olhar petrificado e 
comeava a andar trpega como bbado.
 As trs senhoras idosas com suas bengalas postaram-se  frente. 
Seus olhos brilhavam com o prazer da aventura. Nenhum sinal de 
cansao ou dificuldade respiratria. Seguia-lhes Ludwig Moor, ali 
tambm, como em sua caminhada de mil metros no tombadilho, de 
postura erecta, o queixo esticado para a frente, o rosto 
impassvel. Um funcionrio pblico prussiano suporta qualquer 
coisa.
 O Dr. Paterna puxou a maleta de mdico para a frente.
 - Posso ajudar? - perguntou ao Dr. Schwarme. - Est com falta de 
ar?
 - Claro que no. Ainda consigo. - Schwarme ostentou um sorriso 
desfigurado. - No se detenha, doutor. Talvez mais tarde os 
outros precisem de voc. Ficaremos aqui at  sua volta. Estamos 
satisfeitos com a vista daqui.
 - Tem certeza de que no precisa de oxignio? 
 - No, obrigado, doutor.

 - E voc, Sra. Schwarme?
 - Estou muito bem. Poderia continuar subindo, mas meu marido no 
quer. Portanto, obediente que sou, fico ao lado dele.
 O Dr. Paterna riu e ps-se a andar de novo.
 - At mais tarde! - ainda gritou antes de desaparecer na curva. 
 Ele no teria rido se pudesse ler os pensamentos do Dr. 
Schwarme.
 - Outra de suas observaSes idiotas! - disse Schwarme, irritado, 
 mulher. - Voc me apresenta como um moleiro.
 - E voc no ? - foi a resposta zombeteira dela. - Agora vou 
ficar por aqui...
 - Claro que voc teria preferido ficar do lado do seu querido 
Franois, no?
 - Ele est aguentando! Ele sempre aguenta! - disse Erna em tom 
malicioso. - um homem robusto.
 - Um macaco engomado  o que ele .
 - Ento voc  uma preguia! Ah, no, no pode ser. Afinal, as 
preguias ficam penduradas pelo rabo... como voc se penduraria?
 Ela atravessou os trs passos que formavam a largura do atalho e 
olhou para baixo pela encosta rochosa, vendo os precipcios 
selvagens que, um dia, foram formados pela lava ao se resfriar.
 O Dr. Schwarme fitou as costas da mulher e cerrou os punhos. 
Agora, pensou ele enquanto um calafrio percorria-lhe o corpo. Vai 
ser agora. Apenas um leve empurro... seu grito se perderia no 
vazio, ningum o ouviria e depois eu poderia seguir correndo e 
gritando pelo caminho: Parem! Parem! Minha mulher... minha 
mulher... socorro! Socorro! E todos acreditariam que ela se 
aproximou do abismo e, de repente, perdeu o equilbrio. Um acesso 
de vertigem a quatro mil metros. O Dr. Paterna poderia 
testemunhar esse estado... e finalmente eu teria paz, paz dessa 
mulher, paz de seu escrnio mordaz, paz de sua zombaria mortal, 
uma paz bem-aventurada at o fim da vida. Apenas um empurro de 
leve... agora, agora mesmo, quando ela est parada pertinho do 
abismo. Quem iria suspeitar, somos tidos a bordo como um casal 
feliz e eu representarei o vivo completo, jamais um marido 
procedeu de modo to alquebrado, jamais to sem estribeiras. 
Serei capaz inclusive de chorar... pois uma coisa  verdade: um 
dia eu a amei com todas as minhas foras. ramos to felizes 
juntos. J no consigo mais recordar quando tudo ficou diferente, 
quando o casamento tornou-se horror e a vida em comum uma 
tortura, quando passamos a nos gritar cheios de dio e a humilhar 
o outro. No existem dados a esse respeito. Simplesmente 
aconteceu de repente. E agora tudo isso vai ter um fim, aps trs 
passos e um leve empurro nas costas... 

 Ele fechou os dedos, depois abriu as mos e esticou-as. Mos de 
assassino, pensou ele. Ou mos de libertador? como devem ser 
chamadas?! L em Quito, ns visitamos a catedral com o luxuoso 
sepulcro de Antnio Jos de Sucre, o libertador do Equador do 
domnio espanhol. A libertao custou milhares de vidas e, por 
isso, construram monumentos para ele em todo o pas. S preciso 
libertar-me de um ser humano, ser que minha conscincia vai 
sufocar-me por causa disso? Faa-o, Peter, faa-o agora! Ela est 
parada junto do abismo de um modo to conveniente, to atraente, 
to certo da morte. Faa-o finalmente!
 Mas Schwarme continuava afastado, recostado na parede do rochedo 
e respirou aliviado quando Erna se virou e recuou do abismo. Ela 
examinou-o e fez um biquinho, coisa que outrora Schwarme achava 
encantador. Hoje em dia, ele s via nisso uma espcie de escrnio 
reprimido.
 - E ento, est se sentindo melhor? - perguntou Erna.
 - Estou. - Schwarme respirou fundo e afastou-se do rochedo. - Se 
voc quiser, podemos continuar. Ainda podemos conseguir os 
ltimos metros.
 - Ento vamos! - Erna virou-se e fez a volta do atalho na frente 
dele. 
 O Dr. Schwarme ainda continuou parado alguns instantes para 
enxugar o suor denso do rosto.
 Ela tem razo, pensou cheio de amargura. Eu no passo de um 
covarde, de um moleiro, um zero  esquerda vestido de terno. 
Isso no basta para algum tornar-se assassino. Preciso continuar 
vivendo com o que sou: um advogado conhecido em minha cidade e 
nos tribunais e, em casa, um pateta que quer encontrar sua paz, 
mas que sentiria a falta da tortura do casamento se Erna o 
abandonasse. Isso deve ser uma espcie muito singular de 
perverso, um tipo de masoquismo, de auto-flagelao.
 Schwarme estremeceu ao ouvir a voz de Erna:
 - Onde voc est !
 - Estou indo. Foi s o cadaro do meu sapato que desamarrou. J 
estou indo.
 Ainda lanou um olhar para o lugar onde Erna estivera junto ao 
abismo, respirou fundo e depois seguiu subindo pelo atalho. O 
canto de Knut De Jongh chegou at ele soprado de longe. Foi bom 
que eu no tenha feito, pensou Schwarme ao ver de novo as costas 
de Erna. Afinal, a vida  to maluca; sem ela, eu ficaria 
realmente solitrio. A pequena Billie, minha secretria, no  
nenhuma substituta para ela. 

A paragem no mirante foi bem curta; o suficiente para se tirarem 
algumas fotos e se examinar a cadeia de montanhas com os 
binculos que haviam sido levados. Uma impressionante viso 
panormica, mas poucos aproveitaram-na. A subida os deixara de 
joelhos bambos, as cabeas estavam possudas por um zumbido, a 
paisagem bruxuleava diante dos olhos. Knut De Jongh ficou parado 
como uma coluna e berrou:
 - Por que o Reno  to lindo...
 Todos acharam inadequado imaginar aquilo no Chimborazo, mas 
aceitaram a coisa. A prpria Sylvia desistira de tranquilizar o 
marido; estava fazendo um pouco de pose, pois notara que Hans 
Fehringer a estava fotografando, tendo os Andes como pano de 
fundo. Sylvia ostentou seu sorriso sedutor. E o estado de 
esprito de euforia tornou-se entusiasmo, quando um condor passou 
voando, majestoso e silencioso, deslizando no vento ascendente 
com as asas bem abertas, um rei das montanhas.
 - Incrvel! - disse Ludwig Moor filmando o condor. - Mas isso  
fenomenal!
 Por essa exploso, todos notaram que a loucura das alturas 
to-pouco o poupara.
 O guia turstico tornou a olhar para o relgio com um ar 
acusador.
A Comissria Brbara bateu palmas:

 - Precisamos ir para casa, meus senhores!
 - Pare com essas malditas palmas! - gritou Ludwig Moor. - Voc 
est espantando meu condor. Ali, est vendo?, ele vai fazer a 
volta! Ser que eu paguei 1.700 marcos por esse passeio s para 
ser acossado?!
 Todos ficaram espantados; ningum reconhecia Ludwig Moor. Aquele 
ar rarefeito que transformava o sangue em champanhe... Como os 
seres humanos eram capazes de mudar!
 - Mas ns temos um limite de tempo. - A comissria Brbara deu 
um sorriso bem afectuoso para Moor. A pacincia fazia parte da 
profisso de comissria. - Queremos voltar a bordo ainda hoje  
noite. numa questo de minutos; o avio para Guaiaquil no vai 
ficar esperando por causa dos senhores. Sinto muito, mas devemos 
partir.
 As trs senhoras idosas com suas bengalas formaram novamente a 
vanguarda. Estavam muito bem-dispostas, haviam tirado fotos 
mtuas e depois fizeram pose para a foto do grupo tirada pelo Dr. 
Paterna.
 - Ah, se os nossos maridos pudessem ver isso - disse uma delas 
-, ns, no Chimborazo!
 como muitas vivas elas no pensaram que nesse caso no estariam 
ali e que somente sua viuvez  que lhes permitia fazer uma viagem 
como essa. Eram vivas ricas; no iriam dissipar o que os maridos 
lhes deixaram aps tanto trabalho duro. Portanto, eles mereciam 
uma lembrana elogiosa no Chimborazo.
 E ento aconteceu durante a descida: Brbara Steinberg, que at 
ento evitara o contacto com o Dr. Paterna, tropeou numa pedra e 
torceu o p. Com o rosto contorcido de dor, ela apoiou-se na 
parede da rocha e levantou a perna esquerda. Paterna aproximou-se 
dela na mesma hora.
 - O que voc tem?
 - Eu... eu torci o p. O tornozelo... que coisa mais estpida.
 Brbara levantou o p. O Dr. Paterna ajoelhou-se diante dela e 
examinou o tornozelo que j comeava a inchar. A regio em volta 
do malvolo estava vtrea. O Dr. Paterna abriu a maleta de 
primeiros socorros.
 - Est mal? - perguntou Brbara trincando os dentes.
 - Bem, de qualquer modo est torcido mesmo. S poderemos saber 
se est quebrado depois de tirarmos uma radiografia.
 - Di terrivelmente, Mrio. - Brbara apoiou-se em seu ombro. - 
Sinto muito. Agora serei um fardo para vocs.
 - No diga besteira, Brbara. Farei uma atadura protectora e 
ento veremos como lev-la ao avio. Depois tudo ser mais 
simples no hospital de bordo.
 Paterna olhou para o grupo que parara mais embaixo e olhava para 
cima. A comissria Brbara adiantou-se.
 - Que aconteceu? - gritou ela.
 - A senhorita Steinberg torceu o p. - O Dr. Paterna abriu o 
pacote de ataduras. - Preciso de um homem forte. Vamos ter de 
levar a ferida at o autocarro.
 Knut De Jongh e Ludwig Moor adiantaram-se sem hesitar.
 - Voc? - perguntou De Jongh examinando Moor. - Por acaso um 
funcionrio pblico l tem msculos? - ele dobrou os braos e fez 
saltar os msculos de ferreiro. - D s uma olhada. So 
verdadeiros histricos!

 - Bem, alguns tm cabea, outros bceps! - disse Moor de modo 
ousado. O ar das alturas deixara-o corajoso para qualquer coisa.
 - Vocs se revezam, cavalheiros! - o Dr. Paterna tornou a 
ajoelhar-se e, com todo cuidado, colocou a perna esquerda de 
Brbara sobre sua coxa. - Haver muito o que carregar at 
Guaiaquil...
 O resto da descida demorou mais ou menos a metade do tempo da 
subida. De Jongh colocara Brbara Steinberg nas costas; ela 
abraara-se a ele, as pernas para a frente, os braos em volta de 
seu pescoo; uma mochila viva que, inclusive, deu alegria a Knut. 
Nesse momento, Sylvia estava marchando na vanguarda. era uma 
oportunidade para trocar algumas palavras com Hans Fehringer, bem 
rpido, ao ultrapass-lo, fazendo com que a frase sasse pelo 
canto da boca.
 - Hoje  noite - sibilou ela. - Na piscina do convs C... 
 Hans Fehringer balanou a cabea. Pelo rodzio, a noite 
pertencia a Herbert. Originalmente, aquele seria seu dia, mas 
Herbert no quisera participar do passeio, pois no sabia se 
conseguiria aguentar a altitude. Mas com toda certeza no abriria 
mo da noite e havia poucas possibilidades de que renunciasse  
apresentao anunciada de um grupo folclrico indgena.
 - Amanh! - sibilou ele em resposta.
 Ela encolheu os ombros, lanou-lhe um rpido e espantoso olhar e 
foi fazer companhia s trs velhas senhoras que, firmes e 
ligeiras, caminhavam na frente.
 Knut De Jongh continuava bem-humorado. Abraou as pernas de 
Brbara e comeou a trotar como um cavalo, enquanto berrava:
 - Pequeno, pequeno cavaleiro... - sem ouvir o grito de Brbara 
que o agarrara firme.
 - No v cair tambm! - gritou Brbara. - No chegue to perto 
do abismo.
 - Knut De Jongh nunca deixou ningum cair, nem mesmo moas 
agradveis. Ah!
 Finalmente, eles chegaram ao autocarro que os aguardava. Oliver 
Brandes, j todo recuperado pela inalao do oxignio, tomou o 
fardo de Knut De Jongh na mesma hora e levou Brbara para seu 
assento dentro do autocarro.
 - Est doendo? - perguntou ele.
 - Por enquanto d para aguentar. S quando ponho os ps no 
cho... - ela levantou a vista para o Dr. Paterna que se 
aproximara de seu assento.
- Ser que o tornozelo quebrou?
 - Espero que no.
 - E se...? Nesse caso, toda essa linda viagem ter acabado para 
mim. Todo o dinheiro ter sido economizado em vo. Ficarei 
hospitalizada e depois serei obrigada a andar com o p engessado. 
Nenhum passeio mais... e eu que ainda queria percorrer a ilha de 
Pscoa, o Taiti, Bora Bora, Tona, a Nova Zelndia...
 - Voc ver tudo isso, Brbara - o Dr. Paterna encarou-a com um 
piscar de olhos. - Se for preciso, eu mesmo a carregarei de lugar 
em lugar. Vou amarr-la s minhas costas, como as ndias fazem 
com seus bebs. De acordo?
 - De acordo! - Brbara riu com um ar irresistvel.

 O Dr. Paterna adiantou-se de novo em direco ao motorista. 
Agora eu sei com certeza. A deciso foi tomada. Ele sairia da 
vida de Beate ou, quando no pudesse evitar um encontro, se 
comportaria diante dela como um amvel mdico de navio e manteria 
conversas sem compromisso. A nica questo era saber se esse 
propsito seria mantido quando se encontrasse diante dela.
 O grupo chegou ao avio para Guaiaquil no ltimo momento, por 
assim dizer. Um autocarro especial levou-os ao aparelho. To logo 
entraram, a porta foi fechada e as turbinas entraram em 
funcionamento. Knut De Jongh ficara mais calmo. Nesse momento, 
dentro do avio, na cabina pressurizada e regulada para dois mil 
metros, livrara-se por completo da loucura das alturas. Voltou ao 
normal, compreendeu sua mulher com a testa enrugada. E De Jongh 
reagiu indignado quando Sylvia lhe disse em voz baixa:
 - E ento, de volta da idiotice?
 - Que quer dizer com isso, hem?!
 - Voc teve um comportamento bem infantil.
 - Um se comporta de modo infantil, a outra fica deitada nua ao 
sol com o amante. O que  pior?
 - Comporte-se! - Sylvia, envergonhada olhou para todos os lados. 
- No tenho amante nenhum! Voc Mesmo sabe muito bem disso. 
Quando, onde e como isso aconteceu? num navio, com centenas de 
olhos observando... Claro que voc est brincando!
 - Voc se ps nua ou no?
 - No convs CFL oficial.
 - No quero que outros homens Vejam a minha mulher pelada. Seja 
de modo oficial ou no... no gosto disso.
 De Jongh esticou bem as pernas. Nesse momento, o avio estava 
fazendo uma curva sobre a linda cidade de Quito. Os viajantes 
lanaram um ltimo olhar aos picos cobertos de gelo da 
cordilheira. De Jongh no estava com nimo algum para isso; 
sentia-se torturado pela sede e morria de vontade de tomar uma 
cerveja.
 - Vamos despedir-nos do Equador! - disse o Dr. Paterna ao 
microfone. - Um pas encantador quando, daqui de cima, no 
podemos ver que se trata do pas com mais golpes de Estado da 
Amrica do Sul. De 1830 at hoje, o governo foi mudado quarenta e 
oito vezes e a constituio dezoito vezes. Comparado com isso, 
ns, os alemes, no passamos de crianas modelo.
 Os alemes sorriram e os equatorianos os acompanharam nesse 
riso, mesmo no tendo compreendido. Afinal, eram pessoas alegres 
e de temdeamento cordato. Que so quarenta e oito governos? Cada 
qual  pior do que o outro e lucra ao governar. Somente os ndios 
permanecem pobres, enquanto os descendentes dos espanhis ficam 
cada vez mais ricos. E os estrangeiros; sobretudo agora que se 
encontrou petrleo. Amigos da Alemanha, assim  a vida. Que se h 
de fazer? Nada muda. Nem mesmo com dezoito constituiSes 
diferentes...
 Moor e Brandes levaram a um tanto plida Brbara Steinberg para 
o autocarro que faria o trajecto do aeroporto de Guaiaquil ao 
porto e colocaram-na no assento de trs.
 - S mais meia-horinha e voc vai deitar-se numa caminha bem 
macia! - disse Brandes para consol-la. - Voc vai ver que nem 
tudo est to mal. De qualquer modo, vai poder contar em casa: eu 
escorreguei no Chimborazo! Os outros no resistiro. 

 A chegada ao porto foi acompanhada de altos aplausos. J de 
longe se podia ver o lindo navio branco como a neve, uma viso 
to entusiasmante que todos aplaudiram. O retorno ao lar... todos 
sentiram a coisa dessa maneira. As cabinas, os conveses, os 
corredores, os bares, o restaurante, o salo de festas, aqueles 
que por l ficaram, os novos amigos... tudo isso tornara-se de 
facto uma espcie de lar. O mundo  imenso e belo e um passeio ao 
estrangeiro  sempre uma boa experincia... mas mais belo ainda  
o retorno ao aconchego da prpria cabina.
 - Daqui a pouco vocs ouviro um cicio e um barulho de vapor! - 
gritou Knut De Jongh dentro do autocarro. - A primeira cerveja 
nem chega a descer. Quem vai nessa?
 - Eu! - gritou o Dr. Schwarme ostentando um sorriso cheio.
- Suponho que todos os homens do autocarro.
 Pela primeira vez no houve opiniSes contraditrias. Inclusive 
Ludwig Moor assentiu sua concordncia. 
 Quando o autocarro parou no cais, havia uma grande quantidade de 
passageiros na amurada. O "grupo Chimborazo" era o ltimo dos 
grupos de passeio.
 Beate Schlichter tambm encontrava-se na amurada e viu quando o 
Dr. Paterna saltou do autocarro e recebeu Brbara Steinberg nos 
braos. Junto com Oliver Brandes, ele levou-a  escada. Um 
marinheiro de uniforme tropical branco apressou-se saindo do 
navio para ajudar. Brbara pousara o brao em volta do pescoo de 
Paterna e recostara a cabea em seu ombro. As dores 
aguilhoavam-lhe todo o corpo, mas ela tentava ostentar um sorriso 
espasmdico.
 L em cima na amurada, Beate cerrou os lbios. Dabrowski, que se 
encontrava ao seu lado, olhou-a de soslaio atravs dos culos 
escuros de cego e bateu com a bengala branca na barra da amurada.
 - Um acidente. Logo com ela...
 - Ela bem que merecia. - Beate recuou com um solavanco. - Vou 
para a minha cabina. Que sirigaita refinada!

 s 24 horas em ponto, o NM Atlantis despediu-se do mar de luzes 
de Guaiaquil com uivos altos de sua sirene de navio. A 
especialidade de Teyendorf era atracar e zarpar com uma 
pontualidade de minuto, como se os mares do mundo possussem 
trilhos nos quais um navio corresse de acordo com o horrio. 
Nesse momento, ele tambm se encontrava na ponte dirigindo a 
partida do per com a ajuda de telgrafos e remos de irradiao. 
O piloto estava recostado ao seu lado, em uniforme de campanha, 
fumando um cigarro.
 Sua tarefa comeava aps a sada do porto... na viagem nocturna 
atravs do rio Guayas em direco ao Pacfico.
 Apenas poucos passageiros encontravam-se na amurada; depois dos 
passeios e da noitada folclrica dos ndios, a maioria deles 
estava cansada e foi deitar-se. Knut De Jongh tambm dormia como 
que anestesiado, aps ter "virado" cervejas e mais cervejas, 
todas lustradas com algumas aguardentes, s quais seguiram-se 
mais duas garrafinhas de champanhe no Salo dos Sete Mares. 
 Sylvia aguardou at que ele comeasse a soltar roncos compridos, 
depois chamou-o, sacudiu-o, mas Knut reagiu apenas por reflexo 
com grunhidos. Satisfeita, ela foi ao banheiro, lavou-se, ps uma 
blusinha leve com um vestido tubinho, abriu mo da calcinha e 
saiu da cabina na pontinha dos ps.

 Eles se encontraram no tombadilho, no canto escondido dos 
fundos, na profunda sombra do bote salva-vidas pendurado acima. 
Abraaram-se em silncio e pressionaram-se contra a parede.
 Tambm fizeram amor dessa maneira, de p, o vestido tubinho 
puxado para cima, o rosto pressionado contra o peito do outro 
para sufocar os gemidos; mas quando chegaram ao clmax, ao mesmo 
tempo, Sylvia gritou contra o peito do outro: 
 - Oh, Hans... Hans... meu querido... segure-me bem firme.
 Contudo, era Herbert Fehringer quem a abraava com os dois 
braos e continuava dentro dela. A noite era sua e, enquanto ele 
a beijava, acariciava e, sem nenhuma pausa, fazia amor pela 
segunda vez, Herbert pensou que no dia seguinte Hans faria a 
mesma coisa em seu lugar.
 Foi um pensamento que lhe causou dor e demonstrou a maneira 
inescusvel com que estava  merc daquela mulher.

 Outra vez dois dias em alto-mar, ao longo da costa da Amrica do 
Sul, sem v-la. O objectivo era Callo, a enorme cidade porturia 
do Peru, uma gigantesca regio de favelas que cresciam qual 
cogumelos venenosos at Lima, a capital.
 Knut De Jongh conseguira junto ao director de cruzeiro Manni 
Flesch que a revanche do tiro ao alvo tivesse lugar na tarde 
seguinte. O comandante Teyendorf, a quem Flesch apresentara esse 
desejo, concordou.
 - Vai ser uma coisa sria, senhor comandante - disse Manni 
Flesch em tom de advertncia. - Para o Sr. De Jongh, trata-se 
mais do que um par de tiros ao alvo.
 - Ora, o que mais poderia ser? No fique a hesitando em falar, 
Manni. O que est fervilhando no pano de fundo? 
 - Sempre a mesma coisa, cherchez l femime.
 - Sylvia De Jongh? - nesse meio tempo, Teyendorf tivera 
oportunidade de observ-la vrias vezes; Sylvia to-pouco era uma 
mulher que passasse despercebida. - Eu estava receando esse tipo 
de coisas, Manni. A mulher  uma bomba-relgio em funcionamento.
 - Eu no disse coisa alguma, senhor comandante. - Flesch ergueu 
ambas as mos num gesto de defesa. - O senhor conhece e sabe 
muito bem como ; as fofocas e boatos a bordo esto sempre em 
alta. Em todo o caso, vai ser um tiro ao alvo bem tenso.
 -  o que estou achando. Se eu me colocar entre os dois galos de 
briga, eles vo se controlar. Talvez eu participe do tiro ao alvo 
na qualidade de terceiro atirador neutro.
 A expresso de vida no rosto de Manni Flesch e mais ainda o 
"ora" deixaram Teyendorf alterado. Ele perguntou de modo brusco:
 - Que significa esse "ora"? Voc no me acha capaz disso?
 - Claro que o senhor sempre foi corajoso, comandante.
 - No se precisa de nenhuma coragem!
 - Eu acho que sim.  muito natural que os passageiros esperem 
que seu comandante vena. Cada derrota  uma pequena situao 
ridcula que causa danos  imagem.

 - H uma certa verdade nisso, Manni. - Teyendorf calculou 
rapidamente as chances que teria. Ele sempre fora um bom atirador 
e sempre vencera nas competiSes de tiro ao alvo dos grandes 
navios de transporte de containers, onde esse tipo de torneio 
fazia parte das poucas distracSes durante as longas viagens. 
Sempre que assumia o comando de um navio de transporte, sua 
primeira pergunta era sempre: "Existe a bordo algum aparelho 
lanador de disco?" Quando no existia, levavam-se imediatamente 
quatro rifles, munio, discos e uma catapulta para o navio. As 
pessoas j se haviam acostumado com isso; fazia parte de 
Teyendorf assim como seu senso de dever e uma certa 
inacessibilidade e rigor. Apesar disso, ou justamente por isso, 
os membros da tripulao o adoravam - desde os lavadeiros 
chineses l embaixo, na lavanderia da barriga do navio e nos 
abafados enxugadores a quente, at os marinheiros novatos, 
obrigados a lubrificar as correntes das ncoras ou, durante as 
permanncias mais longas nos portos, a reparar os danos na 
pintura usando tinta branca, pendurados em tbuas sustentadas por 
duas cordas. Todos tratavam Teyendorf de "o velho" na intimidade, 
como sempre foram chamados os comandantes desde os tempos 
primitivos da marinha. Somente no podiam diz-lo em voz alta. 
Coisas das quais Teyendorf no gostava nem um pouco eram esse "o 
velho" e o descuidado "comande". Ningum do Atlantis esquecera-se 
do confronto ocorrido entre ele e um comissrio novato, de nome 
Archibald, que o chamara de "comande". 
 - Eu me chamo comandante! - berrara Teyendorf. - Afinal de 
contas, eu to-pouco o chamo de olho do c!
 A coisa tornou-se um provrbio a bordo.
 - Vocs vo ficar admirados! - disse Teyendorf dando um tapinha 
no ombro de Manni Flesch. - Sei muito mais coisas do que apenas 
dirigir essa jangada pelos mares.
 A revanche entre Knut De Jongh e Hans Fehringer comeou s 15 
horas. Todos os conveses estavam repletos de curiosos, como se 
fosse ter lugar um baptizado do Equador. O embate correra o navio 
como fogo de morro; vai haver um duelo de um tipo especial, 
disseram. Tanto mais atnito ficou De Jongh quando, de repente, o 
comandante Teyendorf desceu a escada que dava para o convs 
principal. Elegante, de cala branca e camisa de manga curta da 
mesma cor, com o quepe de comandante, branco com galSes dourados, 
na cabea. O marinheiro-cabo do aparelho de lanamento arreganhou 
um sorriso; s faltou que ele se colocasse em posio de sentido.
 - Isso  mesmo bom! - disse Knut De Jongh certo da vitria. - O 
comandante como rbitro. Agora nada mais pode dar errado.
 - Ledo engano! - Teyendorf foi at a mesa na qual se encontravam 
os rifles, pegou cada um deles, pesou-os e testou se ficavam bem 
em sua mo. Os especialistas chamam de espingarda de vertedouro 
esse tipo de rifle, cujo cano tem uma perfurao especial. - Eu 
participo. Fico com esse aqui - ergueu uma espingarda. - Claro 
que vocs tambm podem atirar com ele, cavalheiros.
 - O senhor quer participar? - perguntou De Jongh sem um mnimo 
de entusiasmo.
 - Por que no? - Teyendorf fez um movimento circular com a 
cabea. - D uma olhada  sua volta; o navio inteiro est  
espreita. Vamos combinar a prova para quantos tiros?
 - Para doze! - De Jongh arreganhou um sorriso. - Temos doze 
apstolos e doze meses, doze pode ser dividido por quatro e trs 
vezes quatro  um nmero mgico. Nada pode dar errado.
 - Concorda com isso? - virando-se para o lado, Teyendorf 
perguntou a Hans Fehringer.

 - Concordo. - Hans Fehringer recostou-se indolente na amurada; 
havia descoberto Sylvia no convs do solrio. Ele olhou para ela 
sem a menor cerimnia. O rosto de Sylvia estava encoberto por 
gigantescos culos de sol e um leno de seda ocultava seus 
cabelos. Mesmo assim, as outras mulheres lanaram olhares hostis 
em sua direco; seu biquini era to diminuto que, no fundo, ela 
no precisaria daquele pequeno pedao de pano - a no ser que 
quisesse mostrar seu corpo desnudo de um modo mais provocante; as 
estreitas riscas coloridas de tecido do biquini deixavam seu 
corpo ainda mais ertico.
 - Quem comea?
 - Claro que o senhor, comandante, na qualidade de dono da casa! 
- gritou De Jongh.
 - Os convidados tm sempre a preferncia. - Teyendorf deu um 
passo para trs. - Por favor, meus senhores!
 Combinou-se ento a sequncia: De Jongh, Fehringer, Teyendorf. E 
tambm combinaram um novo procedimento: cada um no atiraria a 
srie de doze tiros, seno que todos dariam um tiro por turno. 
Isso aumentaria o suspense fazendo com que os nervos vibrassem... 
Coisa que seria bem perigosa, pois no tiro ao alvo a calma 
interior e a concentrao j so metade da vitria.
 O primeiro tiro. Os trs acertaram no alvo.
 O segundo tiro. O comandante Teyendorf errou o alvo.
 O terceiro tiro. De Jongh cometeu um erro. Ele apertou o gatilho 
no momento em que o disco j estava caindo. Raramente se acerta 
nesses casos.
 No outro tiro, todos os trs voltaram a ficar na ponta. Cada 
qual errara um alvo. Nos conveses reinava um silncio absoluto. A 
orquestra de bordo posicionou-se junto  piscina para, aps o 
duelo, primeiro dar um toque de clarins e depois tocar marchas 
alegres. Os dois assistentes espirituais tambm encostaram-se na 
amurada e ficaram olhando para o stand de tiro.
 - S eu estou faltando l! - disse o padre Brause. - Eu 
liquidaria esses caras.
 - Voc? - o pastor evanglico, espantado, olhou para seu colega 
de ofcio. - Onde aprendeu a atirar?
 -  muito simples. - O padre Brause deu uma maliciosa piscada de 
olhos. - Eu rezo antes de cada tiro: Jesus, no nos deixe cair no 
ridculo... e a asseguro-me do acerto no alvo.
 Os dois riram, pipocou o dcimo tiro... e os trs erraram o 
alvo. Knut De Jongh estava com o rosto todo enrugado. Mais dois 
cartuchos e a coisa terminaria empatada. Que bela merda! Ser que 
d para se ganhar com dois tiros? Afinal, os outros tambm no 
eram idiotas. Ele parou junto  amurada com as pernas bem 
abertas, o rifle pronto para atirar, e respirou fundo. Calma, 
Knut, calma total. No pense em mais nada.
 - Lance!
 O disco foi estourado quando ainda se afastava zumbindo.

De Jongh sentiu o rosto comear a tremer. Se esse macaco louro 
acertar tambm, pensou ele, no chegar ao ltimo tiro. Dou-lhe 
um pontap na bunda. O comandante no conseguir saltar no meio 
com tanta rapidez. E estou cagando e andando para o que os outros 
pensem de mim. Ele recuou libertando o espao para Fehringer e, 
mal-humorado, ficou olhando para a espuma branca do mar provocada 
pela hlice do navio. Hans Fehringer lanou um olhar para cima, 
para o convs do solrio, Sylvia cruzara as mos e deixara-as 
pender na amurada. Ele compreendeu. Por favor, erre o tiro, 
significava aquele sinal. Perca uma vez, meu querido. Por minha 
causa. Eu j sei que voc  o melhor... sempre, no apenas no 
tiro ao alvo. Deixe que ele tenha essa pequena vitria... ele 
fica com os discos de tiro ao alvo, mas voc me possui. Que mais 
voc quer? Deixe que ele ganhe.
 - Lance!
 O disco ergueu-se no cu de um profundo azul e sem nuvens. 
Fehringer levantou a espingarda. O tiro foi acompanhado de um 
"ohhh!" generalizado.
 Alvo errado. Knut De Jongh mordeu o lbio inferior. Como 
atiraria Teyendorf?
 Ficaram sabendo um minuto depois. Tambm errara o alvo.
 O ltimo, o decisivo dcimo segundo tiro. Knut De Jongh foi at 
a mesa dos rifles, com passos pesados. Ao faz-lo, passou por 
Fehringer e deteve-se durante um curto lapso de tempo.
 - Estou pouco ligando para quem vena agora - disse De Jongh com 
ar srio. - O que importa  quem vai dar o ltimo tiro. E esse 
sou eu.
 Rifle em posio de tiro - lance - levantar e atirar... 
 De Jongh baixou a cabea. O disco caiu inclume no mar. Acabado.
 Hans Fehringer avanou. Tranquilo, pegou sua espingarda, 
carregou-a e ajustou o gatilho pensando em Sylvia. Se acertasse 
agora, tudo terminaria empatado de novo e, se Teyendorf no 
errasse, o empate seria triplo... e restaria o torturante 
sentimento de vingana de Knut De Jongh. E no que resultaria 
isso?
 - Lance!
 Fehringer levantou o rifle tarde demais, mirou muito mal. 
Teyendorf, que se encontrava ao seu lado, viu muito bem que 
Fehringer no se concentrara direito, mas que apenas disparou o 
tiro na direco do disco, de um certo modo sem mirar. Fehringer 
recuou com um encolher de ombros, depositou a espingarda sobre a 
mesa e encarou De Jongh. 
 - Satisfeito? No preciso de nenhum presente seu! - berrou De 
Jongh irritado.- Seu ltimo tiro foi uma patifaria!
 - Puxa, para voc as pessoas nunca fazem nada direito! - disse 
Fehringer cheio de sarcasmo.
 O ltimo tiro do comandante Teyendorf acertou em cheio. Centenas 
de passageiros irromperam em jbilo e aplausos. A orquestra de 
bordo deu um triplo toque de clarins.
 - Meus parabns, senhor comandante - disse De Jongh estendendo a 
mo para Teyendorf. Ao faz-lo, ostentou um sorriso amargo. -  
uma honra perder para o senhor.
 Virou-se e afastou-se batendo os ps. Ao subir a escada que 
levava ao convs do solrio, teve a sensao de que todos o 
odiavam. Postou-se na amurada ao lado de Sylvia e cutucou-a com o 
dedo indicador.
 - Venha comigo! - disse ele com voz roufenha.
 - Aonde?
 - Na cabina.
 - O que voc est querendo l?
 - Voc! - ele ostentou um sorriso irritado. - como prmio de 
consolao. 
 Sylvia nada respondeu, apertou os culos para mais perto dos 
olhos e seguiu-o... Cabisbaixa.

 Ver Callo e abalar-se, ambas as coisas so prximas. 

 O maior porto do Peru  um tal amontoado de lixo e sucata que as 
pessoas perguntam-se espantadas: como  possvel que os barcos 
sejam carregados e descarregados da maneira mais normal aqui e 
no sejam simplesmente roubados por quadrilhas organizadas. Uma 
auto-estrada larga leva da bloqueada zona do porto, protegida 
pelos militares, para a capital Lima, a 14 quilmetros de 
distncia, enquanto  esquerda e  direita dela estendem-se os 
bairros miserveis - favelas como poucas no mundo, cabanas de 
folhas de zinco, de latas de gasolina cortadas, sarrafos de 
madeira, lona, sacos e tudo que seja adequado como material de 
construo. Nada de canalizao, nada de gua encanada. Apenas 
aqui e ali,  beira da larga estrada, algumas bicas de gua nas 
quais pacientes, os carregadores de gua postam-se com seus 
baldes, em sua maioria mulheres e crianas, esperam a chegada de 
sua vez. Os homens, desempregados, sem esperana, em grande parte 
nem registrados oficialmente, deambulam pela regio porturia 
bloqueada, vadiam por Lima  procura de alguns soles, este  o 
nome da moeda peruana, proporcionados pelo trabalho de ocasio: 
arrastar sacos, limpar escamas de peixes, transportar cestos de 
peixe. Mas os estrangeiros so saudados da maneira mais alegre 
possvel. Nunca um barco partiu de Callo sem ter a bordo alguns 
feridos. Pessoas assaltadas, roubadas, espancadas, retalhadas  
faca. No faz nenhum sentido dar queixa  polcia. Aqueles 
estrangeiros que se movem fora do porto bloqueado so culpados 
quando alguma coisa acontece.
 A bordo do Atlantis os passageiros foram entretidos pela 
aventura de um homem muito viajado que agora visitava Callo pela 
quarta vez, no de livre e espontnea vontade, mas sim porque 
todos os navios que desciam a Amrica do Sul ancoravam em Callo, 
o nico porto de onde se podia chegar comodamente a Lima. E a 
Cuzo, a antiga capital inca. E  misteriosa e esquecida cidade 
de Machu Pichu nas montanhas. s potentes runas de pedra de 
cantaria das fortificaSes de Sacsayhuaman. E  fonte sagrada do 
reino inca.
 O fascnio do antigo reino inca permanece intacto e, assim, 
centenas de milhares de pessoas peregrinam todos os anos s 
terras montanhosas de Cuzo, suportam com coragem o ar rarefeito 
e, com imenso respeito, compreendem a grandeza da cultura inca, 
que o conquistador espanhol Francisco Pizarro quis quebrantar na 
loucura do ouro e em honra a Deus. Ele est enterrado num caixo 
de vidro, numa capela lateral da catedral de Lima, junto  Plaza 
de Armas. E mesmo que j no exista mais um reino inca, suas 
runas sobrevivero aos tempos; construSes gigantescas diante 
das quais ficamos intrigados com o facto de, naquela poca, os 
homens poderem erguer algo assim, algo que no poderia ser 
construdo em nossa poca com as mquinas mais modernas.
 E os descendentes dos antigos e orgulhosos incas param hoje em 
dia diante dos hotis e albergues de Cuzo pedindo esmolas, 
vendendo ponchos artesanais, cobertores de alpaca, gorros de l 
de Ihama e redondos e comprimidos chapus de feltro.

 O passageiro informou tambm que, em sua ltima viagem a Lima, 
ele pegou um txi no porto e mandou seguir at Lima. So 14 
quilmetros de estrada, pensou ele, no pode acontecer muita 
coisa. Contudo, aconteceu uma coisa sim: um carro-patrulha da 
polcia ultrapassou o txi, acenou para que se detivesse  beira 
da estrada e f-lo parar. Enquanto o motorista acendia um cigarro 
e olhava pela janela, os polcias abriram a porta do passageiro, 
examinaram o alemo com um olhar clnico de avaliao e depois 
disseram num ingls horripilante:
 - 25 dlares...
 - Por qu? - perguntou Josef Hohmann, assim se chamava o 
sujeito. - No era eu quem estava dirigindo rpido demais, se  
que o problema foi esse.
 O polcia estende a mo num gesto de intimidao e disse de modo 
rude:
 - 25 dlares, caso contrrio te prendemos. Sabe quanto tempo 
pode demorar at ser solto? Com toda a certeza alguns dias... a 
o seu navio j ter ido embora!
 - Mas por que eu seria preso?! - gritou Hohmann. - O que foi que 
eu fiz?
 - No nos pagou 25 dlares - disse o outro policial com voz 
mansa.
-  isso a. Depois de entregar os 25 dlares, voc poder seguir 
viagem para visitar o nosso lindo pas.
 - Senhor, seja esperto - intrometeu-se o chofer do txi mantendo 
toda a calma. - Esses caras vo mesmo prend-lo por alguns dias. 
Se o senhor for obrigado a seguir o navio de avio, vai ser muito 
mais caro do que esses 25 dlares. Pague e ns poderemos seguir 
viagem.
 Hohmann pagou os 25 dlares grunhindo de raiva. Os polcias 
cumprimentaram-no com toda amabilidade, desejaram uma 
interessante estada no Peru e foram embora.
 - Mas isso no foi tudo - Josef Hohmann, agora a bordo, contou 
para os espantados ouvintes. - Ao chegar em Lima, fui na mesma 
hora para a delegacia de polcia e dei queixa do assalto. Sabem o 
que aconteceu? "O qu?", o comissrio gritou para mim. "Est 
pondo a culpa do assalto e roubo em nossa polcia?! Voc se 
atreve a externar esse tipo de coisa?! Isso  um insulto a todo o 
Estado peruano! Olha aqui, se eu anotar essa sua denncia em 
protocolo, mando prend-lo na mesma hora!" Ento eu desisti, 
tomei o avio para Cuzo, sentei-me nas runas incas e fiquei 
brincando com as crianas ndias. Depois que lhes presenteei com 
dez soles, elas ficaram danando  minha volta e cantaram velhas 
canSes dos ndios. Um pas fascinante, que ser sempre 
misterioso, esse Peru... s que no se deve fazer nada sozinho 
quando se  estrangeiro e se quer sair dele gozando de boa sade. 
S se est seguro quando se anda na companhia de outros, em 
grupo. Portanto, meus senhores, nunca se afastem do grupo, mesmo 
quando virem belos motivos para fotos um pouco afastados. E no 
faz o menor sentido gritar por socorro; ningum vir em sua 
ajuda.
 Os passageiros do NM Atlantis tiveram um pequeno tira-gosto 
proporcionado pelo impresso InformaSes para aqueles que vo  
terra, encontrado em cada cabina do navio. Nele estava escrito: 
no usar nenhuma jia, nenhum brinco de ouro, nenhum anel, nenhum 
relgio de pulso e, em hiptese alguma, colar de ouro com 
pendente e tambm no levar bolsa de mo. Segurar sempre o 
equipamento de fotografia com firmeza, no sair com o dinheiro 
alm do necessrio, no mostrar dinheiro em parte alguma, nos 
passeios permanecer sempre junto dos outros. Em caso de assalto 
procurar a embaixada alem em Lima e no a polcia.

 - Ah, vamos ver se  isso mesmo! - gritou De Jongh em tom 
ameaador, quando os grupos aguardavam a libertao da escada 
para o per, na sada do convs Pacfico. - Se algum me segurar, 
depois vai poder fazer uma classificao dos prprios ossos. Quem 
vem comigo at Cuzo? Levante a mo! Fiquem sempre perto de mim, 
meus senhores. Esses macacos vo saber o que  uma verdadeira 
porrada de ferreiro! - e, para Sylvia, ele disse irradiante: - 
Ah, no estou bem-disposto! Esse tipo de coisa  bem o meu 
estilo. At que enfim vai poder acontecer alguma coisa!
 s 8 horas, o primeiro grupo desembarcou para o voo  cidade de 
Iquitos, situada na selva, e ao Amazonas. Ewald Dabrowski tambm 
desembarcou com esse grupo, conduzido por Beate. A enfermeira 
estava furiosa com Dabrowski, pois este no fizera a reserva para 
o voo a Cuzo. A propsito, era de novo o Dr. Paterna quem 
acompanharia o grupo a Cuzo, por causa da altitude. E Brbara 
Steinberg no poderia ir junto; precisava permanecer no hospital, 
a perna esquerda enfaixada e mantida em posio elevada. O 
malvolo no quebrara, mas o p torcera com gravidade e o 
tornozelo estava cercado por sangue pisado. Na primeira semana 
no seria possvel sequer andar apoiada em muletas.
 Mas Dabrowski to-pouco voou para Iquitos. Preferiu ser 
conduzido ao ponto de txi, negociou o preo num espanhol fluente 
e entrou num dos carros.
 - Aonde estamos indo? - perguntou Beate espantada.
 - A um lugar onde os outros no iro. Deixe a surpresa chegar, 
moa.
 O cantor de cmara Rieti tambm saiu do navio e alugou um txi. 
Ele detestava essas turns em massa, era alrgico s viagens de 
autocarro e, sempre e em toda a parte, sentia-se importunado 
pelas pessoas. Eu, no palco; vocs, na plateia; isso basta. No 
temos nenhuma necessidade de nos encontrar depois.
 - Para onde, senhor? - perguntou o chofer.
 - D uma boa volta por a. - Rieti recostou-se no assento.
- Mostre-me o pas. Eu sou o cantor Rieti.
 - Puxa,  mesmo?! - disse o motorista sem demonstrar nenhuma 
impresso.
 - Voc no me conhece? Eu j cantei na pera de Lima. At foi um 
tremendo sucesso.
 - No temos dinheiro para ir  pera. - O chefer deu a partida 
no carro.
 s nove horas o navio estava quase vazio. O comandante Teyendorf 
recolhera-se ao bar Atlantis que estava s moscas e ali 
encontrou-se com o director de hotel Riemke, o comissrio-chefe 
Pfannenstiel, o primeiro-oficial Kempen e o chefe Wurzer. Beberam 
um usque bem gelado.
 - Agora parecemos rfos, gente! - disse Teyendorf com ar 
pensativo. - Durante dois dias. Mas depois...! Quem quer apostar 
comigo quantos assaltados voltaro a bordo?

13


 Nunca antes o cantor Rieti havia visto algo assim e Deus sabe o 
quanto viajara pelo mundo. Contudo, seu trajecto dirio em todos 
os pases entre o hotel e a pera nunca o levava aos lugares onde 
viviam pessoas que, em verdade, no sabiam o que seria uma pera. 
Estava sempre cercado apenas pelo brilho do palco e das festas, 
da glria e do sucesso. Isso levou a que Rieti passasse a 
achar-se um dos maiores terrores deste mundo e que no poderia 
haver ningum que no conhecesse seu nome. Ali em Callo, ele 
teve a experincia de sentir na prpria pele, como se diz, o que 
era ser no apenas pobre, mas tambm marginalizado. 
 Estava sentado de olhos arregalados ao lado do motorista do 
txi, olhando pela janela a misria inconcebvel  sua volta, sem 
ao menos poder compreender como era possvel que seres humanos 
pudessem levar uma vida normal, em certo sentido, sob tais 
condiSes. 
 Via as primeiras favelas de sua vida. A princpio o chofer 
hesitou e parou o carro, aps atravessarem o bloqueio militar do 
porto e chegarem  larga estrada para Lima, onde  esquerda e  
direita deles comeava a extensa e plana favela com suas cabanas 
construdas de lixo.
 - Voc quer mesmo entrar a? - perguntou ele incrdulo.
 - Por que no? - foi a resposta de Rieti.
 - Eles no gostam de ver senhores bem vestidos e muito menos 
curiosos. A regio da fome no  um lugar de passeio, senhor.
 - Essas a so ruas pblicas? - Rieti lanou um olhar soberbo 
para os becos da favela. Ele detestava as liSes.
 - Claro.
 - Ento vamos passar por elas! Nunca em minha vida vi esse tipo 
de povoao, s ouvi falar. Quase no d para acreditar.
 - A responsabilidade  sua, senhor. - O motorista soltou o freio 
e engatou a primeira. - A mim no vai acontecer nada. Sou mestio 
como eles. Mais uma vez: quer mesmo entrar nas barricadas?
 - Ali, nas favelas.
 - Aqui, elas so chamadas de barricadas. Vamos!
 Devagar, com todo cuidado, como se estivesse abrindo caminho 
atravs de uma regio selvagem e desconhecida, o txi entrou nos 
bairros miserveis. As crianas com suas roupas esfarrapadas 
olharam espantadas para o txi e seu aristocrtico passageiro e, 
posto que o carro andava em velocidade de passo, elas correram ao 
lado deste gritando, gesticulando, acenando e esticando as mos 
em gesto de pedido de esmola, seguidas por ces de plo desbotado 
e cabras mortas de fome. O chofer parou o carro numa espcie de 
praa do mercado. O txi foi cercado na mesma hora por crianas e 
adolescentes. Os adultos, em sua maioria mulheres com roupas 
rasgadas, ancios e velhas, ficaram parados ou sentados diante de 
suas choupanas. A caravana dos carregadores de gua movia-se at 
a bomba da rua e retornava com os baldes cheios. Uma circulao 
diria, que jamais acabava.
 - Por que paramos? - perguntou Rieti. O que ele via era 
assustador e comovente.
 - Aqui  o melhor lugar para se ver como vive a metade do nosso 
povo. Sim,  isso a, senhor.
 - A metade? Voc est exagerando.

 - A metade do nosso povo  desempregada. Alimenta-se com a ajuda 
de Deus, como os animais. Voc me perguntou h pouco: voc como 
esteve na pera? - o motorista apontou para a misria  sua 
volta. - Como  que esses a podem ir a uma pera, quando sua 
cama  apenas uma coberta em cima do cho? apera, isso  coisa de 
rico! Nossa msica  o barulho do estmago e os gritos das 
crianas. Quem tem um rdio de pilhas j  um pequeno rei.
 Rieti ficou calado, meditando. Depois, de repente, abaixou a 
maaneta e abriu a porta do txi. O motorista estremeceu como que 
mordido por uma aranha venenosa, virou-se e segurou Rieti pelo 
palet.
 - Voc ficou maluco?! - gritou ele. - Pelo amor de Deus, fique 
dentro do carro. Feche a porta! Feche a porta!
 Mas j era tarde demais. Com um solavanco, Rieti saiu do 
automvel e deu dois passos  frente em direco ao radiador.
 - Agora ouam todos vocs! - ele disse s crianas em seu 
espanhol perfeito e, virando-se aos barracos em volta, 
prosseguiu: - E vocs tambm! Sou Franco Rieti, um cantor famoso. 
Quem quiser me escutar precisa pagar muito dinheiro na pera. 
Vocs jamais poderiam ir a uma pera, mas a msica existe para 
todos. E Deus me deu uma voz que todos devem ouvir, no apenas os 
ricos. Agora vou cantar para vocs pela primeira vez na minha 
vida. A pera chama-se A Bebida do Amor e cantarei para vocs: 
acharia una furtiva lgrima. - Rieti abriu o boto do palet de 
seda, desabotoou a camisa at a metade do peito e respirou fundo.
 Logo aps as primeiras notas, Rieti suspeitou que, nesse dia, 
nas favelas de Callo, estava cantando o melhor Nemorino de sua 
carreira de cantor. Sua voz flua como se, de facto, estivesse 
encharcada de mel e, nas notas altas, brilhava como poucas vezes 
na vida. Estou em forma de novo, pensou ele cheio de felicidade. 
Aps a debcle em So Francisco, onde num si maior a voz ficara 
espantosamente fina e no conseguira chegar ao d, aquilo ali era 
como uma verdadeira libertao.
 Rieti manteve a nota final com plena respirao e, depois, 
deixou os braos carem e inspirou fundo. As pessoas aplaudiram 
entusiasmadas  sua volta. Somente o motorista continuou sentado 
atrs do volante do carro, numa atitude como que de espreita.
 E de facto: o aplauso esmoreceu de supeto, com se tivesse sido 
cortado. A grande quantidade de crianas e adolescentes que 
cercava Rieti ps-se em movimento. Caram em cima dele como uma 
onda, deram-lhe uma rasteira, jogaram-no no lixo da rua e, de um 
certo modo, sufocaram-no com seus corpos.
 - Mas o que  isso? - Rieti ainda conseguiu berrar. - Eu cantei 
para vocs. Socorro! Socorro! Socorro!
 Mas ningum foi ajud-lo. Os adultos em volta da praa ficaram 
assistindo impassveis, o motorista do txi acendeu um cigarro 
com dedos trmulos e os gritos de Rieti silenciaram-se aps 
alguns segundos.
 A coisa toda demorou pouco menos de dez minutos; em seguida, a 
multido de crianas e adolescentes dispersou-se. Eles correram 
afastando-se em todas as direcSes e, como ratos, desapareceram 
nas vielas de barracos e montes de lixo. Rieti ficou deitado no 
cho, esfolado, machucado, arranhado e ensanguentado, despojado 
at  ltima pea de roupa, completamente pelado. E continuou 
deitado dessa maneira, como se lhe tivessem quebrado todos os 
ossos do corpo e lhe cortado todos os msculos e nervos. Apenas 
seus olhos ostentavam um ar incrdulo e reflectiam sua 
perplexidade. Somente quando o motorista saltou do txi e 
segurou-o pelas pernas, foi que Rieti pareceu compreender que 
estava desnudo, que havia sido roubado.

 Rieti deixou-se cair no carro com um empurro e depois fechou a 
porta. Apalpou com ambas as mos o corpo dolorido e, depois, 
pousou-as em concha sobre o sexo. O chofer entrou impassvel, 
ligou o motor e retornou  rua principal. 
 - Voc s ficou assistindo! - gritou Rieti enquanto eles ainda 
atravessavam as vielas de barracos. - Voc no foi me socorrer. 
Deixou que me assaltassem.
 - O que eu podia fazer, senhor? - o motorista balanou a cabea.
 - Ajudar-me. Ir em meu socorro. Meter-se no meio! 
 - E por acaso tenho cara de quem j se cansou da vida? Est 
querendo que eu deixe viva e rfos? Eu o adverti, senhor.
 - Mas esses caras j no so mais seres humanos, so animais 
selvagens!
 - So pessoas famintas, sem nenhuma esperana, senhor. Querem 
trabalhar, querem receber soles de uma maneira boa e honesta, mas 
no existe nenhum trabalho para eles. Mas eles existem, tm fome 
e sede, esto a. Nada mais querem a no ser ficar um pouco 
saciados... mas at isso no passa de um enorme desejo de cada 
dia. E a aparece voc, elegante como um prncipe. Seu terno e 
roupas de baixo proporcionaro alimento durante uma semana para 
algumas famlias...
 - Mas o Peru  um pas civilizado! - gritou Rieti.
 - Civilizao! Esse  um conceito dos ricos. Quem fica revirando 
os montes de lixo que Lima despeja aqui todos os dias, em busca 
de algo que comer, est cagando e andando para o que  esse troo 
chamado de civilizao. Essa pessoa s deseja uma coisa: 
sobreviver! Assim, tambm amamos os felizardos que vivem nas 
cidades, pois sem eles no haveria lixo. E ao mesmo tempo, os 
odiamos, pois eles so mais felizes do que ns. Senhor, eu o 
preveni.
 Com um sorriso irnico nos lbios, a patrulha do bloqueio do 
porto deixou-os passar, aps uma rpida olhada dentro do txi. O 
motorista parou no per ao lado do navio, enquanto Rieti 
escorregava para o fundo do assento: O mestio foi at a escada e 
falou com o marujo de guarda em uniforme tropical branco, o qual 
desapareceu na mesma hora porta adentro e retornou acompanhado de 
um comissrio de cabina. O comissrio trazia no brao um enorme 
cobertor e um roupo de banho.
 - Ora, que coisa! - disse ele ao abrir a porta do carro. - Todo 
pelado! Nunca vimos algo assim.
 - Passe isso para c! - vociferou Rieti puxando o roupo de 
banho. Depois, meteu-se dentro do robe e saltou do carro. - 
Denunciarei todos vocs! - gritou para o chofer. Em seguida, 
subiu correndo a escada e desapareceu no navio.
 Os dois oficiais de polcia de patente mais alta, que haviam 
subido a bordo como convidados do director de hotel Riemke e que 
se encontravam no quase vazio bar Atlantis, fizeram um gesto de 
desdm e riram quando Pfannenstiel levou a denncia do cantor de 
msica de cmara.
 - Esquea! - disseram erguendo os copos. - Quem entra nas 
barreadas deve estar preparado para o que der e vier. No d para 
se andar de barriga cheia em meio aos famintos.

 Ewald Dabrowski tambm parecia estar se comportando da maneira 
mais ingnua possvel, quando saltou do txi em Lima e quis andar 
a p pela cidade. Ali j no se via a misria estampada nos 
exteriores. ConstruSes de luxo ladeavam praas e avenidas 
largas, palcios e igrejas, universidades e monumentos. Na volta 
da Plaza de Armas, o ponto central de Lima, flua o trfego e 
aglomeravam-se as pessoas. As lojas estavam abarrotadas de 
mercadorias, como no dourado Ocidente. As fachadas dos bancos no 
pareciam menos suntuosas do que na Europa ou na Amrica. Quem v 
o centro de Lima  obrigado a acreditar que o Peru  um pas 
rico.
 Batendo com a bengala branca  frente, Dabrowski andou pelas 
ruas com todo cuidado, levando a mal-humorada Beate ao lado. Ela 
ainda o recriminava por no t-la levado a Cuzo e Machu Pichu. 
Dois dias e duas noites sozinha com o Dr. Paterna... isso poderia 
mudar muitas coisas.
 - Afinal, para onde estamos indo? - perguntou ela num tom de voz 
um tanto impertinente.
 - Ao museu Largo Herrera.
 - E o que  que se pode ver nele?
 - Maravilhosos trabalhos em ouro e prata dos incas.
 - Eu teria preferido Cuzo.
 - Acredito. Alis, no Cuzo, mas sim o belo Mrio. Beatinha,  
disso que estou querendo proteg-la. Um dia voc ainda vai me 
agradecer. 
 A coisa aconteceu ento na Via Santa Anna. De repente, dois 
jovens pararam diante deles, bloquearam o caminho e, sem dizer 
nenhuma palavra, atacaram. Um deles ps "cego" provou-o e enfiou 
a mo no bolso do casaco; o outro jogou-se sobre Beate, 
rasgou-lhe a blusa e, com um solavanco, arrancou-lhe a 
correntinha de ouro do pescoo.
 - Socorro! - gritou Beate a plenos pulmSes. - Socorro! - 
contudo, ningum se aproximou, embora a Via Santa Anna estivesse 
apinhada de pedestres. As pessoas olhavam para o lado e tentavam 
se afastar o mais rpido possvel.
 O que aconteceu ento demorou apenas segundos; com um golpe 
rpido e bem dado de judo, Dabrowski agarrou o assaltante. Uma 
virada rpida como um raio e o homem voou em curva pelo ar indo 
chocar-se com o asfalto.  bem verdade que ele tornou a 
levantar-se com um grito de dor mas viu com ar de perplexidade 
quando seu companheiro saiu voando pelo ar at espatifar-se na 
parede de uma casa. A bengala branca do "cego" e os culos de 
lentes escuras haviam sado na rua e, nesse momento, Dabrowski, 
esfregando as mos de contentamento, levantou o segundo 
assaltante da parede da casa, estourou o punho fechado contra seu 
queixo e depois soltou-o.
 O outro assaltante segurou o companheiro cambaleante, deu mais 
uma olhada incrdula no "cego" e, em seguida, fugiu com seu 
cmplice entrando numa viela transversal das proximidades. Beate 
recostou-se chorando numa porta e ps a mo no pescoo. O modo 
brutal como a correntinha fora arrancada deixara um vergo 
ensanguentado na pele. Mesmo assim, ela perguntou entre as 
lgrimas:
 - Voc sabe lutar judo...?
 - E como! - Dabrowski abotoou-lhe os botSes que sobraram da 
blusa. - Cheguei a disputar a faixa-preta. E uma vez o karat me 
salvou a vida, em Nova York. Uma noite, um negro tambm tentou 
roubar-me por l, s que o sujeito estava com uma faca na mo e 
queria fazer a coisa completa. Depois de dois golpes, ele estava 
madurinho para o hospital.
 - Voc tambm sabe karat? - ela enxugou as lgrimas do rosto e 
apoiou-se no ombro de Dabrowski. - E o que mais?
 - Bem, tudo que me pode defender. Quero ficar velho, bem velho.

- Dabrowski inclinou-se, pegou os culos e a bengala branca e, de 
novo transfigurou-se em cego. - Agora vamos dar um pulinho num 
caf para fortalecer nossos nervos, Beate.
 - Assim, com a blusa rasgada?
 - E quem presta ateno nisso por aqui? - ele riu e deu o brao 
a Beate. - Voc acabou de ver que est segura ao meu lado.
 Knut De Jongh atravessou o programa de visitao a Cuzo e Machu 
Pichu, de todos os outros modos, menos seguro. Enquanto dessa vez 
Sylvia sentiu os efeitos da altitude e foi obrigada a repousar no 
hotel, a fim de acostumar-se s condiSes atmosfricas a 3500 
metros, De Jongh, sem impressionar-se com a altura e robusto como 
um tigre, empreendeu um passeio no particular  vela pelo Cuzo, 
essa vez no se repetiu a fria das alturas de Chimborazo.
 - Esse tipo de coisa s acontece uma vez com um De Jongh! - 
disse orgulhoso. - Na segunda vez, todos vocs podem chutar minha 
bunda, at eu voltar ao normal.
 - A est uma proposta que eu seguiria com todo prazer! - 
responder Ludwig Moor. - No perderei voc de vista.
 Contudo, Knut De Jongh saiu sozinho nessa noite. Pendurou a 
mquina fotogrfica e flash no pescoo e tomou a deciso de 
conhecer Cuzo  sua maneira. A visita a Machu Pichu do dia 
seguinte s daria como resultado fotos parecidas com 
cartSes-postais.
 Ele no viu Machu Pichu.
 Dois ndios arrastaram-no at a entrada do hotel, deixaram-no 
cair ali e fugiram desaparecendo na noite. No faria o menor 
sentido sair correndo atrs deles. Knut De Jongh arrastou-se com 
mos e joelhos e uma incrvel fora de vontade at o saguo e, 
somente quando ali chegou, sucumbiu e perdeu a conscincia, para 
o espanto dos hspedes sentados na recepo.
 O Dr. Paterna, j deitado na cama, foi chamado. Knut De Jongh 
estava cado num sof do quarto dos fundos da recepo, plido, 
com a respirao ofegante, mas j consciente de novo. Ao ver o 
Dr. Paterna invadir o quarto, De Jongh chegou a ostentar um 
sorriso retorcido.
 - Um assalto - disse o gerente com um ar bem indiferente.
- Facadas... dois ndios trouxeram-no para a porta. Mas tambm 
qual o estrangeiro que sai sozinho  noite para andar em Cuzo! 
De que servem todas as advertncias?!
 Paterna cortou a camisa e a camiseta ensanguentadas de Knut De 
Jongh e tirou-lhe o palet com todo cuidado. 
 - Seu idiota! - disse ao faz-lo. - O que queria fazer em Cuzo 
de noite? Os incas no tm ponteiros para brancos. Um ndio 
quchua  um ser humano orgulhoso. Mesmo quando mendiga... ele 
continua sendo orgulhoso! Onde voc se meteu?

 - Em toda a parte. - De Jongh ofegava ao respirar. - Queria 
tirar fotos que nunca ningum tirou. - Encarou o Dr. Paterna e 
tossiu duas vezes. A dor contorceu-lhe o rosto. - De repente, 
saindo das sombras profundas, eles caram sobre mim e tentaram 
arrancar minha mquina. Quadrilha de covardes! Eu sa dando socos 
e pontaps  minha volta e os caras voaram pelo ar e caram no 
cho, foi uma cena magnfica. Mas depois chegaram mais dois com 
facas na mo. A acabou-se o que era doce. Ainda cheguei a sentir 
uma punhalada, mas depois apaguei. S voltei a acordar por alguns 
momentos aqui na porta do hotel. - Knut levantou a cabea, mas o 
Dr. Paterna pressionou-a com a palma da mo. - Est ruim a coisa, 
doutor?
 - Voc  um arrombado! - disse Paterna de modo grosseiro.
 De Jongh piscou o olho para ele.
 - Hoje voc pode dizer isso, doutor. Como , vou sobreviver?
 - Ainda no sei.
 - Puxa, muito consolador. Onde foi que os caras me pegaram?
 - Seis facadas. No peito e nas costas. Existe o perigo de 
hemorragias internas. Agora no posso fazer mais nada a no ser 
colocar-lhe umas ataduras. Seria melhor mand-lo ao hospital.
 - Aqui, em Cuzo? De jeito nenhum!
 - Em Lima.
 - E vocs seguem viagem para os mares do Sul? Ah, doutor, voc 
conhece mal esse De Jongh. Amanh, quando vocs forem a Machu 
Pichu, ficarei de cama e, depois de manh, volto no mesmo avio 
de vocs para o navio. Recuso-me terminantemente a ir para um 
hospital.
 - como queira.
- O Dr. Paterna levantou-se. - A responsabilidade  sua! Mas 
assim, do jeito que est, no vai conseguir entrar em avio 
nenhum. Precisa bancar o cara que est bem de sade. Ser que 
voc consegue?!
 - Vamos aguardar e peidar at ficar bom! - De Jongh arreganhou 
outro sorriso irnico. Nesse momento, as dores ficaram mais 
fortes exercendo um efeito paralisador sobre o corpo todo. Ele 
soltou um gemido abafado, quando Paterna colocou-lhe a primeira 
atadura. - Ai, seu quebrador de ossos! - balbuciou. - Droga, 
tambm no sou feito de ferro.
 - Voc j vai tomar uma injeco contra a dor. E quando acordar 
amanh cedo... que Deus tenha piedade de sua alma se quiser 
bancar o heri! A coisa s tende a piorar e no a melhorar. Se 
houver qualquer complicao, mandarei que o levem para o hospital 
na mesma hora!
 Knut De Jongh adormeceu poucos minutos depois da injeco. No 
chegou a sentir a colocao da ltima atadura. Quatro mensageiros 
do hotel levaram-no para o quarto. Sylvia ficou sentada como que 
petrificada olhando para o marido.
 - Ele... ele vai ficar curado? - gaguejou.
 O Dr. Paterna assentiu.
 - No  to ruim quanto parece. Mas se ele comear a tossir e 
cuspir sangue, telefone imediatamente para mim. Quarto 29.
 Sylvia esperou at que a porta fosse fechada e depois 
inclinou-se sobre De Jongh.
 - Vamos! - disse em voz baixa. - Tussa e cuspa sangue... Cuspa 
fora a sua vida, seu monstro! No me faa esperar muito tempo... 
por que voc no tosse...?!
 Durante essa noite e o dia seguinte, Knut De Jongh ficou to 
fraco que mal conseguia levantar a cabea para olhar o Dr. 
Paterna ou Sylvia. Aps o regresso de Machu Pichu, todo o grupo 
da viagem desfilou diante de sua cama. De Jongh achou isso 
comovedor, at que Ludwig Moor lhe disse:
 - Foi um lindo dia sem voc! No havia ningum berrando o tempo 
todo. Assim, fomos uma verdadeira comunidade. Estimo as melhoras!
 Knut De Jongh no deu resposta alguma e engoliu as frases... uma 
outra prova do quo mal ele se sentia.

 A viagem ao aeroporto de Cuzo foi uma trabalheira danada. Moor 
e outro passageiro da Subia seguraram De Jongh no meio e 
arrastaram-no at o avio como um bbado.
 -  isso a - disse o subio arreganhando um sorriso maroto para 
o comissrio na escada. - O garoto devia aguentar mais. 
 - Muitas tragadas... - o comissrio no entendeu uma palavra do 
alemo, mas compreendeu a linguagem de gestos de Moor 
significando bebida. Riu e inclusive ajudou a alojar De Jongh, 
quase morto de dor, num assento da primeira fila. Sylvia 
sentou-se de rosto impassvel ao lado do marido. Qualquer pessoa 
que a visse, seria capaz de pensar: uma senhora tristonha. Mas se 
soubesse o que ela de facto pensava, teria falado em Satans.
 Por que ele ainda est vivo, Sylvia se perguntava. Puxa, mas que 
natureza de touro! Fiquei sentada ao seu lado na cama a noite 
inteira, esperando que tudo acabasse depois de uma golfada. Mas 
no, ele continua vivo! Ele tinha de ser morto  pancada mesmo, 
para ficarmos livres dele.
 Mais tarde, em Callo, o Dr. Paterna, Ludwig Moor e o subio 
levaram De Jongh para o navio, dois comissrios apareceram e 
levaram-no at o hospital. Na mesma hora, o segundo-oficial de 
servio no convs transmitiu a informao por telefone ao 
comandante.
 - O qu? - disse Teyendorf chocado. - Facadas? O Sr. De Jongh. 
Irei mais tarde ao hospital.
 O chefe Wurzer, que se encontrava ao seu lado na ponte, coou o 
queixo.
 - ... valeu a pena de novo - disse com sarcasmo. - Um cantor de 
cmara pelado, uma briga no meio da rua, um esfaqueado... eu 
gostaria de saber: ser que foi tudo?
 - Vamos aguardar - Teyendorf deu uma olhada no relgio. Ainda 
faltava uma hora para zarpar. Nem um minuto a mais. O Atlantis 
era mais pontual do que um combio. - At agora temos nove 
denncias. At o pianista do nosso bar foi assaltado. O babaca 
levou seu relgio de ouro apesar de todas as advertncias. S 
teve descanso porque deu um chute no baixo-ventre de um dos 
bandidos, depois pode sair correndo. Alis, havia um polcia na 
esquina, mas ele virou o rosto. Tudo isso j no me deixa mais 
alterado; afinal, no faria o menor sentido. 
 No hospital, finalmente, o Dr. Paterna pudera fazer um exame 
correcto em De Jongh. Tiraram-lhe radiografias, aps algumas 
injecSes contra dor e febre, para activar a circulao e contra 
o ttano. Como se constataram hemorragias internas. O mdico 
desinfectou os ferimentos de faca e depois tornou a cobri-los com 
ataduras. Por enquanto, como se podia fazer mais nada. 
 Sylvia, que se encontrava sentada na sala de espera, levantou-se 
quando o Dr. Paterna saiu da ala de tratamento. A mulher estava 
interpretando de maneira primorosa seu papel de pnico 
preocupado.
 - Doutor, o que ? Por favor, me diga a verdade, por favor. 
Posso suport-la, sou mais corajosa do que pareo.
 O Dr. Paterna pousou a mo no ombro de Sylvia.
 - Ele vai conseguir. Tem uma natureza de urso. Caso no apaream 
complicaSes inesperadas, dentro de catorze dias ele poder 
voltar a tomar banho de sol no convs, com algumas atraentes 
cicatrizes no peito e nas costas.
 - Posso... posso v-lo?
 - Claro. Agora ele est dormindo. Voc pode vir ao hospital 
quando quiser.

 Sylvia entrou no quarto na pontinha dos ps e parou diante da 
cama branca de metal. O rosto de Knut De Jongh estava emagrecido 
e ostentava uma colorao plido-amarelada, mas sua respirao 
era tranquila e regular. Sylvia inclinou-se sobre ele e encarou-o 
cheia de dio.
 - Morra! - disse em voz baixa. - Morra logo... J no consigo 
mais suport-lo...
 Ela estremeceu, pois a porta atrs dela foi aberta. O comandante 
Teyendorf entrou, apertou a mo de Sylvia num gesto de simpatia e 
ela conseguiu chorar com um ar de total abandono.

 Por um dia, o assalto a Knut De Jongh foi o grande tema da 
conversa a bordo. O cantor Rieti permaneceu em sua cabina, 
sentindo-se profundamente insultado, como se a prpria direco 
do navio o tivesse despido. Desmarcou o concerto de pera para 
dali a dois dias, aceitou os comprimidos tranquilizantes do Dr. 
Paterna e quando sua colega, a cantora Reilingen, o visitou, fez 
pose de quem estava arrasado.
 - Foi um choque... - balbuciou ele de modo dramtico. - Foi isso 
mesmo, querida Margarete. Um choque que quase me paralisou. Ser 
que poderei voltar a cantar um dia? Ser que minha voz foi 
danificada? No consigo produzir nenhuma nota. Est tudo 
estrangulado, sufocado, imvel. Oua s isso! - Rieti entoou 
ento algumas horripilantes notas e interrompeu-se aterrorizado. 
- Parece cacarejo de galinha, no  verdade? Estou liquidado!
 Ele fechou os olhos, cruzou as mos sobre o peito e ficou 
deitado como um morto.
 Margarete Reilingen, como contaminada pela conhecida histeria de 
seu colega, deixou-o com as seguintes palavras: 
 - Descanse, Franco. Cuide-se. Darei esse concerto sozinha.
 Essas ltimas palavras surtiram mais efeito do que todos os 
medicamentos. To logo Margarete Reilingen saiu da cabina, Rieti 
saltou da cama, investiu contra o banheiro, fez um gargarejo com 
seu lquido mgico e depois foi exercitar sua bela voz no 
vibrante piano. No estava disposto a deixar o triunfo s para a 
Reilingen.
 Na cabina do Dr. Schwarme voltaram a ocorrer as excitadas 
discussSes internas. Erna sentia-se trada; seu grande flerte, 
Franois De Angeli, pouco se interessava por ela e vivia 
perseguindo as outras lindas mulheres a bordo, saracoteava  
volta delas como um pavo, o que levava alguns maridos a pararem 
de contemplar suas mulheres exclusivamente como um anncio 
luminoso de seu sucesso e voltarem a reconhecer-lhes as 
qualidades femininas. s vezes, ocorriam situaSes grotescas 
quando, por exemplo, um marido at ento sereno acariciava os 
seios da mulher na cama da cabina noite alta, ao mesmo tempo em 
que esboava a justificada, porm, inibidora pergunta:
 - Puxa, que est acontecendo com voc?
 Claro que Erna Schwarme estendeu ao marido o desapontamento que 
estava tendo com De Angeli, como  tpico das mulheres casadas h 
muito tempo. Ela tirou o jornal de bordo que Schwarme estava 
lendo e disse em tom mordaz:
 - L est o pobre Sr. De Jongh no hospital, sem poder viver nem 
morrer! A coisa sempre acerta a pessoa errada!

 - Voc preferiria que fosse eu que estivesse acamado l, no  
mesmo? - o Dr. Schwarme lanou um olhar cheio de dio  mulher. 
Pombas, por que no fiz o negcio naquele dia, pensou ele. To 
cedo no aparecer uma oportunidade como aquela de Chimborazo. - 
Talvez mais tarde, minha querida. Muita coisa ainda pode 
acontecer at Sidney! 
 Erna no percebeu o duplo sentido da frase e balanou a cabea 
vrias vezes.
 - Quando chegarmos em casa, vou pedir o divrcio. Ainda quero 
ter um pouco da vida, ainda sou bem jovem e nem um pouco feia.
 O Dr. Schwarme fez um gesto de desdm.
 - O que voc quer dizer com esse "ter um pouco da vida"? Trepar 
at desmaiar com sujeitos como esse Franois De Angeli?
 - Por exemplo. - Ela esticou o lbio inferior num gesto 
provocante.
- Talvez esteja me faltando isso. Um homem na cama  melhor do 
que dez milionrios impotentes de fraque. Voc consegue fazer 
qualquer coisa com seu dinheiro, s no consegue endurecer esse 
negcio direito.
 O Dr. Schwarme foi lembrado de sua malfadada aventura em 
acapulco, de seu fracasso diante do corpo de moa mais bela que 
j havia visto e que agora estava profundamente enraizado em seu 
corao.
Schwarme tornou a agarrar o jornal de bordo, enterrou-se atrs 
dele e disse de modo bem rude:
 - Voc devia ser simplesmente atirada ao mar.
 - Voc jamais conseguir.  covarde demais para isso. A 
propsito vou inscrever-me para a eleio de "Miss Atlantis".
 - Nossa Senhora!
 - Franois vai me propor e depois vou dormir com ele!
 - Bom passeio!
 - Voc  o maior nojento vivo! - Erna gritou com voz reprimida. 
- Se os outros soubessem como voc  de verdade!
 Saiu correndo da cabina e bateu a porta com fora. O Dr. 
Schwarme suspirou, desvencilhou-se do jornal de bordo e cravou os 
olhos no mar nocturno l fora. O Atlantis estava a caminho do 
Chile. O navio atracaria em frica, a primeira e elegantssima 
cidade porturia chilena, dentro do horrio programado. Um 
verdadeiro descanso depois do pesadelo de Callo e toda a sua 
sujeira.
 Um divrcio na Alemanha, pensou o Dr. Schwarme, com tudo o que 
ela sabe? Seria uma catstrofe se ela soltasse a lngua no 
tribunal. Meu naufrgio total. Isso no pode acontecer. Precisa 
surgir outra situao igual  de Chimborazo nalgum lugar e a eu 
no vou hesitar. O que foi que aconteceu connosco?!
 Knut De Jongh passou bem, na medida do possvel, o resto do dia 
e tambm a noite. O Dr. Paterna e a enfermeira Erna revezaram-se 
em sua viglia; mas no sua mulher Sylvia.
 - No posso, doutor! - dissera ela ao telefone com a voz 
empestada em tom de zombaria. - Sempre tive medo de doentes. Uma 
besteira, no? No consigo ver um doente sem adoecer tambm.
 Em compensao, aps o jantar jogou-se, ao mesmo tempo 
bem-aventurada e frentica, nos braos de Hans Fehringer e foi 
uma amante to apaixonada que Fehringer chegou ao limite de sua 
capacidade de desempenho.
 - O mdico disse que Knut dever ficar hospitalizado catorze 
dias - suspirou ela enroscada no peito ofegante do amante.

- Catorze dias e noites sem medo, sem brincar de esconder. No  
maravilhoso? Todas as noites em seus braos, todas as noites 
sentindo seu corpo, todas as noites explodindo de felicidade... 
nunca mais vai acontecer de novo, querido. Temos catorze dias s 
para ns...
 - Sete dias! - disse Hans Fehringer, cansado e esvaziado. Estava 
pensando em Herbert e no acordo sobre o revezamento dos dias e 
noites.
 S que agora essa diviso ficara mais difcil. Desaparecia o 
argumento para a diviso dos dias. "No devemos despertar 
suspeitas em seu marido", pois De Jongh estava hospitalizado e a 
cama de Sylvia permanentemente desocupada. Estava fora de 
cogitao que Herbert abrisse mo de suas noites durante catorze 
dias. Nem era preciso ir conversar com ele. S que como explicar 
a Sylvia o salto respectivo de uma noite?
 Nessa noite, Sylvia no fez nenhuma pergunta nesse sentido. 
Estava saciada. Acariciou o corpo de Fehringer com os lbios, deu 
a volta e cobriu-o com seu corpo magnfico.
 Hans Fehringer no precisou de explicaSes... Nas noites 
seguintes e tambm durante o dia, quando Sylvia sentia calor 
entre suas coxas e lhe fazia um sinal para descer ao convs, 
Fehringer sempre estava em condiSes admirveis e fazia amor com 
ela a todo vapor. S que eram Hans e Herbert alternadamente e 
quando no dia seguinte Hans, com a maior inocncia, contava ao 
irmo o quo sensacional Sylvia estivera no amor, Herbert 
mantinha-se calado e alegrava-se com a aproximao de seu dia e 
noite.
 Mas de vez em quando ele pensava: como ser em Sidney? Que 
acontecer no momento em que, fogosamente, esse jogo de gmeos 
for desmascarado, o mais tardar quando Sylvia quiser ficar com 
Hans Fehringer?
 Seria possvel que gmeos de ligaSes to estreita no eles 
brigassem querendo matar-se? Um pensamento horripilante e uma 
situao sem sada.
 Nenhum dos dois renunciaria a Sylvia de livre e espontnea 
vontade.
 Knut De Jongh ultrapassara a fase crtica trs dias aps a 
visita  limpa frica, na viagem em direco a Valparaso. 
Restava apenas uma febre baixa e duas das facadas nas costas 
apresentavam pus.
 - Bem, quando temos o prazer de ser esfaqueados, no devemos 
esperar que os caras antes limpem e esterilizem a faca - disse o 
Dr. Paterna sarcstico a De Jongh, que estava deitado de barriga 
para baixo trincando os dentes durante o tratamento das feridas 
inflamadas. - Alm do que os fabricantes de antibiticos tambm 
precisam viver. Alis, pelo visto voc tem passado muito bem. H 
poucos momentos, voc deu uma bronca na enfermeira Erna porque 
ela no queria trazer-lhe uma cerveja. Coisa que voc no ter 
enquanto eu o estiver tratando, estamos entendidos?
 - Estamos! - De Jongh virou a cabea de lado e; grunhindo, 
encarou o Dr. Paterna. - Quanto tempo mais precisarei permanecer 
nessa priso de doentes?
 - At eu lhe dizer: saia e v encher o saco dos outros. Pode ser 
que dentro de catorze dias.
 - E no sobreviverei? Sem cerveja, sem aguardente, sem mulher...
 - Mas sua mulher vem todos os dias sentar-se em sua cama.

 -  isso a, ela senta na cama. Eu preferiria que se deitasse ao 
meu lado.
 - O corpo cheio de facadas e com esses desejos! Diga-me uma 
coisa, o que est faltando para lhe derrubar?
 - Tentem bolar algo. - De Jongh arreganhou um sorriso irnico e 
tornou a virar a cabea. - Derrubar um De Jongh  realmente um 
belo trabalho. Argh! Seu estpido! O que est fazendo?
 - Limpando seus ferimentos. Fique quieto, que droga! Se quer ser 
um osso duro de roer no aborre a quando estiverem fazendo 
ccegas em suas costas.
 Quando Sylvia visitava o marido acamado, ela contava tudo que 
estava acontecendo no convs. E contou tambm como era frica; a 
igreja construda por Eiffel, o genial construtor da torre de 
Paris, a imensa praia branca e como fora o almoo com o casal 
Schwarme num restaurante especializado em peixe, situado numa 
enseada, onde eles foram observados por centenas de pelicanos.
 - Todos sentimos muito sua falta. - Sylvia chegou a dizer. - Sem 
voc tudo fica to chato. No existe ningum que saiba agitar o 
pessoal. 
 Depois, ela se despedia todas as vezes, com um beijo, subia de 
elevador ao convs e ia correndo para a sua cabina. Ali, na 
maioria das vezes, Fehringer j estava deitado na cama, despido, 
enrolado num roupo de banho. E Sylvia arrancava-lhe o roupo, 
atirava suas roupas ao cho e, com um grito de alegria, 
atirava-se sobre ele.
 No queria perder nenhum dia, nenhuma hora... Quando voltaria a 
ter um outro xtase como aquele?
 - Irmo do corao! - disse Hans no quarto dia aps a desgraa 
de Knut De Jongh. - Preciso pedir-lhe um favor: agora voc deve 
preocupar-se um pouco mais com Sylvia.
 - O que voc est querendo dizer? - perguntou Herbert em atitude 
de espreita.
 - Voc deve encontrar uma forma de explicar-lhe por que no vai 
a ela nos dias e noites que lhe tocam. Afinal de contas, ela 
acredita que voc seja eu! Entende? Voc precisa explicar-lhe por 
que ela fica sozinha nessas noites.
 - Tem uma certa lgica a. - Herbert Fehringer ficou assistindo 
ao irmo fazer a barba. - Claro que ela ficar admirada e 
imaginar que a sua potncia no  l essas coisas.
 - Seu arrombado!
 - Mas imagina s uma coisa, imagina se eu tambm me apaixonar 
por uma mulher aqui a bordo. Nesse caso, aos olhos de Sylvia seu 
amado Hans estar com uma outra e ela ter recebido um chute.
 - Impossvel! - Hans Fehringer virou-se. - Herbert, voc no 
pode fazer isso comigo.
 - Quer dizer ento que, por sua causa, devo bancar o monge? At 
Sidney? Olha, nenhum amor fraternal chega a esse ponto.
 - Vai haver o maior drama se voc fizer isso. Voc... voc j 
tem algum na ala de mira?
 - Vrias.
 - Que catstrofe! Herbert, eu lhe suplico: continue fazendo o 
jogo! Voc nem imagina o que Sylvia significa para mim. Eu a amo 
mesmo. Ela ficar comigo.
 - Connosco! Alis, essa  a questo central, irmozinho. Como  
que voc vai esclarecer para ela que existem dois Fehringers e, 
sendo assim, quem  o verdadeiro?

 - Mas  claro que s eu dormi com ela!
 - Voc pode provar isso? Ela vai olhar para ns, soltar um 
grito e sair correndo. Aposto como Sylvia no suportar gmeos 
to idnticos como ns... Andei pensando muito tempo a esse 
respeito.
 - E... e qual foi a soluo que voc encontrou?
 - Ainda no encontrei nenhuma, irmozinho. A no ser que nos 
separemos por toda eternidade... por causa de uma mulher. Ser 
que uma mulher vale isso?
 - Puxa, agora voc me deu um chute no saco. - Hans Fehringer 
enxugou a espuma de barbear do rosto. Estava desconcertado. - 
Herbert precisamos encontrar uma soluo com toda urgncia. Mas 
primeiro uma coisa: jamais desistirei de Sylvia! Deve haver uma 
sada...
 O detective Ewald Dabrowski tambm procurava uma sada do beco 
em que se encontrava.
 O comandante Teyendorf chamara-o  sua cabina renunciando  
respectiva hospitalidade. Nada de vinho, nada de usque ou 
cigarro, nada de pasteizinhos. Em compensao, um ambiente 
sombrio. O director de hotel Riemke, sentado no sof como 
terceiro homem, parecia perplexo no meio deles.
 - Amanh chegamos a Valparaso - disse Teyendorf sem maiores 
delongas. - Depois de amanh, trezentos e dezanove passageiros 
deixam o navio e voam de volta a Frankfurt.  tarde, sobem a 
bordo trezentos e trinta e sete novos passageiros vindos de 
Frankfurt. A grande mudana para o trecho mares do Sul Nova 
Zelndia - Austrlia. E, Sr. Dabrowski, onde est esse seu ladro 
de jias Carducci?!
 - A bordo, senhor comandante.
 - E a partir de Valparaso?
 - Tambm a bordo.
 - Como pode estar to seguro?
 - Respondo com uma pergunta: o que Carducci roubou at agora? 
No muito. Ele devolveu as jias da Sra. Schwarme por falta de 
qualidade. Restam a pulseira de brilhante de lady Cumberiand e um 
anel miservel. Assim, at aqui a viagem no valeu a pena. Mas um 
Carducci no desaparece sem levar uma grande presa. Se ele no 
atacar nos ltimos dois dias, ficar a bordo at Sidney. Novos 
passageiros, novas jias. E, posto que o trecho dos mares do Sul 
 o mais caro, tambm subir a bordo gente com mais dinheiro.  
sobre isso que Carducci est especulando.
 - E se de facto ele atacar nos ltimos dois dias? - Teyendorf 
pigarreou. - Quem o impedir, na situao atual, de desembarcar 
em Valparaso sem ser incomodado?
 - Ningum. Nesse caso, eu jogo a toalha, senhor comandante. 
Ento poder chamar-me de idiota.
 - Eu terei recebido muito pouco... mas meus passageiros tero 
sido roubados e Carducci ter as jias!
 - Tem alguma proposta construtiva a fazer, senhor comandante?
 - Eu? O detective sou eu ou voc? Eu no teria medo de fazer uma 
revista na bagagem e no corpo de todos os trezentos e dezanove 
passageiros que desembarcaro. Mas no posso. Seria um escndalo. 
Portanto, s me resta dizer: aqueles que, apesar das 
advertncias, deixaram suas jias jogadas por a, sero culpados 
caso elas sejam roubadas. Com isso, as pessoas roubadas ficam com 
o prejuzo e Carducci termina como vencedor risonho.  justamente 
isso que est atravessado na minha garganta!

 - No acredito que Carducci v desembarcar em Valparaso sem 
suas presas. No  mesmo do seu estilo. Pense numa coisa: 
Carducci tem seu orgulho. Ele jamais desistiria de ser 
bem-sucedido. Devemos ver a coisa do ponto de vista 
psicolgico...
 - S faltava essa! - Teyendorf cerrou os punhos. - J estou com 
cinquenta e quatro anos e ainda preciso aprender a psicologia dos 
larpios! Fora isso, no tem mais nada a dizer, Sr. Dabrowski?
 - No, senhor comandante.
 -  espantosamente pouco. - Teyendorf levantou-se da poltrona de 
couro; o sinal de que a dolorosa conversa chegara ao fim. - 
Portanto, vamos tratar o caso com a psicologia mais profunda - 
disse com evidente escrnio. - Vivendo e aprendendo!
 Nesse dia, mais uma vez um impresso da grfica de bordo 
aconselhou os passageiros a depositar suas jias nos cofres da 
comissria. Contudo, era questionvel se o conselho fazia algum 
sentido. Haveria a noite de despedida, o jantar  luz de velas e 
a grande surpresa da sobremesa com o desfile dos comissrios de 
mesa e o crepitar dos crios. Pela ltima vez, as pessoas usariam 
o guarda-roupa de gala e as melhores jias... quem iria se 
preocupar em ir aos cofres da comissria em plena madrugada? 
Afinal de contas, as melhores jias no ficariam descuidadas, 
seriam colocadas na cama ao lado, a porta da cabina seria 
fechada... No podia haver maior segurana. E no dia seguinte 
sairiam do navio. Que mais poderia acontecer?
 Paolo Carducci pensava da mesma maneira. Estava contente pela 
aproximao de Valparaso.

O Atlantis entrou s sete horas da manh no enorme porto de 
Valparaso, saudado pelos uivos de sirene de dois rebocadores. 
como sempre, Teyendorf estava postado na ponte dirigindo a 
atracao do "hotel branco do mar" no per. Os passageiros 
aglomeraram-se no tombadilho, olhando o porto, recostados na 
amurada. era sempre uma experincia inesquecvel ver um navio to 
gigantesco como aquele aproximar-se centmetro por centmetro do 
paredo do cais e, depois, ficar parado ao largo, sem chocar-se. 
E tambm o orgulho de Teyendorf era poder retornar de uma viagem 
de volta ao mundo com a comunicao: o navio est intacto.
 era bom o estado de esprito entre os oficiais e todos aqueles 
que sabiam do segredo. Carducci no atacara, a noite de gala de 
despedida transcorrera sem nenhuma complicao, isso se no se 
leva em conta o que aconteceu depois do jantar, durante o baile 
de despedida no Salo dos Sete Mares, no qual a cantora Margarete 
Reilingen deu sua contribuio com rias de operetas. De repente, 
sem que ningum estivesse esperando, Franco Rieti apareceu no 
palco, bem elegante em seu fraque, mas com esparadrapos no rosto, 
um olho arroxeado e arranhSes pelo pescoo. Margarete Reilingen 
encarou-o como se Rieti fosse um fantasma.
 Quando Franco Rieti terminou a pera "Ningum dormia de 
Turandot", foi aplaudido com verdadeiro jbilo. Inclinou-se num 
gesto majestoso e sussurrou para Reilingen que estava ao seu 
lado: 
 - O cumprimento do dever remove montanhas. 

 Reilingen achara extremamente estpido esse provrbio sado da 
boca de um Franco Rieti.
 - Portanto - disse Dabrowski para o aliviado Riemke - podemos de 
facto partir da premissa que Carducci no desaparecer em 
Valparaso, se no que continuar ao nosso alcance. Isso  to 
certo como uma macieira mo d pras. Para ns, isso significa o 
aumento do estado de alarme. De Valparaso at Sidney ele tem um 
grande campo pela frente. Eu gostaria de propor que saudssemos 
logo os novos passageiros com a advertncia para que depositem as 
jias nos cofres.
 - Voc tem mesmo nervos de ao! - Riemke ostentou um sorriso 
amargo. - Como  que vamos ficar se dissermos: ateno! Tem um 
ladro de jias a bordo, s que no sabemos quem . Esse tipo de 
coisa espalha-se com rapidez. Mesmo que no tenhamos culpa 
nenhuma, a conversa ser sempre: voc vai viajar no Atlantis? 
Segure firme sua carteira, esses caras vo roubar-lhe at o 
ltimo nquel! Mesmo que seja uma
besteira... seria o fim da boa reputao.
 - E o que os passageiros iro dizer, quando Carducci comear a 
fazer a limpeza em regra?
 - Mas isso  voc quem tem de impedir.  para isso que est a 
bordo!
 - Agora sou eu quem devo dizer: voc tem mesmo nervos de ao! - 
Dabrowski tornou a colocar os culos escuros e pegou a bengala 
branca de cego. - Agora irei a terra, serei levado a Vina del 
Mar, o balnerio mais elegante do Chile, e nadarei nas guas 
quentes. Pois, com toda certeza, estaremos descansados de 
Carducci nos prximos dois dias.
 Quando a escada foi liberada para as pessoas que iriam  terra e 
os primeiros grupos desembarcaram em direco ao autocarro para 
os passeios a Santiago do Chile, Vina del Mar e Valparaso, houve 
uma pequena altercao no per.
 Um casal de Hamburgo pertencente  "mfia dos mdicos", que at 
ento s havia chamado a ateno por sua soberba, correu cheio de 
energia em direco a um txi como se fosse para tomar de assalto 
uma fortificao. Contudo, sua pressa foi refreada pelo motorista 
que, num fluente alemo, disse:
 - Sinto muito, o carro est reservado.
 - Ah! Voc fala alemo? - o mdico de Hamburgo examinou o 
chofer. - Instituto Goethe, no  verdade? Aprendeu bem.
 - No. Sou de origem alem. Meu pai nasceu em Colnia.
 - Vejam s, um verdadeiro alemo estrangeiro! - o hamburgus 
meteu a mo na maaneta. - Leve-nos a Santiago e depois a 
qualquer lugar onde os outros no vo. Odeio esses passeios em 
massa; nos quais a gente  despejado na frente das lojas que 
passam porcentagem para os guias de turistas.
 - Sinto muito, o txi est reservado - repetiu o motorista de 
modo amvel.
 - Que significa esse "reservado"?! Reservado, como assim?
 - Atravs do rdio do navio.
 - Ah, quer dizer que pode isso? - o mdico de Hamburgo enrugou a 
testa. - Por quem?
 - Pelo comissrio-chefe, um tal de Pfannenstiel.
 - Mas isso  o cmulo! - o hamburgus abriu a porta do carro. - 
Quer dizer que o pessoal do navio banca o espertinho e os 
passageiros tm de dar o maior duro?! Nada disso, voc vai fazer 
a viagem para ns! Somos ns que pagamos, o pessoal pode muito 
bem esperar.
 - Mas se...

 - Entre, Leonore! - gritou o mdico empurrando a mulher para o 
assento e depois encarando o motorista, em parte com ar de 
triunfo, em parte irritado. - Claro que voc no vai ter o 
descaramento de tirar minha mulher do seu txi, no? Muito bem! 
Segundo as determinaSes das autoridades, voc  obrigado...
 - Olha aqui, ns estamos no Chile e no na Alemanha coalhada de 
leis e pargrafos.
 - Ah! - o hamburgus jogou-se no assento ao lado da mulher e 
esticou as pernas. C estou, foi o significado desse gesto. E c 
ficarei. Tente arrancar-me daqui. - Eu pensava que finalmente o 
seu chefe de Estado, o general Pinochet, tivesse posto disciplina 
nessa baguna! Em vez disso constato que ele tem muito que fazer. 
Como , podemos ou no podemos partir?
 O motorista nada disse. Deu a volta no carro, sentou-se atrs do 
volante e ligou o carro. Havia uma certa tristeza em seus olhos. 
Por que eles, os alemes, so assim?, perguntou-se. Por que fazem 
tudo que podem para ser odiados no estrangeiro? Onde quer que 
apare a, esto sempre fazendo demonstraSes da raa superior. 
Mas porqu isso? Eu tambm sou alemo e me envergonho por eles. 
Tiveram uma derrota na ltima guerra como nunca antes um povo 
teve, mas aparecem como se fossem os vencedores, sempre com o 
terrvel ditado no fundo da cabea: o mundo deve proceder  
maneira alem.
 - Para onde? - perguntou lacnico.
 - Onde seja interessante. - O mdico de Hamburgo recostou-se no 
assento com pose de marechal vitorioso. - Mas antes de mais nada 
quero convencer-me de que a nossa imprensa, esses vermelhos 
disfarados, espalha mentiras sobre o Chile.
 Parado na escada o comissrio-chefe Pfannenstiel viu quando o 
txi que encomendara, partia com o casal de Hamburgo. O 
primeiro-contramestre, encarregado da guarda da escada, 
arreganhou um sorriso largo.
 -  espantoso, no? Nossos passageiros bem-educados com suas 
criancices. Para eles somos apenas merda.
 - Sempre existem excepSes. - Pfannenstiel deu um tapinha no 
ombro do primeiro-contramestre. - O negcio  fingir que no se 
viu e pensar numa bela mulher. Afinal, o Chile est cheio de 
txis. Deixemos que eles se divirtam bancando os mais fortes com 
suas carteiras recheadas. Eles tambm dobram os joelhos para 
cagar.
 No entanto, Pfannenstiel foi obrigado a esperar mais de uma hora 
at que outros txis voltassem da cidade para a regio porturia.
Os dez carros foram tomados de assalto pelos passageiros e nos 
dois ltimos houve uma discusso que quase chegou s vias de 
facto entre dois casais que bateram boca sobre a prioridade da 
conquista. Os perdedores ficaram profundamente indignados e 
xingaram os vencedores de vagabundos. A grande despedida teve 
lugar na manh seguinte.

 Marinheiros e porturios chilenos saram arrastando as malas e 
bolsas deixadas nas portas das cabinas e embarcaram-nas em 
camiSes. Uma coluna de autocarros entrou no per. Nos foyers e 
bares do navio bebia-se o ltimo drinque em comum e trocavam-se 
promessas mtuas de como se perder o bom contato, de se visitar 
na Alemanha, embora a maioria soubesse que isso no passava de 
conversa vazia. Se houvesse algum reencontro, isso se daria no 
mximo numa outra viagem no ano seguinte e mesmo assim, por 
acaso. Em geral, uma amizade de bordo dura apenas o tempo em que 
se partilha o convs.
 Trezentos e dezanove passageiros deixaram o Atlantis. O 
comandante Teyendorf foi de autocarro em autocarro cumprimentando 
as pessoas que partiam. Depois, a caravana de autocarros ps-se 
em movimento e, em baixa velocidade, saiu do porto de Valparaso. 
S mais uma olhada para trs, para o magnfico navio branco que 
se tornara uma espcie de lar para aqueles que seguiriam viagem e 
que acenavam acompanhados do som da orquestra de bordo no 
tombadilho: At  vista, at  vista, no fique fora muito 
tempo... Claro que foram surpreendidos por um pouco de melancolia 
e, agradecidas, as pessoas confessavam-se que a viagem 
transcorrera de uma maneira maravilhosa. Voltaremos outra vez, NM 
Atlantis! Antes ningum acreditaria, mas a verdade  que as 
viagens martimas criam o vcio das viagens martimas.
  tarde, desembarcaram os novos passageiros no aeroporto de 
Santiago do Chile, trezentos e trinta e sete homens cheios de 
expectativas, uma parte deles j bem alcoolizada... afinal de 
contas, de Frankfurt a Santiago, haviam voado mais de vinte 
horas.
 - A vem o sustento de Carducci! - disse Dabrowski em tom de 
amargura. Estava recostado na ponte ao lado do comandante 
Teyendorf, observando a chegada. - Andei dando uma passada de 
olhos na lista dos novos passageiros... Minha Nossa Senhora, os 
caras esto cheios de penduricalhos! A propsito, meus psames, 
senhor comandante.
 - Por qu? - Teyendorf lanou um olhar desconfiado a Dabrowski.
 - Por sua futura mesa de comandante. Dois membros da direco de 
sua companhia de navegao sobem a bordo com as respectivas 
mulheres. Vai ser uma mesa de comandante bem seca!
 - Ah, nem me lembre disso. - Teyendorf fez uma careta de 
amargura. - Ainda tenho dois lugares vazios. Que tal se fossem 
voc e sua atraente Beate?
 - Por Deus, no! - Dabrowski ergueu ambas as mos. - Claro que 
seria uma honra, mas eu estou aqui na qualidade de cego. Isso j 
 bem difcil... e ainda por cima mais dois caras da direco? 
Por favor, no! Gostaria de aproveitar para descansar um pouco.
 Pela primeira vez, Dabrowski viu Teyendorf dar uma estrondosa 
gargalhada a plenos pulmSes. Ele  um bom rapaz e no apenas um 
esquisito, pensou Dabrowski. Mas talvez seja necessria toda essa 
soberania para se poder comandar um navio como este. D uma 
olhada no comandante e voc saber como  o navio.

 A partida na tarde seguinte foi no apenas uma despedida da 
Amrica do Sul, mas tambm um adeus ao solo firme do continente. 
O que viria dali por diante, seria a inimaginvel vastido do 
Pacfico, os mares do Sul com suas ilhas e o muito louvado 
encanto de uma paisagem maravilhosa e de pessoas bonitas com seus 
sonhos tornados realidade, com suas ilusSes palpveis. Seriam 
atravessados milhares de quilmetros de gua, sobre profundidades 
martimas cujas dimensSes... parecem incrveis. Iriam ver recifes 
de coral, ilhas de filigranas com tranquilas lagunas de colorao 
verde-azulada e bosques de palmeiras balanando ao vento, guisas 
dos polinsios e pequenas e misteriosas cidades insulares, em sua 
maior parte dominadas pelo nico comerciante, o proprietrio do 
"armazm" - todos, quase que sem excepo, chineses. O ar se 
encheria com o forte aroma adocicado dos jasmins e o canto das 
lindas nativas e sua dana, o tamuree, tornariam inesquecveis as 
noites mornas. Moorea, Bora Bora, Niu aloja, Ahu Tahai, Ranu 
Raraku, Hakupu, Panai Motu... s os nomes j eram como uma 
msica delicada, embriagadora.
 Quem nunca empreendeu uma viagem martima, no sabe que este  o 
tipo mais fascinante de viagem. No pode ser comparado com nada. 
S a experincia do vasto oceano em cujo horizonte, uma vez por 
outra, surge uma ilha com praias de coral branco e palmeiras 
majestosas, fica gravada para sempre no corao. Pode-se abraar 
um paraso; alis, paraso s na aparncia e cheio de perigos. Um 
apndice supurado pode
significar morte certa; pois em geral  tarde demais at que o 
alarme seja dado  prxima ilha maior que disponha de mdico e 
hospital e que um helicptero, chamado por rdio, v buscar o 
paciente. E quando de um imenso e seguro navio olhamos para o 
sonho de nossa juventude, o encanto dos mares do Sul, com seu 
sol, gua azul, lagunas, alcatrazes e bancos de coral, cardumes 
de peixes coloridos e praias tranquilas de areia de coral 
branco... ningum pensa nos tufSes arrasadores que, com seu poder 
aniquilador, caem todos os anos sobre esse paraso!
 Conquistar um mundo novo no mar, isso  bem mais do que uma 
simples viagem!
 Enquanto o Atlantis saa de Valparaso pegando o curso da ilha 
de Pscoa, passando pela ilha de Juan Fernandes - na qual 
supSe-se ter vivido Robinson, o marujo ingls Alexander Selkirk 
-, Sylvia voltou a sentar-se na beira da cama de seu marido, para 
fazer o papel da esposa preocupada.
 O estado de Knut De Jongh continuava melhorando sempre; embora a 
febre no tivesse sido vencida por completo e ele ainda sentisse 
uma estranha fraqueza. Passava a maior parte do tempo dormindo; 
contudo, to logo acordava, passava a atormentar a enfermeira 
Erna exigindo uma cerveja gelada sob a ameaa de que, caso 
contrrio, escaparia daquela priso e esvaziaria um barril 
inteiro no bar. Coisa a que a enfermeira costumava responder do 
modo mais impassvel:
 -  bom eu saber disso. Agora vou passar a amarr-lo na cama 
todas as noites. Comigo o senhor no vai ter esses faniquitos 
no!
 - Voc est plida - disse De Jongh nesse momento, segurando a 
mo de Sylvia. - No se sente bem?
 - E como poderia me sentir bem se voc acabou de estar bem perto 
da morte? - a frase soou cuidadosa e afectuosa, mas tambm era 
verdade que o cansao estava oprimindo Sylvia. Agora, para ela, a 
noite existia no mais para o sono, mas sim apenas para fazer 
amor; nos braos de Fehringer, ela se esquecia do tempo e se 
perdia no espao, passava a ser apenas sentimento e paixo, 
entrega e fluir. As poucas horas que Sylvia cochilava na 
espreguiadeira do convs no substituam o sono perdido. Em 
contrapartida, parecia-lhe incompreensvel o frescor de Fehringer 
no qual, pelos vistos, as frenticas noites no deixavam 
sequelas. Admirava-o cada vez mais e, uma vez, suspirou exausta:
 - Nunca mais nascer um homem como voc... - qual o homem que 
no gosta de ouvir isso?!

 - Voc conheceu Santiago? - perguntou De Jongh. O amor de sua 
mulher novia-o. Ela era a nica pessoa capaz de penetrar em sua 
casca dura e, ento, contemplar um De Jongh completamente 
diferente. era uma alma que Sylvia podia amassar como bola de 
mascar.
 - No - foi a lacnica resposta de Sylvia.
 - E por que no? Quando sou obrigado a vegetar aqui, voc bem 
que poderia ter tirado algumas belas fotos para ns.
 Por qu, por qu?, pensou Sylvia lanando um olhar dissimulado a 
De Jongh. Porque irei na cama com Hans, seu idiota! O navio ficou 
quase vazio e ns ficamos o dia inteiro juntos. Foi como morrer 
pela metade, mas de uma beleza indescritvel.
 - Comprei cartSes-postais de Santiago e Valparaso.
 - Bem, pelo menos j  alguma coisa.
 - O que o Dr. Paterna disse? Quanto tempo mais voc ter de 
ficar acamado?
 - No tenho a menor idia, querida.  provvel que at superar 
essa maldita fraqueza. Aconteceu uma coisa ontem  noite. Agora 
voc vai saber, eu disse a mim mesmo. Agora voc ir ao banheiro 
ao lado e acabar com esse negcio de mijar nessa droga de 
garrafa de vidro. Ento, sa da cama... e depois de dois passos 
desabei e ca contra a parede. Minhas pernas simplesmente 
falharam, como se no me pertencessem. E sabe o que o Dr. Paterna 
disse hoje de manh? "Continue assim, seu cabea-de-vento! Voc 
ainda vai conseguir parar debaixo da terra! Mas nada de alegria 
antecipada! Voc ter um enterro de marinheiro: jogo voc ao mar 
com meus cumprimentos aos tubarSes!"  assim que eles me tratam 
aqui, Sylvia. Esse Dr. Paterna no  mdico coisa nenhuma, mas 
sim um magarefe.
 Sylvia deu uma risada clara, acariciou o rosto de Knut De Jongh, 
enquanto pensava que talvez se passasse um bom tempo at ele 
poder voltar a ficar de p. E isso significava: ainda haveria 
muitas noites deliciosas com Hans. Que a fora vital nunca mais 
retorne ao seu corpo!
 Sylvia esboou um sorriso sonhador e De Jongh pensou que aquela 
expresso de Madona em seu rosto era dirigida a ele. De Jongh 
levou a mo de Sylvia aos lbios, beijou-a e, numa fraco de 
segundo, teve foras suficientes para pensar: droga, como eu 
gostaria de dar uma trepada com ela!
  isso mesmo que farei, aqui nessa mesma cama, to logo me sinta 
um pouco melhor...

Quatro dias em alto-mar, quatro dias somente de gua, quatro dias 
de infinito e de horizonte oscilante, quatro dias at o grito:
 - L est ela...

 A ilha de Pscoa. Um dos ltimos mistrios deste mundo. 
Gigantescas figuras de pedra, chamadas de moais, esculpidas das 
pedras do vulco Rano Raruku e arrastadas de uma maneira 
incompreensvel por quilmetros at os locais sagrados de culto e 
ali levantadas. Vinte e uma placas de madeira com escrita de 
imagens esculpidas, semelhante aos hierglifos egpcios; 
seiscentos caracteres diferentes de tempos imemoriais, at hoje 
indecifrveis. O rochedo Orongo com a imagem do Transata manu, o 
homem pssaro, esculpida na pedra. Do alto do rochedo, os eleitos 
deviam atirar-se ao mar como quem voa e depois nadar at um 
recife pontiagudo atravs de guas infestadas de tubarSes. 
Somente aquele que chegasse ao escolho seria o novo cacique, o 
rei da ilha e do mar, o mensageiro de Make Make, o deus com 
cabea de pelicano-fragata. Os tufos gigantes dos moais chegam a 
pesar oitenta toneladas e ter at vinte e cinco metros de altura. 
Seriam imagens de deuses ou figuras dos antepassados? At hoje 
ningum sabe. S conseguimos ficar espantados diante dos mais de 
mil mistrios de pedra... Um mistrio que sentimos at a medula. 
A vida a bordo do Atlantis transcorreu sem maiores acontecimentos 
at l - quando no se leva
 em conta o que aconteceu sob o convs. O prncipe voltou a 
entregar-se  sua inclinao pervertida. Os namorados 
homossexuais van Bonnerveen e Grashorn viviam em briga constante, 
pois Grashorn no queria separar-se de sua bela comissria - 
coisa que chegou a um ponto tal que van Bonnerveen passou a 
choramingar como uma mulher histrica, sempre se queixando e 
tendo ataques de enxaqueca. Todas as manhs, Ludwig Moor fazia a 
sua caminhada de mil metros no convs, em passo militar, peito 
para fora, coluna dorsal erecta, queixo puxado para a frente. 
Oliver Brandes superara seu pnico de um naufrgio e agora ficava 
horas jogando xadrez. O casal Schwarme atormentava-se na 
intimidade. Quem andava muito ocupado era Franois De Angeli; 
flertava com todas as mulheres mais ou menos bonitas a bordo e j 
havia recebido quatro ameaas de bofetadas de maridos indignados.
 Agora, todas as noites havia festa no Salo dos Sete Mares. Um 
baile  fantasia, uma exibio de mgica, uma noitada de "Ritmos 
do Mundo Inteiro". O mestre-de-cerimnias Hanno Holletitz vivia 
seu grande momento e o director de cruzeiro Manni Flesch, 
responsvel por todo o entretenimento a bordo, transformara-se em 
verdadeiro trabalhador braal. Os grandes empreendimentos 
culturais tinham lugar no bar Olympia: um concerto de violoncelo, 
um de piano, um quarteto de cordas e uma noitada de msica de 
Franco Rieti com canSes de Hugo Wolf e Richard Strauss. No 
cinema, o escritor Erman Schmied, que viajava como convidado e 
que na vida comum chamava-se Hermann Schmitz segundo o atestado 
de nascimento, li suas prprias obras recebendo muitos aplausos, 
pois afinal aquilo era cultura, mesmo que ningum gostasse. E nas 
varandas reuniram-se os grupos de hobbies fabricando bonecas, 
gravando em vidro, modelando em barro, pintando aquarelas ou 
fazendo rsticas tbuas votivas. Nos conveses, os esportistas 
andavam s voltas com o shovelboard e o tnis de mesa, com os 
torneios de natao e o tiro ao alvo. Mas o mais preferido era o 
cochilar nas espreguiadeiras, tendo ao lado um drinque tropical 
bem gelado servido pelo bar externo, um livro nas mos e muita 
expectativa pelo almoo ou jantar.
 Poucas horas antes da chegada  ilha de Pscoa, trs cavalheiros 
pediram uma audincia com o comandante Teyendorf. O Dr. Schwarme 
tambm estava entre eles e, por intermdio do primeiro-oficial 
Kempen, mandaram dizer que vinham a pedido de uma grande parte 
dos passageiros.
 - Mas o que  que est acontecendo de novo? - Teyendorf 
perguntou a Riemke, seu director de hotel. - Voc tem alguma 
idia? A comida estava ruim? O servio deixa a desejar?
 - No tenho a menor idia, senhor comandante. Em todo o caso, os 
cavalheiros esto muito excitados e querem discutir o problema 
no comigo, mas somente com o senhor.
 - Muito bem. Que venham.

 Pouco depois, os trs senhores estavam sentados de frente para o 
comandante. Teyendorf ainda dera uma rpida olhada na lista de 
passageiros. J conhecia o Dr. Schwarme, o segundo hspede era 
director de uma conhecida fbrica de mquinas, o terceiro 
trabalhava como fsico num instituto semi-estatal de pesquisas 
espaciais.
 - Vamos comear logo sem rodeios, senhor comandante - disse o 
Dr. Schwarme. - O senhor no est a par, afinal no faz parte de 
seu trabalho, mas as coisas chegaram a um tal ponto que o 
comandante precisa intervir! Esse Sr. De Angeli importuna nossas 
mulheres de um modo francamente descarado. Estamos aqui, falando 
em nome de dezanove maridos furiosos. O que esse senhor faz... 
uma insolncia!  do nosso conhecimento que ele fez uma proposta 
clara a, pelo menos, sete senhoras.
 - Olha, esse negcio no  mesmo problema do comandante. - 
Teyendorf encarou com um ar um tanto ou quanto frio os trs 
homens furiosos. - Trata-se realmente de um assunto privado entre 
os senhores, suas esposas e o Sr. De Angeli.
 - No mais! A paz do navio est sendo perturbada de modo 
duradouro e, com o caro custo que pagamos, merecemos o direito a 
um descanso, o direito a uma bela viagem de cruzeiro, a dias 
agradveis, e isso significa: sem o terror sexual de um nico 
vagabundo! - o Dr. Schwarme entrou em aco; sempre fora bom de 
retrica e um adversrio temido do promotor pblico. S que, 
pelos vistos, Teyendorf no se impressionava. 
 - Apesar disso, meus senhores, isso tem a ver com sua esfera 
privada e no com meu navio.
 - O senhor est cometendo um erro nesse ponto, senhor 
comandante.
 - O fsico apertou os dedos fazendo estalar as articulaSes. -  
to grande a indignao reinante entre os referidos senhores, que 
ningum mais pode dar garantias de que no haver danos corporais 
a bordo... isto para usar um eufemismo.
 - O que isso significa: o senhor quer espancar o Sr. De Angeli, 
no? - disse Teyendorf da maneira mais clara. - Coisa que, na 
verdade, eu condenaria, mas que quase no tenho como impedir. 
Claro que no posso ir ao Sr. De Angeli e dizer-lhe: "Meu caro, 
tire as mos das mulheres dos outros!"
 - Por que no?
 - Porque, ento, ele teria todo o direito de expulsar o 
comandante da cabina.
 - Faamos de uma outra maneira. - O fsico desviou o olhar de 
Teyendorf e fixou-o na parede. Nela havia um quadro pendurado: 
Tormenta no cabo Norn. - Digamos que talvez o Sr. De Angeli bata 
com a cara nalguma coisa a bordo.
 - Obrigado. Agora, pelo menos sei onde devo procurar os autores.
 - Como assim? - o Dr. Schwarme abriu um sorriso largo. - Somos 
dezanove homens envolvidos e todos esto dispostos a testemunhar 
em favor do libi do outro! No existe nenhum autor, nenhum autor 
que possa ser provado. Suponhamos que o Sr. De Angeli desaparea 
sem deixar vestgios.

Que de repente ele suma numa manh.  natural que se pense: 
"Homem ao mar", mas pode ser provado? O homem simplesmente 
desapareceu e no voltou. O que restar a fazer ser uma denncia 
de desaparecimento. - O Dr. Schwarme recostou-se na poltrona. - 
Claro que isso no ter nenhuma consequncia sobre o senhor, na 
qualidade de comandante, mas ser algo bem desagradvel. 
Sobretudo porque por meio dessa conversa em confiana, o senhor 
saber onde o desaparecido pode ter ficado!
 - Meus senhores, tenho a impresso de que sua excitao a 
realidade. - Nesse momento, Teyendorf quedou-se bem srio 
sentindo-se francamente alterado. era uma monstruosidade tentar 
transform-lo em cmplice de um plano de vingana. Por outro 
lado, o comandante via-se na obrigao de dar razo ao Dr. 
Schwarme: estava confrontado com dezanove cavalheiros honestos 
com bom nome na praa, jamais algum provaria alguma coisa contra 
eles. Qualquer investigao fatalmente teria de ser interrompida. 
- Os senhores esto proferindo ameaas terrveis aqui...
 - Advertncias, senhor comandante. Por favor, apenas 
advertncias.
 - O director bufou excitado. - Na qualidade de comandante, o 
senhor tem o direito de, aps conferenciar com sua companhia de 
navegao, expulsar de bordo aquele que perturba a paz e mand-lo 
retornar do prximo aeroporto. Aqui, o dono da casa  o senhor. 
Por favor, faa uso disso neste caso extremo. Ns lhe pedimos.
 - No vejo nenhum motivo para fazer isso no estgio atual.
 - Senhor comandante, faremos com que a maioria dos passageiros 
fique do nosso lado, de tal modo que no lhe restar outra 
alternativa a no ser negociar. - O Dr. Schwarme cruzou as mos 
sob o queixo. - O senhor encontra-se numa situao de emergncia. 
Quer ter um navio com seiscentos passageiros insatisfeitos e 
opositores? Coisa que, alis, afectaria a sua reputao.
 - Papeete possui um aeroporto moderno. - O fsico tornou a 
estalar os dedos. - De Angeli poderia voar dali com toda 
comodidade. Taiti-Paris  uma linha padro.
 - Cavalheiros, no seria mais aconselhvel e eficiente se 
passassem a tomar conta de suas esposas? - disse Teyendorf com 
pose rgida.
 Os trs homens levantaram-se na mesma hora, quando o comandante 
ps-se de p. A conversa chegara ao fim.
 -  um bom conselho, senhor comandante. - O director enxugou com 
seu leno de bolso o rosto avermelhado. - Vamos segui-lo 
removendo a causa do problema... No  essa a sua opinio?
 - Assim no! - A expresso do rosto de Teyendorf petrificou-se. 
Meu Deus, o que temos hoje a bordo, pensou ele abalado. 
Verdadeiros sacos de dinheiro prestes a explodir, mas cheios de 
fedor de bosta. - Advertirei o Sr. De Angeli, nada mais posso 
fazer. Mas se alguma coisa acontecer ao Sr. De Angeli, entregarei 
os senhores e os outros ao posto policial mais prximo.
 - Mas podem acontecer outras coisas - disse o Dr. Schwarme muito 
 vontade. - Ns aqui, que o senhor conhece, com toda certeza no 
levantaremos um dedo. Mas quem pode garantir quanto aos outros, 
os que lhe so desconhecidos? No pense que a questo  to fcil 
assim, senhor comandante. O Sr. De Angeli vive de uma maneira 
muito perigosa em seu navio.

 Os honorveis cavalheiros despediram-se com um amvel aceno de 
cabea, como o que se faz aps uma conferncia bem-sucedida. 
Teyendorf caminhou com passos lentos at a janela e olhou para 
fora, para o mar azul-ferrete, quase imvel. Sentia-se desditoso 
como poucas vezes antes. No havia testemunhas daquela conversa e 
ele no tinha dvida de que, com efeito, algum fosse capaz de 
transformar a ameaa em
realidade. 
 Pegou o telefone e ligou para a estao de rdio. O 
primeiro-oficial de rdio Wendelberg atendeu na mesma hora.
 - Diga-me quando teremos libertado hoje o contato por rdio com 
a Alemanha?
 - Por volta das 22 horas e 30 minutos at s 23 horas e 30 
minutos. E amanh de manh entre 5 e 7 horas, senhor comandante.
 - Nesse caso, trate de reservar agora mesmo uma conversa 
relmpago com a companhia de navegao para as 22 horas e 30 
minutos. Preciso ter uma conversa urgente com o Sr. Riedmann, da 
direco. Todos os outros contactos deixam de ter prioridade.
 - Sim, senhor comandante. Anotado.
 - Obrigado, Wendelberg.
 Teyendorf jogou o auscultador no gancho e foi procurar um 
cigarro. Depois que encontrou um e acendeu-o, Teyendorf deu ento 
trs longas tragadas e depois notou que ficara mais calmo.
 Um assassinato a bordo, um ladro de jias internacional e agora 
dezanove maridos chifrados com pensamentos mortais de vingana. 
 Que mais se pode querer de uma alegre viagem de cruzeiro?

14

Uma das figuras mais estranhas entre os novos passageiros que 
subiram a bordo em Valparaso era Theodor Pflugmair, fabricante 
de amortecedores na cidade bvara de Moosbruch. Essa minscula 
aldeia vivia sobretudo do trabalho na fbrica de Pflugmair e as 
empresas agrculas secundrias
- como se diz de modo to belo no jargo oficial - e tinha a 
agradecer somente  circunstncia de Theodor Pflugmair ter 
nascido ali e de ter herdado um exuberante sentimento bairrista. 
Os Pflugmairs j eram citados na crnica da aldeia em 1367 e, na 
Guerra dos Trinta Anos, um deles chegou ao posto de capito, foi 
aprisionado e acabou sendo enforcado pelos suecos. Assim foi que, 
alguns sculos depois, Theodor Pflugmair, que conhecia quase o 
mundo inteiro, jamais pisaria em solo sueco. Ele fizera o curso 
de mestre de camio e tanto se irritara com os amortecedores que 
quebravam, que acabou fundando uma fbrica no prado verde dos 
fundos da propriedade da famlia. Trinta anos depois, os 
"Amortecedores PM" se haviam tornado um conceito no ramo, fazendo 
de Pflugmair um multimilionrio e transformando a pequena aldeia 
de Moosbruch numa comunidade prspera.

 Todo mundo rezava para que Pflugmair ainda vivesse muito tempo, 
pois ambos os seus filhos no demonstravam o menor interesse por 
amortecedores e a nica filha casara-se com um sujeito "extico"; 
um importador para a sia Oriental e, ainda por cima, prussiano. 
Para Pflugmair isso era um verdadeiro golpe do destino. E esse 
desejo de que ele "ainda vivesse muito tempo" tambm era um 
problema, pois Theodor comia como um javali e enchia a cara como 
uma esponja. A propsito: para espanto dos mdicos, Pflugmair no 
tinha nem esclerose arterial, nem cirrose heptica e muito menos 
diabetes. Pela ptica mdica, j h muito tempo que ele deveria 
ser um destroo humano - e o caso era o contrrio. E o grande 
nmero de Pflugmair nas romarias - em Moosbruch chamadas de 
festas religiosas - era levantar a pedra Winderer, um gigantesco 
bloco errtico, a dez centmetros do solo, coisa que era vista 
por todos como um recorde mundial. J o haviam inscrito quatro 
vezes no Livro Guins dos Recordes, mas Pflugmair nunca fora 
includo.
 - Quem faz o tal livro? - berrara Pflugmair. - Ora, quem poderia 
ser? Prussianos! 
 E com isso o caso estava liquidado para ele.
 O nico luxo que ele se concedia eram as viagens de cruzeiro no 
NM Atlantis. Pflugmair era francamente um viciado em andar pelas 
pranchas, no mnimo trs meses ao ano, divididos entre duas 
viagens; conhecia todos da tripulao, era generoso com suas 
gorjetas, estava sempre reencontrando amigos no navio e havia 
conhecido uma grande quantidade de pessoas pelo mundo inteiro. 
era bem verdade que algumas vezes dera um pequeno escorrego e 
fizera reservas em outros navios, mas sempre retornara 
arrependido ao Atlantis dizendo ao comandante Teyendorf:
 - No h nada como esse seu batelo!
 Talvez fosse ele a nica pessoa a chamar o navio de Teyendorf de 
"batelo", sem cair em desgraa. era famosa a sua "noite da 
tripulao" no cinema: ele assinava a conta sem conferir.
 A atual viagem de Valparaso a Sidney presenteou-o com uma 
experincia especial. Ou seja, pela primeira vez na vida, 
Pflugmair conheceu um prussiano to dominador quanto ele: Knut De 
Jongh. era bem verdade que, nesse momento, De Jongh estava 
acamado no hospital e que por l ainda ficaria um bom tempo; mas 
Pflugmair, que logo tomou conhecimento da briga de faca, teve 
permisso do Dr. Paterna para visitar De Jongh. E, assim, comeou 
uma espantosa coexistncia entre prussianos e bvaros. Pouco 
antes da chegada  ilha de Pscoa, Pflugmair apareceu na 
enfermaria, postou-se aos ps da cama e encarou o ferido. De 
Jongh, por seu turno, examinou Pflugmair com um olhar 
desconfiado. era quase possvel ouvir-se o crepitar da tenso.
 - Dia! - disse Pflugmair depois de algum tempo. Esforou-se em 
falar o alto-alemo. E conseguiu, com excepo de certos pequenos 
detalhes de menos importncia. - Uma faquinha assim  rpida, 
Mais rpida do que uma lngua grande. Ouvi dizer que voc estava 
querendo exterminar os peles-vermelhas. Ah, sempre os prussianos!
 - Pode me sacanear  vontade - respondeu De Jongh como era de se 
esperar. - Que palhao  voc?
 - Pflugmair!
 - Tem cara mesmo disso.
 - Olha aqui, meu chapa, nunca ningum me assaltou. Porque no 
saio por a ostentando riqueza, sacou?
 - O que voc est querendo aqui na minha cama? - gritou De Jongh 
juntando todas as foras que ainda tinha. - Trate de dar o fora 
daqui! Onde est o Dr. Paterna? Doutor!!!
 - No precisa se esgoelar. O Dr. Paterna est tomando caf na 
cantina dos oficiais. Ele me disse que eu devia vir aqui 
anim-lo...

 -  uma coisa que voc pode fazer agora mesmo enfiando essa sua 
bunda por aquela porta e depois fechando-a! - Knut De Jongh 
estava furioso com seu desamparo. - Para me animar, eu preciso 
duma cerveja, de um barril bem cheio! E de uma mulher. Cacete, me 
deixe em paz!
 Theodor Pflugmair assentiu, murmurou algo que soou como "Que se 
dane, seu babaca" e, de facto, saiu da enfermaria. Knut de Jongh 
fixou o olhar no tecto da cabina sentindo-se um lutador de boxe, 
cujas mos estavam amarradas nas costas e que recebia golpe aps 
golpe no focinho.
 Vinte minutos depois, a porta foi aberta de novo e Pflugmair 
tornou a entrar. De Jongh estremeceu.
 - Oh, no! De novo esse rinoceronte! Acabei de arejar esse 
quarto, livrando-o do seu cheiro e ei-lo a de novo! Ah, vou dar 
um esporro no Dr. Paterna.
 Sem dizer nenhuma palavra, Pflugmair enfiou a mo nos bolsos do 
palet e das calas e colocou em cima da mesinha-de-cabeceira o 
que havia trazido: duas garrafas de pilsen Urquell, duas tulipas, 
um abridor de garrafa, dois vidros de nozes e pasteizinhos. Knut 
De Jongh ficou com os olhos brilhando.
 - Cerveja... - disse lentamente. Uma palavra embebida de mel. 
Cerveja!
 - Que outra coisa poderia ser? - Pflugmair arrastou uma cadeira 
para perto da cama e sentou-se. Abriu as garrafas e encheu os 
copos. A cerveja brilhou espumante na luz. - O que eu quero, 
quero  fim de papo!
 Uma filosofia de vida simples porm efectiva. De Jongh tomou o 
copo da mo de Pflugmair, levou-o aos lbios e esvaziou-o com 
goles vidos, sem tir-lo da boca. Em seguida, soltou um potente 
arroto e ostentou um sorriso de felicidade.
 - Bah, ptima! - disse ele. -  desse jeito que vou recuperar 
minha sade e no com comprimidos e ficando deitado aqui. Mas os 
curandeiros no compreendem isso.
 - Sabe, d pra eu trazer a cerveja. - Pflugmair tornou a encher 
o copo.
- Mas no d pra trazer a nega...
 - Obrigado. Estou viajando com a minha mulher. - Tambm o 
segundo copo De Jongh bebeu como um sedento. - E voc?
 - Estou sozinho. Minha mulher... sente enjoo, o navio  estreito 
demais para ela. Quando subo a bordo, ela vai para a Riviera. 
Qual o problema? Assim tenho minha paz.
 - Voc subiu em Valparaso, no? E ficar at Sidney? 
 - Inclusive at Hong-Kong.
 - Puxa, so mais vinte e quatro dias. - De Jongh jogou um 
punhado de nozes dentro da boca. - Pode dispor desse tempo 
ilimitado?
 - Eu fabrico amortecedores e tenho meus clientes fixos. A coisa 
anda sozinha. J dei bastante duro na vida.
 - Como eu. Eu era ferreiro, desses de verdade, desses que ficam 
na bigorna, junto da forja. Agora tenho uma fbrica de ferraria 
de luxo e forneo para toda a Europa. Sei o que  dar duro. - De 
Jongh deu uma batidinha na garrafa e abriu um sorriso largo. - 
Mas que tipo de cara  voc? Entra aqui me trazendo ar dentro da 
garrafa.
 - Voc bebe como um bvaro! Pena que seja apenas um prussiano... 
vou buscar mais abastecimento!

 Assim, a manh transcorreu em meio a uma paz espantosa. Num 
determinado momento, os dois ouviram rumores do Dr. Paterna no 
consultrio - era o habitual horrio de consultas da parte da 
manh - e esconderam copos e cerveja debaixo da cama. Em seguida, 
quando Paterna foi dar uma rpida olhada no quarto, De Jongh 
estava decentemente deitado nos travesseiros, enquanto Pflugmair 
acabava de contar uma piada pornogrfica sobre uma vaqueira.
 - Tudo em ordem? - perguntou Paterna.
 - Tudo, doutor. - De Jongh levantou um pouco a cabea. - Quando 
poderei dar o fora daqui?
 - Bem, se continuar sendo sensato... dentro em breve! - Paterna 
lanou um olhar ao rosto avermelhado de Pflugmair, que encarou-o 
com um ar da mais pura inocncia. - Voc sabe, hem, Sr. 
Pflugmair... nada de cigarros nem bebida.
 - E por que eu faria isso?! Sigo as suas instruSes, doutor... 
 Em seguida, quando o Dr. Paterna tornou a sair do quarto, os 
dois deram uma gargalhada como dois garotos que conseguem dar um 
golpe.
 Pouco antes do meio-dia, Pflugmair retornou curioso com o quarto 
carregamento de cerveja e, gemendo, sentou-se na cadeira.
 - Vi sua mulher - disse ele. - Pelas barbas do profeta, que 
gatona! O que voc pediu a Deus, no  mesmo? E o traseiro... 
Minha Nossa Senhora! Eu perguntei e o comissrio me mostrou. 
Estava deitadinha no sol quase pelada... Com um biquini desse 
tamaninho!
 - Sozinha? - perguntou De Jongh como quem no quer nada.
 - Ah, que  isso! Tem mais de cem pessoas no convs.
 - Tinha um cara alto e louro ao lado ou perto dela? Um tipo 
desses "todas as mulheres me pertencem"?
 - No vi choas. - Pflugmair fez voar as tampinhas. - Essa sua 
gatona d suas voltinhas?
 - No sei. - Agora, De Jongh passou a beber a cerveja mais 
devagar. Gole por gole, com prazer. - Esse cara est sempre perto 
dela, dana com ela, claro que no sem antes me pedir, os dois 
nadam juntos na piscina... Se eu soubesse que esto acontecendo 
mais coisas pelas minhas costas...
 - Voc acha que isso seria pior?
 - Pflugmair, eu amo Sylvia. Quem se deitou uma vez nos braos 
dela,  como se tivesse levado um pico de txico.
 - Acredito mesmo.
 - Olha, uma vez eu a flagrei deitada com esse cara no convs 
CFL.
 - Peladinha?
 - Peladinha. Depois, eu sa de novo na pontinha dos ps. Os dois 
no sabem que eu os vi: Estavam deitados lado a lado ao sol. 
Claro que havia outras pessoas tomando sol por perto, mas de 
qualquer modo agora eles se conhecem pelados. Esse troo no me 
deixa em paz. E ainda por cima tinha de haver esse maldito 
assalto em Cuzo. Ela anda toda serelepe por a, enquanto estou 
preso nessa cama. Isso est quase me matando.
 - Quer que eu tome conta dela por voc? - Pflugmair girou a mo 
gorda no ar. - Claro que no vou fazer choas com ela. De 
qualquer modo, com sessenta anos j sou coroa demais para ela. E 
minhas dez arrobas de peso so coisa s para as especialistas.
 Ele deu uma estrondosa gargalhada e, nesse momento, bebeu pelo 
gargalo. De Jongh cerrou as plpebras por alguns momentos e ficou 
reflectindo.
 - Bem, Pflugmair, se voc fizesse isso realmente para mim...
 - Meu nome  Theo...

 - T legal, Theo. Eu sou o Knut.
 - Knut. Porra! Uns duzentos por cento prussiano! Mas claro que 
voc no pode fazer porra nenhuma contra isso. Pode confiar... 
no vou tirar mais os olhos de cima dela.
 - Mas, e  noite, Theo...
 - A gente resolve rapidinho. Quando eu sair do bar para ir ao 
meu quarto, dou uma passada no seu e bato na porta. Quando 
gritarem l de dentro: "Quem ?",  porque est tudo na santa 
paz... Nmero da cabina?
 - 147.
 - P, que elegncia!
 - E voc?
 - Nmero 442. Bem l embaixo. Essas cabinas so todas iguais. O 
mesmo tamanho, mesma moblia, mesmo servio. S que l embaixo 
so alguns milhares de marcos mais barato. Eu me tornei algum de 
tanto calcular e economizar. Meus filhos no entendem isso, os 
caras bancam os playboys.  por isso mesmo que no vo receber 
porra nenhuma da fbrica. Nem uma nica pedrinha!
 - E quem vai tomar conta dela?
 - Vai virar uma fundao. Para a igreja. Sou um cara crente, 
Knut. E voc?
 - Eu no, Theo. - De Jongh retornou ao assunto. - E se quando 
voc bater na porta ela no estiver na cabina? 
 - A eu saio procurando pelo navio. Se ela no for encontrada em 
parte nenhuma, voc ter a prova: ela est fodendo noutra cabina. 
Conheo cada cantinho deste navio,  o que lhe digo. Nada me 
escapa. esta  a minha dcima viagem no Atlantis. O comandante 
est querendo dar uma festinha por causa disso. - Pflugmair 
encarou De Jongh, com ar pensativo. - Me diga uma coisa, o que 
voc vai fazer se a sua Sylvia estiver mesmo trepando por a?
 - Corto o pescoo dela e do cara!
 - Errado, Knut, errado! O que voc lucra? Na verdade, de trs a 
cinco anos por morte a porradas, pode ter certeza que  isso que 
vai pegar. E nesse tempo voc fica engaiolado. Quando sair de 
novo, foi tudo para o caralho. Sua fbrica, sua reputao... voc 
continuar sendo um assassino! Faa diferente: saia trepando 
tambm!
 - No existe nenhuma outra mulher como Sylvia. E se a sua mulher 
desse umas voltinhas por a? 
 - Ela d. Ela d. Olha, no sou nenhum otrio para pensar que 
ela foi  Riviera s para se deitar na areia. Ela compra um 
comedor e depois... E pimba! Estou cagando e andando. Quero ter 
minha paz e viajar no Atlantis. J participei trs vezes desse 
passeio. O sul do Pacfico. Conheo tudo por aqui.
 - E eu no vejo coisa alguma, apenas o que passa pela janela. 
Uma merda, no  mesmo? Mas uma coisa eu lhe digo, irei para o 
convs to logo consiga rastejar. O Dr. Paterna que fique 
berrando  vontade: "A responsabilidade  sua!" eu assumo. Assumo 
at por escrito.
 - At l serei a sombra da sua mulher. - Theodor Pflugmair 
estendeu a mo a De Jongh, que apertou-a e assentiu. - Voc  o 
primeiro prussiano que eu gosto, porra! - disse.
 A partir de ento, De Jongh ficou visivelmente tranquilizado. 
Sylvia estava sendo vigiada, dia e noite, e no ntimo ele 
desejava que Pflugmair jamais aparecesse para dizer: "Flagrei sua 
mulher..."

 Terminara o coquetel obrigatrio de recepo do comandante aos 
novos passageiros. Tambm fora suportvel o jantar de gala de 
saudao. J agora a mesa do comandante com os dois casais da 
direco prometia tornar-se uma constrangida questo asitica. 
Mas, sobretudo, as mulheres haviam mostrado todas as jias que 
levaram a bordo. Entre elas, havia criaSes que s poderamos 
chamar de sonhadoras.
 - Um pblico de milionrios! - disse Dabrowski ao director de 
hotel Riemke, aps o jantar. - Eu no estava esperando outra 
coisa. E to-pouco Carducci.
 - Puxa, pra com essa histria desse seu Carducci! Voc sabe 
mesmo estragar o humor dos outros.
 O comandante Teyendorf, que finalmente conseguira evadir-se de 
seus directores no bar Olympia, encontrou Dabrowski no quarto do 
director de hotel e sentou-se ao seu lado.
 - Um coquetel de coco e rum?
 - Bah, que droga! Ser que ningum tem um bom usque no armrio? 
- Riemke lhe trouxe um copo cheio. Teyendorf agradeceu com um 
aceno de cabea. - Vocs passam bem aqui. Nada de mesa de 
comandante, nada de gente da direco que anda com o nariz to 
empinado que pode entrar chuva dentro das narinas... Riemke, que 
cara miservel  essa?
 - Nosso grande detective est de novo falando sobre seu tema 
preferido.
 - Carducci? - Teyendorf virou o olhar para Dabrowski. - Comeo a 
acreditar aos poucos que ele no passa de um fantasma.
 -  a nica coisa que ele no . Carducci estava esperando essa 
nova remessa de passageiros. Estou de olho em doze casais, cujos 
nomes o Sr. Riemke vai procurar para mim. As cabinas deles devem 
ter uma vigia especial. Agora posso garantir-lhes que Carducci 
atacar. E na verdade vai atacar com tanta rapidez, que poucas 
pessoas podero reagir. O ser humano vive submetido a uma lei de 
indolncia; Carducci precisa embolsar suas presas, antes que a 
vtima supere essa indolncia. Esse sempre foi seu procedimento 
at aqui. como sempre subiu nos navios com centenas de disfarces 
honestos, sempre conseguiu desembarcar como se fosse um 
inofensivo passageiro. E mais uma coisa: tambm preciso de uma 
lista de todos os passageiros que tenham feito a reserva de So 
Francisco at Sidney, ou mesmo que sigam adiante, passando pela 
China, Japo e Hava e retornando a So Francisco.
 - Est bem. Voc receber. - Riemke sugou o canudinho de palha. 
Para ele, o rum com coco tinha um sabor excepcional. - A maioria 
deles  de velhos viajantes de cruzeiro e j bem conhecida de 
outras viagens.
 - aptimo. Faa o favor de assinal-los com uma cruz. Assim, o 
crculo ficar menor. E eu terei de descobrir Carducci entre os 
que restaram. Garanto que ele est no correio! Senhor comandante, 
um bom gole a isso!
 De madrugada, por volta das duas horas, Pflugmair bateu na porta 
da cabina 147 como havia prometido ao novo amigo Knut de Jongh. 
Sylvia e Herbert Fehringer haviam recm-iniciado uma pausa e, 
extenuados, estavam deitados lado a lado, fumando um cigarro e 
bebendo um champanhe bem gelado. Seus corpos ainda tremiam e 
brilhavam de suor. Com um grito reprimido, Sylvia levantou-se na 
cama e agarrou a mo de Fehringer.
 - Sim? - gritou ela. - Quem est a?  voc, Knut?

 - Desculpe! - respondeu uma voz desconhecida. - Foi engano de 
porta. Perdo...
 Satisfeito, Pflugmair desceu de elevador at  sua cabina 442. 
Na manh seguinte, pde comunicar a De Jongh: - Tudo em ordem. 
Deitada na cama. Ao que parece, voc tem mesmo uma mulher 
honesta...
 Pela primeira vez desde o assalto, Knut De Jongh sentiu-se 
realmente tranquilizado. Depois, quando Sylvia foi visit-lo mais 
tarde, De Jongh disse de modo delicado:
 - Vem, beije-me. Direito, na boca. Ficarei repetindo sempre para 
voc: ningum pode am-la tanto quanto eu.
 E, de facto, Sylvia beijou-o fingindo uma paixo reprimida e 
chegou a sussurrar-lhe ao ouvido:
 - Fique bonzinho logo, querido. Tudo fica to horrvel sem voc. 
Sozinha na cama nas noites longas... e os olhares estpidos dos 
outros homens quando ando sozinha no convs, ou quando me sento  
mesa do restaurante...
 - Depois voc vai me mostrar esses caras! - De Jongh 
acariciou-lhe a nuca. - Eles vo ver o que  uma verdadeira 
porrada de ferreiro. - Segurou-a pelo ombro quando Sylvia quis 
retirar-se de novo e encarou-a com um jeito terno. - Assim que os 
ferimentos pararem de soltar pus, a gente vai dar uma.
 - O qu?
 - Aqui no quarto. Voc fecha a porta e vem para a cama.
 - Voc ficou maluco, Knut. No d para fazer isso.
 - Ah, e no d! No acontece nada aqui entre as duas e as quatro 
da tarde.  a calma mais completa. J estou sabendo como  a 
coisa, querida. Duas horas nas quais ningum nos incomoda.
 - Vamos ver, Knut. - Ela empertigou-se e sentou-se na cadeira ao 
lado da cama: - Ontem  noite algum bateu na minha porta...
 - Mas que sacana! - gritou De Jongh sabendo de tudo, mas rindo 
por dentro. - Graas a Deus que voc fechou a porta.
 - Eu sempre fecho a cabina. - Sylvia encarou-o com jeito 
cndido. - Voc sabe que tenho medo de ficar sozinha.
 - Minha menininha! - os olhos de Knut De Jongh ostentaram um 
brilho hmido. - Quando eu ficar bom, voc pode pedir o que 
quiser.
 Sylvia concordou com um aceno de cabea pensando que seria muito 
melhor que ele batesse as botas. Inclinou-se e deu-lhe outro 
beijo na testa. 
 Existem mulheres que devem ter sido criadas pelo demnio.

 Ulrich e Alma Richter eram o tipo de gente que jamais chamava a 
ateno.

 O casal envelhecera junto; agora, ele estava com setenta e cinco 
anos e ela com sessenta e trs. E no haviam trazido filhos ao 
mundo. Pela profisso, os dois diagnosticaram que as crianas 
podiam ser um fardo para o resto da vida, pois ambos eram 
professores; Ulrich, director de liceu nas disciplinas de fsica 
e qumica; Alma, professora de histria, geografia e alemo. O 
casamento tornara-se apenas um costume, sem pontos altos nem 
baixos, sempre transcorrendo de modo inspido entre a escola e o 
lar. Nas frias, ambos se presenteavam com trs semanas em 
Norderney. No inverno, comemoravam o Natal numa penso em St. 
Moritz, coisa que encaravam como um monstruoso luxo. Em verdade, 
os salrios de dois professores de liceu, jogados numa s panela, 
do como resultado uma bela soma, com a qual se pode viver. E, 
posto que fora uma prima que ambos no suportavam, no havia 
nenhum herdeiro, os dois se prometeram que, aps a aposentadoria, 
fariam uma viagem martima por ano. Por um lado, para conhecer o 
mundo antes que ele se perdesse para sempre; por outro lado, o ar 
marinho e sobretudo seu contedo de iodo deviam ser excelentes 
para os brnquios, estimulando todo o resto do corpo.
 Enquanto Ulrich Richter era alto e delgado, de cabelos brancos e 
espesso bigode, sempre vestido com elegncia, Alma era uma dessas 
mulheres que, com o passar dos anos, encolhem e secam. Ainda 
percorria o mundo com seu passinho mido e um pouco curvada para 
a frente; tinha nariz afilado e dedos aratriformes, ajustav sua 
fala ao mnimo necessrio na conversa, mas comparecia a todas as 
secSes no cinema do Atlantis, escutava escrupulosamente as 
apresentaSes em pases estrangeiros, como professora de 
geografia achava muita coisa diferente do que outrora ensinara, e 
participava de todos os passeios. Mulher de poucas palavras, 
sempre fotografando tudo em volta, Alma era como que uma migalha 
no grupo; somente os comissrios de mesa conheciam-na direito. Ao 
meio-dia e no fim da tarde, Alma revirava as cestas de frutas 
postas como sobremesa adicional no restaurante, procurando com 
seus dedos aratriformes as melhores mas, laranjas, pras ou 
cachos de uva, retirava as frutas, abraava-as com as duas mos 
contra o peito e depois saa com seu passo mido. Em 
contrapartida, como se punha na fila do buf de gala  procura de 
caviar ou lagosta, ao contrrio de muitos outros passageiros, que 
viviam dizendo ao comissrio que servia: "Ora, mais um pedao 
disso ai. No seja to econmico com o caviar. Obrigado.  s 
mais uma colherada..."
 Na maioria desses casos, tratava-se de cavalheiros honrados no 
dia-a-dia e de chefes temidos. Assim, houve uma milionria que, 
num passeio,  hora do almoo num restaurante de primeira classe, 
aproximou-se  mesa de trinchar onde o cozinheiro estava cortando 
uma pea inteira de rosbife, estendeu o prato e disse com ar 
srio: "O finzinho e as duas primeiras fatias podem ficar para 
voc. Quero um pedao do meio!"
 O cozinheiro assim procedeu, mas quando a senhora se afastou ele 
a seguiu, com um olhar comprido, quase compadecido.
 At agora, Ulrich Richter, com seus setenta e cinco anos, havia 
suportado a viagem de maneira magnfica. era evidente que ele 
fazia parte do grande grupo dos velhos resistentes que habitavam 
tais navios de luxo como o Atlantis e que, nos passeios, 
mostravam aos passageiros de meia-idade o que era capacidade de 
resistncia.
 - A gente sempre se espanta - disse o Dr. Paterna um dia - com a 
maneira como esses velhos florescem to logo sobem a bordo.  
raro um deles aparecer no consultrio do hospital... em 
compensao, aparece qualquer quantidade de passageiros entre os 
trinta e os cinquenta anos.

 Mas agora, fazia dois dias que Ulrich Richter estava tendo dor 
de estmago; no era uma coisa alarmante, apenas um leve ardor 
ocasional na barriga. E Richter via como um incmodo ao doutor ir 
ao consultrio s por causa disso; em vez disso, tomava os 
comprimidos contra acidez estomacal que levara consigo e 
renunciava ao vinho da casa. Na noite antes da chegada  ilha de 
Pscoa - deviam alcan-la s 7 horas da manh, ancorar e depois 
desembarcar - ele disse  sua mulher Alma. 
 - Existem outras interpretaSes para essas gigantescas figuras 
de pedra da ilha, no devem ser imagens de deuses nem culto aos 
antepassados.
 - Que outras interpretaSes? - foi a lacnica pergunta de Alma 
ao dar uma colherada na entrada da comida. Sopa de tomate com gim 
e cobertura de creme.
 - Andei pensando no seguinte: as pessoas de l viviam no mais 
completo isolamento. Imagina s, h tempos atrs, h centenas de 
anos. Claro que hoje em dia aparecem os turistas; eles tm at um 
aeroporto com pista de grama... mas e naquela poca? Devia ser 
uma coisa desesperadora. E o que fazemos quando estamos 
entediados? A gente apronta alguma coisa para aborrecer o 
vizinho. Assim, um dia, um deles deve ter esculpido a cabea de 
pedra nas rochas vulcnicas, coisa que atiou a inveja e a 
ambio de todo o povo e, desse modo, todos comearam a entalhar 
suas figuras nas pedras do vulco, fazendo-as cada vez maior do 
que a do vizinho, uma competio sada do tdio. Quem esculpir o 
maior moam? E, no no dava para fazer maior ainda, todos 
perderam a vontade. Fim da suposta cultura. - Ficou esperando os 
aplausos da mulher que tomava a sopa. - O que diz disso?
 - Uma idiotice. Sente-se, Ulrich!
 Ulrich Richter cofiou o bigode sentindo-se insultado. Quando 
Alma no gostava de alguma coisa, sempre dizia em tom 
professoral: "Sente-se!", como se estivesse diante de um aluno 
que acabava de dar uma resposta deficiente. Ento, na maioria das 
vezes, no havia mais possibilidade de se continuar a conversa. 
Esse "Sente-se!" era definitivo. 
 - Mas poderia ter sido assim, no  mesmo?
 - No.
 - Por que no? Voc sabe mais? Quando voc dava aulas de 
histria e geografia, os moais ainda faziam parte das maravilhas 
do mundo. S quando Thor Heyerdahl...
 - Voc no  Thor Heyerdahl e to-pouco tem uma balsa chamada 
Kon Tiki. Os fsicos jamais compreendero os mistrios, so 
inspidos demais para isso.
 Em oito dias, essa fora a conversa mais longa que Alma Richter 
tivera. Ulrich encarou-a admirado e at francamente espantado, 
quis formular uma rplica, abriu a boca, mas de repente levou a 
mo ao corao, soltou um rudo bem estranho de gargarejo e caiu 
de rosto na mesa, a uma distncia de poucos milmetros da sopa de 
tomate.
 Alma, um pouco surpresa depositou a colher no prato, deu um 
tapinha na cabea do marido e disse em tom de crtica: 
 - Comporte-se, Ulrich! Voc andou bebendo escondido de novo, no 
 mesmo? Dois copinhos de vinho branco seco por dia, voc sabe 
muito bem. Nada mais. Ulrich...
 Ulrich Richter no deu nenhuma resposta mais. O comissrio 
chegou  mesa e lanou um olhar preocupado ao velho. 
 - Posso ajudar? Seu marido est passando mal? Devo mandar chamar 
o mdico?
 As pessoas das mesas vizinhas olharam interessadas e chocadas. 
Quando o comissrio tocou-o e sacudiu-o de leve, Ulrich Richter 
continuou imvel. era evidente que havia perdido os sentidos. 

 A um aceno, o representante do comissrio-chefe agarrou o 
telefone e chamou a cantina dos oficiais. O Dr. Paterna foi na 
mesma hora ao restaurante e, cauteloso, disse a Alma Richter: 
 - no se preocupe, cara senhora. Isso acontece com frequncia. 
Um pequeno acesso de fraqueza, mudana de clima e factores 
semelhantes... - e curvou-se sobre Ulrich Richter.
 Bastou um rpido olhar para perceber que nada mais havia a 
fazer. A palidez do rosto, os olhos petrificados, os lbios 
inchados...
 - Tragam a padiola do hospital! - disse Paterna para os 
comissrios parados em volta. - Ajudem, vamos lev-lo primeiro ao 
escritrio especial. - Virando-se para Alma Richter: - Por favor, 
acompanhe-me!
 - Minha comida vai esfriar - replicou Alma permanecendo sentada. 
- Daqui a dez minutos tudo ser como se no tivesse acontecido 
coisa nenhuma.
 - No acredito, minha cara senhora. Acho extremamente necessrio 
que a senhora nos acompanhe.
 Quatro comissrios retiraram o morto do restaurante e levaram-no 
ao escritrio especial da comissria. Ali chegando, colocaram-no 
em cima do balco e, parados um ao lado do outro, formaram um 
escudo protector contra os curiosos. Alma Richter levantou-se de 
m vontade e, de p, deu outra colherada na sopa de tomate; 
somente depois seguiu o Dr. Paterna. O respectivo comissrio de 
mesa perguntou interessado:
 - Posso cancelar seu jantar, cara senhora?
 Alma Richter virou-se como se tivesse recebido uma picada 
venenosa:
 - como se atreve? Voltarei e continuarei comendo! Que pergunta 
mais estpida. Sente-se!
 Desconcertado, o comissrio seguiu com os olhos a velha senhora 
que se afastava com passinhos midos. O marido dela est morto e 
ela vai continuar comendo? No  possvel!
 O representante do comissrio-chefe, o qual era responsvel pela 
rea, virou-se para todos os lados ostentando um sorriso um tanto 
ou quanto espasmdico:
 - No se preocupem, meus senhores! - gritou ele. - Foi apenas um 
pequeno ataque de fraqueza. Por favor, no sejam perturbados em 
seu jantar. No foi realmente nada... - ele parou, pois podiam 
notar por sua voz que estava mentindo e saiu apressado em 
direco ao escritrio especial diante do restaurante.
 Ali, o Dr. Paterna, a enfermeira Erna e os comissrios cercavam 
a figura morta em cima do balco, esperando a padiola do 
hospital. Alma Richter contemplava o marido cheia de interesse.
 - No, desse jeito! - disse bem tranquila. - Estava falando 
sobre as figuras de pedra da ilha de Pscoa, cai de cabea na 
mesa e est morto.
Est morto mesmo, doutor?
 - Est. Eu gostaria de expressar-lhe meus psames.
 - Obrigada. - Nenhuma lgrima, nenhum choro silencioso, nenhuma 
comoo, nenhum sentimento, apenas uma inventariao inspida.
- Que vai acontecer com ele agora? Vai ser jogado ao mar?
 - Mas no, minha cara senhora! Como pde pensar isso? - o Dr. 
Paterna cobriu o morto com uma toalha de mesa.
 - Li que no mar era assim.

 - Antigamente sim. Antes no tinham como transportar os mortos.
Temos uma cmara frigorfica a bordo e caixSes individuais e 
podemos transportar qualquer defunto at o avio a jacto mais 
prximo para a Alemanha.
 Alma Richter afastou-se do cadver e foi at  porta. Ao chegar 
ali, parou e virou-se mais uma vez.
 - Meu marido fez a reserva e pagou at Sidney. Eu gostaria que 
isto ficasse bem claro.
 Abriu a porta e quis sair; contudo, foi detida por uma pergunta 
do Dr. Paterna:
 - Aonde a senhora vai agora?
 - Ao restaurante, claro. - Sua voz saiu inspida, sem nenhuma 
emoo. - Meu jantar vai esfriar. Boa noite.
 Ningum contestou. A perplexidade e o mutismo espalharam-se pelo 
ambiente. Todos viram atravs da enorme porta de vidro quando 
Alma Richter retornou ao restaurante, com um ar de quem apenas 
tivesse dado uma rpida passadinha no W.C.
 Alma sentou-se  sua mesa, ignorou os olhares espantados dos 
outros passageiros, entre os quais a verdade j se havia 
espalhado, e acenou para o consternado comissrio de mesa.
 - Pode prosseguir com o servio. E mais uma garrafa de ros, 
como sempre. Depois da sobremesa, mais um bule de caf forte.
 Assim, Alma Richter seguiu comendo com toda a calma e ptimo 
apetite. Os olhares indignados dos outros no a incomodavam. Aps 
o caf, ela juntou suas frutas e saiu do restaurante com passos 
midos.
 - Esse tipo de gente devia ser trucidado na hora! - disse um 
passageiro visivelmente aristocrtico em voz alta e sem rodeios. 
Sua mulher puxou-o pela manga da camisa e ficou com o rosto todo 
vermelho.
 Mas ningum replicou coisa alguma; nesse momento, muitos 
pensavam da mesma maneira. Apenas o Dr. Schwarme curvou-se sobre 
a mesa e lanou um olhar irritado para a sua mulher.
 - Vai acontecer o mesmo comigo - sibilou ele. - Voc vai pensar: 
graas a Deus o coroa est morto!
 - No s isso! - sibilou ela em resposta. - Vestirei minha roupa 
de festa e comemorarei com champanhe. Depois irei para a cama com 
meu amante. Vai ser um dia de festa!
 - Mas eu ainda vou viver muito tempo! - replicou o Dr. Schwarme 
em tom malicioso. - Inclusive,  possvel que eu viva mais do que 
voc.
 Erna Schwarme no distinguiu a advertncia escondida atrs 
dessas palavras. Apenas balanou a cabea e deu uma risada 
provocante. 
 O comandante Teyendorf, imediatamente informado do mortal ataque 
de corao de Ulrich Richter, soltou apenas um profundo suspiro 
diante da comunicao.
 - Essa viagem no vai me poupar de coisa alguma - queixou-se de 
sua situao com o Dr. Paterna. - Recebo de presente de uma s 
vez tudo aquilo que, em geral, acontece com muitos outros navios 
no decorrer de vrios anos.
 O Dr. Paterna mandou que colocassem Ulrich Richter no caixo, 
depois levou-o  cmara frigorfica e, ento, deu outra olhada no 
rosto plido do cadver, estranhamente transfigurado e 
rejuvenescido na morte. 
Um velho bonito, cujas rugas a morte alisara.

 Fechou a porta da cmara frigorfica e subiu de elevador at o 
convs Atlntico. Cabina 361. Sr. e Sra. Richter. Ele bateu na 
porta, no ouviu resposta e abriu-a. Alma Richter estava sentada 
no banco estofado ao lado do abajur. Estava lendo. Alma levantou 
a vista por um curto lapso de tempo e depois continuou lendo.
 - Eu s queria lhe comunicar a causa da morte de seu marido - 
disse o Dr. Paterna em tom duro.
 - Ataque cardaco. Qualquer leigo pode ver. Obrigada.
 - De nada... o que est lendo?
 - Kafka.
 O Dr. Paterna virou-se de modo brusco e saiu da cabina, sem 
dizer nenhuma palavra mais.
 s sete em ponto da manh, o Atlantis lanou ncora diante da 
ilha de Pscoa. O baro das autoridades atracou junto  escada de 
portal arriada, os funcionrios da aduana subiram a bordo. Do 
outro lado, a ilha inteira estava no maior alvoroo. Autocarros 
velhos e caindo aos pedaos estavam  espera, assim como velhas 
limosines e um grande nmero de cavalos selados. numa hora 
entrar dinheiro em caixa! Bons e fortes dlares e o menos 
querido peso chileno. Mas sobretudo iriam fazer trocas: bolsas de 
plstico, isqueiros, quepes e chapus, inclusive blusas, saias e 
calas, tudo que se pudesse vestir, cigarros, cigarrilhas e at 
mesmo carteiras e porta-moedas... por esculturas, pequenas 
esttuas de pedra imitando os morais e artsticas miniaturas de 
guisa. Um navio diante da ilha de Pscoa era sempre chuva na 
horta dos 1600 habitantes que, hoje em dia, ofereciam o mistrio 
de sua ilha como atraco turstica. Quem chega ao velho 
Cemitrio dos Marinheiros, l em cima dos rochedos ao lado dos 
gigantes de pedra, cercado pelo vento e pelo infinito, jamais 
esquecer essa experincia.
 O comandante Teyendorf ainda mandou Franois De Angeli 
comparecer  sua presena, antes do desembarque dos passageiros - 
j havia hora e meia que eles se encontravam l embaixo, no hall 
do convs Pacfico, para serem os primeiros. O elegante francs 
fingiu estar assombrado e bancou um ingnuo completo, quando 
Teyendorf, com franqueza e sem rodeios, explicou-lhe a situao.
 - Ah, preciso defender-me! - disse De Angeli muito agitado, 
depois da queixa de Teyendorf. - So as mulheres que do em cima 
de mim e no eu em cima delas! Que posso fazer? Afinal de contas, 
sou um cavalheiro.
 - Mas exagerou. 
 - Eu? As senhoras, comandante! O ar marinho exerce nelas um 
efeito parecido ao do champanhe. O sangue delas fica borbulhante! 
Se os maridos no esto em condiSes de...
 - ... A sua obrigao de ser humano  intervir. Voc tem feito 
um belo trabalho.
 - ... podemos ver a coisa dessa maneira, senhor comandante.
 - Mas eu e os outros senhores no vemos assim. - Teyendorf no 
tinha a menor inteno de encarar essa troca de palavras como uma 
conversa alegre e trivial - Para ns, o seu comportamento  um 
tremendo incmodo para os meus hspedes, incmodo este que 
perturba a paz a bordo. Portanto, no interesse de todos os 
passageiros, devo dizer-lhe que voc pode ser expulso de bordo em 
Papeete. Nesse caso, voc seria obrigado a retornar dali para 
Frankfurt de avio.
 - Eu pedi permisso  minha companhia de navegao. Posso?

 - No creio que o senhor tenha autoridade para tal coisa, 
comandante - replicou De Angeli em tom frio. - Eu paguei a 
passagem, sou um homem livre, no tenho nenhuma enfermidade 
contagiosa, no exalo fedor, comporto-me de maneira correcta e 
no mijo no convs. O senhor no pode me expulsar de bordo. Sim! 
- Isso vai custar muito dinheiro e trabalho  companhia de 
navegao. Pode estar seguro da reaco da imprensa francesa. 
Continua existindo o pontap das botas do exrcito alemo.
 Teyendorf cruzou as mos atrs das costas e assumiu um ar bem 
formal.
 - Pelo que vejo, no adianta pedir a voc, Sr. De Angeli. No 
est disposto a tomar conhecimento do aviso. Suas ameaas no me 
assustam, quem me conhece sabe que as ameaas s me tornam mais 
activo ainda.
Ainda faltam seis dias at Papeete. Se eu receber mais queixas 
nesses seis dias, voc ser obrigado a fazer as malas antes de 
Taiti.
 - E se eu me recusar, se me defender? - gritou De Angeli. era 
sincera a sua indignao. - O senhor vai usar de fora? Vai 
mandar que me arranquem do navio? Farei o maior escndalo...
 - Pedirei a ajuda oficial da polcia de Papeete.
 - Eles so franceses, assim como eu, vo rir de sua cara. Isso 
mesmo, vo rir!
 - Vamos ver. - Teyendorf deu por encerrada a conversa. - Vamos 
comear o desembarque, Sr. De Angeli. Divirta-se na ilha de 
Pscoa.
 - Est me mandando embora?!
 - Da minha cabina? Sim!
 - Sale boch! - De Angeli sussurrou entre dentes o palavro, 
depois virou-se com perfeita soberba e saiu da cabina.
 Teyendorf trincou os lbios e bateu a porta atrs dele. Estava 
claro para ele que De Angeli sairia do navio em Papeete, mesmo 
com um escndalo, se preciso fosse.,  noite, quando todos os 
passageiros voltaram De viagem pelos mares do Sul, no curso 
Pitcairn e Pio Atlantis e os citados senhores traziam comunicados 
de catstrofe.
- Tudo ser esclarecido, meus senhores e senhoras - disse Riemke 
plido e abatido. - Por favor, no se aflijam...
 - Voc deve ter nervos de ao! - gritaram atropeladamente os 
homens alterados; a frase transformou-se numa mistura de vozes 
que ningum mais entendeu.
 Riemke pegou o telefone e chamou Teyendorf.
 - Aconteceu, senhor comandante - disse ele com voz dbil. - Ao 
meu lado esto seis casais. Est ouvindo o barulho? As cabinas 
deles foram arrombadas durante o passeio em terra e todas as 
jias foram roubadas. Em seis cabinas, senhor comandante. Foi-se 
tudo!
 - Onde est Dabrowski? - berrou Teyendorf em resposta. - Irei 
imediatamente a, Riemke. Mas nada de pnico! Dabrowski precisa 
ser chamado! Esse Sherlock Holmes de araque!
 Jogou o auscultador no gancho, vestiu o palet branco, enfiou o 
quepe na cabea, acenou para que o primeiro-oficial Willi Kempen 
o acompanhasse e desceu a escada em desabalada carreira, como se 
tivessem dado alarme de rombo no casco. Dabrowski, que nesse 
momento estava em sua cabina colocando em latas protectoras os 
filmes tirados na ilha de Pscoa, foi assustado pelo comissrio 
de cabina.
 - O senhor deve ir agora mesmo ao Sr. Riemke. O mais rpido 
possvel. Tem alguma coisa acontecendo por l.

 Dabrowski levantou-se de um salto, vestiu o palet e, em dois 
minutos, chegou  cabina do director de hotel. No precisou 
perguntar coisa alguma, os casais contaram tudo atropelando-se 
aos berros. Quando pouco depois dele, Teyendorf e Kempen chegaram 
ao escritrio, dissipou-se a conversa agitada. Nesse momento, 
Riemke conseguiu impor-se.
 - Senhor comandante... - gaguejou ele. - Incontestvel. Seis 
cabinas foram limpadas.
 - Um escndalo! - gritou um dos homens. - num navio to famoso 
como esse.
 - Justamente porque  famoso. Esse tipo de coisa no acontece 
num navio carvoeiro. - Teyendorf viu os olhares irritados na sua 
direco e estremeceu, quando Dabrowski disse em tom quase que de 
felicidade:
 - Paolo Carducci. Finalmente!
 - A minha boa educao impede-me de lhe dar o que voc merece. 
Quer dizer que voc ficou contente?
 - isso a, senhor comandante. Agora sabemos que ele est a 
bordo! Isso foi a assinatura dele. E no vai nos escapar.
 - Quem? - gritou um dos homens em soprano.
 - O ladro. Um certo Carducci. Um dos maiores conhecedores de 
jias do mundo. Se ele considerou que valia a pena roubar as 
jias de suas mulheres, podem ter certeza de que seu dinheiro foi 
bem aplicado. 
 - Um maluco! - soluou uma das mulheres sentando-se pesadamente. 
- era s o que faltava! Um cego maluco. O que ele quer aqui?
 - Sim! O que quer aqui, Sr. Dabrowski? - Teyendorf percebeu 
rpido. O cego devia continuar cego para poder descobrir 
Carducci. - Por favor, retire-se para a cabina ao lado.
 - como queira, senhor comandante.
 Dabrowski foi apalpando o caminho para o quarto contguo, mas 
deixou a porta aberta para poder ouvir a conversa. era uma 
histria simples que se repetiu seis vezes: apesar da fechadura 
de segurana, quatro portas de cabina haviam sido arrombadas, 
sendo que duas nem ao menos estavam fechadas. Os hspedes dessas 
duas cabinas eram os que mais alto gritavam. Suspeitavam que seus 
direitos  reparao eram iguais a zero. Eram cabinas do convs 
superior e do tombadilho. E ningum havia visto coisa alguma. Os 
comissrios tambm tinham o dia livre em terra e foram cavalgar 
pela ilha.
 Com muito alvoroo, preparou-se uma relao das jias roubadas 
com a avaliao de seu valor de venda. Assim, veio  luz que, 
nesse dia, Carducci pusera as mos num valor de 1,3 milho.
 - Eu j disse, com Carducci a coisa tem de valer a pena - disse 
Dabrowski mais tarde, quando encontrava-se a ss no escritrio 
com Riemke.
 Teyendorf e Kempen. Os seis casais haviam ido embora 
queixando-se, para depois, nas cabinas, berrarem acusando-se 
mutuamente pelo facto de as jias no estarem no cofre. Eles 
foram o que menos a srio levaram a circular do primeiro dia, que 
advertiu e exortou os passageiros a guardarem todos os objectos 
de valor. Apenas uma informao de hbito, mais nada. Devia ser 
como o exerccio com o salva-vidas. Agora a mulher berrava para o 
marido:
 - Foi voc que teve preguia de ir levar a jia  comissria em 
plena madrugada!

 E ele gritava em resposta:
 - Eu?! Ah, sempre eu! Quem foi que disse: fique aqui, no vamos 
dormir mesmo ao lado? Ningum rouba num navio como esse. Quem foi 
que disse isso? Quem?! Mas agora finge que no sabe de nada...  
tpico,  o que eu digo! Tpico!
 No jantar faltaram seis casais. A comida teria ficado entalada 
na garganta deles. Em compensao, Alma Richter, a viva, comeu 
com enorme apetite e contou ao comissrio de mesa sobre as belas 
fotos que tirara na ilha de Pscoa. Ela tambm levara a bordo uma 
pesada figura de pedra de tufo, quase da metade do tamanho dela, 
um moam com chapu cilndrico, como cabea, uma obra completa.
 Dabrowski ouviu durante um longo tempo as recriminaSes que 
Teyendorf e Riemke despejaram em cima dele, depois, com um 
impetuoso movimento de mo, cortou a torrente de palavras.
 - Vocs conhecem Wilhelm Busch? - perguntou, causando assim um 
espanto mudo.
 - Mas que conversa fiada  essa? - finalmente, Teyendorf foi o 
primeiro a reagir.
 -  dele, de Max e Moritz, o belo verso: este foi o primeiro 
golpe e o segundo j est a galope... Carducci proceder da mesma 
maneira: ele est preparando o segundo golpe.
 - Bom proveito! - disse Riemke.
 - E voc diz isso com essa calma? - vociferou Teyendorf.
 - O segundo golpe vai quebrar o pescoo dele. No precisaremos 
esperar at o stimo golpe como em Max e Moritz. Ele cometer um 
erro.
 -  o que voc espera.
 - . Os seis arrombamentos no mesmo dia comprovam o quo seguro 
ele se sente. Alis, seguro demais! Vou peg-lo agora! Podem 
consolar os casais roubados; eles recebero as jias de volta.
 Dabrowski procedeu como sempre em seu horrio de refeio. Beate 
cortou os pedacinhos de carne, ele tacteou o prato com o garfo e 
faca e, como todos  volta j estavam acostumados quela cena, 
ningum mais olhou em sua direco.
 Aps a refeio, teria lugar o obrigatrio baile  fantasia com 
a eleio da miss Atlantis no Salo dos Sete Mares. J havia 
algumas mulheres sentadas em volta do salo, impacientes; quem 
receberia uma rosa para poder participar do concurso? Quais 
seriam as oito felizardas? Os maridos estavam desligados.
 - Eu tambm vou querer ver o idiota - disse o Dr. Schwarme cheio 
de veneno - que acha a sua mulher uma rainha da beleza. At o 
nosso cego Dabrowski poderia participar.
 Ele deu uma risada da prpria piada e no ouviu quando Erna 
respondeu em tom malicioso:
 - Nem todos os maridos so to impotentes quanto voc...
 - O que voc far agora? - perguntou Beate inclinando-se na mesa 
para perto de Dabrowski. - Tem algum plano?
 - Ficarei ouvindo por a aqueles que no foram  ilha, que 
permaneceram a bordo. Ento, teremos uma relao distinta, pois 
como foram muitos os que ficaram a bordo. Mesmo aqueles que s 
conseguiam rastejar, foram visitar a ilha de Pscoa. To cedo no 
se ter ocasio de viver algo igual. Portanto, o nmero dos que 
ficaram a bordo deve ser pequeno.  a que vejo a minha primeira 
esperana.
 - E a segunda?

 - Voc vai usar de novo a jia da joalheria de Heinrich Ried e 
no a devolver a Erika Treibel, mas a guardar na cabina durante 
a madrugada. Ficarei sentado na sua caminha montando guarda. - 
Dabrowski encarou-a inquisidoramente atravs dos culos escuros 
de cego. - Ou ser que o Dr. Paterna vai dar alguma passadinha 
por l?
 -  pouco provvel. Eu disse a ele ontem que estou noiva.
 - E ele acreditou nisso?
 - Acreditou. Acho inclusive que ele ficou bem contente.
 Pareceu aliviado por dentro.
 - E voc?
 - Chorei a noite inteira. Foi difcil  bea passar por isso. 
Mas agora ele acabou. A coisa est feita e acabada.
 - Boa menina.
 -  fora, tio Ewald.
 - No torne a repetir isso! - Dabrowski abriu um sorriso largo. 
- Se eu no fosse vinte anos mais velho do que voc e se tivesse 
menos escrpulos, tentaria ser o substituto.
 - Sonharei com isso. - A frase soou impertinente, mas os olhos 
de Beate brilharam. - A nica coisa que ainda me mortifica  que 
eu no sinto inveja dessa pintada Brbara pelo amor de Mrio.
 Dabrowski balanou a cabea.
 - Na realidade, ela no passa de um coelhinho que quer 
participar e tomar sol uma vez na vida. A grande aventura que 
durar at o fim da vida. E a ela d de caras com o Dr. Paterna 
que se apaixona por ela. Se isso no for um conto de fadas...
 - Voc acha que tudo acaba em Sidney.
 - Eu receio, Beate. Paterna em terra, na condio de marido 
honesto... d para imaginar isso?
 -  difcil.
 - Est vendo? Voc se poupou disso.
 - Mas di.
 - A renncia a uma bela idiotice sempre di. - Dabrowski levou a 
xcara com caf quente aos lbios, o encerramento do jantar. - 
Hoje  noite no lamento estar bancando o cego. 
 - Por qu?
 - Ora Vejam s! Como cego no poderei entregar-lhe uma rosa para 
a mesa, a eleio de miss Atlantis! Depois eu teria de danar uma 
valsa com voc.
 - Voc me daria uma rosa, Sr. Dabrowski?
 - E a quem mais daria? Quem no v a sua beleza deve ser cego. - 
Dabrowski deu uma gargalhada da prpria piada em relao ao seu 
papel e depois deixou que Beate o levasse para fora do 
restaurante. Foram logo at a tolda do elevador e entraram na 
joalheria. A vendedora Erika Treibel estava sentada sozinha atrs 
do balco de vidro, lendo um livro sobre mineralogia. No dia 
seguinte, ela daria uma conferncia sobre pedras preciosas na 
televiso de bordo e j nesse momento estava excitada.
 - Moa, abrao cofre! - disse Dabrowski em tom alegre. - Hoje 
ns precisamos de novo da sua jia. Voc ouviu dizer que Carducci 
atacou.
 - E estou com medo. Sr. Dabrowski. Se ele me atacar...

 - Nesse caso, s ser para roubar-lhe a virgindade. - Dabrowski 
estava de ptimo humor. - Ele jamais vir  loja. O risco  
grande demais, minha garota. Carducci tem vtimas mais simples a 
bordo. E agora pegue sua chave e sacrifique a jia. S se pesca 
um tubaro com uma isca sangrenta.
 O baile  fantasia com a eleio de miss Atlantis foi um sucesso 
total.
 O mestre-de-cerimnias Hanno Holletitz esteve brilhante com suas 
piadas e charme, os Happy Boys deram provas de ser verdadeiros 
mgicos do ritmo e, por outro lado, acompanharam a cantora 
Reilingen com delicados sons de flautas em sua esplndida 
apresentao da Valsa da Primavera de Strauss. Foi uma delcia 
escutar seus trinados. Cabia a Teyendorf, como comandante, dar os 
parabns  miss eleita, entregar-lhe o gigantesco buquet e danar 
com ela a valsa de honra. 
 A eleio da miss! Sem dvida nenhuma, essa foi a mais difcil 
que j haviam tido no Atlantis. S o desfile das oito escolhidas 
j foi um deleite para os olhos... e tanto mais difcil ficou 
sendo a deciso sobre quem era a mais bonita.
 Portanto, l ficaram elas lado a lado, rivais desde o incio da 
viagem, mas agora desafiando a deciso: Brbara Steinberg, Beate 
Schlichter, Erna Schwarme, quatro mulheres do crculo da mfia de 
mdicos de Hamburgo, que crucificaram suas esposas mandando-as 
para a competio, a fim de mais tarde eximirem-se das 
recriminaSes, e tambm Sylvia de Jongh, claro, a quem Hans 
Fehringer entregou sua rosa.
 - Vai dar nas vistas, querido! - sussurrara ela, quando 
Fehringer chegou  mesa e, antes de entreg-la, levou a rosa aos 
lbios. - No pode ser.
 - Voc no vai poder dar-me um fora na frente de toda essa 
gente. Chamaria mais a ateno ainda.
 Fehringer ofereceu-lhe o brao e levou-a  pista de dana. 
Sylvia recebeu o nmero seis. 
 Holletitz realizou as entrevistas relmpago com humor e rotina. 
Cada candidata foi obrigada a, de improviso, recitar um poema de 
duas linhas e a dar respostas humoradas para perguntas 
maliciosas. Sylvia viu nisso uma oportunidade para no ser a 
escolhida. Respondeu de modo rabugento, mas recebeu aplausos 
grandiosos e risos atravs de algo dito sem querer.  pergunta de 
Holletitz:
 - Quem foi madame de Pompadoa?
 Sylvia respondeu num tom quase insultado:
 - O colcho de Lus XIV.
 Somente quando todo o salo caiu na gargalhada e aplaudiu 
entusiasmado foi que ela reconheceu o erro e gritou:
 - Eu quis dizer a amante! 
 Mas a correco desapareceu no jbilo.
 A contagem dos votos deu como resultado - No se levando em 
conta que as mulheres dos mdicos situaram-se nos ltimos 
lugares, sofrendo uma contundente derrota - o terceiro lugar para 
Beate, Brbara em segundo e como vencedora do concurso, de 
maneira bem apertada com trs votos de vantagem, Sylvia De Jongh. 
Erna Schwarme, a quarta colocada, mostrou claramente seu enorme 
desapontamento. No fizera nenhum efeito o vestido de noite com o 
decote acintoso, sobre o qual o Dr. Schwarme disse:
 - No se curve para a frente, seno a peitaria pula para fora!
 To-pouco o rebolado surtiu algum efeito. De Angeli, a pessoa 
que lhe levara a rosa, sussurrou-lhe no ouvido quando os dois 
danavam a grande valsa da miss.

 - Para mim, voc  a mais bela, chrie. Vamos depois  minha 
cabina beber uma tacinha de champanhe?
 - Talvez.
 - Voc sempre diz talvez. As outras mulheres... - Um calafrio 
percorreu o corpo de Erna. Bem, agora est tudo no fim, pensou 
ela, enquanto De Angeli, danando, a beijava no pescoo. Em 
Sidney estar tudo acabado... e da? Peter vai divorciar-se e, 
como advogado, - ele sabe o que isso lhe custar. J no existe 
mais o princpio de culpa, quem for economicamente mais fraco 
deve ser alimentado de acordo com os padrSes. De acordo com os 
padrSes, Sr. Dr. Schwarme! So alguns milhares de marcos por ms: 
sei muito bem quanto voc ganha. Mas estarei livre de voc, 
poderei levar minha vida com liberdade, poderei amar quem quiser. 
E voc ter de pagar. Foram vocs mesmos, os homens, que bolaram 
essa linda nova lei sobre o divrcio. Seus idiotas! 
 - Sim - disse ela em voz baixa olhando radiante para De Angeli. 
- Eu irei.
 - Chrie! - De Angeli apertou-a contra seu corpo. - No existe 
nenhum homem mais feliz do que eu. 
 Logo depois da valsa, Theodor Pflugmair saiu correndo para o 
hospital. Knut De Jongh estava deitado na cama, com o corpo 
erguido por uma montanha de travesseiros, lendo um livro de 
bolso. Ele levantou a cabea contente, quando as dez arrobas 
retumbaram no quarto.
 - Cara, Theo! Voc vem me visitar quando l em cima as mais 
lindas fmeas esto dando sopa. 
 Pflugmair puxou um banquinho para perto da cama e sentou-se. As 
pernas do banco rangeram sob seu peso, mas aguentaram firme.
 - O que voc est lendo?
 - Um policial. - De Jongh fechou o livro e jogou-o para o lado.
 - Bom?
 - Existem melhores. Mas Sylvia os devora. Ela trouxe cinco 
policiais na mala.
 - A boa Sylvia. A bela Sylvia. - Pflugmair arreganhou um sorriso 
e esfregou as mos gordas. - Agora, Knut, adivinhe o que 
aconteceu l em cima, no salo.
 - Ora, desembuche logo. 
 - Sua mulher foi eleita miss Atlantis.
 - Foi mesmo? - De Jongh estreitou os olhos. - Quem foi que levou 
a rosa para ela?
 - O babaquara louro. Fehringer.
 - Ora Vejam s! Quer dizer ento...

 - No quer dizer coisa nenhuma. O louro est sentado longe dela, 
numa mesa de seis e sua mulher est acompanhada de dois casais. 
era quase natural que algum escolhesse Sylvia, o louro ou 
qualquer outro cavalheiro e Cara, que mulher voc tem! Ela  
realmente a mais bonita. De virar a cabea,  o que eu lhe digo. 
E falou algo sem querer... que o salo inteiro veio abaixo. - 
Pflugmair relatou a piada sobre madame de Pompadoura, mas De 
Jongh no riu. Ficou com os olhos fixos num ponto do infinito, 
corrodo pelo cime. Sylvia como miss Atlantis... e ele acamado 
no hospital, sempre com aquela febre baixa que resistia aos 
antibiticos. "Voc no ir embora, enquanto no se livrar por 
completo da febre!", dissera o Dr. Paterna. "Mesmo que eu seja 
obrigado a amarr-lo na cama." A enfermeira Erna tambm ameaara 
com a mesma coisa. Ser entregue aos mdicos  uma punio, pensou 
De Jongh amargurado.
 - Voc trouxe cerveja, Theo? 
 - O que voc acha?! - Pflugmair esvaziou os bolsos. Pilsen, um 
copo. Theodor preferia beber pelo gargalo, como antes, quando 
ficava na cova de lubrificao trocando os reparos dos freios. - 
No estou a fim de deixar meu prusso morrer de sede.
 Depois de seu passeio pelo bem cuidado alto-alemo, Pflugmair 
voltou ao idioma materno.
 - Hoje  noite vou dar vrias controladas - prometeu Pflugmair 
ao se despedir de Knut De Jongh. - S para voc ficar de cabea 
fria... Juro por Deus!
 Por volta da uma da madrugada, Sylvia foi  enfermaria. Estava 
levemente bbada, deu um beijo estalado no marido mudo e, 
danando, deu vrios giros diante da cama. De Jongh tornou a 
sentir o cime custico.
 - Voc se divertiu  vontade, no?
 - Foi esplndido. Imagina s, eu fui eleita miss Atlantis.
 - Meus parabns. Por que no est na cama com o seu cavalheiro?
 - Puxa, mas voc  ordinrio, Knut. - Sylvia sentou-se no 
banquinho e fez beicinho com pose de insultada. - Dou um pulinho 
extra aqui em plena madrugada, para contar tudo e o que  que 
voc faz? Voc  um nojento.
 - Desculpe. - De Jongh recomps-se. Sou um burro, pensou. Claro 
que ela tem razo: est aqui para me fazer partilhar de sua 
grande alegria e eu cuspo no seu prato. Knut De Jongh encheu-se 
de uma espcie de comoo. - Fique deitada aqui passiva para ver. 
Por toda a parte festa e baguna e o sujeito s pode ler... quem 
aguenta?! A gente acaba cagado. Desculpe-me, querida.
 - J est desculpado! - Sylvia tagarelou mais um pouco com ele, 
depois despediu-se com outro beijo e saiu danando do quarto. 
 De Jongh seguiu-a com a vista, o corao galopando de desejo.
 Sem nenhuma demora, Sylvia subiu de elevador, foi apressada para 
a sua cabina, abriu a porta e voou para os braos bem abertos de 
Hans Fehringer.
 Na manh seguinte, Pflugmair apareceu no hospital e encarou 
pesaroso Knut De Jongh.
 - ... agora voc vai ficar agitado! - disse. - No d para 
esconder, eu lhe devo esse troo: ontem  noite ela no estava na 
cabina.
 - No me agito coisa nenhuma, Theo. - De Jongh sorriu 
satisfeito. 
- A que horas foi isso? 
 - Assim por volta da uma da madrugada.
 - Est certo. Sylvia estava comigo.
 - Com voc? - Pflugmair deu uma piscada de olhos cmplice, 
esfregou as mos e correu  porta. Ao abri-la, virou-se mais uma 
vez e disse contente: - Ora, ora, ora... esse troo baixou a 
febre?!

 Ainda faltavam cinco dias at Papeete, no Taiti. 

 A ilha Pitcairn, uma minscula mancha no oceano, tornada 
conhecida pelo Bounty, cuja tripulao e seu lder amotinado 
Fletcher Christian, encontraram ali um esconderijo seguro e, com 
as lindas nativas do Taiti, criaram um pequeno paraso nesta 
escarpada ilha vulcnica, s podia ser alcanada com muita 
dificuldade. Cercada por recifes de coral, a costa de rochedos 
no possua uma baa protectora onde se pudesse ancorar. Uma 
nica e minscula enseada pouco profunda, onde s botes pequenos 
podiam entrar, formavam o acesso a essa ilha singular. A enseada 
foi chamada de baa Bounty, pois os amotinados nela ancoraram e 
incendiaram seu orgulhoso navio. Assim, tornara-se definitiva a 
separao de todos os homens. Podia-se comear a vida no paraso, 
junto com as doze taitianas. Desse modo, num plat bem no alto 
dos rochedos, nasceram a minscula cidade de Adastown e a 
igreja, que ainda hoje conserva a Bblia do Bounty.
 O Atlantis ancorou fora dos recifes. Um bote chato de alumnio 
saiu de Pitcairn para buscar o comandante Teyendorf, uma equipe 
de fotgrafos, o Dr. Paterna e sete passageiros escolhidos por 
sorteio e levou ao navio quase a metade da populao - no total 
eram sessenta e cinco habitantes. Eles montaram suas maletas, 
caixas e cestos no foyer principal e no convs do solrio e 
venderam belas esculturas - tubarSes, albatrozes, gaivotas, 
tartarugas -, imagens artsticas feitas de folhas ressecadas e 
pintadas, bengalas com punhos esculpidos e, sobretudo, os belos 
selos impressos na Nova Zelndia. Uma carta com o selo de 
Pitcairn  algo realmente raro, especialmente quando cada 
envelope traz a imagem do Bounty. O comandante Teyendorf 
retribuiu a hospitalidade dando uma serra a motor para a 
derrubada de rvores, junto com uma serra sobressalente. Na 
despedida, os insulares cantaram alguns corais no convs do 
solrio. O chefe da administrao da ilha, o presidente Ivan 
Christian, dirigiu o coral de prprio punho; ele  um descendente 
directo do tenente Fletcher Christian.
 O Atlantis lanou ao mar todos os barcos escolta e Salva-vidas; 
neles, os passageiros deram a volta na ilha, admirados com a 
beleza dessa manchinha de terra, mas mais admirados ainda com os 
seres humanos que ali, em isolamento total num grozinho no 
oceano gigantesco, viviam uma vida feliz.
 - Eu ficaria pirado aqui! - disse Pflugmair na amurada, olhando 
para o minsculo paraso. - Onde no tem cerveja, no tem vida...
 Ainda dois dias at Papeete.
 A preguia ao sol, desporto nos conveses, concertos no Salo dos 
Sete Mares e no bar Olympia, filmes no cinema e uma conferncia 
sobre o Taiti, hobby e trabalhos nas varandas e cerco aos 
balcSes dos bares - e para completar, o ar aveludado dos mares do 
Sul, o vento acariciante, peixes-voadores acompanhando o navio, o 
infinito a toda a volta -  permitido sonhar. S no se via uma 
coisa: tubarSes, apesar de as pessoas ficarem na amurada 
observando o mar de binculo. Um alarme acabou sendo
falso: o tubaro desmascarou-se na forma de papelo. No reino das 
ilhas de contos de fadas, um desencantador indcio de 
civilizao. 

 No houve mais perguntas entre o Dr. Paterna e Brbara 
Steinberg. Eles se amavam e, mesmo que Brbara suspeitasse de que 
talvez Sidney fosse o fim daquela felicidade emprestada, ela no 
se arrependia em nenhum minuto. Sempre que era possvel, Paterna 
era visto ao lado de Brbara Steinberg. At Teyendorf notou.
 - Escuta aqui, seu quebrador de ossos - disse de modo amigvel 
ao mdico de bordo, durante um almoo na cantina dos oficiais.
 - Se  assim, ento abridor de barrigas, senhor comandante. Eu 
sou cirurgio.
 - Sei que  um assunto privado seu, doutor... mas esse namorico 
com Brbara Steinberg est dando um pouco nas vistas. Sei que no 
faz sentido ficar dando liSes de moral, sobretudo num navio de 
cruzeiro; mas tenho a impresso que a Steinberg te ama mesmo.
 - Ns vamos casar, senhor comandante - disse Paterna sorrindo. - 
Satisfeito?
 - Vocs vo o qu? - Teyendorf pousou garfo e faca no prato. - 
Voc? Coitada da Steinberg!  minha obrigao preveni-la. Ela 
seria trada vrias vezes a cada viagem.
 - Voltarei  terra e montarei uma clnica particular na Bavria. 
- O Dr. Paterna sorriu para um Teyendorf perplexo. - Os anos 
passam, a gente se torna slido. E Brbara  uma mulher 
maravilhosa. Clnica particular e stio de embelezamento, uma 
combinao ideal. Eu desembarco em So Francisco, para sempre.
 - Vou sentir sua falta, Dr. Paterna.
 - E eu a sua tambm, senhor comandante. O Atlantis foi uma 
espcie de lar para mim. Mas lhe prometo uma coisa, eu voltarei. 
Mas a, como passageiro, com minha mulher. Talvez seja at na 
viagem de lua-de-mel.
 O estado de esprito do Dr. Schwarme estava um pouco pior. Ele 
corria de marido em marido do clube dos dezanove advogando a 
causa de forar Teyendorf a desembarcar De Angeli em Papeete.
 - Depois da eleio da miss, minha mulher passou a noite inteira 
com ele - queixou-se Schwarme. - Ontem, Sr. Hohmann, ele ficou 
desaparecido trs horas com a sua mulher. Se a coisa continuar 
desse jeito, at Sidney ele ser amante da metade do navio: 
alguma coisa tem que acontecer.
 Todos concordaram em dar um ultimato formal ao comandante, um 
dia antes da chegada a Papeete. Todos os homens se dispuseram a 
intervir perante Teyendorf.
 Um dia aps Pitcairn, Pflugmair voltou a visitar De Jongh no 
hospital. A situao do doente estava animadoramente melhor: os 
ferimentos cicatrizavam, a febre mantinha-se no limite, o 
paciente deixara para trs os primeiros passos dados com pernas 
bambas at o W.C., tudo melhorava. Pflugmair ofegou, deu um 
tapinha no ombro de Knut De Jongh, que estava sentado na cama, e 
disse com voz sepulcral:
 - Agora aconteceu, meu pobre garoto. Ela trepou. 
 - Com quem e onde? - a voz de Knut De Jongh saiu muito tranquila 
e inspida.
 - Com o louro. Voc estava com razo. E onde? Na sua cabina. Que 
vigarice, digo eu! Saca, fui dar uma controlada de madrugada, 
colei a orelha na porta e sabe o que ouvi? Um puto barulho de 
luta! Jesus Cristo, a mulher ficou gemendo e choramingando. O 
cara que no conhecesse isso, teria arrombado a porta para ir em 
socorro. Tem algum a fechando o palet de outro... Essa sua 
mulher diablica estava mesmo com o maior fogo no c.

 - Obrigado. - De Jongh continuou com toda a calma e essa 
estranha calma no era fingida.
 E Knut De Jongh ainda estava calmo quando, uma hora mais tarde, 
Sylvia visitou-o, alegre como sempre, exalando um cheiro de creme 
de bronzear, bem queimada e soltando juventude pelos poros. Ela 
ficou contando sobre os peixes-voadores e De Jongh ouviu 
aparentemente com toda a ateno.
 - Voc vai ao concerto de opereta de hoje  noite? - ele 
perguntou quando Sylvia se despediu. Knut suportou inclusive o 
beijo dela.
 - Vou, j estou contente desde agora. Esto querendo 
transmiti-lo pelo rdio de bordo. Se for assim, voc tambm 
poder ouvir. No acha ptimo?
 - Sim, ptimo. Ficarei pensando em voc enquanto isso...
 De Jongh esperou at que Sylvia fosse embora, depois arrastou-se 
para fora da cama e comeou a correr pelo quarto at que, banhado 
em suor, tornou a desabar na cama. Havia dois dias que treinava 
escondido, ficando cada vez melhor. Knut sentia o aumento da 
fora nos braos e pernas, mas ainda estava longe de ser o De 
Jongh de outras pocas. Agora, fazia treze dias que ele estava 
hospitalizado e de saco cheio.
 Sylvia e o louro, pensou ele. Tinha de acontecer isso. Mas no 
vou sair correndo atrs dela, enquanto ainda tiver foras para 
mexer um dedo. Sylvia  minha propriedade, mesmo que todas as 
fmeas emancipadas gritem o contrrio. E vai continuar sendo 
minha propriedade.
 Sentado na cama, Knut De Jongh ouviu o concerto de pera 
transmitido do Salo dos Sete Mares pelo rdio. Estava todo 
vestido e, apesar da estrita proibio, fumou meio mao de 
cigarros enquanto aguardava.  meia-noite em ponto, De Jongh saiu 
do hospital, subiu de elevador at o convs principal e, ali 
chegando, andou at  sua cabina nmero 147. Enfiou a segunda 
chave no buraco da fechadura e sentiu que a porta estava fechada 
por dentro. Mas ele girou a chave, a porta abriu-se sem nenhum 
rudo, a luz veio na direco dele, o brilho do abajur da 
mesinha-de-cabeceira e os suspiros fervorosos de Sylvia. 
 Knut De Jongh entrou na cabina com a maior tranquilidade, depois 
fechou a porta nas suas costas e deu trs passos para a frente, 
at poder enxergar a cama.
 Sylvia e Hans Fehringer estavam fazendo amor num abrao bem 
apertado e esquecidos do mundo, entregues ao xtase de sua 
paixo. Os dois no viram nem ouviram coisa alguma, nem mesmo a 
entrada de Knut De Jongh. Havia apenas a sua unio corporal.
 Com a cabea baixa, Knut De Jongh aproximou-se dos ps da cama e 
ficou assistindo, sem dizer nenhuma palavra.

15

A cena de um casal fazendo amor pode ser excitante e muitssimo 
interessante para um estranho, mas o  provavelmente pouco para 
um marido, cuja mulher  o objecto da paixo. O que esfrangalha 
os nervos do observador no  apenas o facto da infidelidade, 
mas, muito mais, o comportamento diferente ao extremo de sua 
mulher nos
braos do desconhecido. 

 Assim, Knut De Jongh tambm no tinha guardado na memria um 
momento em que tivesse tido nos braos uma Sylvia to absorta do 
mundo, em tamanho xtase. era bem verdade que ele no tivera 
jamais do que se queixar; Sylvia tinha sido uma mulher e amante 
maravilhosa, que sempre soube como deix-lo excitado com seu 
corpo diabolicamente lindo - mas nunca, nunca ela atiara nele 
esse fogo selvagem que nesse momento Knut via no outro sujeito. 
Isso deixou-o mais despedaado e destrudo do que a descarada 
traio.
 De Jongh voltou s sombras e foi at  porta na pontinha dos 
ps.
 como da outra vez no convs CFL, saiu da cabina sem ser visto e, 
em silncio, tornou a fechar a porta atrs de si. Teria sido mais 
simples liquid-los naquele momento, pensou De Jongh ao subir a 
escada devagar at chegar no tombadilho. Nesse momento,  
meia-noite, o local estava vazio,  excepo de um casalzinho 
sentado no banco dos fundos trocando beijos.
 De Jongh reconheceu Eduard Grashorn e uma das comissrias de 
mesa e contentou um sorriso melanclico. Ainda por cima aquilo 
ali - Grashorn traa seu amante van Bonnerveen com uma moa. O 
mundo estava virado de ponta-cabea.
 Knut De Jongh sentou-se num banco pintado de branco na outra 
extremidade do tombadilho e ficou olhando para o mar tranquilo, 
iluminado pela lua. Somente o cicio das espumantes ondas 
provocadas pela hlice do navio interrompia a tranquilidade. O 
cu estrelado, como sempre, era de uma beleza grandiosa, pontos 
reluzentes no infinito.
 Sim, eu poderia t-los matado na mesma hora. Seria simples. Um 
golpe com o canto da mo na nuca de Fehringer... ele no 
sobreviveria. Seu pescoo se espatifaria como vidro. E Sylvia? De 
Jongh contemplou suas mos macias. Quando elas se fechassem 
apertando seu belo pescoo branco e delgado, ento voc no 
inspiraria mais nenhuma gota de ar. Tambm teria sido uma coisa 
de segundos, com a laringe sendo esmagada j no primeiro aperto. 
 Por que no fiz? Por que fiquei assistindo aos dois e depois sa 
sem fazer barulho? Por covardia? No! Porque, apesar de tudo, 
continuo amando Sylvia? Talvez... Mas ser que algum dia poderei 
esquecer o xtase daquele coito? Pode-se apagar da memria essa 
terrvel imagem? Ser que essa imagem no vai voltar aos meus 
olhos, sempre, sim, sempre que eu a tiver em meus braos mais 
tarde? Ser que no pensarei e sentirei: agora ela est fazendo a 
comparao. Agora voc  ele...  ele que Sylvia est sentindo 
dentro de si; voc  apenas uma substituio, com a qual ela pode 
sonhar com o passado? E ento voc voltar a sentir o impulso: 
mate-a, mate-a agora, essa puta sem-vergonha. Sufoque-a...

 Ele apertou as mos entre os joelhos, fitou o mar e teve 
conscincia de que sua vida nunca mais seria como antes. A partir 
daquele segundo, esmigalhava-se seu pequeno mundo construdo com 
esforo, suor e trabalho; o ferreiro que se tornara industrial, 
cujo trabalho das prprias mos tornou milionrio, mergulhava num 
abismo. De Jongh cerrou os olhos e recostou-se na parede. Nunca 
acreditara que uma mulher pudesse quebrar um homem. Quando algum 
de seu crculo de conhecidos contava sobre tais destinos, ele 
sempre ria e berrava a plenos pulmSes: "Ora, pare com isso! Esses 
homens so uns moleirSes, uns farrapos. Foi muito bem feito que 
tenha acontecido com eles. O que  que a gente deve fazer com uma 
mulher que sai por a dando suas voltinhas? A gente bota a mulher 
debaixo da gente e mostra o que  um ferreiro de verdade! Isso 
sempre ajuda. Sucumbir por causa de uma mulher... que grande 
babaquice!" Agora a coisa era bem diferente; era como se ele 
estivesse sangrando por dentro e ficasse contente por ter chegado 
ao fim.
 Knut De Jongh ficou sentado no banco mais de uma hora, meditando 
e sendo corrodo por sua tristeza. Quando levantou-se e desceu de 
elevador at o hospital, havia-se tornado um velho. 
 O Dr. Paterna estava sentado esperando na ante-sala do hospital. 
Seguindo um instinto, ele fora dar uma olhada em De Jongh e 
encontrara a cama vazia. Achara que seria muita estupidez 
procur-lo pelo navio. Em compensao, mal De Jongh abriu a 
porta, foi logo bronqueando:
 - Ficou maluco?!
 - Fiquei.
 - Onde esteve?
 - Respirando ar puro. No tombadilho.
 - Mas que droga, voc ainda est acamado.
 - At amanh de manh, doutor. Nem um dia a mais!
 - E quem  que determina isso? Voc ou eu?
 - Eu. Trata-se do meu corpo, da minha sade, da minha vida. Sou 
grato a voc por ter-me posto de p de maneira to boa e com 
tanta rapidez, mas agora eu gostaria de ir embora. As pernas sem 
movimento so inteis e eu odeio a inutilidade... Alis, o que 
voc est fazendo aqui no hospital  uma da madrugada?
 - Ao pensar em voc tive uma sensao esquisita.
 - Sua sensao estava certa. - De Jongh entrou em seu quarto da 
enfermaria, tirou a roupa e deitou-se na cama. Paterna ficou 
olhando, sem nada dizer. - O que mais, doutor? Estou cansado.
 - Estou lhe achando estranho. No sei dizer o que me incomoda, 
mas voc est diferente de antes.
 - Talvez nunca mais eu seja como antes. Facadas no peito e nas 
costas podem mudar a gente.
 - No  isso.
 - E o que haveria de ser? - De Jongh ficou olhando o Dr. Paterna 
 espreita.
 -  justamente o que no sei. Antes, numa situao como essa 
voc teria berrado para mim: "Pode me crucificar..." Mas hoje 
voc est conversando comigo...
 - Doutor, acho que voc  a nica pessoa que sente falta disso. 
- De Jongh tentou esboar um sorriso, mas que acabou saindo 
espasmdico.
 - Aqui, nessa sua priso esterilizada, tive muito tempo para 
reflectir. Nunca antes tive tanto tempo assim para mim. E, nessas 
reflexSes, cheguei  concluso de que sou um nojento. 
 - Genial! J  alguma coisa! Durma bem, Sr. De Jongh. Voltaremos 
a nos ver amanh de manh.
 De Jongh apagou o abajur da mesinha-de-cabeceira, quando Paterna 
foi embora. Mas no conseguiu adormecer. Ficou deitado na cama 
como que paralisado, os olhos fixos no teto escuro da cabina, 
pelo qual, de vez em quando, corria uma listra prateada - 
reflexos do mar iluminado pela lua - e respirando pesado sob as 
dores sufocantes de sua alma.

 Agora vo pegar-me para bode expiatrio, pensou ele sentindo o 
peito e os olhos quentes. Sylvia estava com as pernas abraando 
as dele e estertorava como algum que estivesse sendo sufocado. 
Oh, meu Deus!
 De Jongh virou a cabea para o lado, enterrou o rosto no 
travesseiro. 
 Estava chorando...


 O ltimo dia de mar antes de Papeete.
 A grande expectativa diante do encanto do Taiti, a essncia dos 
contos de fadas dos mares do Sul - isso enquanto no se conhece o 
Taiti. A bem da verdade, a beleza  exuberante, mas por trs 
desse cenrio h um fervilhar de vulco em actividade. O tumulto 
de grevistas num hotel de luxo, que foram pura e simplesmente 
golpeados e devastados de uma maneira que nenhum tufo seria 
capaz de fazer, foi um sinal. A nova poca, a "redistribuio", 
tambm fermentava no Taiti. A propsito, o visitante embevecido 
pelos mares do Sul no v tal coisa. Ele anda nos camiSes - os 
exticos autocarros abertos e coloridos - pela cidade de Papeete, 
vai s praias, v o mercado central que  em si uma bela 
experincia, visita o Museu Gauguin e a Vila Ventura, na qual 
Gauguin viveu com sua jovem mulher taitiana... a essncia da 
liberdade absoluta. Quem um dia esteve numa tranquila enseada da 
ilha Moorea, velejou de trimaran pela laguna de Bora Bora, andou 
de baro com fundo de vidro pelos jardins de coral ou deitou-se 
debaixo de uma palmeira gigantesca, sibilante, curvada pelo 
vento, numa praia branca de coral... sabe que no deve haver nada 
to belo nos quatro cantos do mundo como essa ilha. Espalhado no 
imenso oceano, um pequeno paraso na terra, quando se ousa 
sonhar. 
 s dez da manh, os comissrios serviam consome ou caf nos 
conveses, para cobrir o tempo entre o desjejum e o almoo. Alm 
do mais, um bom e salgado consome  o melhor meio, no calor 
tropical, contra a perda de sal do corpo, mineral necessrio 
expelido pelo suor em grande quantidade. Dez horas  tambm o 
momento da grande preguia a bordo. 
As espreguiadeiras ficam todas ocupadas, as pessoas descansam do 
caf da manh sentindo-se plenamente felizes. Ludwig Moor j 
havia marchado seus mil metros no tombadilho. Pflugmair virava a 
terceira cerveja, Oliver Brandes jogava xadrez, os dois namorados 
e o Dr. Schwarme jogavam shovelboard, o prncipe e a princesa von 
Marxen estavam deitados  sombra lendo, ela um romance feminino 
americano, ele um livro de capa falsa e inofensiva, pois na 
verdade tratava-se de uma grandiosa sacanagem, uma edio 
particular de pornografia com fotos incrveis. E Franois De 
Angeli passeava toda a sua beleza de convs em convs, mostrando 
s mulheres que lanavam olhares furtivos tudo o que um calo de 
banho era capaz de esconder e deixar antever. Inclusive Arturo 
Tatarani, o tranquilo vinicultor do Piemonte, estava deitado na 
piscina examinando o cardpio do almoo.
 Sylvia, deitada ao sol um pouco apartada, separada 
conscientemente de Fehringer, como se ele fosse apenas mais um 
dos muitos passageiros, abriu os olhos e levantou a cabea 
quando, de repente, o sol escureceu-se  sua frente.
 Seu terror foi to grande que, durante alguns segundos, ela 
ficou como que paralisada.

 - Voc? - disse ela depois de algum tempo. Sua voz saiu bem 
baixinho.
 -  como voc v. - De Jongh assentiu com um sorriso insosso. - 
De corpo inteiro.
 - De onde voc saiu?
 - Ressuscitei dos mortos. Pombas, cada pergunta que voc faz! 
Onde  que eu estava?
 - O Dr. Paterna permitiu isso?
 - Mais ou menos. Eu disse a ele que estava de saco cheio! 
Perguntei se ele queria esperar at crescerem flores em minhas 
cicatrizes. Declarei me curado e voltei ao convvio da 
humanidade. O que lhe restou fazer a no ser deixar que eu fosse 
embora? - De Jongh sentou-se na beira da espreguiadeira de 
Sylvia e comeou a brincar com os dedos pintados dela e a 
acariciar-lhe a perna. - Durante todo esse tempo voc se queimou. 
Uma pele que parece veludo moreno. A  que a gente v o que a 
tranquilidade  capaz de fazer. Voc descansou  vontade, no?
 - Sim, certo - disse ela esquivando-se. - Que bom que voc 
voltou.
 - Ainda quero banhar-me um pouco no seu brilho, miss Atlantis.
 - Isso j foi esquecido. - Ela fez um descuidado gesto de 
desdm.
- Glria de um dia, brincadeira. Ningum mais fala nisso.
 - De qualquer modo, voc  a mulher mais linda e ertica a bordo 
e, ainda por cima,  a minha esposa! Claro que devo sentir 
orgulho.
 - Ento, sinta orgulho e passeie por todos os conveses de peito 
inchado. - Sylvia encolheu a perna, deixou que ele continuasse 
acariciando sua panturrilha e tentou dominar sua intranquilidade.
Precisava prevenir Hans Fehringer que, como sempre, a estaria 
esperando na cabina dela depois do almoo, para juntos saborearem 
a frentica sobremesa, como ele chamava seus encontros. Se ele 
no visse De Jongh no convs, haveria uma catstrofe. - O que 
voc vai fazer agora? Uma cerveja no bar?
 - No. Vou buscar uma espreguiadeira e ficarei ao seu lado. O 
comissrio pode muito bem trazer a cerveja. Tudo bem que eu me 
deite ao seu lado?
 - Que pergunta mais idiota. - Sylvia fechou os olhos, para no 
ver mais o rosto de Knut e para reflectir sobre a forma como 
poderia prevenir Fehringer. - Se voc for ao bar, pea um 
coquetel para mim. Coco com rum. Rum carta branca.
 - Ser pedido, querida. - De Jongh levantou-se. - Voc ter tudo 
que precisar.
 Foi at s espreguiadeiras empilhadas, pegou uma e mais duas 
toalhas de banho de uma caixa de auto-servio, abriu a cadeira ao 
lado de Sylvia e depois caminhou at o bar. Ao faz-lo, seu olhar 
virou-se para todos os lados, mas ele no descobriu Fehringer.
 Por volta das onze horas, apareceram na cabina do comandante 
Teyendorf os honrados senhores, conduzidos pelo Dr. Schwarme que, 
por falta de concentrao, perdera o jogo de shovelboard para os 
dois namorados. Suspirando, Teyendorf levou os cavalheiros ao bar 
Olympia que a essa hora estava completamente vazio.
 - O senhor j esteve hoje no convs, comandante? - perguntou 
Schwarme sem maiores delongas.

 - No. - Teyendorf encarou os homens, espantado. - Por qu?
 - O senhor devia ir l. O Sr: De Angeli est se pavoneando de 
convs em convs, de cadeira em cadeira, com o menor calozinho 
que existe para homens mostrando a rola para todas as mulheres.
 -  realmente uma coisa tremenda, meus senhores. - Teyendorf foi 
obrigado a reprimir um sorriso irnico. - Os senhores tambm tm 
liberdade para expor o que possuem... Claro que com calo de 
banho.
 - As mulheres e ns nos sentimos provocados. Exigimos que o 
senhor expulse De Angeli amanh, em Papeete. 
 - Exigem? - a voz de Teyendorf ergueu-se um pouco. - Exigir 
significa que eu tenho de fazer alguma coisa! Mas ter  uma 
palavra que me causa uma alergia no mais alto nvel. Eu no tenho 
coisa nenhuma; s no tenho influncia sobre a morte. E tambm 
suponho que os senhores sejam homens o bastante para impedir que 
suas esposas faam besteira. Repito: os senhores desconhecem por 
completo a tarefa de um comandante.
 - Pode ser. - O Dr. Schwarme, o porta-voz do grupo, sentiu-se o 
defensor num processo criminal. - Mas o senhor acha que seja boa 
publicidade para seu navio, quando for tornado pblico que, numa 
viagem, seis cabinas foram roubadas, passageiros voltaram 
esfaqueados a bordo, um hspede caiu morto da cadeira durante um 
jantar e um playboy foi espancado a ponto de ser hospitalizado?
 - Qualquer pessoa pode ter um ataque cardaco - disse Teyendorf 
rgido. Pelo menos, eles no sabem nada de Anne White, pensou ao 
mesmo tempo. Que sorte termos ajeitado a coisa sem sermos 
notados. - O que os senhores tencionam fazer  crime de leso 
corporal grave.
 - Dependendo das circunstncias, levando  morte. - O Dr. 
Schwarme no viu razo para no ser directo. - Ningum se 
controla quando age sob forte emoo.
 - Creio que  intil continuarmos conversando, meus senhores! - 
Teyendorf ps o quepe de comandante. - Anotarei essa ameaa e me 
prepararei para ela. Suas ameaas no me assustam. Bom dia, meus 
senhores.
 Ele saiu do bar Olympia e dirigiu-se ao convs situado atrs. 
Com os olhos apertados, viu De Angeli passar saltitante pelas 
espreguiadeiras da piscina, seguido dos olhares das mulheres. 
era inegvel que o efeito era provocante.
 Teyendorf ficou parado, at que De Angeli deparou-se com ele em 
sua volta. Ele ostentou um sorriso charmoso e no parecia nem um 
pouco embaraado.
 - Que dia lindo, senhor comandante! - disse ele. - Os mares do 
Sul, no devem ser. Estou contente com o Taiti.
 - E deve mesmo. - Teyendorf estreitou as sobrancelhas. - Pode 
olhar o Taiti e desfrutar do encanto dos mares do Sul o quanto 
quiser. Amanh cedo voc desembarca.
 - No.
 - Claro que sim. Com a ajuda das autoridades francesas.
 - Pode ser que o senhor se imponha com seus passageiros alemes, 
esses ditos de qualquer uniforme, que ficam logo em posio de 
sentido quando vem um par de galSes dourados. Mas com um francs 
o senhor cai no vazio.

 - Estou em contacto desde ontem com a prefeitura de Papeete. 
Voc ser esperado no porto, Sr. De Angeli. E se no desembarcar, 
seus compatriotas viro busc-lo. E no fique esperando que v 
haver algum escndalo; pelo contrrio, os passageiros vo 
aplaudir.
 - Um navio cheio de alemes... nunca mais em minha vida entrarei 
numa caserna flutuante como essa. - De Angeli ergueu o queixo. 
Fez um gesto bem msculo, mas tambm ridculo em certo sentido. - 
Mobilizarei a imprensa da Frana.
 - Voc tem liberdade para isso. - Teyendorf continuou com sua 
frieza inacessvel. - Atracaremos s sete da manh, o navio ser 
libertado s oito. Nesse momento, voc estar sendo esperado na 
escada por um funcionrio da prefeitura  paisana, para que a 
coisa transcorra de modo discreto. Afinal, voc no gosta de 
uniforme.
 - Agora consigo entender o nosso grande Clmenceaz! - disse De 
Angeli cheio de veneno. - Ele disse um dia: "Existem vinte 
milhSes de alemes sobrando no mundo!" Sou obrigado a corrigi-lo: 
s um alemo j  demais.
 De Angeli jogou no ombro o robe de banho que at ento carregara 
no brao e, rapidamente, saiu do convs.
 No seu retorno do bar Atlantis, Knut De Jongh descobriu enfim o 
amante da mulher. era Herbert Fehringer e no Hans, que ele 
surpreendera na noite passada.
 Esse dia pertencia a ele, Hans descansava de suas fainas 
amorosas.
 - Ah, a est voc! - disse De Jongh abafado.
 Herbert Fehringer levantou a cabea; estava sonhando acordado e 
no ouvira a aproximao de 'Knut De Jongh.
 - Sim, c estou!
- respondeu ele.
 - Sente-se bem?
 - E como! Obrigado pelo interesse. E voc? J est remendado?
 Houve um tremendo alvoroo a bordo quando voc foi arrastado 
quase morto para o navio.
 - Infelizmente eu no morri.
 - Infelizmente? Se sua mulher ouvisse isso.:.
 - Ela j ouviu outras coisas - disse De Jongh com duplo sentido.
 - A propsito, eu lhe agradeo.
 - Por qu?
 - Ajudou minha mulher a tirar o ttulo de miss Atlantis, com a 
rosa que lhe deu.
 - Mas isso era mais do que natural. - Herbert Fehringer deu uma 
risada jovial - A quem mais devia ser entregue o ttulo a no ser 
 sua mulher? Afinal, todos ns sabemos que ela  a mais bonita a 
bordo. - Fehringer encarou de Jongh com um ar despreocupado. - De 
homem para homem, Sr. De Jongh, se eu tivesse uma mulher assim, 
no tiraria os olhos de cima dela nem um minuto sequer. O mundo 
est cheio de aves de rapina.
 E eu vou abater uma delas, pensou De Jongh de modo sombrio. Seu 
sacana infame! Fode com minha mulher at ela perder os sentidos e 
ainda tem a impertinncia de me advertir. Eu seria capaz de te 
estourar os miolos com meus prprios punhos e faria isso se 
estivssemos sozinhos agora. Mas temos tempo. Sidney ainda est 
longe. Cuide-se, seu fodedorzinho de meia-tigela...
 De Jongh seguiu adiante ao ver que o comissrio de mesa estava 
servindo o pedido a Sylvia. O Dr. Paterna, sentado aos ps de 
Sylvia, lanou-lhe um olhar irado. De Jongh empurrou o queixo 
para a frente numa atitude belicosa.

 - O doutor veio aqui chorar com voc? - disse De Jongh com 
sarcasmo. - No vai adiantar de nada, doutor. Estou curado! Quer 
uma prova? Vou sentar-me na bicicleta de exerccios e pedalarei 
de tal maneira que qualquer ciclista da Tour de France vai ficar 
roxo de inveja. Nenhuma faquinha de inca pode derrubar um Knut De 
Jongh. 
 - Voc teve uma sorte incrvel, isso  tudo. - O Dr. Paterna 
tomou o coquetel das mos do comissrio e entregou-o a Sylvia. - 
E, agora posso dizer. Em Cuzo eu tinha poucas esperanas quanto 
a voc. E no voo de volta a Lima fiquei pensando: agora ele vai 
ter o ltimo estertor. Voc tem a natureza de um bfalo.
 - Assim seja! - De Jongh desabou sobre sua espreguiadeira. 
Tomou um longo gole da cerveja e depois colocou o copo entre os 
ps sobre as pranchas. - No est me gozando, doutor? 
 - E por qu? Voc achou mesmo que eu no tinha notado que o Sr. 
Pflugmair estava contrabandeando cerveja para o hospital? A 
cerveja tem a linda qualidade de tra-lo pela respirao e, 
sempre que eu ia at  sua cama, voc estava com fedor de 
cerveja.
 - Voc  um cara diablico, doutor. - De Jongh deu uma 
gargalhada. - Talvez eu precisasse de um mdico de famlia no 
voc.
 - Dentro de dois anos pode aparecer na minha clnica. Ficarei 
muito contente.
 - Voc vai mesmo desembarcar?
 - Sim. Vou casar e montar minha clnica.
 - Casar?! - De Jongh cerrou os punhos. - Doutor, por que vai 
arranjar esse problema? Assim que se juntar com uma mulher 
bonita, vai ter o inferno dentro de casa.
 - Eu me caso com Brbara Steinberg.
 - A exuberante cabeleireira? Doutor, creia-me, elas passam a 
maior parte do tempo defendendo os amantes que cercam sua mulher 
como um enxame de abelhas.
 - Levarei seu conselho em considerao. - O Dr. Paterna 
levantou-se da espreguiadeira de Sylvia e sorriu. - Tratarei de 
levar sempre comigo um insecticida.
 - Voc  impossvel - disse Sylvia furiosa, quando os dois 
voltaram a ficar deitados sozinhos. - Podia guardar para si esses 
seus conselhos estpidos.
 - E o melhor conselho eu guardo mesmo comigo. - De Jongh tomou 
outro gole de cerveja. Ao faz-lo, olhou para o ventre de Sylvia 
e teve nsias de vmito. - S se deve casar com uma mulher 
bonita, quando se possui um revlver.
 - Por sorte voc no tem nenhum.
 - No aqui... mas em casa.

 Mas Sylvia conseguiu mesmo prevenir Herbert Fehringer.
 Viu quando ele foi ao banheiro, levantou-se e correu para os 
WCs. Fora do alcance de vista de Knut De Jongh, Sylvia correu 
como uma louca pelo hall do convs e pegou Fehringer quando este 
retornava do banheiro dos homens.
 - Ele voltou! - disse ela apressada.
 - Eu sei. Acabei de falar com ele.
 - No vai ser possvel voc ir  cabina depois do almoo!
 - Isso est claro para mim. - Fehringer acariciou-lhe o rosto 
com um gesto delicado - Encontraremos outras maneiras. S no 
tenha medo, minha gatinha. Confie em minha imaginao. 

 Sylvia assentiu, apressou-se de volta pelo hall e chegou ao 
convs no momento em que Theodor Pflugmair e De Jongh se 
cumprimentavam. Ela conhecia Pflugmair, aquele colosso de homem, 
apenas de vista e ficou espantada ao ver que Knut o tratava como 
a um velho amigo. 
 - Este  Theo! - gritou De Jongh quando Sylvia chegou ao seu 
lado.
- E esta  a minha mulher, Theo.
 - A miss Atlantis! Voc arrasou! Meus respeitos, minha cara 
senhora...
 Pflugmair fez uma leve vnia, mas que no dissipou a impresso 
que, de repente, Sylvia tivera dele. Ele me parece to esquisito, 
pensou ela. To inquisidor. To desafiante. De uma intimidade to 
grosseira. Um homem repugnante.
 - Theo  um chapa do peito! - disse De Jongh alegre. - Quando eu 
estava no hospital, ele me fornecia cerveja s escondidas. 
 - Ah, ento era o senhor? - Sylvia tornou a deitar-se na 
espreguiadeira. - E ainda sente orgulho disso?
 - E como! A cerveja  um remdio insubstituvel. E j  alguma 
coisa ela curar um prussiano...
 Pflugmair ficou pouco tempo. Precisavam de um terceiro homem 
para o jogo de cartas no bar Atlantis.
 - Esse a  o seu novo amigo? - perguntou Sylvia quando o 
colosso afastou-se com passos trovejantes.
 - Um amigo insubstituvel. Sou grato a ele por muitas coisas.
 - Cerveja...
 - Tambm. Ele me ajudou bastante e me ps de p mais rpido do 
que eu esperava. No incio trocamos 
xingamentos, "Seu prussiano 
sacana!", "Seu bvaro de bosta!" Mas depois 
nos entendemos s mil 
maravilhas. Ele tambm deu duro para subir 
na vida, assim como 
eu. Ficava deitado debaixo de carros, eu na 
bigorna. S tem uma 
coisa na qual no sou igual: ele viaja 
sozinho pelo mundo e sabe 
que a mulher o trai, quando est viajando. 
E o cara aceita a 
coisa com a maior tranquilidade. Quando 
servem um copo de cerveja 
abaixo da marca, ele fica furioso como um 
touro, mas deixa que a 
mulher saia fodendo pelo mundo.
 - Ser que voc no conhece outras 
palavras a no ser essas 
expressSes vulgares?
 - Ora, por favor: a Sra. Pflugmair copula 
com outros 
cavalheiros... Mesmo assim, continua sendo 
uma trepada! Eu no 
ficaria to tranquilo como ele.
 - O que voc faria? - perguntou Sylvia 
como quem como quer nada, 
mas com o corao batendo mais rpido. 
 - Se voc sasse fodendo por a? No sei; 
afinal, ainda no 
passei por essa experincia. - Knut De 
Jongh disse a frase de um 
modo to liberto de segundas intenSes, que 
Sylvia respirou 
aliviada em seu ntimo. - Mas posso 
imaginar que ficasse pirado. 
O mnimo que faria seria torcer o pescoo 
seu e do seu amante.
 - E o que lucraria com isso ?
 - A certeza de que ningum mais iria para 
a cama com voc! - De 
Jongh desviou o olhar para o oceano e os 
alcatrazes, que haviam 
vindo do Taiti para acompanhar o Atlantis. 
Levados pelas 
correntes ascendentes, eles cercavam o 
navio com sua dana 
elegante. - Eu faria qualquer coisa. 

 Sylvia levantou os ombros, fechou os olhos 
e parou de fazer 
perguntas. Assim, ficou deitada quase 
imvel, entregue ao calor e 
ao vento acariciante, at que De Jongh 
pousou a mo gorda em sua 
coxa e disse:
 - Hora do almoo. Vamos at o restaurante 
ou ficamos aqui e 
pegamos qualquer coisa no buf?
 - como voc quiser.
 - Nesse caso ficamos no convs. Est com 
muita fome?
 - No.
 - Eu tambm no. A cozinha da tripulao 
vai servir hoje 
almndegas para todo mundo, almndegas com 
molho ferrugem e 
pepinos salgados. Almndegas! Depois de 
toda essa comida 
aristocrtica, finalmente uma comidinha 
caseira. Voc tambm 
gosta de almndegas, querida?
 A palavra saiu de seus lbios sem nenhum 
esforo. Sylvia 
assentiu e continuou de olhos fechados. 
Somente quando De Jongh 
saiu batendo os ps em direco ao buf, 
foi que ela o seguiu com 
a vista e notou que Fehringer tambm deixou 
o convs dirigindo-se 
ao restaurante. 
Respirou aliviada, sentou-se e no perdeu 
mais tempo pensando nas 
ameaas veladas de Knut De Jongh.
Dabrowski estava desapontado.
 A noite anterior, na qual Beate usara as 
jias caras da loja de 
Heinrich Ried, do ponto de vista de sua 
espera fora um fracasso. 
Carducci no cara na armadilha. Entre os 
cavalheiros que 
convidaram Beate a danar, no havia 
ningum que pudesse ser 
Carducci. No era o caso do Dr. Schwarme 
nem do amvel e 
tranquilo vinicultor Tatarani, isso sem 
falar dos trs oficiais 
que, mais tarde, ficaram se revezando em 
requisitar Beate, sem 
deixar nenhuma chance aos outros senhores. 
Dabrowski sentara-se  
mesa na cabina de Beate a noite inteira, 
enquanto ela dormia 
profundamente, cansada da dana e do vinho. 
A jia ficara s 
claras em cima da mesinha-de-cabeceira, e 
se Carducci entrasse 
sem fazer barulho, igual a uma sombra, como 
era a sua 
especialidade, s precisaria agarrar e 
meter 450 mil marcos no 
bolso.
 O facto de ele no ter aparecido deixou 
Dabrowski mal-humorado. 
Se sua jia no o atrai, o que tenciona 
ele, meditava Dabrowski. 
Estaria esperando que chegassem a Papeete, 
quando a maioria dos 
passageiros tornaria a fazer passeios em 
terra, para ento fazer 
a limpeza nas cabinas?
 Durante a noite, Dabrowski levantou-se 
algumas vezes, foi at a 
cama e cobriu Beate com a colcha. O ar-
condicionado zumbia de 
leve soprando ar frio para dentro da 
cabina. era justamente essa 
dbil mas constante lufada de ar que 
provocava a maioria dos 
resfriados. Uma constipao nos mares do 
Sul , na verdade, um 
absurdo, mas trata-se de algo corriqueiro 
com os turistas 
europeus que no gostam de suar  noite e 
que, por isso, dormem 
com o ar-condicionado da cabina ligado.
 Beate descobriu-se algumas vezes puxando a 
camisola para cima e 
deixando pernas e dorso livres. Dabrowski 
esforou-se por encarar 
aquilo sem maiores alvoroos tornando a 
cobri-la. Beate era jovem 
demais para ele, que conhecia muito bem 
seus pais e que prometera 
tomar conta dela. Ele seria um patife 
miservel se abusasse da 
confiana, mesmo supondo que era isso que 
Beate esperava.
 Quando ela acordou pela manh, Dabrowski 
acenou-lhe alegre da 
janela e fechou a cortina. 
 - Bem, c estamos de volta - disse ele. - 
Seja bem-vinda a este 
belo dia.

 - Voc ficou sentado a at agora? - 
perguntou Beate admirada.
 - Fiquei.
 - Por que no se deitou ao meu lado? A 
cama  bastante larga.
 - No podemos surpreender Carducci se 
estivermos dormindo.
 - Mas ele acabou no vindo.
 - E como eu iria saber disso antes?
 - Eu... eu ronquei?
 - Nenhum barulho. Apenas piou algumas 
vezes em sonho, como um 
camundongo. Foi algum sonho bonito?
 - No sei mais. Jamais consigo lembrar-me 
dos sonhos. H pessoas 
que conseguem e depois contam com toda 
exactido. - Ela deslizou 
para fora da cama e, vestida com sua 
camisola fina e 
transparente, arrastou os ps at o 
banheiro. Deixou correr a 
gua da banheira e depois voltou. Estava 
com os cabelos presos 
por uma fita elstica. - Como est o tempo?
 - Segundo a tev de bordo s sete da 
manh: o ar a 25 graus, a 
gua a 24 graus, ventos moderados a dois 
quilmetros por segundo.
Um tempo esplndido. - Dabrowski pigarreou. 
Beate parou sob os 
raios do sol que entravam pela janela e lhe 
penetravam pela 
camisola. - Beate, voc sabia que agora,  
luz do sol, est quase 
nua? D para se ver tudo. 
 -  ruim? - Beate no fez nenhuma meno 
de afastar-se do sol ou 
de pegar o roupo de banho que estava em 
cima da cama. - Voc 
disse que eu poderia ser sua filha. Acha 
que eu devia sentir 
vergonha?
 - No tenho a mnima idia de como as 
filhas reagem. - Dabrowski 
olhou pela janela para os alcatrazes que 
deslizavam ao vento. 
Haviam passado a noite no mar tranquilo e, 
quando raiou o dia, 
tornaram a alcanar o navio. Algumas 
pessoas que acordaram mais 
cedo, lanaram migalhas de po para eles; 
em voo rasante os 
alcatrazes abocanhavam os pedacinhos e 
depois tornavam a alar-se 
ao cu. - Esperarei que voc tome banho, 
depois vou embora.
 - Pode tomar banho aqui tambm. Recebi 
dois roupSes do 
comissrio.
 Ah, sua doce pilantrinha refinada, pensou 
Dabrowski. Afinal, o 
que est querendo comigo? Tenta seduzir um 
homem de meia-idade e 
o que vir depois? A grande choradeira. No 
logo, mas com toda 
certeza mais tarde. E ento o velho pateta 
estar to enamorado 
de voc que, quando voc fugir com um jovem 
mais adequado, ele 
ficar no maior luto, triste e enrugado. 
Devamos ser velhos o 
bastante para vivermos de maneira sensata.
 - . Trate logo de ir dar seu mergulho na 
banheira, para que eu 
possa ir embora fazer a barba!
 Beate deu uma risada clara, desapareceu no 
banheiro e depois 
colocou a cabea para fora da porta. Pelos 
ombros, Dabrowski viu 
que Beate estava nua.
 - Voc vir aqui se eu gritar: "Pode fazer 
o favor de me 
ensaboar as costas?"
 - No.
 - Puxa,  muito difcil ensaboar as 
prprias costas.
 - Eu sei disso. Mas existe um pequeno 
truque: uma escova de 
banho de cabo longo.
 - Aqui no tem nenhuma escova desse tipo.
 - Compraremos uma em Papeete. Lembre-me 
disso, est bem?

 Ele ouviu Beate patinhando na gua, depois 
ela assobiou e 
cantarolou uma msica.
 - O que voc faria agora se eu gritasse 
por socorro? - gritou 
ela.
 - E por que voc haveria de gritar?
 - Por exemplo, se uma aranha se arrastasse 
no teto. Tenho muito 
nojo de aranhas e grito logo.
 - Beate, no tem nenhuma aranha por aqui. 
Pare de ficar falando 
tanto e trate de se lavar!
 - Sim senhor, papai... - ela deu uma 
gargalhada e tornou a 
patinhar como uma menina pequena. Ela 
realmente devia levar umas 
palmadas no traseiro, pensou Dabrowski. 
Naquele traseirinho 
bonito. Ele engoliu em seco algumas vezes 
repelindo o pensamento.
 - Alis, ele  mesmo um sujeito simptico 
- gritou Beate por 
cima do barulho da ducha.
 Dabrowski levantou as sobrancelhas.
 - Quem?
 - Arturo Tatarani.
 - O vendedor de vinho? - Dabrowski deu uma 
risada. - Tambm  
velho demais para voc. Garotinha, voc tem 
alguma inclinao por 
homens mais velhos?
 - Talvez. Adoro a experincia. E alm 
disso, s tem quarenta e 
dois anos,  dez anos mais novo do que 
voc.
 - Mas Tatarani parece ter mais do que 
quarenta e dois anos. Os 
cabelos grisalhos, a pele curtida... 
Afinal, como foi que voc 
ficou sabendo a idade dele?
 - Perguntei quando estvamos danando. Eu 
disse: "Puxa, mas o 
senhor dana bem para a sua idade!" E ele 
respondeu: "S tenho 
quarenta e dois anos, minha cara." E mesmo 
que isso no lhe 
agrade, eu gosto dele,  um perfeito 
cavalheiro.
 Dabrowski ouviu-a saindo da banheira; em 
seguida, ela retornou 
ao quarto, enrolada na enorme toalha de 
banho, pingando gua e 
com os cabelos grudados, com uma aparncia 
to infantil que 
Dabrowski disse de modo espontneo:
 - Se esse Arturo se aproximar muito de 
voc, vai ter que se 
haver comigo!
 - Como assim? Voc no tem nada a ver com 
a minha vida.
 - H poucos momentos, voc ofereceu-me a 
sua vida, de um modo 
discreto, embrulhada num pacote inofensivo.
 - E voc recusou. Portanto, esquea! - 
Beate sentou-se na cama, 
esfregou-se com a toalha e depois recostou-
se no travesseiro. - A 
propsito, voc sabia que o comandante vai 
deixar o belo Franois 
De Angeli em Papeete?
 - No. - Dabrowski levantou a cabea. - 
Quem disse?
 - Um dos oficiais. Em confiana. Vai ter 
que desembarcar porque 
dezanove maridos foram fazer queixa dele. - 
Beate deu uma risada 
e ficou brincando com os dedos dos ps no 
ar. - Tem um bocado de 
cornudos. Mas isso acabou fazendo com que 
eu tivesse um 
pensamento: e se De Angeli tivesse 
provocado tudo isso de maneira 
consciente, para terminar a viagem em 
Papeete? Ele ser atirado 
para fora do navio... era isso mesmo que 
ele estava querendo. 
Assim, ele consegue ser a nica pessoa a 
desembarcar legalmente. 
Sem despertar suspeitas, mas com as jias 
de seis cabinas... O 
que acha disso, chefe?

 - Meu Deus! Sua idia foi mesmo muito boa! 
- Dabrowski 
levantou-se. Pode ser isso mesmo, pensou. 
De Angeli que na 
realidade  Carducci! O Carducci das mil 
mscaras, por que no 
haveria de ser como um playboy? Ele encenou 
com refinamento essa 
expulso de bordo. Poder tirar de bordo o 
produto do roubo sem 
ser molestado, depois voar com o roubo 
para Paris. Ser que o 
atravessador se encontra em Paris? - Beate, 
eu gostaria de 
abra-la.
 - Ningum vai impedi-lo.
 - Claro que sim. A minha conscincia. - 
Dabrowski viu Beate 
espreguiar-se bem  vontade na cama, 
bastando apenas um agarro 
para despoj-la da toalha e possu-la. - 
Vista-se! Voc precisa 
levar "o cego" agora mesmo ao comandante.
 - Ah, claro. Eu me esqueci por completo. 
Voc  cego, Sr. 
Dabrowski.
 Sem a menor cerimnia, Beate deixou a 
toalha cair, foi desnuda 
at o armrio, escolheu bem devagar a roupa 
de baixo e o vestido, 
deixando tempo de sobra a Dabrowski para 
contemplar seu belo 
corpo.
 - A propsito, voc no sabe contar, minha 
garota - disse ele 
enquanto Beate colocava um difano suti. - 
No sou dez anos mais 
velho do que Tatarani, mas apenas trs.
 - Mas se comporta como se estivesse 
prestes a completar cem. Por 
favor, me ajude a fechar o gancho do suti. 
No tem perigo. A 
calcinha eu consigo vestir sozinha.
 - Voc devia levar umas palmadas.
 Dabrowski postou-se atrs dela, fechou o 
gancho do suti, 
respirou o frescor de sua pele e o aroma de 
limo da espuma de 
banho que lhe penetrara na pele e, logo 
depois, fugiu para seu 
lugar junto  janela. Somente quando Beate 
estava toda vestida, 
foi que ele deixou o assento. Ela encarou-o 
com um longo olhar, 
balanou a cabea e apontou para a porta.
 - Vamos, Sr. Dabrowski. Onde esto sua 
bengala branca e os 
culos escuros... assim est bem. Vai andar 
tacteando o caminho 
sozinho ou me dar o brao? Como  mesmo 
que canta o coro na 
pera Lohengrin? Fielmente conduzido...
 - Se continuar assim, dou-lhe um tapa!
 - No se esquea que h cinco anos sou 
maior de idade, papai...
 O comandante Teyendorf estava sentado com 
o chefe Ludwig Wurzer 
discutindo a quantidade de diesel que 
deviam carregar em Papeete. 
Alm disso, o governador da Polesia 
francesa anunciara a visita 
ao Atlantis e, claro, iria querer dar uma 
olhada na supermoderna 
sala de mquinas. Para o chefe Wurzer, isso 
no representava 
problema algum; a sala de mquinas estava 
sempre brilhando de 
tanta limpeza. Bem lubrificado, tudo 
reluzia como se aquele 
colosso de cerca de 28 mil cavalos-vapor 
tivesse sido construdo 
no dia anterior. Todas as funSes das 
mquinas podiam ser 
vistoriadas atravs de um enorme painel de 
comando da ante-sala e 
dali tambm se podia pilotar o navio. 
Quando o cego entrou, 
Wurzer despediu-se rapidamente.
 - Voc veio aqui para me entregar 
Carducci? - perguntou 
Teyendorf em tom de sarcasmo amigvel. 
Esperou at que Dabrowski 
se sentasse de modo cerimonioso como convm 
a um cego. O Dr. 
Paterna o treinara nisso dizendo: "Nenhum 
cego se senta com esse 
seu desembarao. Ele sempre toma cuidado, 
apalpa, desconfia e 
senta-se somente quando sabe com toda 
segurana que aquilo  um 
assento"

 - Senhor comandante, talvez voc estivesse 
dando a liberdade a 
Carducci. - Dabrowski apoiou-se na bengala 
branca. Ao faz-lo, 
ocorreu-lhe que Teyendorf j sabia no ser 
ele um cego e que seu 
comportamento estava sendo ridculo. 
Colocou os culos escuros no 
bolso do palet e piscou diante da 
claridade repentina.
 - Eu? Isso  alguma piada de mau gosto, 
Sr. Dabrowski?
 - O senhor expulsar o Sr. De Angeli do 
navio, amanh s oito da 
manh.
 - Puxa,  espantoso como funcionam bem os 
tambores da selva 
neste navio. Quem lhe contou?
 - Senhor comandante! - Dabrowski deu um 
sorriso meigo. - No 
pode estar esperando que eu lhe diga nomes, 
no? Suponhamos que 
De Angeli fosse Carducci... ento, teria 
uma sada magnfica e 
no precisaria esperar at Sidney. Levaria 
as jias para a terra 
com um truque to simples como esse. Por 
favor,  apenas uma 
suposio. Mas poderia ser a verdade.
 - Voc est esquecendo que o Sr. De Angeli 
estava participando 
de um passeio em terra, quando as cabinas 
foram roubadas. Ele no 
pode dividir-se em dois.
 - Quando ele esteve na ilha de Pscoa?
 - Eu mesmo o vi entrar num autocarro pela 
manh.
 - E  tarde?
 - Ainda devia encontrar-se na ilha.
 - Ningum pode testemunhar tal coisa. E a 
quem devamos 
perguntar? Mas os botes do Atlantis ficaram 
indo de um lado para 
o outro, fazendo desembarques o dia 
inteiro; portanto, teria sido 
bem fcil para De Angeli retornar ao navio 
por volta do meio-dia 
e, em seguida, limpar as cabinas com toda a 
calma. Os 
arrombamentos s seriam percebidos  noite, 
no retorno dos grupos 
grandes.
 - Seria monstruoso. - Teyendorf ofereceu 
cigarros e, fumou 
apressado.
- Mas como voc conseguir provar a culpa 
do Sr. De Angeli?
 - No posso faz-lo a bordo. Mas a polcia 
de Papeete pode. Eles 
poderiam realizar uma revista no corpo de 
Franois De Angeli e 
dar uma olhada em sua bagagem. Se ele for 
Carducci, as jias 
estaro com ele.
 - Tentarei fazer com que a prefeitura de 
Taiti entre nessa. 
Farei o contato por rdio agora mesmo. Mas 
e se no for ele?
 - Ento seremos obrigados a continuar 
esperando. Em todo o caso 
teremos cumprido com nosso dever e uma tal 
revista no poder 
causar nenhum dano a De Angeli. Afinal, 
ningum vai ver.
 - E se for ele?
 - Nesse caso, eu tambm desembarcarei e o 
acompanharei no voo de 
volta a Paris. Depois a Interpol assume o 
comando. Carducci  
procurado em sete pases. No fundo, 
devamos ter um enorme 
respeito por Carducci; ele  um gnio em 
seu ramo.

Herbert Fehringer deu trs batidas na 
porta da cabina, em cuja 
maaneta estava pendurado o cartaz "Favor 
no incomodar". L 
dentro ecoou uma voz de sono:
 - Quem ?
 - Seu irmo mais velho, Hansinho.
 A maaneta rangeu. Hans Fehringer, de 
pijama, piscou os olhos 
para Herbert.
 - J lhe disse que quero dormir! O que 
, hem?

 - D uma olhada no relgio, seu 
dorminhoco. Dentro de meia hora 
ser a segunda rodada de refeio e voc 
vai querer dar seu 
pulinho  cabina de Sylvia...
 - Meu Deus do cu! - Hans Fehringer 
ficou completamente 
desperto. - V sozinho ao restaurante, 
mandarei trazerem algo 
para mim aqui na cabina.
 - E tambm no poder ir at a cabina de 
Sylvia.
 - Por que no?
 - O marido voltou fresco e alegre ao 
convs e Sylvia acabou de 
sussurrar-me bem rpido: "Meu querido, 
voc no poder ir  
tarde." Lgico, o velho estar com ela na 
cama para tirar a forra 
de duas semanas.
 - E voc  um patife por me dizer isso. 
Quando penso nisso, nem 
consigo respirar.
 - Hans, quero falar a srio com voc. - 
Herbert Fehringer trocou 
a suada camisa plo por uma havaiana 
colorida. - Tire as mos 
desse negcio!
 - No posso mais viver sem Sylvia.
 - Idiotice. Quer ficar com Sylvia?
 - Quero.
 - Ento ela ficar sabendo os vigaristas 
que somos comerciantes 
que vendem carros desmanchados em 
desastres como se fossem "de 
primeira mo, sempre guardados em 
garagem". Est achando que ela 
ficaria um dia a mais ao seu lado? Voc 
no pode ser to 
espectacular assim na cama a ponto de 
Sylvia estar disposta a 
renunciar  vida de luxo. Afinal, ela 
acha que voc  um jovem 
que vaza dinheiro pelo ladro.
 - Tudo se ajeitar, Herbert. - Hans 
Fehringer deitara-se de novo 
e cruzara os braos na nuca. - Voc no 
tem idia do que as 
mulheres so capazes de fazer por amor.
 - Mesmo assim... eu no gosto de Sylvia, 
muito menos como 
cunhada.
 A ltima parte da frase foi sincera; 
ainda estava por vir a 
grande briga por Sylvia. E a deciso 
dela: Hans ou Herbert. 
Quando Herbert Fehringer pensava nisso, a 
pele de suas costas 
ficava toda arrepiada. 
 Aps certificar-se de que no havia 
nenhum comissrio nas 
proximidades, Herbert desceu o corredor 
de cabinas em direco ao 
restaurante, entrou e respirou aliviado 
por no ver De Jongh e 
Sylvia sentados em sua mesa.
Para explicar a aparente pouca vontade de 
comer por causa do no 
comparecimento posterior de Hans, ele 
disse ao comissrio de 
mesa:
 - No estou passando bem hoje. O 
estmago. O coquetel de lagosta 
de ontem  noite... eu simplesmente no 
suporto, mas mesmo assim 
estou sempre comendo.
 De qualquer modo, com o estmago 
estragado, Herbert comeu cinco 
pratos, mas para os comissrios 
acostumados com o dobro, isso foi 
mesmo um sinal de mal-estar.
 De Jongh no tirou os olhos de cima de 
Sylvia. A caminho do buf 
do almoo, ele constatou que o amante da 
mulher havia ido embora 
e, por isso, ao voltar para a 
espreguiadeira, fez um desvio 
passando diante das mesas do bar 
Atlantis, onde Pflugmair 
encontrava-se lutando contra uma montanha 
de almndegas e 
batatas. Havia ao lado um copo de meio 
litro de cerveja que era 
trocado por um outro a cada meia hora. 
,Pflugmair entornava a 
cerveja da mesma maneira como antigamente 
as pessoas apagavam 
incndios no interior com um balde de 
gua.
 - Voc o viu? - perguntou Pflugmair.

 De Jongh, com ambas as mos segurando 
pratos, assentiu.
 - E falei com ele, Theo.
 - Plantou-lhe uns pescoSes?
 - De jeito nenhum. Ele deve sentir-se 
bem seguro. Atuarei quando 
ele no estiver esperando. Que tal se 
comssemos juntos hoje  
tarde e depois fossemos ao "Festival de 
Msica"?
 - Eu, na sua mesa? Bah, a garota pode 
ficar de cabea quente.
 - No vai coisa nenhuma. Estou vendo na 
cara dela. Est com 
medo, com um medo terrvel por causa do 
bode louro dela. E para 
desviar a ateno de cima dele,  capaz 
at de engolir  sua 
presena. No momento, ela anda macia como 
goma de mascar... s de 
medo,  o que lhe digo. Essa nunca mais 
vai dar suas voltinhas.
 De Jongh retornou a Sylvia que o 
esperava, deu-lhe um dos pratos 
e sentou-se em sua espreguiadeira. 
Comeou a comer as almndegas 
fazendo barulho.
 - Onde mais voc esteve? - perguntou 
Sylvia. - Voc desapareceu 
de repente.
 - Pflugmair estava sentado numa das 
mesas do bar Atlantis.
 - Aquele elefante gigante?
 - Eu o convidei para hoje  noite. - De 
Jongh olhou-a de 
soslaio.
- Tem algo contra?
 - De jeito nenhum.
 - Mas voc no gosta dele.
 - Muitas vezes a gente  obrigada a 
aturar pessoas que 
preferamos mandar para o inferno.
 Tem toda a razo, sua sat, pensou De 
Jongh amargurado. Entendi 
a insinuao. Mas antes de eu ir para o 
inferno, voc ir na 
minha frente. Ningum se livra de um Knut 
De Jongh como se ele 
fosse uma gota de chuva.
 Passaram a tarde inteira no convs, 
nadaram juntos na piscina, 
jogaram uma rodada de shovelboard, 
comeram bolos e beberam caf 
e, depois, foram at o hall do convs 
principal. Ali se 
encontravam as butiques de moda e a 
joalheria. Nas paredes, em 
enormes vitrinas iluminadas, estavam 
penduradas as fotos tiradas 
pelo fotgrafo de bordo nos passeios em 
terra e nas solenidades 
no Salo dos Sete Mares. Essas fotos 
podiam ser encomendadas como 
lembrana. O negcio ia bem. Nada  mais 
excitante do que ser 
fotografado a cores, em roupa de festa ou 
diante de uma figura de 
pedra da ilha de Pscoa, danando a 
polonesa do baile  fantasia 
ou apertando a mo do comandante 
Teyendorf. Homens muito alegres 
- este  o mel que vicia numa viagem de 
cruzeiro.
 De Jongh parou diante das vitrinas 
cheias de jias da joalheria, 
contemplando as reluzentes peas 
expostas. Entre elas, havia 
algumas jias que faziam o corao bater 
mais depressa. E tudo 
livre de ICM; em alto-mar no existem nem 
aduana nem imposto 
sobre circulao de mercadorias. Mesmo 
com os preos um tanto ou 
quanto elevados, quando se comprava ali, 
sempre se fazia um bom 
negcio.
 - Procure algo para voc - disse De 
Jongh de repente. 
 - O que quer que eu faa? - perguntou 
Sylvia perplexa.
 - Voc ter tudo que lhe agradar. Est 
interessada em qu?
 - Em nada.
 - Seria a primeira vez. Voc est 
doente?
 - No quero mais nenhuma jia. - Ela 
encarou-o de frente. - 
Quanto quer gastar?

 - Isso no  pergunta que se faa. O que 
voc quiser. 
 - Posso receber em dinheiro?
 De Jongh ficou calado. Com que ento, 
agora voc passou a juntar 
moedinhas, para no fugir de mim na maior 
misria, pensou ele. Um 
pequeno dote para esse seu bode louro? 
Ser que ele no tem outra 
coisa a oferecer a no ser sua piroca? 
Nenhum centavo, minha 
querida. E as jias iro para o cofre, 
voc tambm no poder 
servir-se l. 
 - O dinheiro vivo  uma coisa que tem 
uma aparncia detestvel, 
sobretudo quando as notas so 
amarrotadas. - De Jongh deu uma 
risada espasmdica e bateu com a ponta do 
dedo indicador no vidro 
da vitrina.
- Aqui, esse brinco. Esmeralda e 
brilhantes. No so mesmo uma 
graa? Ficariam uma loucura em suas 
orelhas: 62 mil marcos. 
Imagine s sessenta e duas notas de mil 
marcos... uma pilha bem 
mesquinha. Mas esse mosco nas suas 
orelhas... isso  que  luxo. 
Eu gosto.
 - E por que quer compr-lo?
 - Por qu? Por nada... porque te amo.
 Sylvia afastou-se da vitrina e seguiu em 
direco  butique. De 
Jongh seguiu-a com os olhos apertados. 
Ela no demonstrou nenhuma 
agitao, pensou ele amargurado. Qualquer 
outra mulher teria 
ficado radiante. Mas ela segue adiante e 
me deixa plantado.
 Estava to desequilibrado que at 
respirar doa: Respondeu de 
maneira quase descorts ao cumprimento de 
um casal que passava e 
viu Sylvia desaparecer no salo de 
cabeleireiro, para logo depois 
tornar a sair.
 - Posso entrar agora mesmo - disse ela 
apressada. - S lavar e 
ir para o secador. Meia hora.... onde nos 
encontramos de novo?
 - Na cabina. Se eu no estiver por l, 
ento no bar Atlantis.
 . De Jongh ficou parado na entrada e 
observou que Sylvia 
sentara-se de facto e a cabeleireira a 
envolvera com uma enorme 
toalha. Agora ela no poder ir embora, 
pensou ele satisfeito. 
Ficarei parado essa meia hora na butique 
e darei uma olhada nas 
prateleiras de livros. Ou comprarei 
cartSes-postais; tm alguns 
do Taiti nos stands giratrios. Poderia 
tambm procurar fotos nas 
vitrinas. Vamos dar um jeito nessa meia 
hora, sua putinha.
 Voc no conseguir escapar.
 Sylvia esperou que lhe lavassem os 
cabelos. Depois, pde 
observar a entrada da loja atravs do 
espelho e ficou aliviada.
 - Podiam conseguir-me um telefone? - 
perguntou.
 - Mas claro, cara senhora.
 O aparelho foi levado at ela e Sylvia 
discou o nmero da cabina 
213. 
 Atendeu a voz de Hans Fehringer.
 - Hans, meu querido - sussurrou Sylvia 
apressada.
 - Sylvia, meu anjo!
 - Est tudo bem?
 - Tudo. E com voc?
 - Vamos ter que passar alguns dias sem 
nos vermos. E tambm, 
onde seria?
 - No demorarei a ter alguma idia. O 
amor d asas  imaginao.

 - Oh, sinto-me to mal. - Ela soprou um 
beijo ao telefone. - Eu 
te amo loucamente...
 - No existem palavras para descrever 
meu amor.
 Sylvia colocou rapidamente o auscultador 
no gancho, mandou que o 
aparelho fosse levado embora e fechou os 
olhos, enquanto o jorro 
quente do secador agitava seus cabelos 
negros e sedosos. Quando 
voltarmos  Alemanha, eu simplesmente 
fugirei de Knut, pensou. O 
mundo  bastante grande para encontrarmos 
um lugar para mim e 
Hans. E quando eu for embora, Knut no 
sair a minha procura,  
orgulhoso e indolente demais para isso. 
Alm do que, ele vai 
economizar dinheiro; no aceitarei nem um 
centavo mais dele. 
Afinal, ele no sabe quanto eu guardei, 
em cinco contas. No 
preciso mais de Knut para o resto feliz 
da minha vida.
 Sylvia ficou pronta em menos de meia 
hora e tornou a sair no 
corredor. Recostado numa das vitrinas, De 
Jongh acenou para ela.
 - Acabei de chegar - gritou ele. - 
Calculei que voc j devia 
estar pronta. E veja s, acertei. - De 
Jongh deu uma olhada no 
enorme relgio de ouro. - J  hora de 
trocar de roupa para o 
jantar e o festival de msica. O que 
acha?
 Sylvia assentiu calada, andou na frente 
dele, abriu a porta da 
cabina e jogou a bolsa de banho em cima 
da cama. Quando Knut quis 
desatar a parte de cima do biquini, ela 
se virou como uma cobra e 
sibilou:
 - Pode deixar!
 - Por favor, por favor... - De Jongh foi 
sentar-se no banquinho 
estofado. Suas mos estavam fechadas em 
punhos. - Claro que um 
marido deve ter permisso para ver a 
prpria mulher trocar de 
par.
 Mas at isso lhe estava vedado. Sylvia 
trancou-se, tirou o leo 
de bronzear do corpo debaixo do chuveiro 
e quando estava vestida, 
apareceu de novo. Um vestido de noite 
coberto de lantejoulas. 
Sylvia estava irresistvel. 
 De Jongh tambm vestiu-se sem dizer uma 
palavra. Ficou 
observando-a pelo enorme espelho de 
parede, enquanto ela retocava 
a maquilhagem. Estava sentada na cama e, 
novamente, De Jongh teve 
a cena diante dos olhos: dois corpos 
brilhando de suor que, em 
sua unio, nada mais conseguiam ouvir nem 
ver, absortos do mundo 
em sua paixo. 
 De Jongh trincou os dentes, reprimiu o 
impulso de arrebentar a 
cama, foi ao banheiro e fez a barba com o 
aparelho elctrico. 
Encarou-se no espelho, inclinou-se para a 
frente e disse  sua 
imagem:
 - Seu perfeito idiota. Por que no a 
mata? E ao outro tambm!
 - Que foi que voc disse? - gritou 
Sylvia da cama. - No entendi 
nada.
 - Eu disse: estou com cara de quem pegou 
uma insolao! - gritou 
ele em resposta. - Pelo menos  uma 
novidade.
 Depois, quando ambos apareceram no 
restaurante, Sylvia foi 
seguida pelos olhares de admirao dos 
homens e de soberba das 
mulheres. Que sorte tem esse sujeito, 
pensaram os homens. Esse 
cara ainda vai passar o diabo nas mos 
dessa mulher, pensaram as 
damas. 

 De Jongh empurrou o queixo para a 
frente. Hans Fehringer j 
estava sentado em seu lugar, mas no 
olhou na direco deles. 
Erna Schwarme fora desacompanhada; o Dr. 
Schwarme tivera uma 
sbita diarreia, tomara alguns 
comprimidos de carvo e ficara na 
cabina. Pflugmair avanou com muito 
esforo pelo outro lado, 
dirigindo-se  mesa dos Jongh. 
 - Ele tambm vai comer connosco? - 
perguntou Sylvia cheia de 
veneno.
 - Eu o convidei. Se ele contar piadas, 
voc vai morrer de rir.
 Foi uma noite bem tranquila. Pflugmair 
fez fora para conversar 
num espasmdico alto-alemo e para 
mostrar charme contando piadas 
dos camponeses de sua terra natal, sendo 
que na maioria das vezes 
era ele mesmo quem ria. Mais ou menos a 
meio do jantar, Hans 
Fehringer levantou-se e saiu. Iria 
ocorrer a "troca". como 
sempre, o irmo Herbert estava esperando 
no toalete em frente.
 - Queira desculpar-me, preciso dar uma 
saidinha - disse De Jongh 
levantando-se com um movimento rpido. - 
Comporte-se, hem, Theo. 
Vou deix-lo sozinho com a minha mulher 
alguns minutos.
 Deu uma risada e correu para o toalete 
do lado de fora da porta 
de vidro, no corredor em frente ao 
restaurante. 
 Hans Fehringer acabara de bater na porta 
do cubculo e dissera:
 - Recomendo hoje o assado  cigana...
 Nesse momento, De Jongh entrou. 
Fehringer segurou-a maaneta da 
porta e ficou tamborilando com os dedos 
na madeira. Herbert 
compreendeu e ficou quieto.
 - Sr. Fehringer - disse De Jongh com 
toda a calma. - Posso 
falar-lhe um momentinho?
 - Claro. Mas aqui no mijadouro? Vamos 
ali para o lado...
 - Vamos sair ao tombadilho. Ningum nos 
incomodar a essa hora.
 - Por favor. como queira. - Hans 
Fehringer afastou-se da porta.
 A situao era crtica. Se algum o 
visse acompanhado de Knut De 
Jongh na escadaria, enquanto ao mesmo 
tempo Herbert ia jantar no 
restaurante, a viagem chegaria ao fim 
para eles. - Mas aguarde s 
dez minutinhos... tenho um encontro.
 era para Herbert. A frase significava: 
voc pode sair dentro de 
dez minutos. A o perigo j ter passado.
 Os dois saram do toalete, foram de 
elevador at o tombadilho e 
entraram na ante-sala de bombordo. era 
uma noite esplndida, 
suave, iluminada pela lua; o mar parecia banhado em prata, 
emitindo um brilho de dentro.
 De Jongh olhou  sua volta. Estavam realmente a ss. As pessoas 
do primeiro horrio de refeio j se encontravam no salo  
espera do festival de msica; o segundo horrio ainda estava 
comendo. Hans Fehringer olhou De Jongh examinando-o.
 - Que posso fazer por voc? - perguntou.
 - Tirar suas patas imundas de cima da minha mulher!
 - Pensei que voc fosse capaz de fazer piadas melhores.
 De Jongh encolheu os ombros. Embora tivesse emagrecido quase 
cinco quilos durante sua hospitalizao, ele ainda parecia largo 
e taurino diante do magro Fehringer.
 - No me venha com conversa fiada! Ontem  noite voc e minha 
mulher estavam to ocupados que nem sequer notaram quando entrei 
na cabina. Fiquei parado junto  cama um ou dois minutos 
assistindo  trepada fulgurante de vocs.
 - Isso no  verdade! - Hans Fehringer sentiu o sangue fugir de 
sua cabea. - Isso  totalmente impossvel!

 - Precisarei repetir-lhe tudo que Sylvia murmurou? "Oh, meu 
tesouro", at "Vou perder os sentidos. Segure-me, segure-me... 
estou morrendo..." - De Jongh aproximou-se ainda mais de 
Fehringer. - Seu maldito filho da puta!
 - Eu amo sua mulher. Ns nos amamos! - Fehringer respirou fundo. 
- Agora eu posso dizer: Sylvia vai separar-se de voc e vir 
comigo. S que at agora no teve coragem de lhe dizer.
 - Mas voc  corajoso, no  mesmo, seu heri da piroca?! Sylvia 
ir junto... ela ir para o inferno!
 De Jongh apertou os lbios. De repente, sem nenhum aviso prvio, 
seu punho foi lanado  frente, aquele punho de ferreiro 
acostumado aos martelos pesados, e chocou-se com o queixo de 
Fehringer. Ele recuou cambaleando de braos abertos, bateu na 
amurada, tentou agarrar-se, mas sentia-se terrivelmente mal, quis 
vomitar, curvou-se sobre o corrimo e perdeu o equilbrio.
 Muito espantado, De Jongh viu o corpo de Fehringer virar-se 
sobre a amurada e mergulhar nas profundezas.
 - Fique aqui! - foi o berro sem nenhum sentido de Knut De Jongh.
- O que voc est fazendo?
 Correu at a amurada, curvou-se e olhou para o mar de brilho 
prateado. Viu quando a cabea de Fehringer emergiu entre as 
ondas, viu seus braos esticados no ar, pensou ter ouvido seus 
gritos... at ser empurrado pelas ondas espumantes provocadas 
pela hlice, entrar na arrebentao e ser pressionado para 
debaixo d'gua. 
Horrorizado, De Jongh pousou a testa no peitoril da amurada e 
fechou os olhos. Eu no queria isso, foi o grito de seu ntimo. 
Isso no! No, realmente no. Mas quem ir acreditar em mim? No 
tenho testemunhas. Ningum viu o que aconteceu. E Sylvia 
declarar: "Sim, meu marido  violento, acho que seria capaz de 
cometer esse assassinato!"  o fim. Meu Deus, que devo fazer? 
 De Jongh levantou a cabea, tornou a olhar para o mar, mas j 
no se via mais nada de Fehringer. Um calafrio percorreu seu 
corpo, seus nervos vibraram, De Jongh respirou fundo e depois 
andou cambaleando at um dos bancos. Eu no queria isso, era o 
pensamento que lhe voltava repetidas vezes. No, eu no queria 
isso. Esse maldito punho de ferreiro. Foi um acidente, creiam-me. 
No o atirei ao mar, nem cheguei a toc-lo. Apenas meu punho, 
apenas um directo no queixo... quem poderia adivinhar que ele 
fosse cair por cima da amurada?! Eu no queria mat-lo, no, 
juro. A gente vive falando: eu te mato... mas da a matar? Eu no 
seria capaz. Nunca! Jamais!
 No toalete, Herbert Fehringer deu uma olhada no relgio. 
Passaram-se dez minutos... dar o fora e ir sentar  mesa... 
assado  cigana... espero que seja bem condimentado e com muitos 
pedacinhos de pimento. 
 Herbert saiu do cubculo do W.C., deu uma outra olhada no 
espelho e depois saiu do restaurante. Sem olhar para o lado, 
passou pela mesa dos De Jongh, sentou-se e acenou para o 
comissrio. Este, como sempre, apenas balanou a cabea. Pelos 
vistos, passara rapidamente a indisposio gstrica. O jantar 
inteiro, outra vez. Esse sujeito era um verdadeiro fenmeno em 
termos de apetite.
 - Sujeito chique - disse Pflugmair espiando.
 - Quem? - disse Sylvia de modo bem discreto.
 - O louro l.

 - Voc acha?
 - Se eu fosse mulher... Ah, j vem o Knut!
 Com os olhos fundos, plido e passos pesados, Knut De Jongh 
entrou no restaurante. Parou e fitou Sylvia ao chegar  mesa, mas 
foi como se estivesse olhando atravs dela.
 - O que voc tem? - perguntou ela. - No est passando bem?
 - Gostaria de voltar  cabina. - De Jongh passou a mo pelo 
rosto. - Quero ficar sozinho 
 De Jongh virou-se e seu olhar caiu em Fehringer. Este estava 
sentado dando prazerosas colheradas na sopa de creme de 
cogumelos.
 De Jongh soltou um grito desarticulado, agonizante, como que 
desumano. Jogou os braos para cima, recostou-se na balaustrada e 
tremeu como que num espasmo febril.
 - No! - gritou depois. - No! Ele est morto! Claro que est 
morto! Eu mesmo vi... eu mesmo vi...
O Dr. Paterna, sentado no muito longe deles na mesa de Brbara, 
correu em sua direco. Segurou-o, detendo De Jongh que queria 
Investir contra a mesa de Fehringer. Com o rosto contorcido pela 
tenso, Herbert Fehringer depositou a colher no prato e enrijeceu 
os msculos.
 Ah, irmo, o que voc andou aprontando no tombadilho?! O que 
irei dizer quando me perguntarem?
 O Dr. Paterna, o comissrio-chefe Pfannenstiel e dois 
comissrios tiveram trabalho para segurar De Jongh. Ele estava 
furioso, saa espuma de sua boca, seus gritos transformaram-se em 
sons indefinveis e diversos. Os passageiros correram para todos 
os lados. O comandante Teyendorf tambm se aproximou, ao passo 
que os dois cavalheiros da direco permaneciam na mesa da 
comandncia com suas chocadas mulheres, em disciplina hansetica.
 - Doutor, leve-o embora! - disse Teyendorf consternado. - Essa 
cena no  to bonita assim, sobretudo durante o jantar! 
 Finalmente, quatro homens conseguiram retirar De Jongh do 
restaurante, usando de grosseira violncia. Pflugmair ficou 
sentado  mesa impassvel e enxugou o suor da testa com um 
guardanapo.
 - Ele tem esses ataques com frequncia? - balbuciou ele.
 - No. - Nem mesmo a maquilhagem conseguia dissimular a palidez 
de Sylvia. era como se jamais tivesse tomado banho de sol. - Foi 
a primeira vez.
 - Afinal, o que foi que ele teve?
 - No sei. - Ela se levantou e saiu correndo do restaurante. O 
comandante Teyendorf estava parado diante do elevador, com o qual 
de Jongh fora levado ao hospital e, nesse momento, foi at Sylvia 
que ficara parada na frente do segundo elevador.
 - Sei como tudo isso  doloroso - disse ele com ar simptico. - 
A senhora tem alguma explicao para isso?
 - No.
 - Parece que foi um colapso nervoso total.
 - No sei. No tenho nenhuma explicao. O elevador chegou, a 
porta se abriu. - Talvez o Dr. Paterna possa explicar.
 Sylvia ficou contente quando a porta do elevador tornou a se 
fechar e a cabina comeou a descer.
 Nesse momento, o Dr. Schwarme descia espavorido pela enorme 
escadaria. Estava ofegante, trazia o roupo de banho por cima do 
pijama e dava a impresso de estar totalmente transtornado.

 - Senhor comandante! - gritou ao ver Teyendorf. - Senhor 
comandante. - Segurou-se no corrimo e respirou ofegante. - Estou 
na cabina 018! Com janela para o tombadilho. E estava sentado 
junto  janela olhando para o mar... horrvel, horrvel. Eu 
presenciei um assassinato... O Sr. De Jongh matou o Sr. 
Fehringer. Ele atirou-o ao mar! Eu fui testemunha...
 - Deve ser alguma coisa que h no mar! - disse Teyendorf em voz 
alta. - De repente, todo mundo ficou histrico.
 - Ele deu-lhe um soco jogando-o ao mar!
 Teyendorf avanou, abriu a porta de vidro do restaurante e 
apontou para a mesa onde Fehringer terminava de tomar a sopa de 
creme de cogumelos. O Dr. Schwarme arregalou os olhos, viu-se 
obrigado a apoiar-se em Teyendorf por causa de um sbito acesso 
de fraqueza e reprimiu as nsias de vmito.
 - E quem est sentado l? - perguntou Teyendorf.
 - Fehringer... - o Dr. Schwarme respirou aos estertores. - Mas 
eu vi com meus prprios olhos... ele passou por cima da amurada e 
caiu no mar... Com meus prprios olhos...
 - Mas ele est sentado ali bebendo vinho tinto.
 - Isso  impossvel!
 - V at l e toque-o.
 - Senhor comandante! - o Dr. Schwarme deu outra olhada em 
Herbert Fehringer e depois virou-se. - Claro que no estou 
maluco, no?
 - No me atrevo a decidir sobre isso. Acabamos de levar o Sr. De 
Jongh para o hospital; ele ficou totalmente pirado.
 - Mas foi o que eu disse: ele jogou Fehringer ao mar!
 - Mas o Sr. Fehringer est sentado l na mesa e acaba de ser 
servido com assado  cigana.
 O Dr. Schwarme balanou a cabea vrias vezes e estreitou o 
roupo de banho como se estivesse com frio.
 - No tenho nenhuma explicao para isso - disse cansado. - isso 
 incompreensvel para mim. Eu mesmo vi, com meus prprios 
olhos... Estava sentado junto  janela e vi tudo... Esse tipo de 
coisa no existe! Jogado ao mar e, cinco minutos depois, est bem 
seco divertindo-se  mesa. Ser que estou tendo alucinaSes?
 - Voc devia conversar sobre isso com o Dr. Paterna, Sr. 
Schwarme. - Teyendorf estava saturado de lidar com homens 
histricos. - Queira desculpar-me. Meus convidados esto  minha 
espera. 
 O Dr. Schwarme assentiu, recostou-se na parede e sentiu-se 
terrivelmente miservel. No pode ter sido provocado pela 
diarreia, pensou ele. To-pouco pelos comprimidos que tomei. Eram 
inofensivos comprimidos de carvo.
 Balanou a cabea, levantou-se apoiado no corrimo e retornou  
cabina. Ao chegar ali, sentou-se junto  janela na escurido e 
ficou de olhos fixos no lugar onde Fehringer deslizara por cima 
da amurada caindo ao mar.
 No hospital, haviam conseguido dar duas injecSes de 
tranquilizante em De Jongh. Pfannenstiel e os dois comissrios 
foram obrigados a segurar o furioso paciente. Nesse momento, ele 
estava deitado aptico na cama, o olhar fixo, as pupilas 
dilatadas, sem reagir a nenhum estmulo. O Dr. Paterna puxou 
Sylvia de lado e disse com ar bem srio:

 - Seu marido perdeu a razo - disse com toda franqueza. - Deve 
ter sido algum choque que provocou o colapso. Eu o tranquilizei, 
mas ningum sabe prever como ser amanh. Sabe se hoje seu marido 
teve alguma carga emocional especialmente sria?
 - No. No saberia dizer. - Sylvia olhou na direco do inerte 
De Jongh. - Pelo contrrio, ele estava muito divertido hoje. 
Estava at querendo comprar uns brincos para mim. Ser que isso 
no pode ter relao com as facadas?
 - No. - O Dr. Paterna recordou-se da noite anterior. "Voc est 
muito diferente hoje", ele dissera a De Jongh. Foi por volta da 
uma da madrugada. Chamara-lhe a ateno uma espcie de rigidez 
interior, um vazio transmitido por seu olhar. Teria sido isso o 
incio da loucura? E que significaria aquele grito: claro que ele 
est morto!... Quem estava morto? O que se quebrara no ntimo de 
Knut De Jongh? - Quer ficar aqui ao lado de seu marido? - 
perguntou o Dr. Paterna.
 - No, por favor, no. - Sua voz tornara-se mida e infantil. - 
Tenho medo.
 - Compreendo seus sentimentos. Quer um comprimido para dormir?
 - No, obrigada. De qualquer modo eu no conseguiria dormir.
 Sylvia foi ao convs superior e abriu a porta da cabina. O 
abajur da mesinha-de-cabeceira estava aceso... Herbert Fehringer 
j estava  sua espera.

16

s sete em ponto da manh, o Atlantis aproximou-se lentamente do 
per de Papeete. O sol j ostentava toda a sua fora, nas 
montanhas o orvalho da noite secava e no cu a ondulante neblina 
difana dissolvia-se no calor.
 Autocarros e txis aguardavam no cais. Vendedores montavam suas 
barracas: correntes de conchas, caixas de madreprola, tecidos de 
padrSes coloridos, esculturas, camisas e calas em todas as 
cores, adornos de coral, imitaSes de lanas, clavas de guerra e 
tambores. Os souvernirs valiosos estavam na fileira de lojas das 
ruas: jias de ouro, prolas e, sobretudo, as famosas prolas 
negras do Taiti, tremendamente caras. Negras iluminadas por um 
mgico brilho cinzento. Como de hbito, o prprio Teyendorf 
pilotava seu barco na aproximao do cais. Com uma exactido de 
centmetros, ele lanava o navio para perto do muro. Parecia 
fcil a maneira como ele, com uma pequena alavanca, operava o 
remo lateral at que, de repente, as mquinas se calavam quando o 
corpo gigantesco tocava a defessa.
 Os encarregados da aduana j se encontravam aguardando diante de 
dois carros escuros pela libertao do navio, assim como tambm, 
outros senhores que de longe pareciam funcionrios pblicos. Dera 
certo a ligao por rdio. Franois De Angeli ia ser levado. 
 Teyendorf respirou aliviado. Correu para a trincheira da ponte e 
olhou para a cidade j movimentada. O comandante adorava Papeete 
- no por ter-se tornado a essncia dos encantos dos mares do 
Sul, o savoir vive mais completo, mas sim por causa de uma praia 
solitria e perdida; sabia que estaria sozinho ali e que poderia 
nadar no oceano quente, sem que ningum gritasse: "Venham c! 
Nosso comandante est pelado!" Nas proximidades da praia, ele 
sempre visitava um restaurante de peixe dos nativos, que fritavam 
a pesca fresca no espeto de madeira em fogo aberto, como h 
sculos.

 O oficial da guarda dera seu relatrio por volta das seis horas: 
nenhum acontecimento especial a bordo. A maioria dos passageiros 
fora cedo para a cama, a fim de estar acordada para o Taiti. 
 - Ora, finalmente! - dissera Teyendorf aps receber a 
comunicao. - At que enfim uma noite na qual ningum fica 
pirado...
 Meia hora depois, contudo, Teyendorf iria ficar sabendo que 
teria de abrir mo de seu passeio  pequena praia na enseada. 
 Eram cerca de duas da madrugada, quando Paolo Carducci deu 
incio ao seu grande ataque. De pijama azul-marinho e tnis 
azul-marinho, que o faziam andar sem ser ouvido, nas mos as 
luvas de pelica, levando na esquerda um pequeno objecto alongado 
com aparncia de minipulverizador, ele saiu de sua cabina, 
aguardou  espreita no marco da porta qual animal intimidado e, 
em seguida, deu dois passos longos para o lado. Exactamente dois 
passos. Sem nenhuma pressa, retirou uma chave do bolso do pijama, 
abriu a porta da cabina 170 sem fazer nenhum barulho, desapareceu 
na penumbra, parou diante da cama, ergueu o pulverizador e, com 
quatro pequenos, porm, potentes jorros, borrifou o rosto da 
mulher que dormia. Com a mesma rapidez, tornou a deslizar para 
perto da porta e comeou a contar em silncio. Ao chegar a vinte, 
retornou  cabina e acendeu a lmpada da mesinha-de-cabeceira. 
Erika Treibel estava deitada de costas na cama, respirando com 
regularidade. Ningum poderia ver que ela acabara de receber um 
jorro de gs narcotizante e que no despertaria na prxima hora. 
Depois, quando sasse da cama no dia seguinte, claro que
sentiria uma leve dor de cabea, mas fora isso no apresentaria 
nenhum efeito colateral. Carducci descobrira esse "Gs Ko" na 
Amrica e chamara-o de inveno divina, uma das maiores 
descobertas depois da fisso atmica. O gs facilitava 
enormemente sua actividade, reduzindo os riscos ao nvel quase 
zero.
 Carducci sabia muito bem o que queria. Erika Treibel sempre 
levava a chave da joalheria numa fina correntinha de ouro no 
pescoo. Assim, a tal chave ficava entre seus seios, de um modo 
seguro e - de passagem - dava um efeito muito decorativo. "Aqui 
ningum poder roubar-me", dissera Erika um dia para seu chefe 
Heinrich Ried. "Ningum pode botar a mo aqui sem ser notado."
 Carducci, espantado ao descobrir esse "cofre", comportou-se 
tambm nessa situao como um verdadeiro cavalheiro. Descobriu 
Erika Treibel, abriu um pouco o decote de sua camisola e puxou a 
correntinha. A chave deslizou saindo dos seios e indo parar no 
pescoo. Com todo cuidado, Carducci ps a mo na nuca de Erika, 
levantou-lhe a cabea um pouco e puxou a correntinha por cima da 
cabea. Cauteloso, tornou a cobri-la, apagou a lmpada e 
esgueirou-se para fora da cabina.
 Mais uma vez, Carducci olhou  espreita para todos os lados e, 
em seguida, percorreu os poucos passos at a loja de jias 
situada em frente. A ronda nocturna, encarregada de acertar um 
relgio de controle em cada corredor, havia passado quinze 
minutos antes; portanto, havia poucas possibilidades de que 
algum incomodasse quela hora.

 Sem nenhuma pressa, Carducci abriu a joalheria, retirou de sob o 
palet do pijama uma bolsa de plstico com o logotipo de um 
negcio de couro de Lima e comeou a esvaziar as vitrinas. 
Bastava-lhe a luz mortia da iluminao nocturna; inclusive, no 
incio, ele achara-a clara demais. Mas agora, quando devia lidar 
com as diferentes gavetas usando sua ferramenta especial, uma 
espcie de combinao de chave-de-parafuso-gazua-esptula, at 
que a iluminao lhe era til. Carducci ajoelhou-se e desapareceu 
dos olhares de eventuais retardatrios que aparecessem a caminho 
de suas cabinas.
 No tocou no cofre. Os cofres no eram seu estilo; havia 
especialistas que com um estetoscpio auscultavam a porta de um 
cofre como se fosse um trax, conseguindo reproduzir o leve 
estalido da srie de nmeros. Carducci no perdia tempo com isso; 
ele simplesmente fazia a limpeza. Afinal, os milhSes estavam 
mesmo por l, s se precisava saber o momento certo de agir. 
Tambm esvaziou as gavetas na bolsa de plstico; acto contnuo, 
fechou a porta atrs de si e, com poucos passos, tornou a entrar 
na cabina de Erika Treibel. Descobriu-a mais uma vez, colocou-lhe 
a correntinha em volta do pescoo, endireitou-a e enfiou a chave 
entre seus seios.
 O retorno  sua cabina no apresentou maiores problemas; dois 
passos  esquerda. Respirando aliviado, Carducci trancou sua 
porta, sentou-se na cama e acendeu um cigarro. Como de costume, 
somente ento seus nervos fizeram-se notar, quando tudo estava 
acabado. Mas foram apenas por alguns momentos, at acalmar-se e 
ir colocar a bolsa de plstico na prateleira superior do armrio 
de roupa, debaixo de um pulver branco de gola rul e de uma 
bermuda amarela-clara.
 Deitou-se como se tivesse levantado para dar um pulinho no 
banheiro, virou para o lado esquerdo, fechou os olhos e logo 
adormeceu. Os seres humanos satisfeitos tm sono saudvel. E 
Carducci podia sentir-se satisfeito consigo mesmo; no  todo 
mundo que consegue ganhar uma fortuna de milhSes em exactos 
dezanove minutos.
 s sete e meia da manh, Erika Treibel saiu de sua cabina, um 
pouco mal-humorada por estar sentindo dores nas tmporas e por 
suas pernas estarem um tanto pesadas. Havia tomado trs coquetis 
desconhecidos na noite anterior, como convidada de Theo Pflugmair 
que tentara sufocar com lcool a terrvel experincia que tivera 
com seu amigo Knut de Jongh. O barman do Clube do Pescador ainda 
dissera: "Garota, esse negcio tem veneno!" E Erika atribua seu 
mal-estar a essa bebida.
 Aps dar dois passos na direco da joalheria, Erika Treibel 
parou como que paralisada e abriu a boca sem que nenhum som 
sasse dela. Mas em seguida, desprendeu-se todo seu horror, ela 
correu como louca at  sua loja, viu as vitrinas vazias, 
virou-se e desceu o corredor a toda velocidade. Bateu com ambos 
os punhos na porta da cabina 136. Dabrowski abriu e Erika Treibel 
quase que caiu em seus braos. Somente ento recuperou a fala; 
ela abraou o detective e gritou:
 - Sumiu tudo! Tudo! A loja inteira est vazia...
 Dabrowski precisou de alguns segundos para compreender Erika. 
Depois empurrou a chorosa Erika em direco  sua cama. Ela 
cobriu o rosto com as mos e deu outro uivo alto.
 - V dar uma olhada... no tem mais nada nas vitrinas! Vazias, 
est tudo vazio...

 Dabrowski saiu correndo da cabina e, j  distncia, viu as 
vitrinas peladas, tirou um leno do bolso para tocar na maaneta, 
mas a porta estava fechada. Nenhum indcio de arrombamento, 
nenhum dano, mas as jias haviam desaparecido e, pela porta de 
vidro, Dabrowski viu que as gavetas estavam abertas e que haviam 
sido esvaziadas.
 O comandante Teyendorf encontrava-se na cabina da ponte, quando 
o telefone tocou ao seu lado. Ele atendeu de m vontade; os 
funcionrios franceses j haviam subido a bordo e se distribudo: 
para o director de hotel Riemke, na comissria, e para Kempen, o 
primeiro-oficial que os acompanhava na inspeco do navio.
 - Voc, Dabrowski? - disse Teyendorf. - Antes que voc pergunte: 
sim deu certo. Os funcionrios da prefeitura esto esperando o 
Sr. De Angeli. Ele e a bagagem sero revistados. Satisfeito?... 
Qual  o problema?... A loja da joalheria? Hoje  noite?... Agora 
voc s poder pedir socorro a Deus!
 Pouco antes das oito, as pessoas que iriam a terra j se 
aglomeravam como turba macia e barulhenta diante da sada do 
convs Pacfico. Alguns passageiros haviam tomado o desjejum s 
seis horas, a fim de poder conquistar a porta a tempo, 
postando-se o mais prximo dela possvel.
 Podia-se denominar isso de uma espcie de variedade de mpeto 
desportista.
 Teyendorf, Dabrowski, o director de cruzeiro Manni Flesch, a 
uivante Erika Treibel e Beate Schlichter ficaram parados diante 
da porta fechada da butique de jias olhando para as vitrinas 
vazias e as gavetas abertas. Teyendorf deu um solavanco na porta 
de vidro. 
 - Fechada!
 - Eu j havia dito. - De repente, Dabrowski pareceu um tanto ou 
quanto compungido. - Fechada. Em nenhuma parte foi usada 
violncia.
 - Mas mesmo assim...
 - Como o senhor v, comandante.
 - Genial! - o escrnio de Teyendorf era custico. - Voc tem 
razo, seu Carducci  um gnio. Foi um trabalho de mestre.
 Dabrowski baixou a cabea.
 - Erika, abra a porta - disse com voz roufenha.
 Erika Treibel pegou a chave da correntinha de ouro e abriu a 
porta.
 Dabrowski e Teyendorf viram espantados onde era o esconderijo da 
chave.
 - Voc sempre leva a chave no pescoo? - perguntou Dabrowski 
desconcertado.
 - Sim. Dia e noite. Ningum bota as mos nela.
 - E no existe uma segunda chave?
 - Existe sim. No cofre do Sr. Riemke.
 - No precisamos inspeccionar-l, o cofre   prova de bomba. - 
Teyendorf entrou na loja. Gavetas vazias, vitrinas vazias, um 
balco de vidro vazio e as prateleiras vazias, nas quais estavam 
expostas as valiosas correntes de coral. - Ele deve ter usado uma 
gazua.
 - Impossvel. Essa  uma fechadura de segurana, da qual no se 
pode fazer molde com cera. S pode ser aberta com a chave 
original e esta repousa nos seios de Erika. - Dabrowski curvou-se 
sobre as gavetas. - Um leve apoio, clique... Carducci faz isso 
com uma velocidade de segundos. No adianta esperar encontrar 
impressSes digitais; ele usa luvas de pelica. - O detective 
levantou-se e virou-se para Erika Treibel, sentada chorando num 
banquinho de veludo vermelho. - Onde voc esteve ontem  noite?

 - Primeiro com o Sr. Pflugmair no Clube do Pescador, depois fui 
para a cama.
 - Sozinha?
 Erika soluou alto.
 - Claro! O que voc acha que sou?
 - E depois?
 - Fui s sete e meia para a loja. Devo estar presente quando a 
aduana francesa lacra a porta.
 - No vai ser preciso mais. - O sarcasmo de Teyendorf era 
mortal.
- No tem mais nada para vender.
 Trata-se de uma prescrio internacional. Nos portos, as lojas 
de bordo devem permanecer fechadas, sobretudo as joalherias. A 
porta era lacrada por uma autoridade e depois liberada pouco 
antes de o navio zarpar.
 - E voc no notou coisa alguma durante a noite?
 - Absolutamente nada. Dormi um sono profundo. - Erika Treibel 
pressionou ambas as mos contra as tmporas. Seu corpo ainda era 
sacudido por soluos aumentando a dor de cabea. - Estou com uma 
tremenda ressaca. Bobby fez trs coquetis para mim, que acabaram 
me fazendo mal.
 Dabrowski encarou-a como que electrizado.
 - Quem estava com voc? - gritou ele.
 - O Sr. Pflugmair, eu j disse.
 - Mais ningum fora ele?
 - No.
 - Pflugmair? - Teyendorf balanou a cabea. - Idiotice! No 
tente morder Pflugmair, Sr. Dabrowski. O cara fede a dinheiro e  
honesto como um monge trapista. Eu ponho a mo no fogo por ele.
 - Eu me sentiria melhor se soubesse como Carducci entrou por 
essa porta, sem gazua, sem arrombar - disse Dabrowski resignado.
 - Talvez o cara seja to gnio que consiga transformar-se em 
gs, como o gnio da lmpada mgica de Aladim. A ento ele 
passaria pelo buraco da fechadura.
 - Gs! - Dabrowski encarou com olhos arregalados o comandante 
Teyendorf. As abas de seu nariz alargaram-se. O sarcasmo de 
Teyendorf atingira-o como um raio. - Gs! isso! Senhor 
comandante... o senhor  um gnio!
 - No estou entendendo uma palavra! - Teyendorf respondeu ao 
olhar de Dabrowski, que brilhava de alegria. - Afinal, Carducci 
no  nenhum gnio da lmpada...
 - No, mas leva nas mos o frasco de gs!
 - Voc pirou?
 Dabrowski recostou-se no balco de vidro vazio e acariciou os 
cabelos de Erika Treibel. L fora, os passageiros passavam 
apressados pelo corredor dirigindo-se  enorme escadaria. Dentro 
de alguns minutos, a escada seria liberada, o encanto do Taiti 
seria conquistado. Dabrowski no via mais razo para bancar o 
cego. Agora, sem culos escuros nem bengala branca, ele seria uma 
pequena sensao a bordo, mas os passageiros que passavam 
apressados no tinham tempo para olhar. Assim, pela manh, muitas 
pessoas haviam passado pela joalheria, viram as vitrinas vazias, 
mas s conseguiram pensar que estavam mudando a decorao. E que 
outra coisa poderiam ter pensado?

 - A ressaca de Erika Treibel no foi provocada pelos coquetis, 
mas sim por um gs que foi borrifado nela - disse Dabrowski. - Um 
gs de nervos que anestesia por um certo tempo, exercendo um 
efeito paralisante.
 - Agora, finalmente temos um romance policial americano. - 
Teyendorf balanou a cabea com toda energia. - S que  uma 
chanchada, Sr. Dabrowski?
 - Mas  a pura verdade. E o senhor tem razo, o gs vem da 
Amrica. Foi usado pela primeira vez, em grande quantidade, por 
ladrSes de combios italianos. Nos trechos de Milo-Roma e 
Roma-Npoles, os passageiros foram narcotizados com o spray nas 
cabinas e depois roubados. Acho que vocs leram isso nos jornais. 
- Dabrowski respirou fundo. - E Carducci  italiano! S existe 
uma explicao para o nosso caso: 
ele entrou de madrugada na cabina de Erika, borrifou-a com o gs, 
tirou-lhe a correntinha com a chave e, ento, foi roubar a loja 
com toda a calma, levou a corrente de volta e tornou a pendur-la 
no pescoo da Senhorita Treibel. Um passeio que rendeu milhSes.
 - Nesse caso... nesse caso ele ps a mo nos meus seios... - 
gaguejou Erika Treibel. 
 - Um sinal de que Carducci  um cavalheiro. - Dabrowski ostentou 
um rpido sorriso. - Ele no se aproveitou de sua situao, 
apenas pegou as jias. Uma conduta assim  rara.
 - Olha, se voc cantar uma hosana para ele, eu enlouqueo! - 
Teyendorf saiu da loja furioso. Ao chegar l fora, tornou a 
virar-se para Dabrowski: - Se as suas suspeitas forem 
verdadeiras, agora o Sr. De Angeli ter todas as jias consigo.
 - E deve ter mesmo, senhor comandante.
 - E se no tiver?
 - Ento no ser ele Paolo Carducci.
 - Poucas vezes na vida escutei uma resposta to imbecil. Nos 
filmes americanos, a coisa  diferente.
 - Neles, os personagens atiram, correm pelos telhados, correm de 
carro pela cidade e usam metralhadoras. Senhor comandante, 
consegue imaginar Carducci escalando sua chamin? E ento? A 
realidade  muito mais tranquila e elegante. Primeiro, eu vou ter 
uma conversa com o Sr. Pflugmair.
 Pflugmair estava no restaurante, sentado diante de um prato de 
ovos estrelados com toucinho, tomando o desjejum. Levantou a 
vista quando Dabrowski e Teyendorf aproximaram-se de sua mesa e 
fez um movimento de mo convidativo. .
 - Muito simptico os senhores me fazerem companhia. - Engoliu 
meio ovo estrelado quase sem mastigar. - Hoje de manh estou sem 
fome nenhuma. J dei um pulinho no hospital. No mudou coisa 
nenhuma.  como uma boneca de cera.
 Teyendorf e Dabrowski sentaram-se e esperaram at que Pflugmair 
devorasse outro imenso pedao. Foi somente ento que ele notou 
que Dabrowski no estava usando culos e que chegara sem o 
auxlio da bengala de cego.
 - Voc esqueceu seus culos - disse ele. Seu olhar percorreu o 
rosto de Dabrowski. - Sabe, no d para ver que voc  cego...
 - Agora preste ateno, Sr. Pflugmair - Dabrowski recostou-se na 
cadeira. - Voc est usando uma cala azul-clara, uma camisa 
colorida, com uma palmeira inclinada impressa nas costas. Est 
comendo ovo estrelado com toucinho e foi no buf pegar presunto 
de Parma, chourio de fgado  moda do interior e quatro fatias 
de queijo holands.

Como acompanhamento, trs pezinhos.
 - Assim voc me derruba da cadeira! - Pflugmair desviou o olhar 
para Teyendorf. - Existe isso, senhor comandante? Um cego 
visionrio?
 - E que viso o Sr. Dabrowski tem! Ele no  cego coisa nenhuma.
 - No  cego? Vai ter que atestar... - Pflugmair esqueceu-se por 
completo da comida, coisa que demonstrou o alto grau de seu 
espanto.
 - Explicarei tudo mais tarde. Agora s quero fazer algumas 
perguntas. Voc esteve ontem  noite no bar com a Senhorita 
Treibel?
 - Estive. Tinha que virar umas canas pra sufocar meu desgosto. 
Uma desgraa daquelas... meu amigo Knut ficou pirado! O nico 
prusso de quem eu gostava... - Pflugmair deu um soco na mesa. - E 
quem  a culpada? Aquela mulher, uma puta, a maldita. Estava 
fodendo por a com Fehringer... o cara continua vivinho, mas o 
meu chapa do peito, meu bom Knut, ficou pirado... A eu tive que 
encher a cara!
 - Quem mais estava no bar? - perguntou Dabrowski. Nesse momento, 
a tragdia conjugal de Knut De Jongh era coisa de segunda ordem.
 - Estava cheio. Mas depois eu fui o ltimo.
 - Quando foi isso?
 - A por volta da uma hora, acho. Ento, subi at o convs 
superior para dar outra espiada na porta dela.
 - Na porta de quem?
 - Daquela puta, eu j disse... - Pflugmair limpou a gordura da 
boca com o guardanapo. - Tinha tambm um bbado. O cara estava 
andando por a com um pijama azul. Parou na frente da joalheria e 
ficou embasbacado. - Uma da madrugada!
 A cabea de Dabrowski voou na direco de Teyendorf. Este tambm 
compreendeu na mesma hora e respirou fundo. Dois segundos de 
silncio e de tenso angustiante.
 - O outro bbado tambm viu o senhor? - perguntou Teyendorf 
antes de Dabrowski.
 - Necas. Afinal, eu estava na porta da marafona. A eu subi e 
quando sa de novo, o cara j tinha voltado para a sua cabina.
 - E como era esse cavalheiro bbado?
 - Saca, ficar olhando brilhantes  uma da madrugada! - Pflugmair 
bateu com a ponta do indicador na tmpora. - De pijama! S podia 
ser um bbado...
 - Em que cabina ele desapareceu?
 - Bem ao lado. Uma dessas individuais...
 -  onde vive Erika Treibel - disse Dabrowski tenso. - Nmero 
170. E ao lado  a cabina individual nmero 168. A 166 j  uma 
cabina dupla. Quem habita a cabina 168?
 Ficaram sabendo cinco minutos depois. Pasmo, Dabrowski fitou o 
bilhete que o comissrio lhe trouxera. Teyendorf tambm fez cara 
de desconcertado. Pflugmair deu uma mordida no pozinho com 
presunto de parma.
 - Tem certeza disso, Sr. Pflugmair? - perguntou Dabrowski pondo 
o bilhete no bolso. - Tem certeza de que era a cabina individual 
ao lado da joalheria?
 - Olha aqui, mesmo quando estou de porre, tenho bons olhos... 
Tem algum problema?

 - Nada especial. - Teyendorf e Dabrowski levantaram-se. - No 
mais, tenha um bom apetite e um ptimo dia. O senhor tambm ir a 
terra?
 - Ainda no sei. J estive quatro vezes em Papeete e duas dando 
uma sacada nos borrSes do Gauguin... Uma vez, no jardim 
zoolgico, quase que um coco rachou minha cuca. Caiu a cinco 
centmetros de mim como uma bomba... - ele apontou para a mesa 
abarrotada. - Como querem comer, meus senhores?
 - Obrigado. - Dabrowski deu um tapinha jovial no ombro largo de 
Pflugmair. - Divirta-se... e tome cuidado com os cocos!
 L fora, no hall, Dabrowski tornou a balanar a cabea. Retirou 
o bilhete do bolso e deu outra olhada no nmero da cabina.
 - D para acreditar, senhor comandante? - perguntou ele.
 - No. Trate de ser cuidadoso e discreto quando chamar esse 
cavalheiro. - Teyendorf e Dabrowski subiram a escada para o 
convs superior. Pararam diante da joalheria vazia e olharam para 
a porta da cabina 168.
 - No poderia ficar mais prximo e confortvel - disse 
Dabrowski. A chave, ao lado, na cabina de Erika Treibel, a presa 
@a0  em frente... s a alguns passos de um lado para o outro. 
incrvel.
 Teyendorf encolheu os ombros, foi ao corredor e acenou chamando 
o comissrio de cabina, que arrumava o primeiro quarto de seu 
sector, procedendo  mudana da roupa de cama.
 - Sim, senhor comandante? - disse em posio de sentido ao parar 
diante de Teyendorf.
 - Onde est o cavalheiro da 168?
 O comissrio apontou para o cartaz ao lado da porta, que 
qualquer passageiro podia virar. O cartaz anunciava: "Em terra."
 - Ele desembarcou, senhor comandante.
 - Voc o viu?
 - No, senhor comandante.
 Teyendorf aproximou-se, bateu na porta e pressionou a maaneta 
para baixo.
 A porta estava fechada.
 - Trancada! - disse Teyendorf em tom duro.
 O comissrio enfiou sua chave geral na fechadura e, ento, abriu 
a porta. A cabina estava vazia. Pairava no ar o cheiro de um 
perfume de homens, caro, de aroma acre.
 -  verdade. Em terra, senhor comandante.
 - Obrigado. No preciso mais de voc. E se algum perguntar, no 
quero ser incomodado na prxima meia hora.
 - Sim, senhor comandante.
 Teyendorf e Dabrowski entraram na cabina e fecharam a porta. O 
homem que a habitava estava acostumado ao luxo. Robe de seda; num 
cabide, um terno tropical branco de seda natural; nos armrios 
que Dabrowski abria nesse momento, somente selectos ternos feitos 
sob medida, pulveres de cashmere, camisas cortadas sob medida, 
as gravatas mais caras, sapatos da ltima moda. 
 - Aqui, ns estamos no lugar errado - disse Teyendorf 
compungido.
 - Espere s! - Dabrowski revirou os armrios e, ento, deparou 
com uma bolsa de plstico na prateleira superior, tirou-a debaixo 
do pulver, balanou-a na mo e, em seguida, despejou seu 
contedo em cima da cama desarrumada.

 Saiu um pequeno monte de correntes, anis, pingentes, broches, 
brincos, relgios de ouro, brilhantes e pedras preciosas soltos, 
pulseiras e colares, tudo cintilando em todas as cores.
 -  essa a aparncia que mais de trs milhSes tm, senhor 
comandante! - disse Dabrowski. - Ou mesmo quatro. Erika ainda 
est fazendo o balano.
 - Quem poderia imaginar que ele fosse capaz disso?! - Teyendorf 
pegou um anel e levou-o  luz do sol. O brilho era como que de 
fogo frio.
 - Trs quilates - disse Dabrowski. - Sem impurezas. Lapidao do 
melhor corte...
 - Quanto custa uma coisa assim?
 - Por volta de 120 mil.
 - Metade do preo de uma casa!
 - Bem, os caras que compram essas coisas j possuem suas 
mansSes.
- Dabrowski tornou a enfiar as jias na bolsa de plstico e 
escondeu-a debaixo do pulver, da mesma maneira como encontrara 
antes.
 - E agora? - perguntou Teyendorf.
 - Vamos ficar tranquilos e aguardar at que ele volte do 
passeio. Ele se sente seguro que viajar at Sidney. A partir de 
agora, ser apenas mais um passageiro louco por experincias. No 
poder mais escapar de ns.
 - Meus parabns, Sr. Dabrowski. - Teyendorf estendeu a mo para 
o detective. - Confesso. Voc teve uma sorte incrvel.
 - Todo detective tem que contar com ela, senhor comandante.
 - Se no fosse por Pflugmair..
 - Mas ele estava l. E isso  que  sorte.
 - E o que voc vai explicar a ele?
 - Nada. Ele j esqueceu nossa conversa h muito tempo. Est mais 
ocupado com seu amigo De Jongh. - Dabrowski fechou a porta da 
cabina 168 e, acompanhado de Teyendorf, avanou em direco ao 
hall. - A coisa est mesmo ruim com De Jongh? Ficou louco?
 - Parece que sim. Ele imagina ter atirado o Sr. Fehringer ao 
mar. Jura de ps juntos. Mas, em contrapartida, todos ns vimos 
Fehringer sentado  mesa no restaurante.
 - Pobre sujeito. Fica maluco porque sua mulher sai dando 
voltinhas por a! - Dabrowski abriu um sorriso largo. - ...eu 
tenho mesmo razo, quando digo a mim mesmo em certas situaSes: 
Ewald, tome cuidado. No se case. Nem ao menos toque nesse 
assunto! A partir de agora passarei a diz-lo com mais razo 
ainda.
 - Mas sua doce enfermeirinha no vai gostar de ouvir isso. A 
propsito, ela  mesmo enfermeira?
 - No.  secretria da companhia de seguros para a qual 
trabalho.  boa, no  mesmo?
 - Uma moa corajosa. - Teyendorf deu um soco de leve no peito de 
Dabrowski. - E voc  um burro velho.
 - Eu sei, senhor comandante. O importante na frase  a palavra 
"velho".
 - Mas  claro que voc no  um velhote!
 - Eu poderia ser o pai dela.
 - Mas no ! Voc tem medo de casamento, no  isso?

 -  isso. O caso de Knut De Jongh  uma tremenda advertncia. - 
Dabrowski deu uma olhada no relgio. - Senhor comandante, 
gostaria de pedir-lhe para telefonar agora mesmo  prefeitura de 
Papeete suspendendo a revista no Sr. De Angeli, posto que afinal 
ficou constatado no ser ele o ladro de jias.
 - Pelo amor de Deus! Claro! Ns nos enganamos por completo. 
Oxal no seja tarde demais.
No era tarde demais. De Angeli, admirado com o facto de seus 
compatriotas o terem trancado no quarto, embora tivesse se 
queixado sobre o comportamento dos alemes para com um francs, 
admirou-se ainda mais quando o comissrio-chefe abriu a porta e 
disse bem rgido:
 - Pode ir embora, monsieur. A agncia da companhia de navegao 
do Atlantis entregou seu bilhete do voo de volta a Paris. Pode ir 
busc-lo. Bon voyage, monsieur.
 Mais tarde, De Angeli parou amargurado na rua junto ao porto, 
olhou para o magnfico navio branco no cais e, em seu ntimo, 
acusou os alemes de no terem humor.
 Partiu num dos txis coloridos para o Hotel de Soleil, reservou 
um quarto para a noite e, em seguida, apareceu de calo e roupo 
de banho na gigantesca piscina e no jardim do bar. O lugar estava 
apinhado de mulheres bonitas e De Angeli recebeu alguns olhares 
derretedores.
 O mundo  uma coisa fantstica, pensou ele. S  preciso que os 
alemes sejam tirados do caminho.

O cavalheiro da cabina 168 voltou a bordo por volta das sete da 
noite, a fim de se preparar para o segundo horrio de refeio. 
Um banho de chuveiro, uma camisa limpa, um terno fresco, um 
discreto perfume de noite. Estava com vontade de, aps o jantar, 
voltar a terra para viver uma noite taitiana dos mares do Sul, 
com a msica de tambores e encantadoras bailarinas de saias 
coloridas e flores nos cabelos negros e brilhantes.
 Acabara de trocar de roupa, quando bateram  porta. Ele gritou 
"Entre!" e, espantado, viu o cego entrar na cabina tacteando o 
caminho com a bengala branca.
 - Mas voc enganou-se por completo, Sr. Dabrowski - disse em tom 
amigvel. - Aqui  bombordo. Sua enfermeira vive no estibordo. No 
outro corredor. Quer que eu o leve l?
 - Obrigado. Sua solicitude me deixa comovido. Mas eu no me 
equivoquei.
 - Est equivocado sim. O senhor se encontra em minha cabina. 
Arturo Tatarani...
 - O vinicultor do Piemonte. Eu sei. 
 Dabrowski passou arrastando os ps pelo desconcertado Tatarani 
e, de repente, virou-se junto  mesa, jogou fora a bengala branca 
e arrancou os culos escuros do nariz.
 - Voc  mesmo uma pessoa inslita, Paolo Carducci! - disse ele.
 Tatarani-Carducci ficou plantado no cho, rgido, como que 
colado diante de Dabrowski. No fez nenhuma meno de fugir, ou 
de sacar uma arma. Apenas encarou Dabrowski durante um longo 
tempo e, em seguida, acariciou os longos cabelos negros num gesto 
elegante.
 - Quer dizer, ento, que voc no  cego?
 - Tenho olhos de guia.
 - Quem  voc?
 - Um detective sem importncia que, por encomenda de uma 
companhia de seguros, est atrs de voc. Agora eu o peguei!

 - Eu no o estou entendendo mesmo! - um pouco nervoso, Carducci 
endireitou a gravata. - Eu sou Arturo Tatarani. Se meu passaporte 
no se encontrasse na comissria; eu poderia apresent-lo.
 - Meu caro amigo! - Dabrowski sentou-se e sorriu um sorriso 
amigvel. - Ns dois sabemos muito bem como  que as pessoas 
obtm esses passaportes, no  mesmo? Posso conseguir-lhe 
qualquer passaporte em vinte minutos em Npoles ou Gnova, 
Palermo ou Messina. Olha, para simplificar a nossa conversa: meta 
a mo na prateleira
superior do primeiro guarda-roupa, debaixo do pulver... E ento, 
o que est a?
 - Meus parabns, Dabrowski - Carducci sentou-se na cama. - Como 
foi que me descobriu? Estou muito interessado em sab-lo.
 - Com uma sorte incrvel. Seu disfarce  primoroso, de mestre. 
Eu jamais teria chegado at voc. Caso no tivesse roubado mais 
nada at Sidney...
 - Eu no tencionava faz-lo. Queria descansar a partir de hoje.
 - Est vendo?! Eu teria apalpado no escuro. Por outro lado, a 
minha suposio era de que, como cego, eu poderia desmascar-lo 
com toda segurana. Um cego  o ser humano mais inofensivo que 
existe. As pessoas no precisam dissimular diante de um cego, 
afinal ele nada v. Mesmo quando est nas proximidades, pode-se 
arrombar a porta de uma cabina. Eu tinha esperana nisso e 
noutros descuidos.
 - Confesso que, num determinado momento, eu seria apanhado pelo 
cego. Sorte sua... desgraa minha. Assim  a vida.
 - Esse seu spray para os nervos  um truque maldito!
 - Mas efectivo e que no oferece perigo. Nenhum efeito colateral 
perigoso, apenas uma dorzinha de cabea um dia inteiro. O gs foi 
muito melhorado no ano passado.
 - Carducci, por que voc no tenta fugir agora?
 - Dabrowski, com toda certeza h polcias franceses a do lado 
de fora da porta...
 - Voc poderia pegar-me como refm e exigir caminho livre.
 - Para onde? O Taiti  uma ilha nos mares do Sul. Como  que eu 
iria embora daqui? E onde quer que eu chegasse, a polcia estaria 
 minha espera em todos os lugares. - Carducci levantou-se da 
cama e ajeitou o palet do terno de seda. - Sempre devemos saber 
quando chegou o fim. Dou-lhe meus parabns mais uma vez, 
Dabrowski. Voc  melhor do que a Interpol. 
 - No. como eu disse, s tive sorte. Um bbado que deambulava 
por a, para ficar ouvindo nas portas... foi ele quem o viu. - 
Dabrowski sorriu aliviado. - Isso  tudo, Carducci. A vida 
escreve as peas mais incrveis. - Dabrowski levantou-se. - 
Vamos?
 - Pode ser de maneira discreta?
 - Ningum vai observar coisa nenhuma.
 - Nenhuma algema?
 - Nenhuma.
 - Eu lhe agradeo, Dabrowski. - Carducci deu outra olhada por 
sua cabina. Despediu-se do elegante Arturo Tatarani, o negociante 
de vinho de Piemonte.
 Em seguida, abriu a porta e foi recebido por dois homens da 
polcia de Papeete.


 Herbert Fehringer pde supor a maneira horrvel como morrera seu 
irmo Hans. A princpio, quedara-se ignorante e desconcertado 
diante do colapso nervoso e do acesso de fria de Knut De Jongh. 
Ouvira de longe os gritos desarticulados e as poucas palavras 
compreensveis neles contidas, a uma distncia que no lhe 
permitira compreender as frases: "Ele est morto!  claro que ele 
est morto!" Conclura tudo, durante o jantar, de um modo um 
tanto ou quanto nervoso, sempre pensando no que escutara no 
toalete - ou seja, que De Jongh queria encontrar-se com Hans no 
tombadilho, por um tempo no superior a dez minutos. A exploso 
posterior de Knut De Jongh foi um mistrio para ele.
 Hans no se encontrava na cabina, para onde ele correu aps a 
refeio. E to-pouco parecia que ele l tivesse estado e depois 
ido embora outra vez. Hans nunca antes se havia permitido tal 
ruptura dos acordos, que poderia causar terrveis dificuldades.
 Herbert sentou-se junto  janela e ficou  espera de Hans, cada 
vez mais intranquilo. Aps meia hora, tomou a deciso de ir at a 
cabina de Sylvia. era quase certo que Knut De Jongh tivesse sido 
mantido no hospital. Caso o tivessem levado de volta  cabina, 
Fehringer sempre poderia dizer que havia ido l interessado em 
saber como estava seu estado de sade...
 Contudo, a cabina 147 estava vazia. Aumentou ainda mais a 
intranquilidade de Herbert Fehringer. Ali to-pouco havia 
qualquer indcio de seu irmo. De repente, a porta foi aberta e 
Sylvia precipitou-se para dentro. Herbert abriu os braos 
recebendo-a. 
 - Oh, querido! Querido! - gritou Sylvia e logo comeou a chorar. 
-  to horrvel, meu marido perdeu a razo. Ele gritou vrias 
vezes: " claro que eu o joguei ao mar! Ele est morto! Morreu 
afogado!" E com isso ele se referia a voc. Depois, ele o viu no 
restaurante e ficou louco. Acho que ele queria mat-lo...
 Herbert Fehringer pousou o rosto no ombro de Sylvia, fechou os 
olhos e sentiu todas as foras fugirem de seu corpo. Fez fora 
para pr-se de p e apertou Sylvia contra seu corpo. Ela encarou 
o gesto como sendo de carinho, acariciou-lhe a nuca e beijou seu 
pescoo. Knut De Jongh jogou Hans ao mar, pensou ele. Ficou claro 
para ele. No existia mais nenhum Hans Fehringer e no h ningum 
que d por sua falta. Somente eu sei o que aconteceu na verdade. 
Afogado no Pacfico. Lanado ao mar por um marido raivoso, que 
agora ficou louco, pois ao voltar ao restaurante viu o morto 
sentado  mesa. E eu devo ficar calado, devo suportar isso e 
enterrar em meu ntimo, posto que oficialmente existe apenas um 
Fehringer a bordo e, a partir de agora, sou o nico Fehringer at 
o resto de minha vida. Herbert desvencilhou-se dos braos de 
Sylvia, andou cambaleando at o banquinho estofado e desabou 
nele. Ela sentou-se na cama de frente para ele e ficou com os 
olhos fixos no tapete do cho. Um soluo subiu pela garganta de 
Fehringer, mas ele trincou os dentes e reprimiu-o com muito 
esforo.
 - O Dr. Paterna acha que Knut pode continuar louco - disse 
Sylvia em voz baixa. - Se ele no melhorar at Auckland, eles o 
deixaro numa clnica dali. Depois... depois tudo ser diferente, 
Hans. Muito mais fcil. Poderemos ficar juntos...
 Herbert Fehringer estremeceu ao ouvir a palavra Hans, sentindo 
de novo a dor no peito. era como se ele mesmo tivesse morrido e 
no Hans. 

 como se ele tivesse sido apagado, como se nunca tivesse nascido, 
jamais existido. Para Sylvia, ele precisaria continuar sendo Hans 
por toda a eternidade; no havia nenhum Herbert, essa era a 
maldio dessa brincadeira.
 - No  ptimo? - Sylvia ainda disse. - Voc ficou feliz?
 - Muito feliz, Sylvia... - a comida comeou a fazer-lhe mal e 
Herbert pensou: daqui a pouco eu vomito. Ou ento uivarei como um 
lobo. 
 Ps-se de p e engoliu em seco vrias vezes. Sylvia encarou-o, 
sua boca tambm tremia.
 - Voc quer ir embora? - perguntou ela com voz plangente.
 - Quero!
 - Agora? Mas, Hans, claro que voc no pode deixar-me sozinha 
agora...
 Esse "Hans" cortou-lhe os nervos, Herbert sentiu a dor no corpo 
inteiro. Foi um momento no qual ele seria capaz de matar Sylvia.
 - Preciso ir embora! - disse ele com voz roufenha. - Quero ficar 
sozinho.
 - Voc? Mas porqu voc?
 - Olha, no sou de ferro! Fiz um ser humano perder a razo...
 - Hans, voc no precisa recriminar-se. Estava sentado bem 
tranquilo em sua mesa e, de repente, Knut enlouqueceu. No d 
para ningum compreender isso. Como  que algum fica maluco de 
repente? Nenhum mdico consegue explicar tal coisa. Talvez tenha 
arrebentado alguma artria de seu crebro, talvez ele j 
carregasse isso h muito tempo e, ento, a mudana de clima 
provocou a exploso. Jamais encontraremos uma resposta... - 
Sylvia tentou esboar um sorriso fraco, mas pareceu nesse momento 
comovedoramente infantil e frgil. - Ns s temos certeza de uma 
coisa: agora poderemos viver juntos.
 O vmito tornou a subir pela garganta de Herbert Fehringer. Ele 
assentiu, foi at a porta com as pernas bambas e saiu da cabina.
 Ainda ouviu Sylvia gritar:
 - Hans, fique aqui. Eu lhe peo... fique... 
 Ento, fechou a porta com um empurro e s respirou aliviado 
quando o elevador desceu at seu convs.
 Uma hora depois foi at o lugar do tombadilho, de onde Hans deve 
ter sido jogado no oceano. Na verdade, foi exactamente na outra 
extremidade do tombadilho, mas o oceano era o mesmo, eram as 
mesmas ondas, a mesma espuma em redemoinho, na qual o irmo 
afundara. Com ambas as mos, Herbert Fehringer espalhou o 
passaporte de Hans rasgado em pedacinhos nas vastidSes infinitas 
das guas do Pacfico, enquanto seguia com a vista os pedaos de 
papel esvoaantes. E assim Herbert enterrou seu irmo. Ao longe, 
os contornos de minsculas ilhas deslizavam na noite iluminada 
pela lua. No horizonte, uma plida listra alava-se do mar, as 
primeiras luzes da manh. O Atlantis aproximava-se do Taiti..: a 
famosa ilha de tantos sonhos ainda no passava de um borro negro 
 distncia.
 Fehringer recuou da amurada e saiu andando pelo navio. Ao abrir 
a porta de sua cabina, Sylvia estava sentada soluando em sua 
cama.
 - Mas o que  que voc est fazendo aqui? - perguntou Herbert de 
um modo bem rude.

 - Eu... eu no posso ficar sozinha agora... - balbuciou ela. - 
Sua porta estava aberta... eu continuo ouvindo os gritos dele... 
Deixe-me ficar aqui, Hans... Se voc me deixar sozinha agora, no 
conseguirei nem respirar. Agora voc  a nica coisa que tenho.
 Herbert assentiu mudo, sentou-se ao seu lado na cama, pousou o 
brao no ombro de Sylvia e acariciou-a.
 O dia levantava-se diante da janela. como sempre acontece nos 
trpicos, logo ficou claro; um sol ainda plido que fazia o mar 
parecer leitoso. Ento, de repente, o azul brilhou e as pequenas 
ilhas dispersas reluziram numa tonalidade esverdeada. O fascnio 
dos mares do Sul... e; nalgum lugar l fora, Hans Fehringer 
estava sendo arrastado... ou h muito que os tubarSes o 
estraalharam.
 - Em que est pensando, Hans? - disse ela em voz baixa.
 - Em nada.
 - Eu tambm. - Sylvia ajeitou-se aninhando-se em seus braos. - 
S sinto voc.

Depois da inglria partida de Franois De Angeli em Papeete, Erna 
Schwarme pareceu ter recobrado o juzo. Foi como se ela tivesse 
estado enfeitiada e, de repente, se dissipasse o encanto. O Dr. 
Schwarme estava pouco ligando para isso; tivera seu triunfo, 
demonstrara sua fora, vencera... no queria mais nada. Sua 
mulher dormira com De Angeli, isso ficara provado; agora a 
ruptura era completa. De volta  Alemanha, daria incio ao 
processo de separao. Nada de divrcio! Como advogado que era, 
Schwarme sabia muito bem o quanto isso lhe custaria segundo a 
nova legislao sobre o divrcio. No existia mais o princpio da 
culpa, nem mesmo quando as mulheres deitavam-se com um peloto de 
soldados, ou quando os maridos montavam exuberantes casas 
luxuosas para as amantes, onde desfrutavam as "horas extras no 
escritrio". O que estivesse socialmente melhor posicionado devia 
sempre pagar para o mais fraco. Schwarme podia muito bem calcular 
que um divrcio com Erna o deixaria arruinado. Por isso mesmo, 
continuava sendo corrodo por seu horror diante do fracasso 
sexual em acapulco. Se aquela doce garota de pele morena e lisa 
no conseguira estimul-lo em sua masculinidade ertica, ento 
nenhuma outra mulher conseguiria. Agora, no se excitava nem 
mesmo ao pensar na to solcita secretria. Aos cinquenta e dois 
anos e j com a mangueira vazia, era algo que ocorria um pouco 
cedo demais. E, devemos compreender, tanto mais veemente foi sua 
reaco diante da actividade ininterrupta de sua mulher.
 - No seria mais certo se voc usasse agora o vestido preto? - 
perguntou Schwarme em tom hostil, quando os dois trocavam de 
roupa para o jantar.
 - E por que haveria de us-lo?
 - Teu garanho te abandonou. No usas luto?
 - Os episdios a gente liquida e esquece. Pelo amor de Deus, se 
tivssemos de chorar por cada experincia na cama, andaria todo 
mundo com os olhos debulhados em lgrimas. E voc j seria cego 
h muito tempo!
 - Voc no pode provar coisa nenhuma contra mim. Nem uma nica 
infidelidade. Enquanto isso, aqui eu fiquei sabendo muito bem: 
agora ela est trepando com o francs. E depois voc voltava 
cantarolando e dizia arrebatada: "Que homem! Daria trs do teu 
tipo!" era uma confisso!

 - Ah, o senhor advogado! - Erna retirou-se da frente do enorme 
espelho de parede e endireitou os seios dentro do decote fundo. 
Desde que subira a bordo, Erna Schwarme deixara de usar suti. - 
O que est defendendo agora? Um divrcio, uma separao? De 
acordo! Com seus rendimentos, tenho direito a dez mil marcos por 
ms. Contratarei o Dr. Behrendsen como meu advogado.
 S faltava essa, pensou Schwarme. Behrendsen! Como adversrio 
nos tribunais, o osso mais duro de roer. Um duelo de oratria 
entre o Dr. Schwarme e o Dr. Behrendsen era sempre um rasgo de 
esperana no em geral taciturno quotidiano jurdico. Ento, os 
juizes e promotores ficavam escutando como se estivessem num 
teatro.
- Uma outra proposta - disse Erna com ferocidade senhorial.
- Voc me paga de uma vez. Uma importncia nica de 1,5 milho... 
ento, pode escapar muito bem.
 - Agora posso compreender porque certos maridos so capazes de 
retalhar suas mulheres!
 - Nem isso voc conseguiria! - Erna deu uma risada de escrnio, 
enquanto fechava o trinco da pulseira de brilhantes. - Voc  uma 
nulidade em trabalhos manuais. Com todas as nulidades que voc 
juntou, no fundo  o homem mais rico do mundo.
 - Sempre  melhor do que ser uma puta!
 Ela deu uma risada um tanto histrica, deu outro rodopio diante 
do espelho e depois arriou os braos. 
 - J  hora, Sr. Dr. Schwarme. Devemos ir jantar e bancar o 
casal perfeito. Ou voc ainda est com diarreia?
 - Tomei alguns comprimidos. Est tudo bem.
 - S no v ver gente sendo atirada ao mar! - ironizou ela antes 
de pegar a bolsa bordada em cima da cama. - Voc j viu com que 
rapidez se pode pirar. Fica-se maluco de repente. Por enquanto 
no lhe concedo essa ddiva... primeiro voc ter de me pagar! 
Depois que a coisa for ajeitada, a, por mim voc pode pirar  
vontade...
 O Dr. Schwarme levantou-se e, em silncio, seguiu a mulher at o 
restaurante. Para ele era to inexplicvel o facto de ter visto 
com toda a nitidez quando Fehringer caiu no mar, aps De Jongh 
ter-lhe dado um soco no queixo, sendo que, dez minutos depois, 
encontrou-o vivinho da silva na mesa do restaurante, que a coisa 
no conseguia sair de sua cabea. No tive alucinao nenhuma, 
disse para si mesmo. No fiquei l na janela sonhando isso tudo! 
E depois o terrvel colapso nervoso de Knut De Jongh."  claro 
que ele est morto!", gritara De Jongh... exactamente o que eu 
vi! Afinal no existe ningum melhor do que ele para saber, foi 
ele mesmo quem o atirou por cima da amurada com um soco. Mas 
Fehringer estava sentado  mesa, tomando uma sopa de creme de 
cogumelos e comendo um assado  cigana! Ser que esse navio  
mal-assombrado?
Nesse momento, Fehringer tambm estava sentado  sua mesa fazendo 
o pedido, quando Schwarme entrou com a mulher no restaurante. 
Para o advogado o problema ainda no estava solucionado. Se esse 
Fehringer no foi a vtima, ento devia haver um outro homem a 
bordo, pensou Schwarme enquanto puxava a cadeira para Erna e dava 
uma outra olhada na direco da mesa. O estranho era que no 
faltava ningum; bem, pelo menos ainda no se espalhara o boato 
sobre algum passageiro que estivesse faltando no momento em que o 
Atlantis ancorara em Papeete.

 A mesa de Knut De Jongh estava vazia. Sylvia permanecera na 
cabina e pedira que a servissem ali. De Jongh passara o dia 
calado no hospital, deitado de costas, quase imvel. To-pouco 
esboara qualquer reaco quando Sylvia lhe fizera uma rpida 
visita, acompanhada pelo Dr. Paterna. Seu olhar pareceu 
trespass-la: De Jongh estava novamente sob os efeitos de fortes 
sedativos e tambm ficou mudo quando Pflugmair, aps violenta 
discusso com a enfermeira Erna, teve permisso para visitar seu 
leito. Por cinco minutos, nem um segundo a mais.
 - Estou preocupado contigo - disse Pflugmair comovido. - Nunca 
mais te deixo sozinho. Se tiveres que descer em auckland, te 
acompanho... Est me ouvindo?
 De Jongh continuou impassvel. Ningum poderia dizer se ele 
conseguia reconhecer as pessoas. Pflugmair j havia esquecido a 
conversa que tivera com Teyendorf e Dabrowski. E nenhum dos 
passageiros percebera que o elegante negociante de vinhos 
Tatarani fora escoltado no por amigos de negcios e sim pela 
polcia judiciria. Em contrapartida, todos ocuparam-se em 
excesso com a expulso de monsieur De Angeli. As senhoras acharam 
a coisa escandalosa, os homens expressaram uma profunda 
satisfao. Aps o jantar, os maridos em questo deram uma 
recepo regada a champanhe para o Dr. Schwarme no bar Olympia; 
enquanto as mulheres, mal-humoradas, foram ouvir o cantor pop 
Hugh Dark no Salo dos Sete Mares. A festinha dos homens acabou 
degenerando, como era de se esperar, numa bebedeira em massa. 
Agora podiam dar-se ao luxo, o perigo para as mulheres havia sido 
eliminado.
 As amarras foram soltas s seis horas. O comandante Teyendorf 
afastou seu magnfico navio, aquele hotel branco flutuante, do 
muro do cais, usando os remos de radiao laterais. E o NM 
Atlantis despediu-se de Papeete e do Taiti, com trs tocSes da 
imensa sirene. A partir de agora, podia-se dar seguimento ao 
sonho com os encantos dos mares do Sul: Moorea, Bora Bora, Niu, 
Tona e depois em direco  incrvel beleza da Nova Zelndia, 
com seus sessenta milhSes de ovelhas, os borbulhantes giseres 
quentes e a fascinante cultura dos mares.
 Teyendorf retirou-se da cabina da ponte com suas colunas de 
instrumentos e passou o comando da viagem ao timoneiro e ao 
segundo-oficial da ponte. Willi Kempen, o primeiro-oficial, 
vestido com o uniforme de trabalho, recostou-se diante dele.
 - J deixamos o possvel e o impossvel para trs, senhor 
comandante - disse ele em tom sarcstico. - Que mais pode 
acontecer?
 - O navio afundar...
 - Bem, isso a  a nica coisa que no parece possvel. Andei 
conversando com o Dr. Paterna. Ele  de opinio que, se 
desembarcarmos o caixo com o Sr. Richter em auckland para ser 
transportado para a Alemanha, o Sr. De Jongh tambm poderia ser 
levado para o hospital. O senhor acha que por causa disso devemos 
falar com Auckland depois de Tona?
 - Se o Dr. Paterna acha que isso  o correcto, por mim est tudo 
certo. Terei de conversar com a viva por causa do morto Richter.
 - Peter Brause j fez isso.
 - Voc diz isso com tanta amargura, Kempen.
 - A Sra. Richter no est disposta a interromper a viagem.

 - Isso ns ainda vamos ver! - Teyendorf foi at  sala de 
navegao. - Eu  que determino onde o caixo ser desembarcado.
 Alma Richter estava sentada  sombra do convs do solrio, 
quando Teyendorf chegou-se a ela por volta das dez horas. Ela 
tomava um bouillon com todo prazer e mastigava um biscoitinho 
salgado. O biscoito estalava entre seus dentes. Alma levantou a 
vista para Teyendorf, colocou a taa de bouillon de volta na mesa 
e sorriu. Com isso, seu rosto de musaranho no ficou mais 
encantador.
 - Papeete  lindssima - disse ela. - Gastei trs filmes. Cento 
e oitenta fotos s do Taiti, uma bela presa. Como o mundo  
maravilhoso, senhor comandante.
 - Mas temos um probleminha, Sra. Richter. - Teyendorf sentou-se 
diante dela. Irritava-o a alegria da vida. O pobre coitado est 
l congelado no meio do gelo e a mulher sente orgulho por ter 
tirado trs filmes. Ela deve ser uma atleta do bom humor. - Como 
comandante que sou, tenho a obrigao de desembarcar qualquer 
passageiro morto a bordo no mais prximo grande porto que 
disponha das necessrias possibilidades de transporte. E esse 
porto  Auckland. Mandaremos seu marido de avio de Auckland para 
a Alemanha.
 - No!
 Uma pequena e inspida palavra. Alma Richter triturou o resto do 
biscoito salgado e agarrou o bouillon.
 - Por que no?
 - Ns fizemos a reserva at Sidney e pagamos. E  at Sidney que 
ns vamos viajar. No tem nenhuma importncia se meu marido 
morreu ou no. Ele  um passageiro como os outros. Esteja ele no 
convs ou no frigorfico... isso no muda nada.
 - Mas ele est morto, Sra. Richter!
 - Ele pagou a viagem inteira e tem o direito de faz-la. Vivo ou 
morto. - Alma encarou Teyendorf, irritada. - Ou o senhor est 
achando que vou abrir mo da Nova Zelndia e da Austrlia? No 
deixarei que essa experincia me escape por causa do meu marido! 
 - A companhia de navegao lhe reembolsar o resto da viagem.
 - no quero dinheiro nenhum. S quero meus direitos! E isso 
significa: pago at Sidney, a bordo at Sidney. Eu poderia at 
exigir que, a partir de agora, todos os servios do navio me 
fossem prestados em dobro, pois afinal de contas pagamos para 
duas pessoas. Se meu marido no pode ter suas refeiSes, ento 
posso exigir que, pelo menos, ele continue sendo hospedado. Pois 
no frigorfico ele no est tomando o lugar de ningum! - Alma 
Richter terminou de tomar seu bouillon e devolveu a taa  
mesinha com um estalido. - Sou estritamente contra que o senhor 
desembarque meu marido em auckland, senhor comandante. Protesto 
contra essa arbitrariedade!
 Teyendorf desistiu de continuar discutindo com Alma Richter. 
Levantou-se, despediu-se e saiu do convs do solrio.
 Na hora do almoo, Alma Richter fez um aceno enrgico chamando o 
comissrio-chefe Pfannenstiel  sua mesa e, depois, limpou os 
dedinhos de aranha no guardanapo.
 - Eu gostaria que os seus comissrios se reunissem em minha mesa 
depois da refeio - disse ela com rgido tom professoral.
 - como queira. Mas por qu?
 - Depois voc ficar sabendo, Sr. Pfannenstiel.

 Pfannenstiel fez um aceno amvel e, em seguida, comeou sua 
ronda atravs do restaurante. Disse a cada um dos comissrios:
 - Depois da comida, todos na mesa da bruxa m. E no fique com 
esses olhos arregalados de imbecil. Eu tambm no sei qual o 
motivo.
 s duas e meia, os ltimos passageiros saram do restaurante. Os 
comissrios avanaram e postaram-se diante da mesa de Alma 
Richter. Pfannenstiel fez a comunicao:
 - Todos os comissrios aqui, cara senhora!
 Com olhos crticos, Alma Richter examinou homem por homem. Em 
seguida, ergueu o ossudo dedo indicador e apontou para quatro 
comissrios: - Voc... e voc, voc tambm e voc! Os outros 
podem ir embora. 
 - Obrigada!
 Alma esperou at que os comissrios recusados se retirassem com 
um argo sorriso irnico, depois levantou-se, andou em volta dos 
quatro eleitos, abriu as mos e, pelas costas, tomou as medidas 
do colarinho at  cintura e ento retornou ao seu assento.
 - Pode dar - disse ela satisfeita. - Vocs tm quase o mesmo 
tamanho de Ulrich. A mesma medida. Venham a minha cabina; vou 
presentear-lhes com as camisas, cuecas e ternos de meu marido. 
Afinal, no faz nenhum sentido lev-los de volta  Alemanha. So 
bons ternos. Vocs vo ficar contentes...
 Ao anoitecer, o navio inteiro estava sabendo que Alma Richter 
havia dado os ternos do marido para os comissrios. Contava-se 
tambm que, na cabina, enquanto distribua as roupas, ela teria 
dito: "Por favor, descontem isso das gorjetas. Ternos to bons 
assim superam qualquer importncia que vocs poderiam receber por 
seus servios."
 Verdade ou no... de qualquer modo acharam que Alma Richter 
seria capaz disso. Foi uma histria que, mais tarde, contaram 
quase todos aqueles que viajaram no Atlantis. Mas ningum ficou 
sabendo se algum dos comissrios presenteados chegou a usar um 
terno do falecido Ulrich Richter. Quando Teyendorf tomou 
conhecimento da distribuio do esplio, ele disse resignado a 
Willi Kempen:
 - Acho que vou levar mesmo o pobre Ulrich a Sidney.

 s cinco horas da manh, dezassete dias depois do conto de fadas 
da ilha mais linda do mundo, Bora Bora, depois da ilha de Niu 
com seus habitantes alegres e amigveis, aps Tona com seu 
restaurante construdo no alto dos rochedos da costa e o palcio 
de madeira branca do rei gordo, aps a Nova Zelndia com seus 
campos de apeires e salgueiros infinitos, geleiras e cidades que 
assemelham-se s ilustraSes da velha Inglaterra, aps as danas 
de guerra dos mares e a aterrissagem na geleira da Tasmnia no 
macio montanhoso de Cook em pequenos aviSes... aps todas essas 
experincias, emergiu a Austrlia saindo do oceano com as amplas 
e magnficas baas de Sidney, a pennsula com o famoso telhado de 
conchas da pra, a imponente construo em ao da Harbour Bridge, 
as casas com terraos de The Rocks e o per de Cove Harbour com 
seus pavilhSes de lojas. O mais lindo porto natural do mundo 
saudou o Atlantis com uma parada de esguichos dos rebocadores.

 As malas feitas estavam nos corredores dos conveses, prontas 
para serem transportadas. Quinhentos e dez passageiros deixariam 
o navio, para voltar ao frio lar alemo. No frigorfico, foi 
lacrado o caixo revestido de zinco com o cadver de Ulrich 
Richter. Enquanto isso, Alma Richter estava no convs 
fotografando, entusiasmada, a casa da pedra e o panorama da 
cidade. Que linda viagem fora essa! Uma pena que Ulrich tivesse 
deixado esse mundo interessante justamente nela.  noite, 
acabou-se todo o encanto... nesse momento estavam sentados nos 
apertados aviSes numa viagem de vinte e cinco horas at 
Frankfurt. Restavam os sonhos e as fotos, as reminiscncias da 
felicidade por se ter vivido tal coisa... e a triste conscincia 
de que nunca mais se veria aquilo.
 Knut De Jongh fora desembarcado em auckland e levado ao 
hospital. Seu estado no mudara; continuou aptico, mudo, plido 
e visivelmente distante desta existncia.
 O Dr. Paterna procurara Sylvia um dia antes: 
 - Seu marido ir amanh para uma clnica. Existem mdicos 
excepcionais na Nova Zelndia. No podemos continuar com ele.
 - Eu sei, doutor. - Sylvia olhou Paterna de passagem, sabendo o 
que viria em seguida. Havia trs noites que ela chorava nos 
braos de Fehringer, sem encontrar nenhuma soluo. - Eu tambm 
devo desembarcar...
 - A senhora no deve. Mas suponho que queira ficar junto com seu 
marido e, mais tarde, voltar com ele para a Alemanha.
 - Sim... - sua voz saiu quase inaudvel. - Tem algum sentido 
isso?
 - Enquanto ele viver, tudo ter sentido.
 -  muito difcil para mim.
 - Eu sei. Mas existem certos deveres dos quais no podemos nos 
abster. Mais tarde, a vida seguir seu caminho... talvez em 
outros trilhos, se essa for a sua vontade.
 Na ltima noite antes de Auckland, Sylvia abraou Fehringer, 
quase entrando por dentro dele, grudando-se nele e balbuciando 
vrias vezes:
 - No se esquea de mim, Hans... no se esquea de mim... Eu te 
amo, ns nos pertencemos, voc no pode simplesmente desaparecer, 
est ouvindo, ficarei  sua espera, dentro de uma semana estarei 
em casa, voc vir, no  mesmo... voc vir...
 E Fehringer disse:
 - Irei sim, minha querida. Voc  tudo que tenho. Estou to 
sozinho agora, preciso de voc... No chore, Sylvia, tudo 
demorar uma semana apenas...
 Enxugaram-se as lgrimas com beijos no rosto e fizeram amor, no 
mais embriagados como antes, mas com um desespero frentico, como 
se os dois quisessem destruir-se mutuamente.
 Pela manh, quando De Jongh foi retirado do navio e Sylvia 
caminhou atrs da padiola, quando ele foi empurrado para dentro 
da ambulncia, ento ela deu outra olhada para cima do casco 
branco do navio. Fehringer no se encontrava no tombadilho; 
estava na janela de sua cabina, despedindo-se dela, semi-oculto 
pelo cortinado. 
 Agora ali, em Sidney, o caixo do falecido Ulrich Richter foi 
retirado de bordo e colocado num carro fnebre com pinturas de 
folhas de palmeira douradas nas portas. Alma Richter no 
acompanhou o caixo. Ela se informara sobre a maneira como faziam 
a coisa e ficou sabendo que ele voaria no mesmo avio para 
Frankfurt, no espao da bagagem. Isso bastava.

 At  hora da partida  tarde, ainda podia fazer um passeio de 
barco pelas enseadas de Sidney; motivos fotogrficos que Alma 
Richter no queria perder de jeito nenhum.

 As malas foram buscadas e levadas de camio at o aeroporto. Os 
turistas desembarcaram, parte dos passageiros bebeu pela ltima 
vez nos bares, trocando endereos, prometendo escrever cartas. O 
velho jogo: em nenhuma outra parte se mente tanto nem existem 
tantas ilusSes como num navio, na hora da despedida, depois de 
uma longa viagem de cruzeiro.
 O Dr. Paterna e Brbara Steinberg tambm despediram-se na ltima 
noite... mas no da maneira como o fizeram Sylvia e Fehringer; 
entre eles no havia nenhum desespero, apenas a certeza sobre o 
futuro.
 - Darei baixa em So Francisco - disse Paterna. - Desembarcarei 
para sempre, baby. Quando eu chegar a Frankfurt, mandarei um 
telegrama para voc na mesma hora. E ento voc poder receber um 
desabrigado. No tenho nenhuma casa, nenhum apartamento, nenhum 
quarto na Alemanha.
 - Mas terei uma cama para voc em Bochum! - disse Brbara cheia 
de alegria. - Com a roupa recm-trocada. O que voc prefere: um 
ou dois travesseiros?
 - Dois. Quer dizer, a inteligncia dorme de cabea baixa. 
Segundo isso, devo ser muito burro.
 - E tem que ser mesmo para querer casar comigo. - Ela se 
levantou e bateu com a ponta do indicador no peito desnudo de 
Paterna. - Quanto tempo at So Francisco?
 - Cinquenta e nove dias!
 - Com mais duas trocas de passageiros?
 - Sim...
 - Isso significa que subiro a bordo no mnimo duzentas lindas 
mulheres, que assediaro o mdico do navio, o Dr. Paterna. 
Voc... sou terrivelmente ciumenta!
 - Durante cinquenta e nove dias s pensarei em voc.
 - Se o navio afundasse com uma mentira, naufragaria agora mesmo.
- Brbara deitou-se de novo no dorso de Paterna e abraou-lhe a 
cintura. O calor de seu corpo era fascinante. - Jamais vou querer 
saber alguma coisa disso... quando voc estiver em Bochum, 
finalmente pertencer a mim... s a mim... isso  a nica coisa 
que tem importncia.
 Comeara o grande xodo. O prncipe Friedrich Enno von Marxen 
entregou  sua companheira Marianne um envelope com dois mil 
marcos como agradecimento adicional por servios amorosos 
prestados e, em seguida, desembarcou com passos orgulhosos. 
Ludwig Moor cumpriu pela ltima vez sua caminhada de mil metros 
no tombadilho, antes de despedir-se para todos os lados. 
Pflugmair que, contr sua inteno original no desembarcara em 
auckland junto com seu amigo Knut, pois Sylvia fora com este, 
ficou at o ltimo minuto no bar Atlantis bebendo suas 
cervejinhas. Jens van Bonnerveen e Eduard Grashorn desceram como 
inimigos, deixando para trs uma chorosa comissria. Oliver 
Brandes abraou o pastor Wangenheim e, ento, proclamou que agora 
sabia o quo seguro eram os navios e que passaria a navegar com 
maior frequncia. O casal Schwarme interpretou de novo a 
concrdia feliz desembarcando de brao dado. Thea Sassenholtz 
ainda enviou uma carta para Juan de Garcia, na Costa Rica, com 
apenas umas poucas frases: "Agradeo-lhe, Juan, pelos dias 
inesquecveis. Voc me rejuvenesceu. Que Deus o proteja!" 

 Humedeceu os selos com os lbios e, ao faz-lo, pensou: isso  
um beijo para voc... mesmo aos sessenta anos podemos ser 
meninas.
 Dabrowski e Beate Schlichter despediram-se do comandante 
Teyendorf.
 - O que eu poderia desejar-lhe, senhor comandante? - perguntou 
Dabrowski. 
 - Voc... a mim? Sim, eu desejaria uma coisa. Eu desejaria nunca 
mais v-lo aqui a bordo, pois quando voc aparece  porque temos 
um ladro de jias no navio. 
 - E se for uma viagem de npcias?
 Teyendorf olhou de soslaio para Beate Schlichter, que examinava 
seu chefe sem nada entender. 
 - Viagem de npcias? Ele?  mais fcil o Atlantis virar uma nave 
espacial.
 - Quem sabe? Um Dabrowski  sempre bom nas surpresas. 
 - Ento, desejo-lhe sorte. 
 - Obrigado... Comandante! 
 Teyendorf ficou perplexo durante alguns momentos, depois riu, 
apontou para a porta e berrou:
 - Fora daqui!
 - Sim, senhor comandante... 
 Dabrowski colocou a mo na cintura de Beate, puxou-a para fora 
da cabina e, no corredor, deu-lhe um beijo. 
 - Voc ficou maluco! - balbuciou ela. - O que foi isso?
 - Nada do que voc precise fugir. Os homens tm esses impulsos 
com frequncia. 

 Brbara Steinberg partiu no ltimo autocarro. O Dr. Paterna 
ficou no tombadilho acenando para ela. Um sol dourado banhava 
Sidney, o famoso telhado de conchas da pedra brilhava como prata 
polida. O motorista do autocarro buzinou vrias vezes.
 - Entre... a senhora  a ltima. O tempo no pra.
 - Eu te amo! - gritou Brbara para o tombadilho.
 E Paterna gritou em resposta:
 - Eu tambm!
 Ento, ela entrou, acenou mais uma vez, as portas automticas 
fecharam-se e o autocarro saiu do per.
 - Um doce escaravelho - disse nesse momento uma voz ao seu lado.
 O Dr. Paterna virou-se. Ao seu lado estava Pfannenstiel com um 
sorriso largo.
 - Esse doce escaravelho  a minha futura mulher, seu macaco.
 - E voc diz isso sem que o tombadilho desabe? Vamos esperar at 
os novos passageiros subirem a bordo. Quatrocentos e noventa e 
trs com milhares de esperanas. Entre eles, a miss Baviera. Seu 
jacar velho!
 - D o fora, seu fedorento! Sabe o que estou sentindo por 
dentro? 
 Ento de repente, reinou o silncio no navio. Nas cabinas vazias 
trabalhavam os comissrios, no restaurante trocavam-se as toalhas 
de mesa, carros com frutas frescas, legumes frescos, peixe e 
carne entraram e foram descarregados. Foram ligadas as mangueiras 
para a gua potvel. Um navio tanque deslizava de lado vindo da 
direco do mar. 
 A vida seguia seu curso. Amanh para Brisbane, depois de amanh 
a Cairns e os maiores recifes de coral do mundo, a Grande 
Barreira de Recifes, uma maravilha da natureza. 

 O Dr. Paterna ficou andando sozinho de um lado para o outro no 
tombadilho, depois parou de repente junto  amurada e olhou o 
porto, a cidade, as enseadas de curvas largas, as praias verdes e 
brancas e o horizonte que se perdia no oceano...
A vida  mesmo linda, pensou ele respirando fundo. To linda... 
to malditamente linda.

FIM
??



 

 
